Clitóris,
entre o silenciamento e o prazer
O único órgão destinado exclusivamente ao
prazer foi sistematicamente ignorado em diversas representações culturais e
científicas. Esteve por anos praticamente ausente até dos debates sobre
sexualidade e anatomia.
Estou falando dele, o polêmico e muitas vezes
incompreendido clitóris. As ausências falam, e no caso desse não tão pequenino
órgão escancaram as limitações e as distorções de um sistema de pensamento que
priorizou a normatização e a rigidez binária entre os sexos.
Com instigante argúcia, a filósofa francesa
Catherine Malabou busca cutucar essa fenda histórica. Seu novo livro: O prazer
censurado – Clitóris e pensamento, lançado no Brasil pela Ubu Editora,
apresenta uma investigação sobre o clitóris, não apenas como um órgão ligado ao
prazer, mas como um símbolo do que foi apagado das narrativas hegemônicas sobre
o corpo.
Como aponta a autora, o apagamento
sistemático desse órgão não é um fenômeno recente. Ao contrário, sua
invisibilidade tem raízes profundas nas tradições ocidentais, onde o corpo
feminino foi frequentemente negligenciado, e o prazer associado ao clitóris
perseguido, estigmatizado e subestimado.
Em sua análise, Malabou aborda o clitóris à
luz das questões queer, intersex e trans, posicionando-se criticamente frente à
práticas como a mutilação genital e à normatização do sexo. O pensamento da
filósofa, nesse sentido, desafia as convenções que moldam a compreensão
corrente acerca do corpo.
Com isso, sua obra delineia uma nova
perspectiva, onde o clitóris é visto não só como um local de prazer, mas como
um ponto central de reflexão sobre a nossa concepção de identidade e
sexualidade.
Leia, logo abaixo, um trecho da obra. Boa
leitura!
1. APAGAMENTOS
O clitóris é uma pedrinha minúscula alojada
no fundo do sapato do imaginário sexual. Na mitologia grega, dizia-se que a
jovem Clitóris, conhecida por sua figura esbelta, era pequena “como um seixo”.
Por muito tempo escondido, desprovido de nome ou representação artística,
ausente dos tratados de medicina, não raro ignorado pelas próprias mulheres, o
clitóris teve ao longo dos séculos uma existência de scrupulus, na acepção
original do termo, ou seja, a pedrinha no sapato que incomoda o passeio e
atormenta o espírito. A etimologia hesitante do termo permite situar sua
morfologia entre a “colina” (kleitoris) e o “fecho” (kleidos). Clitóris: esse
pequeno segredo intumescido que persiste, resiste, incomoda a consciência e
fere o calcanhar é um órgão, o único, que serve apenas para o prazer logo,
“para nada”. O nada de tudo, o imenso nada, o tudo ou nada do gozo feminino.
O primeiro uso anatômico da palavra se deve a
Rufo de Éfeso, médico grego que viveu entre o século I e II EC e que brinca de
esconde-esconde com seus sinônimos: “A ninfa ou murta é o pedacinho de carne
musculosa que pende no meio [da fenda], outros a chamam de hipoderme, outros de
clitóris, e se diz clitorizar para expressar o toque lascivo dessa parte”. Em
1561, Gabrielle Falloppio, que emprestou seu nome às famosas trompas, alegou
tê-lo descoberto. Em francês, o termo aparece em 1575 sob a pena de Ambroise Paré,
que o grafa cleitoris e em 1587 o suprime misteriosamente de suas Œuvres. Mal foi impresso e já foi censurado.
Corta para o século XXI. Uma ginecologista
explica a uma atordoada plateia masculina como o clitóris se comporta durante o
amor ao entrar em contato com pênis, dildos, dedos, línguas, como se movimenta,
como fica durante a penetração ou a carícia. Cúmplice da vagina, sua parceira.
Mas também pode gozar sozinho. Animado por uma dupla orientação erótica.
Vaivém, quando acompanha os movimentos da vagina penetrada. Endurecimento,
quando se erige como uma crista. Às vezes os dois juntos. Às vezes um sem o
outro. Sem optar por um ou outro, o clitóris desorienta as dicotomias.
Essa vida dupla, que já questiona a norma da
heterossexualidade, também passou despercebida por séculos. As primeiras formas
de reconhecimento do clitóris serviram apenas para reiterar a ignorância a
respeito dele, equiparando-o ao pênis. É muito conhecida a teoria da
menina-moleque [fille-garçon manqué, em francês, tomboy, em inglês, ou
maria-rapaz, em português de Portugal], de Freud, para quem o sexo feminino tem
a forma de uma ausência. Cicatriz de uma castração, o clitóris é o pênis
atrofiado das mulheres. Freud ainda é, à sua maneira, prisioneiro do modelo
unissexo. Em uma tese audaciosa, Inventando o sexo: corpo e gênero dos gregos a
Freud, Thomas W. Laqueur mostrou que, da Antiguidade até o século XVIII,
impôs-se a visão do sexo único, segundo a qual as diferenças anatômicas entre
homens e mulheres seriam insignificantes. Acreditava-se que havia um único
sexo: os órgãos sexuais femininos se encontravam no interior do corpo, os do
homem, no exterior. Mais tarde, a descoberta anatômica do clitóris não será
suficiente para aposentar por completo esse esquema.
Daí também a construção fantasmática da
lésbica, homem invertido, radicalmente demolida por Simone de Beauvoir.
Ao mesmo tempo, ainda que tido por pênis
estropiado, o clitóris sempre foi associado a um gozo excessivo. Inapto para a
reprodução. Censurado mas lúbrico. Diz uma lenda que certas górgones, dotadas
de um clitóris volumoso, eram condenadas à eterna masturbação. A ablação do
clitóris, a clitoridectomia, aliás, surgiu como meio terapêutico para castrar a
mulher uma segunda vez, acalmando seus ardores. Solução radical para a
infinitude do prazer.
A excisão está presente em todas as culturas
e não só na África, como geralmente se acredita. No Ocidente, foi praticada
como terapia para histéricas e ninfomaníacas. Há diversas formas de seccionar o
clitóris. A física, sem dúvida. Mas também existe uma gama extensa de excisões
psíquicas. A legendária frigidez, contraponto da ninfomania, é uma delas.
Ausência, ablação, mutilação, negação. Pode o clitóris existir nas
mentalidades, nos corpos, nos inconscientes, de outra forma que não em
negativo?
As pessoas dirão que as coisas evoluíram. É
verdade. A existência do clitóris, anatômica, simbólica, política, é hoje
reivindicada a partir de diversas perspectivas, culturas, práticas, gestos
militantes e performativos. “É preciso fazer a revolução do clitóris!”, afirma
Nadya Tolokonnikova, do grupo Pussy Riot (“Rebelião da Boceta”, ao pé da
letra).
Nos últimos tempos foram publicados livros
que felizmente se rebelam contra a invisibilidade do clitóris. Toda uma nova
geografia de prazer, estética e ética, se afirma e se estende muito além da
matriz heterossexual, podendo ser resumida em quatro palavras: “para além da
penetração”.
Também no âmbito do feminismo as peças se
moveram. O discurso passou por uma transformação radical, do feminismo da
segunda geração e depois da terceira até o transfeminismo ultracontemporâneo.
Não se trata mais, ou não mais apenas, de designar o clitóris como marca
exclusiva da mulher. Abordagens queer, intersexuais, trans… o clitóris passou a
ser o nome de um dispositivo libidinal que não pertence necessariamente às
mulheres e desorganiza a visão tradicional da sexualidade, do prazer e dos
gêneros. Outras cirurgias, outros imaginários. Doravante, exclama Paul B.
Preciado, podemos, todo mundo pode, sem modelo exclusivo nem universal, ter “um
clitóris no meio do plexo solar”.
No entanto.
Fonte: Por Raissa Araújo Pacheco, em Outa
Saúde

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