segunda-feira, 2 de junho de 2025

DEUS, PÁTRIA E FARINHA: Nikolas Ferreira não se manifesta desde que o primo foi preso acusado de tráfico

O deputado federal de extrema direita, Nikolas Ferreira (PL), despareceu. Assíduo frequentador das redes sociais, ele não dá um pio desde explodiu a notícia de que seu primo, Glaycon Ranieri de Oliveira Fernandes, foi detido em flagrante em Uberlândia (MG) com mais de 30 quilos de maconha, além de 3,82 gramas de cocaína, no carro em que estava.

Pra piorar ainda mais a história, Glaycon é filho de Enéas Fernandes (PL), tio de Nikolas que foi candidato a prefeito de Nova Serrana (MG) em 2024. Meses antes das eleições, Nikolas destinou cerca de 1,5 milhão de reais em emendas à cidade. Mesmo com toda a dinheirama do sobrinho, Enéas foi derrotado por Fabio Avelar (Avante).

<><> Ironia dos deputados

Seus colegas, no entanto, fizeram questão de lembrar, pelas redes sociais, as ligações de Nikolas com seus parentes.

“É essa a ‘família’ que Nikolas defende? Será que Nikolas sabia que seu primo era traficante e mesmo assim se envolveu nessa campanha eleitoral?”, afirmou a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) em suas redes sociais.

O conterrâneo e colega na Câmara, André Janones (Avante), afirmou também:

“Ao contrário do que fazem comigo, não serei baixo nem leviano. É importante mencionar que, ATÉ O MOMENTO, não existe ainda nenhuma prova cabal que ligue Nikolas Ferreira ao narcotráfico, porém as investigações seguem e a qualquer momento novas revelações virão à tona”, escreveu.

Rogério Correia (PT), em um estilo mais agressivo, ironizou:

“Não há nenhuma prova de que as emendas de Nikolas tenham financiado o tráfico na família dele. Deus, Pátria e Farinha!”.

<><> Ironias com IA

Como ele não se manifestou até o momento, internautas produziram um vídeo com o uso de inteligência artificial em que um falso Nikolas comenta o caso.

•        Deputados mandaram R$ 277 mi a prefeituras de parentes via comissões

Deputados abasteceram prefeituras comandadas por parentes com milhões de reais via emendas de comissão, mecanismo que ficou conhecido como “novo orçamento secreto” em razão da falta de transparência. A lista inclui mais de 30 deputados federais que apadrinharam recursos em benefício de cidades governadas, por exemplo, por pais, irmãos e esposas.

Dados relativos ao orçamento de 2024 tornados públicos por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF) e analisados pelo Metrópoles indicam que o montante enviado a esses redutos ultrapassa os R$ 277 milhões em valores empenhados — dos quais R$ 163 milhões foram efetivamente pagos pelo governo federal.

Entre os principais padrinhos, está Hugo Motta (Republicanos-PB). O atual presidente da Câmara dos Deputados mandou mais de R$ 22 milhões via comissões de Saúde e Turismo da Câmara, dos quais cerca de R$ 5 milhões foram pagos à cidade de Patos (PB). O município é governado pelo pai dele, Nabor Wanderley (Republicanos).

Arthur Lira (PP-AL), ex-presidente da Câmara dos Deputados, por sua vez, patrocinou o envio de mais de R$ 10 milhões à cidade de Barra de São Miguel (AL), que, à época, era governada pelo pai dele, Benedito de Lira. Dessa quantia, o Executivo pagou R$ 2,5 milhões.

Com uma parcela menor, o deputado federal licenciado e ministro André Fufuca (PP-MA) também está na lista por constar como apoiador da destinação de recursos à cidade então governada pelo pai. Alto Alegre do Pindaré (MA) é destino de R$ 1,4 milhão, valor que foi empenhado, mas que não chegou a ser pago.

<><> Emendas

Na peça orçamentária de 2024, constava a previsão de emendas de três tipos: individuais, de bancada e de comissão. As últimas são emendas de autoria das comissões permanentes da Câmara e do Senado Federal de caráter não impositivo, portanto emendas que o Executivo tem liberdade para decidir se executa ou não. A falta de transparência, entretanto, reviveu o “orçamento secreto”.

>>> Emendas de Comissão

•        Após o STF sustar as emendas de relator, no fim de 2022, as emendas de comissão tiveram incremento expressivo.

•        Em 2022, eram apenas R$ 329 milhões. Na peça orçamentária seguinte, o valor autorizado saltou para R$ 6,9 bilhões.

•        Em 2024, eram R$ 14,2 bilhões e, em 2025, R$ 11,5 bilhões.

A falta de critérios de rastreabilidade e transparência na execução de emendas parlamentares motivou crise entre os poderes. Em uma série de decisões, o ministro Flávio Dino, do STF, determinou mecanismos para moralizar a execução dessa fatia do orçamento indicada por parlamentares. A medida, entretanto, desagradou o Congresso Nacional.

A crise chegou ao fim no início deste ano, quando Dino homologou o plano de trabalho firmado entre os três poderes. Entre outras providências, ficou estabelecido que seria publicizada a relação de parlamentares que apoiaram ou solicitaram emendas de comissão.

<><> Outro lado

Em nota, o Ministério do Esporte afirmou que André Fufuca (PP-MA), quando estava no cargo de deputado, utilizou a prerrogativa que o cargo lhe confere para indicar projetos que promovam melhorias nos estados e municípios de sua base de atuação política.

“A eleição, por voto direto, de duas pessoas da mesma família não deve ser usada como argumento para prejudicar a população de um município, negando-lhe acesso a recursos federais. Vale lembrar que, desde seu primeiro mandato, o então deputado sempre destinou recursos à cidade, com foco no desenvolvimento e no bem-estar da população”, destacou.

O deputado Daniel Barbosa (PP-AL), em nota, afirmou que a destinação prioritária à cidade de Arapiraca (AL) se fundamenta no “reconhecimento da expressiva votação recebida na cidade, responsável por mais de 54% dos votos que garantiram sua eleição para o primeiro mandato na Câmara dos Deputados”.

Do valor apoiado pelo parlamentar à cidade governada pelo pai, R$ 19,4 milhões foram empenhados e R$ 11,5 milhões, pagos.

“As emendas têm como foco principal a ampliação do ensino integral, beneficiando os estudantes de Arapiraca e de todo Agreste alagoano. Também são contempladas áreas estratégicas como saúde, com investimentos em hospitais e unidades básicas, reforçando o atendimento à população local e de municípios vizinhos”, pontuou.

Cuiabá e Recife

O deputado federal Emanuel Pinheiro Neto (MDB-MT) afirmou que a destinação de emendas à capital mato-grossense, à época governada pelo pai, seguiu a mesma lógica aplicada aos demais municípios.

“Cuiabá, além de ser a capital e o município mais populoso do estado com mais de 682 mil habitantes, conforme o Censo de 2023, tem importantes particularidades quando o assunto é a composição e recomposição de verbas para a saúde”, frisou.

O parlamentar informou, ainda, que o valor foi, em sua totalidade, destinado para a saúde. “A estruturação da atenção básica, aquisição de equipamentos e insumos foram os principais alvos desses recursos, que se valem de portais de transparência – como o que você acessou – para garantir a lisura do processo”, completou.

Já Pedro Campos (PSB-PE), que apoiou o envio de R$ 3,7 milhões (sendo R$ 866 mil pagos) à capital Recife (PE), afirmou que foi eleito para representar as pernambucanas e os pernambucanos na Câmara Federal pela confiança de 172 mil votos.

“Em respeito aos mais de 52 mil votos confiados ao parlamentar por cidadãos do Recife, os quais representam 30% de sua votação, e que esperam do deputado dedicação e trabalho para contribuir com melhorias para a cidade, o parlamentar encaminhou recursos à saúde, pavimentação e esportes do município, diante dos inúmeros projetos e iniciativas presentes na cidade que tornaram possíveis o envio desses recursos”, frisou.

A reportagem entrou em contato com os demais deputados citados, mas não houve retorno até o momento. O espaço segue aberto para eventuais manifestações.

•        Vereador bolsonarista de SP tem mandato cassado pela Justiça Eleitoral

Nesta sexta-feira (30), a Justiça Eleitoral cassou o mandato do vereador bolsonarista Rubinho Nunes (União) por ter compartilhado em suas redes sociais um laudo falso publicado pelo então candidato à prefeitura de São Paulo, Pablo Marçal (Republicanos), que associava o também candidato Guilherme Boulos (PSOL) ao uso de cocaína. A decisão é de primeira instância, e Nunes anunciou que irá recorrer.

<><> Inelegibilidade de Rubinho Nunes por oito anos

Além da cassação do mandato, o juiz Antônio Maria Patiño Zorz determinou a inelegibilidade de Rubinho Nunes por 8 anos.

Defesa de Rubinho Nunes e posição do Ministério Público Eleitoral

Ao se defender, Rubinho Nunes afirmou que manteve a publicação no ar por apenas 26 minutos e que não sabia que o laudo era falso. Ele também utilizou o argumento do Ministério Público Eleitoral, que se posicionou contrário à inelegibilidade.

<><> Juiz rejeita argumento e condena compartilhamento de fake news

O juiz considerou insuficiente a argumentação de Rubinho Nunes e afirmou:

"Entendo que o compartilhamento do laudo falso divulgado por meio de comunicação social, o Instagram do próprio candidato, encerra em si mesmo conduta ilícita que ostenta a potencialidade de lesar o bem jurídico protegido, a legitimidade das eleições."

<><> Reação de Guilherme Boulos

Ao tomar conhecimento da decisão da Justiça Eleitoral, Guilherme Boulos, alvo da fake news, reagiu com ironia:

"Bom fim de semana a todos!"

•        Carla Zambelli, inelegível, anuncia pré-candidaturas da mãe e do filho

Após ser condenada a dez anos de prisão pela Primeira do Supremo Tribunal Federal (STF) por envolvimento em ataques aos sistemas virtuais do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) anunciou, em postagem publicada em rede social, que sua mãe e seu filho serão pré-candidatos nas eleições de 2026 e 2028.

Alegando "perseguição política", ela justificou apontando que "é natural que eu queira garantir que esse legado permaneça vivo e ativo".

"Por isso, tomei a decisão de transferir oficialmente a titularidade das minhas redes sociais, como herança, para minha mãe, Rita Zambelli, uma mulher íntegra, de princípios sólidos, que carrega os mesmos valores que sempre defendi. Ela, inclusive, é a minha pré-candidata a deputada federal no próximo ano, justamente para dar continuidade a essa luta que é de toda a nossa família e de milhões de brasileiros que se recusam a se curvar diante do autoritarismo", postou a parlamentar.

Ela também projetou outro integrante da família no processo eleitoral. "Da mesma forma, meu filho, João Zambelli, também dará seguimento a esse legado, em 2028, como pré-candidato à vereança de São Paulo, assegurando que minha luta não seja esquecida, caso, de fato, eu venha a ser calada pelo sistema", afirmou.

"Se pensam que nos calarão, saibam: não vão. Nosso compromisso com Deus, com a Pátria, com a Família e com a Liberdade não será interrompido", afirmou ainda Zambelli. Confira abaixo a postagem.

<><> Condenação e inelegibilidade

Além de perder o mandato, Carla Zambelli deve ficar inelegível por oito anos. A inelegibilidade passará a valer a partir da publicação da decisão da Primeira Turma do STF e não depende do trânsito em julgado da condenação.

A contagem do período em que Zambelli fica inelegível começa a correr depois de cumprida a pena. Assim, a deputada pode permanecer por pelo menos 18 anos sem poder se candidatar.

O cumprimento da pena pode ser determinado após o julgamento dos embargos de declaração, recurso que a defesa da deputada já anunciou que vai utilizar no Supremo.

 

Fonte: Fórum

 

Branca de Neve descobre o smartphone

Branca de Neve acorda, não por um beijo, mas pelo zumbido de um iPhone 16. A princesa pisca, confusa. Ao seu redor, não há uma floresta encantada nem anões mineradores, mas uma estação de metrô lotada de telas publicitárias que exibem Elsa, Moana e Merida com expressões determinadas. Num cartaz, um slogan brilha em néon: “As princesas já não choram, as princesas faturam”. Branca de Neve franze a testa. “Ao capitalismo não importa que você quebre suas correntes, desde que possa vendê-las como colares”, pensa.

O assistente virtual informa que ela foi transportada para 2025, uma época em que as princesas já não esperam ser resgatadas. Agora, lideram expedições, desafiam normas e, segundo o marketing oficial, são “fortes, independentes e diversas”.

O telefone vibra: um convite para entrar no grupo de WhatsApp ‘Princesas Empoderadas’. Intrigada, Branca de Neve entra e começa a ler as mensagens.

“Já não dependemos dos príncipes”, escreve Elsa.

Branca de Neve concorda. Mas ao explorar as redes sociais, vê vitrines repletas de trajes da Elsa e meninas brincando de ser princesas com fantasias que, provavelmente, foram costuradas por outras meninas, distantes e anônimas, forçadas a tecer sonhos alheios com a agulha da fome e o fio da exploração. “O sonho de ser especial vende melhor quando vem com etiqueta”, pensa.

“As coisas mudaram”, escreve Moana, enquanto compartilha um vídeo épico de sua travessia pelo Pacífico. “Já não somos fracas”.

Branca de Neve logo descobre que Moana não é uma menina qualquer da aldeia, mas a herdeira de um líder local, predestinada à grandeza desde o primeiro dia.

“E as que não são especiais desde o início?”, pergunta.

Ninguém responde. O chat pisca em silêncio.

Mérida pega seu arco e dispara um emoji de fogo no chat do grupo. “Nós desafiamos o destino, não seguimos contos de fadas”.

Branca de Neve revisa as críticas do filme e percebe que, apesar de tudo, Mérida ainda é uma princesa: rebelde, mas com o trono garantido.

“Ainda há rainhas, só que agora usam calças e atiram flechas”, pensa.

À medida que avança em sua pesquisa, Branca de Neve percebe algo desconcertante: a Disney renovou a narrativa, mas a estrutura continua a mesma. As novas protagonistas têm autonomia, mas dentro de um quadro que ainda privilegia o individualismo e a excepcionalidade.

No fundo, cada heroína encarna uma história de superação em um mundo patriarcal. São mulheres excepcionais, mas só porque o sistema precisa de algumas exceções para não ter que admitir que o verdadeiro problema é a regra em si.

Um novo nome aparece em suas buscas: Maribel Madrigal. Branca de Neve descobre que, ao contrário das outras, a protagonista de Encanto não é uma princesa nem tem um superpoder.

No entanto, sua história também não quebra o esquema tradicional. Ela não confronta as expectativas da família, que mede o valor de cada um por seus dons mágicos; apenas tenta se encaixar.

Ela não muda as regras, só aprende a jogar sem poderes. Sua história não questiona a lógica do mérito individual, apenas a redefine: se você não brilha pelo seu talento, brilhará pela sua resiliência.

Mulan, embora não seja uma princesa, faz parte da franquia oficial e entra no chat. Após um momento de reflexão, comenta: “Fingi ser homem para entrar no exército e provar que as mulheres podem ser tão corajosas quanto os homens”.

Branca de Neve sorri ao lembrar o que leu sobre sua história. Mulan desafia os mandatos de gênero, sim, mas não o sistema de poder que os cria: não questiona o militarismo nem o patriarcado, só prova que uma mulher excepcional pode conquistar um lugar dentro deles.

Tiana, que também não nasceu princesa, entra na conversa. “Trabalhei duro para realizar meu sonho e abrir meu próprio restaurante”, diz com orgulho.

Branca de Neve não pode evitar se perguntar: “Por que sempre temos que ser excepcionais para sermos reconhecidas? Por que o destino insiste em escolher algumas poucas para brilhar? No meu tempo, pelo menos sabíamos que minha história era só isso, uma história. Hoje, parece que a vendem como se fosse a única opção”.

De repente, uma mensagem fixada aparece no grupo: “Disney lança a primeira princesa verdadeiramente feminista, com uma protagonista que lidera uma revolução”. Branca de Neve recosta-se na cadeira, olha para a tela e responde: “E se a verdadeira revolução fosse não precisar de princesas nenhuma?”.

Um silêncio incômodo invade o grupo. Seu celular vibra com uma nova notificação: a Disney oferece um contrato milionário para ela estrelar o filme. Sem pensar, Branca de Neve apaga a mensagem e desliga o telefone.

A tela se apaga, mas algo permanece aceso: a certeza de que, talvez, tudo o que ela precisa é deixar de ser uma escolhida, acordar do sonho em que a mergulharam, desaparecer da história que outros escreveram por ela.

 

Fonte: Por Antoni Aguiló Bonet, no Diario de Mallorca | Tradução: Rôney Rodrigues, em Outras Palavras

 

Como detectar um sorriso falso

Você provavelmente já ouviu a afirmação de que é preciso mais músculos para franzir a testa do que para sorrir. Em geral, isso é apresentado como um motivo em prol do bem-estar — menos esforço, mais alegria.

Mas, anatomicamente, os números não batem.

Todos nós já presenciamos isso: aquele sorriso amarelo. Seja em fotos de família constrangedoras ou conversas desconfortáveis sobre amenidades no ambiente de trabalho, nosso cérebro geralmente detecta que algo está errado muito antes de percebermos conscientemente o motivo.

Mas o que há em um sorriso que faz com que ele pareça sincero — ou falso? A resposta está em uma mistura surpreendente entre anatomia facial, neurologia e autenticidade emocional.

Nem todos os sorrisos são iguais e, anatomicamente falando, há pelo menos dois tipos distintos: o sorriso Duchenne, que reflete a felicidade genuína, e o sorriso não-Duchenne, que tende a ser mais social ou estratégico.

O sorriso Duchenne — que recebeu este nome em homenagem ao neurologista francês do século 19 Guillaume Duchenne de Boulogne — ativa dois grupos musculares importantes.

O primeiro grupo está associado aos cantos da boca — onde, por exemplo, o músculo risório (que vem do latim, "sorrir") puxa os cantos da boca para fora, e o músculo zigomático maior os levanta.

O segundo, e mais revelador, é o músculo orbicular do olho, que tensiona os músculos ao redor dos olhos, produzindo os conhecidos "pés de galinha" e o leve estreitamento dos olhos que associamos ao acolhimento e ao deleite.

Os sorrisos falsos ou educados, por outro lado, geralmente envolvem apenas os músculos da boca. Os olhos permanecem bem abertos ou indiferentes, e o sorriso parece mais mecânico do que significativo — uma espécie de camuflagem emocional.

Tanto os sorrisos verdadeiros quanto os falsos dependem do nervo craniano 7, também conhecido como nervo facial — que envia sinais do cérebro para os músculos da expressão facial.

No entanto, há uma diferença neurológica importante: os sorrisos Duchenne tendem a ser gerados pelo sistema límbico, o núcleo emocional do cérebro — particularmente o complexo amigdaloide, um grupo de neurônios em forma de amêndoa que processa a relevância emocional.

Os sorrisos não-Duchenne, por outro lado, geralmente estão sob um controle cortical mais consciente, originado no córtex motor.

Já os sorrisos autênticos e motivados por emoção são involuntários.

Não é fácil fazer com que seu músculo orbicular do olho se contraia de forma convincente, a menos que você esteja sentindo genuinamente a emoção por trás da expressão.

Até mesmo os atores profissionais precisam recorrer a memórias reais ou técnicas para produzir essas expressões de forma convincente.

<><> Por que nosso cérebro percebe a diferença

Os seres humanos são extraordinariamente bons em detectar a autenticidade emocional. Estudos mostram que até mesmo bebês de 10 meses conseguem distinguir sorrisos verdadeiros e falsos.

Evolutivamente, esta habilidade pode ter nos ajudado a avaliar a confiabilidade, reconhecer aliados verdadeiros e evitar decepção.

O giro fusiforme, uma parte do cérebro envolvida no reconhecimento facial, trabalha em estreita colaboração com o sulco temporal superior para decodificar expressões — nos ajudando a avaliar tanto a intenção quanto a emoção.

Na vida moderna, nossa sensibilidade às nuances faciais continua a ser importante. Políticos, profissionais de atendimento ao cliente e figuras públicas dependem com frequência do sorriso social para lidar com expectativas interpessoais complexas.

Mas os observadores — conscientemente ou não — muitas vezes percebem essas microdiscrepâncias.

Os sorrisos falsos não são necessariamente maliciosos. Na verdade, eles servem a importantes funções sociais: suavizar interações incômodas, sinalizar educação, neutralizar conflitos, demonstrar deferência...

Eles são uma parte vital do que os sociólogos chamam de "trabalho emocional" — gerenciar as expressões para atender às expectativas sociais ou profissionais.

Mas este tipo de sorriso, quando mantido por longos períodos, pode ser emocionalmente exaustivo.

Estudos sugerem que ser obrigado a sorrir sem um sentimento genuíno — especialmente em funções de prestação de serviço — está associado ao aumento do estresse, ao burnout e até mesmo à tensão cardiovascular.

À medida que avançamos na era da inteligência artificial (IA), rostos sintéticos — de chatbots a assistentes virtuais — estão sendo programados para reproduzir expressões humanas.

No entanto, o desafio permanece: como fingir autenticidade? Os engenheiros podem programar um sorriso, mas sem as microcontrações ao redor dos olhos, muitas destas expressões ainda parecem dissimuladas.

Nossa própria anatomia define o padrão ouro.

Portanto, da próxima vez que estiver tentando decodificar a expressão de alguém, não olhe apenas para a boca. Observe os olhos: o músculo orbicular do olho raramente mente.

 

Fonte: Por Michelle Spear, para The Conversation

 

Grupo de grilagem fraudava número de processo no Incra, diz PF

Ao longo da investigação da Polícia Federal (PF) sobre um grupo de grileiros que fraudava processos no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para registrar terras ilícitas, um detalhe “burocrático” chamou a atenção dos agentes: o número de série do processo fraudado.

Em representação encaminhada à Justiça, a corporação detalha as seis etapas do esquema de grilagem operado no Pará, que levou a um lucro bilionário dos envolvidos ao longo dos anos, conforme mostrou a coluna. A PF aponta como líder do grupo o empresário Debs Rosa (foto em destaque), preso preventivamente.

O primeiro passo, segundo a apuração, era a criação de processos administrativos fictícios no Incra. Os documentos eram produzidos com numerações inexistentes e aleatórias.

Esse era apenas o início do esquema, que tinha por objetivo “criar uma aura de legalidade em torno de terras públicas usurpadas, preparando o terreno para as etapas seguintes do esquema”.

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No entanto, o número do Incra usado pelo grupo, para além de inexistente, era fora dos padrões do órgão.

Isso porque, assim como todos os órgãos federais, o número de um processo do Incra é constituído por quatro partes: unidade protocolizadora (que se refere à unidade do órgão), número do processo (sequencial, e que é reiniciado a cada ano), ano (referente ao ano em que o processo foi formalizado) e dígito verificador (incorporado para evitar erros de digitação).

Acontece que, no caso investigado, foram identificados 16 processos utilizando unidades protocolizadoras que, segundo a PF, “simplesmente não existem dentro do sistema do Incra”.

Além disso, chamou a atenção dos investigadores um caso específico de um processo cujo número seria “52528/96417/87”, que teria dado origem a uma das matrículas sob suspeita da corporação.

Levando em conta a composição de cada número processual, esse supostamente indicaria a movimentação de 96.417 processos em um só ano (1987), sob a unidade protocolizadora 52528 (inexistente). “Uma quantidade absurdamente alta e logicamente impraticável, evidenciando a falsificação”, diz a PF.

Outro detalhe flagrado pelos investigadores é a inconsistência em carimbos e assinaturas de servidores do Incra.

Um caso citado na representação é de um título de propriedade falso assinado com a portaria de nº 426/01, quando na verdade a portaria correta seria a de nº 426/91. Isso, segundo a PF, “reforça a falsificação documental, afinal, não seria possível um documento emitido no ano de 1993 constar no carimbo referente ao ano de 2001”.

Além das inconsistências, a investigação aponta para o uso, pelo grupo, de “laranjas inconscientes”, pessoas que tiveram informações pessoais utilizadas pelo grupo, mas sem seu consentimento ou conhecimento.

<><> Fases do esquema

Como mostrou a coluna, o esquema de grilagem teria pelo menos seis fases. Além da falsificação de processos no Incra, havia a etapa de inserção de dados falsos no Cadastro do Imóvel Rural, lavratura de escritura pública de compra e venda com posterior registro em cartório, transferência da matrícula e contratação de financiamento rural ou venda do imóvel grilado.

<><> Operação Imperium Fictum

A investigação teve início em 2023 pela Polícia Federal, em Altamira (PA). Segundo a corporação, o grupo atuava em uma rede criminosa organizada e com um modo de atuação “meticuloso”. Foram reveladas, por exemplo, “fraudes estruturadas” em cartórios de registro de imóveis.

Foram identificados o uso de documentos falsificados, registros baseados em títulos forjados e a atuação de agentes públicos e privados no esquema, que atuariam na “confecção de escrituras públicas falsas, a inserção de dados fraudulentos em sistemas cadastrais oficiais e a posterior comercialização de imóveis grilados”.

O esquema incluía ainda falsificação de processos no Incra, simulação de transações imobiliárias, registros indevidos em cartórios e obtenção de financiamentos rurais com garantias baseadas em propriedades griladas.

A partir das apurações, foi deflagrada em 21 de maio a primeira fase da Imperium Fictum, que mobilizou centenas de agentes e resultou no cumprimento de 39 mandados de busca e apreensão e 9 mandados de prisão preventiva, expedidos pela 4ª Vara Federal Criminal da Seção Judiciária do Estado do Pará.

Os mandados foram cumpridos no Pará e em outros oito estados. Como mostrou a coluna, além das prisões e buscas, a Justiça determinou o sequestro e bloqueio de R$ 608 milhões dos investigados.

•        Grileiros usavam “laranjas inconscientes” em esquema no Pará, diz PF

O grupo de grileiros no Pará investigado pela Polícia Federal (PF) teria usado “laranjas inconscientes” para fraudar processos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) com o objetivo de regularizar propriedades rurais.

Segundo a investigação, o esquema se dividia em seis etapas principais que permitiam que os integrantes da organização lucrassem com as terras griladas, por meio da venda de terrenos ou até a obtenção de créditos rurais.

A primeira dessas etapas se resumia em fraudar processos administrativos no Incra. Os documentos eram produzidos com numerações inexistentes e aleatórias, e eram inclusive inconsistentes com os padrões do órgão.

O objetivo, de acordo com a PF, era “criar uma aura de legalidade em torno de terras públicas usurpadas, preparando o terreno para as etapas seguintes do esquema”.

Era nessa fase que os investigadores descobriram que os investigados teriam usado os supostos “laranjas”, por meio do uso de informações pessoais de terceiros, como seus nomes, sem que estes sequer soubessem ou tivessem dado consentimento para isso.

Com isso, o grupo fazia com que os laranjas figurassem como supostos proprietários originários dos títulos de propriedade, despistando indícios de envolvimento dos grileiros.

“Além das irregularidades nos números dos processos, foi verificada a utilização indevida dos dados de pessoas reais, que figuraram como ‘laranjas inconscientes’, sem o seu consentimento ou conhecimento”, afirma a PF em representação à qual a coluna teve acesso.

Com a descoberta, a PF entrou em contato com os supostos laranjas para aprofundar a investigação sobre o uso indevido de seus dados e identificar se eles tinham ou não conhecimento sobre o fato.

Nesses contato, afirma a corporação, foi identificado que esses indivíduos não tinham ciência acerca do uso de seus dados, nem eram proprietários de terras que constavam nos processo do Incra sob suspeita – por isso o termo “laranjas inconscientes” utilizado na investigação.

Após entrar em contato, narra a PF, ficou “comprovado que essas pessoas, de fato, não tinham conhecimento de que seus nomes haviam sido usados no esquema criminoso”.

Segundo documentos da investigação, foram identificadas pelo menos 17 pessoas que tiveram seus nomes usados indevidamente nas fraudes. Grande parte desses laranjas eram pessoas idosas, com mais de 60 anos, e alguns chegavam a idade superior a 80 anos.

No contato realizado pela PF, no momento em que o agente questiona sobre a propriedade em questão, os que responderam negam ser donos de qualquer terra e chegam a questionar se o investigador entrou em contato com a pessoa correta.

“Esse início do esquema não só estabelece as fundações para as fraudes subsequentes, mas também destaca a audácia e a complexidade da operação. Manipulando elementos do sistema de registro e documentação do Incra, os grileiros conseguem criar uma aura de legalidade em torno de terras públicas usurpadas, preparando o terreno para as etapas seguintes do esquema”, afirma a PF.

<><> Laranjas

A coluna também tentou contatar essas pessoas. Delas, apenas três responderam, mas nenhuma quis se identificar. A maioria, no entanto, não respondeu ou sequer possuía um número de telefone para contato.

As vítimas que falaram com a coluna, sob condição de anonimato, disseram não possuir qualquer terra, algumas sem saber sequer o que era o Incra, nem tinham conhecimento sobre a investigação da Polícia Federal. Dois dos entrevistados também afirmaram viver em Santarém (PB), localidade a mais de 500Km do local das propriedades, em tese, legalizadas em seus nomes.

Um deles, um homem de 43 anos, quando questionado se possuía alguma terra em seu nome, disse à coluna que não tinha dinheiro nem para comprar uma rede, quem dirá adquirir uma propriedade.

“Não tenho nem rede [para deitar], como é que vou ter terra? Você tá mexendo com o cara errado”, afirmou, rindo.

Segundo informações obtidas pela PF, o homem consta como proprietário originário de uma terra de 300 hectares na Gleba Belo Monte. À coluna, ele disse que não sabe onde fica o local.

Ele também negou nem conhecer outros investigados na operação da PF, inclusive Debs Antonio Rosa, apontado como líder da organização.

Em outro caso, a coluna conseguiu contato com o irmão de um dos supostos laranjas, um homem de 85 anos que, segundo seu irmão, seria aposentado do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS), ganhando cerca de R$ 2 mil por mês.

“Meu irmão não trabalha, é aposentado do INSS. Não sabe nem o que é propriedade rural […] Isso não tem nada a ver conosco. Não tem a mínima possibilidade. Zero”, afirmou.

De acordo com a relação de matrícula obtida pela PF, o idoso seria o proprietário original de um terreno de 84 hectares, denominado de Sítio Campo Novo, em Gleba Belo Monte, no município de Senador José Porfírio.

Contudo, quando a localidade da propriedade foi citada, o irmão do suposto laranja afirmou que vive em Santarém, cidade a quase 600 km de Senador José Porfírio. Ele também nega conhecer outros investigados.

A coluna também foi atendida pelo filho de uma mulher que teria sido usada como laranja no esquema. Segundo a PF, ela seria a proprietária original de uma terra de cerca de 100 hectares, também em Gleba Belo Monte, em Senador José Porfírio.

Ele também afirmou que mora em Santarém, ao lado da mãe. “Eu sou CLT, minha mãe é aposentada, nunca nem saiu daqui […] Sei nem onde diabos fica isso [a cidade do Senador José Porfírio]”, disse.

Da mesma forma que os outros contratados, ele nega que a mãe seja dona da terra, nem conhece outros investigados no caso. “Minha mãe tem uma casinha aqui que meu pai deixou de herança”, afirmou. Questionado sobre a suposta venda da propriedade, ele riu.

•        PF bloqueia R$ 600 milhões de suspeitos de grilagem em terras da União

A Polícia Federal (PF) bloqueou cerca de R$ 608 milhões em bens de investigados por grilagem de terras públicas da União no Pará, durante a Operação Imperium Fictum, deflagrada na última quarta-feira (21/5).

O montante, diz a PF, corresponde aos crimes praticados por uma organização criminosa especializada em fraudes fundiárias, lavagem de dinheiro e falsificação de documentos.

A apuração teve início em 2023 pela Polícia Federal em Altamira (PA). Segundo a corporação, o grupo atuava em uma rede criminosa organizada e com um modo de atuação “meticuloso”. Foram reveladas, por exemplo, “fraudes estruturadas” em cartórios de registro de imóveis.

O grupo, segundo a PF, atuava com especial concentração na área da Gleba Belo Monte, no sudoeste paraense.

Foram identificados o uso de documentos falsificados, registros baseados em títulos forjados e a atuação de agentes públicos e privados no esquema, que atuariam na “confecção de escrituras públicas falsas, a inserção de dados fraudulentos em sistemas cadastrais oficiais e a posterior comercialização de imóveis grilados”.

O esquema incluía ainda falsificação de processos no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), simulação de transações imobiliárias, registros indevidos em cartórios e obtenção de financiamentos rurais com garantias baseadas em propriedades griladas.

A ação da PF, na semana passada, mobilizou centenas de agentes e resultou no cumprimento de 39 mandados de busca e apreensão e 9 mandados de prisão preventiva, expedidos pela 4ª Vara Federal Criminal da Seção Judiciária do Estado do Pará. Os mandados foram cumpridos nos Estados do Pará, Tocantins, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Ceará, São Paulo e Rio Grande do Sul, além do Distrito Federal.

Além das prisões e buscas, a Justiça determinou o sequestro e bloqueio de bens móveis e imóveis, veículos, aeronaves e valores em contas bancárias dos investigados. O objetivo é desarticular a estrutura financeira e garantir a recuperação do patrimônio público.

O nome da operação, Imperium Fictum, faz referência ao suposto império fictício construído pelos investigados, com acúmulo de patrimônio, com base em práticas criminosas que “violam o patrimônio público e a ordem fundiária”, segundo a PF.

Os suspeitos poderão responder por organização criminosa, corrupção ativa e passiva, falsidade ideológica, uso de documento falso, grilagem de terras públicas, lavagem de dinheiro e fraude contra o sistema financeiro nacional.

 

Fonte: Metrópoles

 

Como o Ocidente está ajudando a Rússia a financiar guerra contra a Ucrânia

A Rússia continua recebendo bilhões de dólares com a exportação de combustíveis fósseis para o Ocidente, que ajudam a financiar a invasão em larga escala da Ucrânia.

Desde o início da invasão, em fevereiro de 2022, a Rússia recebeu, com a exportação de combustíveis fósseis, mais de três vezes o valor recebido pela Ucrânia como auxílio dos seus aliados.

Dados analisados pela BBC demonstram que os próprios aliados da Ucrânia no Ocidente pagaram à Rússia mais pelos seus combustíveis do que os valores fornecidos em auxílio para a Ucrânia.

Ativistas defendem que os governos da Europa e da América do Norte precisam fazer mais para impedir que o petróleo e o gás da Rússia continuem alimentando a guerra.

<><> Quanto a Rússia ainda recebe?

A receita da venda de petróleo e gás é fundamental para manter a máquina de guerra da Rússia em funcionamento.

O petróleo e o gás representam quase um terço da receita estatal russa e mais de 60% das suas exportações.

Após a invasão de fevereiro de 2022, os aliados da Ucrânia impuseram sanções sobre os combustíveis russos.

Os EUA e o Reino Unido proibiram a compra de petróleo e gás da Rússia e a União Europeia proibiu a importação de petróleo bruto russo por via marítima. Mas as compras de gás permaneceram.

Até o dia 29 de maio deste ano, a Rússia havia recebido mais de 883 bilhões de euros (US$ 973 bilhões, cerca de R$ 5,69 trilhões) com a exportação de combustíveis fósseis, desde o início da invasão da Ucrânia.

Este valor inclui 228 bilhões de euros (cerca de R$ 1,47 trilhão) dos países que impuseram sanções à Rússia, segundo o Centro de Pesquisas sobre Energia e Ar Limpo (CREA, na sigla em inglês).

Quase a totalidade deste montante (209 bilhões de euros, cerca de R$ 1,35 trilhão) veio de Estados-membros da União Europeia, que continuaram importando gás canalizado diretamente da Rússia, até que a Ucrânia suspendeu o trânsito em janeiro de 2025.

O gás russo ainda é enviado para a Europa por oleodutos em quantidades cada vez maiores, através da Turquia. Os dados do CREA demonstram que este volume aumentou em 26,77% em janeiro e fevereiro de 2025, em comparação com o mesmo período do ano anterior.

Já o petróleo russo continua sendo bombeado para a Hungria e a Eslováquia, que também seguem recebendo gás canalizado da Rússia através da Turquia.

Apesar dos esforços do Ocidente, a receita russa com a venda de combustíveis fósseis em 2024 caiu apenas 5%, em comparação com o ano anterior. Este índice acompanha a queda similar de 6% do volume de exportação, segundo o CREA.

No ano passado, houve também um aumento de 6% da receita russa com a exportação de petróleo bruto, além de um crescimento de 9% da receita com a venda de gás canalizado, em relação ao ano anterior.

As estimativas russas afirmam que as exportações para a Europa aumentaram em até 20% em 2024.

A venda de gás natural liquefeito (GNL) atingiu níveis recordes. E, atualmente, a metade das exportações de GNL russo vai para a União Europeia, segundo o CREA.

A chefe de política externa da UE, Kaja Kallas, afirma que a aliança não impôs "as sanções mais fortes" sobre o gás e petróleo russo porque alguns Estados-membros receiam que haja uma escalada no conflito. E comprar o combustível da Rússia é "mais barato no curto prazo".

O 17º pacote de sanções europeias contra a Rússia – o mais recente aprovado pela UE – não incluiu as importações de GNL. Mas as medidas definiram um caminho a ser seguido rumo ao término de todas as importações de gás russo, até o final de 2027.

Os dados demonstram que o dinheiro obtido pela Rússia com a venda de combustíveis fósseis ultrapassa sistematicamente a quantidade de auxílio recebido pela Ucrânia dos seus aliados. Por isso, a sede pelo combustível pode prejudicar os esforços do Ocidente para limitar a capacidade russa de financiar esta guerra.

Para a ativista Mai Rosner, do grupo de pressão Global Witness, muitos legisladores ocidentais receiam que o corte das importações de combustíveis russos irá gerar aumento dos preços da energia.

"Não existe o desejo real em muitos governos de, verdadeiramente, limitar a capacidade da Rússia de produzir e vender petróleo", declarou ela à BBC.

"Existe muito receio sobre o que isso significaria para os mercados globais de energia. Existe uma linha definida, abaixo da qual os mercados de energia ficariam muito prejudicados ou desequilibrados."

<><> 'Brecha do refino'

Além das vendas diretas, parte do petróleo exportado pela Rússia chega ao Ocidente depois de ser processado em produtos combustíveis em outros países. Este processo é conhecido como "brecha do refino".

Às vezes, o petróleo russo também é diluído com produto de outras origens.

O CREA afirma ter identificado três "refinarias de lavagem" na Turquia e três na Índia. Elas processam petróleo bruto e vendem o combustível final para países que mantêm sanções contra a Rússia.

A entidade declarou que estas refinarias usaram 6,1 bilhões de euros (cerca de R$ 39,3 bilhões) em petróleo bruto da Rússia para gerar produtos para países que impuseram sanções contra Moscou.

O ministro do Petróleo da Índia criticou o relatório do CREA. Para ele, trata-se de "um esforço enganoso para manchar a imagem da Índia".

"[Estas nações] sabem que os países que impuseram sanções estão dispostos a aceitar esta situação", afirma o analista do CREA Vaibhav Raghunandan.

"É uma brecha. É totalmente legal. Todo mundo sabe disso, mas ninguém faz muita coisa para realmente combater a questão de forma mais ampla."

Os ativistas e especialistas concordam que os governos ocidentais detêm os meios e instrumentos necessários para impedir o fluxo da receita de exportação de petróleo e gás para os cofres do Kremlin.

O ex-vice-ministro da Energia da Rússia, Vladimir Milov (hoje, um obstinado oponente do presidente russo Vladimir Putin), afirma que as sanções impostas ao comércio de combustíveis fósseis do país deveriam ser executadas com mais eficiência.

Milov se refere especificamente ao limite dos preços do petróleo adotado pelos países do G7, que, segundo ele, "não está funcionando".

O ex-ministro receia que as mudanças realizadas pelo presidente americano Donald Trump possam dificultar o trabalho de agências como o Tesouro americano e o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC, na sigla em inglês). Elas são fundamentais para execução das sanções.

Outro caminho é a manutenção da pressão sobre a "frota-fantasma" da Rússia, composta por petroleiros dedicados a se esquivar das sanções.

"Esta é uma operação cirúrgica complexa", segundo Milov. "Você precisa publicar periodicamente grupos de novos navios sancionados, empresas de fachada, negociantes, seguradoras etc., em intervalos de algumas semanas."

Para ele, esta é uma área em que os governos ocidentais têm sido muito mais eficientes, particularmente com a introdução de novas sanções pelo governo do ex-presidente americano Joe Biden, em janeiro de 2025.

Para Mai, proibir as exportações de GNL russo para a Europa e fechar a brecha do refino nas jurisdições ocidentais seriam "medidas importantes para concluir a dissociação do Ocidente em relação aos combustíveis fósseis russos".

Raghunandan afirma que seria relativamente fácil para a UE abandonar as importações de GNL da Rússia.

"Cinquenta por cento das exportações russas de GNL são dirigidas à União Europeia e apenas 5% do total de gás [GNL] consumido pela UE em 2024 vieram da Rússia", informou ele à BBC.

"Por isso, se a UE decidir eliminar totalmente o gás russo, irá prejudicar muito mais a Rússia do que os consumidores da União Europeia."

<><> O plano de Trump sobre o preço do petróleo para pôr fim à guerra

Os especialistas entrevistados pela BBC descartaram a ideia de Donald Trump de que a guerra contra a Ucrânia irá terminar se a Opep (Organização dos Países Produtores de Petróleo) reduzir os preços do petróleo bruto.

"As pessoas em Moscou estão rindo desta ideia", declarou Milov. "A parte que irá sofrer mais... é a indústria americana de óleo de xisto, que é a indústria petrolífera menos competitiva do mundo."

Raghunandan afirma que o custo de produção do petróleo russo também é inferior ao de alguns países da Opep, como a Arábia Saudita. Por isso, eles seriam prejudicados pela redução dos preços do petróleo antes que a própria Rússia sentisse seus efeitos.

"A Arábia Saudita não concordará com isso de forma nenhuma", segundo ele. "Isso já foi tentado antes. Isso gerou conflitos entre a Arábia Saudita e os Estados Unidos."

Para Rosner, existem questões morais e práticas envolvidas na compra de combustíveis fósseis da Rússia pelo Ocidente, enquanto apoia simultaneamente a Ucrânia.

"Temos agora uma situação na qual estamos financiando o agressor, em uma guerra que estamos condenando, e também financiamos a resistência à mesma guerra", explica ela.

"Esta dependência dos combustíveis fósseis significa que estamos realmente à mercê dos mercados de energia, dos produtores globais de energia e de ditadores hostis."

A nova e aterrorizante arma que está mudando rumo da guerra na Ucrânia

¨      A nova e aterrorizante arma que está mudando rumo da guerra na Ucrânia

Um odor acre cobre a cidade de Rodynske, na região ucraniana de Donetsk. E, poucos minutos depois de entrarmos na cidade, podemos observar de onde ela vem.

Uma bomba planadora de 250 kg atingiu o principal edifício administrativo da cidade e destruiu três blocos residenciais. Nossa visita ocorre um dia após a explosão, mas ainda se vê fumaça saindo de parte dos destroços.

Dos limites da cidade, ouvimos o som da artilharia e tiros. São soldados ucranianos derrubando drones russos.

Rodynske fica a cerca de 15 km ao norte da conturbada cidade de Pokrovsk. A Rússia vem tentando capturá-la a partir do lado sul desde o ano passado, mas, até agora, as forças ucranianas conseguiram impedir a marcha dos soldados russos.

Por isso, a Rússia mudou de tática, passando a sitiar a cidade, interrompendo suas vias de abastecimento.

Os frenéticos esforços diplomáticos das últimas duas semanas para estabelecer um cessar-fogo na Ucrânia fracassaram. A Rússia intensificou seus ataques e, desde então, realizou seus avanços mais significativos desde o mês de janeiro.

A prova está na cidade de Rodynske. Minutos depois da nossa chegada, ouvimos um drone russo sobre as nossas cabeças. Nossa equipe corre para a cobertura mais próxima disponível: uma árvore.

Nós nos comprimimos junto à árvore para que o drone não nos veja. Segue-se o som alto de uma explosão – um segundo drone, que atinge as proximidades.

O primeiro drone ainda paira acima de nós. Por mais alguns minutos, ouvimos o som sibilante e assustador daquela que se tornou a arma mais mortal desta guerra.

Quando não conseguimos mais ouvi-lo, aproveitamos a oportunidade para correr em busca de uma cobertura mais sólida, em uma construção abandonada a cerca de 30 metros de distância.

Do abrigo, ouvimos novamente o drone. Ele pode ter retornado depois de observar a nossa movimentação.

A invasão de Rodynske por drones russos é uma evidência de que os ataques vêm de locais muito mais próximos do que as posições russas conhecidas, ao sul de Pokrovsk.

Muito provavelmente, eles vêm de territórios recém-capturados, como uma estrada importante que leva do leste de Pokrovsk até a cidade ucraniana de Kostyantynivka.

Depois de meia hora esperando no abrigo, não conseguimos mais ouvir o drone. Nós, então, nos movimentamos rapidamente até o nosso carro, estacionado embaixo da árvore. Saímos de Rodynske a toda velocidade.

Ao lado da estrada, observamos a fumaça subindo e algo queimando. Provavelmente, um drone que foi derrubado.

<><> Maior tempo de deslocamento

Seguimos para Bilytske, que fica mais distante da linha de frente.

Observamos uma fileira de casas destruídas por um ataque noturno com mísseis. Em uma delas, morava Svitlana, de 61 anos.

"Está ficando cada vez pior", ela conta.

"No início, podíamos ouvir explosões distantes, eles estavam longe. Mas, agora, nossa cidade está sendo atacada – estamos vivenciando por nós mesmos."

Svitlana recolhe alguns pertences entre os destroços da sua casa. Felizmente, ela não estava ali quando ocorreu o ataque.

"Vá até o centro da cidade e você verá o quanto foi destruído ali", ela conta. "A padaria e o zoológico também foram destruídos."

Encontramos soldados da unidade de artilharia da 5ª Brigada de Assalto ucraniana, em um abrigo fora do alcance dos drones.

"Você pode sentir o aumento da intensidade dos ataques russos", conta Serhii.

"Foguetes, morteiros, drones... eles estão usando tudo o que têm para interromper as vias de abastecimento que levam à cidade."

Sua unidade aguarda há três dias para voltar para se movimentar.

Eles esperam pela cobertura das nuvens ou por ventos de alta velocidade, de forma a se proteger dos drones.

Neste conflito em constante evolução, os soldados precisaram se adaptar rapidamente às novas ameaças representadas pelas mudanças tecnológicas.

Os drones de fibra óptica são a mudança mais recente.

Uma bobina com dezenas de quilômetros de cabo óptico é fixada à parte de baixo do drone e a fibra física é conectada ao controlador que fica com o piloto.

"O sinal de vídeo e controle é transmitido de e para o drone através do cabo, não por frequências de rádio. Isso faz com que ele não sofra interferências por interceptores eletrônicos", explica um soldado com o codinome Moderador, engenheiro de drones da 68ª Brigada Jaeger.

Quando os drones começaram a ser empregados em larga escala na guerra na Ucrânia, os dois exércitos equiparam seus veículos com sistemas eletrônicos que conseguiam neutralizar os drones. Mas esta proteção evaporou com a chegada dos drones de fibra óptica.

No momento, a Rússia está na frente no desenvolvimento destes aparelhos, enquanto a Ucrânia tenta alavancar a sua produção.

"A Rússia começou a usar drones de fibra óptica muito antes de nós, quando ainda estávamos em fase de testes", afirma Venia, responsável pela pilotagem de drones da 68ª Brigada Jaeger.

"Estes drones podem ser usados em locais onde precisamos ir mais baixo do que os drones habituais. Podemos até entrar em casas e procurar alvos no seu interior."

"Começamos a brincar que, talvez, devêssemos carregar tesouras para cortar os cabos", conta Serhii.

Os drones de fibras ópticas também apresentam desvantagens. Eles são mais lentos, e o cabo pode ficar preso nas árvores.

Mas, no momento, seu uso generalizado pela Rússia faz com que o transporte de soldados de e para suas posições, muitas vezes, passe a ser mais mortal do que o próprio campo de batalha.

"Quando você entra em posição, você não sabe se foi identificado ou não. E, se tiver sido identificado, você pode já estar vivendo suas últimas horas de vida", explica o sargento-chefe Oles, da unidade de reconhecimento da 5ª Brigada de Assalto.

Esta ameaça faz com que os soldados passem cada vez mais tempo nas suas posições.

Oles e seus subordinados são da infantaria. Eles servem nas trincheiras da linha de frente da defesa ucraniana.

Atualmente, é raro que jornalistas falem com soldados da infantaria, pois ficou muito perigoso chegar a estas trincheiras.

Encontramos Oles e Maksym em uma propriedade rural transformada em base improvisada. Aqui, os soldados vêm descansar quando não estão na linha de frente.

"O máximo de tempo que passei em posição foram 31 dias, mas conheço gente que passou 90 e até 120 dias ali", conta Maksym. "Antes da chegada dos drones, as rotações poderiam ser de três ou sete dias em posição."

"A guerra é sangue, morte, lama e um calafrio que vai da cabeça até o dedão do pé. É assim que você passa todos os dias."

"Eu me lembro de uma vez em que não dormimos por três dias, ficamos em alerta a cada minuto. Os russos continuavam vindo contra nós, uma onda após a outra. O menor lapso teria significado a nossa morte", relembra Maksym.

Oles afirma que a infantaria russa mudou de tática.

"No início, eles atacavam em grupos", ele conta. "Agora, eles mandam apenas uma ou duas pessoas de cada vez. Eles também usam motocicletas e, em alguns casos, quadriciclos. Às vezes, eles chegam sem serem percebidos."

Isso significa que algumas partes da linha de frente não são mais linhas convencionais, com os ucranianos de um lado e os russos, do outro. Elas se parecem mais com tabuleiros de xadrez, onde as posições das peças podem ser intercaladas.

Tal configuração dificulta a observação dos avanços de cada um dos lados.

Apesar dos recentes ganhos da Rússia, não será fácil nem rápido tomar toda a região de Donetsk, onde fica a cidade de Pokrovsk.

A Ucrânia reagiu duramente, mas precisa do abastecimento constante de armas e munição para sustentar a luta. E, à medida que a guerra entra no seu quarto verão (do hemisfério norte), fica também evidente a falta de soldados ucranianos frente ao exército russo, que é muito maior que o da Ucrânia.

A maioria dos soldados que encontramos entrou no exército depois do início da guerra. Eles tiveram alguns meses de treinamento, mas precisaram aprender muito no front, em meio ao calor da guerra.

Maksym trabalhou em uma empresa de bebidas antes de entrar no exército. Perguntei como sua família encara seu trabalho.

"É difícil, é muito difícil", responde ele.

"Minha família realmente me apoia. Mas tenho um filho com dois anos de idade e não consigo vê-lo muito."

"Mas faço chamadas de vídeo para ele, de forma que tudo está bem, dentro do possível, nestas circunstâncias", diz ele, enquanto seus olhos se enchem de lágrimas.

Maksym é um soldado lutando pelo seu país. Mas também é um pai com saudade do seu filho de dois anos.

 

Fonte: BBC News