segunda-feira, 2 de junho de 2025

Fabio Serapião: Juiz foi mantido no cargo mesmo após denúncia por desvio de dinheiro

O Tribunal de Justiça da Paraíba (TJPB) manteve o juiz Glauco Coutinho Marques no cargo, na comarca de Gurinhém (PB), mesmo depois dele ser denunciado pelo Ministério Público do estado em um esquema de desvio de dinheiro público.

Como mostrou a coluna, tanto o juiz como sua esposa foram denunciados, em julho de 2024, em um caso que apura suspeitas de desvios de recursos públicos da cidade de Itabaiana (PB), onde a esposa do juiz foi Secretária de Saúde.

Ambos são suspeitos de receber uma “mesada” proveniente dos desvios, o que a defesa dos dois nega ter acontecido (leia mais abaixo). O caso é apurado no âmbito da operação Pote de Ouro.

Mesmo após a denúncia, Glauco Marques continuou no cargo e só foi afastado meses depois, em dezembro, após ser alvo da primeira fase da operação Retomada, dessa vez por dar decisões suspeitas que resultaram em descontos irregulares de aposentados. Foi nesse caso em que ele deu uma decisão relâmpago, em 16 minutos, contra aposentados.

Um relatório do TJPB, realizado por determinação do Conselho Naciona de Justiça (CNJ), mostra que, entre a denúncia, em julho, até o seu afastamento, em dezembro, a vara comandada pelo juiz continuou dando decisões.

Em sua maioria, os casos tratavam de homologações de acordo extrajudicial para contribuições associativas. Algumas das sentenças, inclusive, foram anuladas posteriormente nos desdobramentos da operação Retomada.

A coluna questionou o tribunal sobre a manutenção do juiz no cargo, mas não houve resposta até a publicação da reportagem. O espaço segue aberto para futuras manifestações.

<><> Denúncia do MP

Segundo o MP, a esposa do juiz, então Secretária de Saúde de Itabaiana (PB), integram uma organização criminosa que desviou valores da Prefeitura.

A esposa, diz o MP, teve uma colaboração “decisiva” no esquema, que resultou em repasse de verbas ilícitas inclusive ao marido, o juiz Glauco.

Durante a apuração dos possíveis valores desviados da administração pública, as autoridades descobriram alguns cheques depositados na conta de Glauco, “tendo as cártulas sido apresentadas na agência do Banco do Brasil em Gurinhém”.

Com o objetivo de esclarecer o possível envolvimento entre Glauco e os outros integrantes do esquema, foram solicitadas ao Ministério Público de Itabaiana informações acerca da existência de “possíveis documentos, que interessassem a essa investigação, e que tivessem sido apreendidos” encontrados pela operação Pote de Ouro.

Segundo consta no documento, o MP informou que, entre a documentação apreendida, “encontravam-se 02 (dois) cheques, de titularidade do ora requerido, o Juiz de Direito, Glauco Coutinho Marques”. Nessa esteira, segundo a investigação, isso seria uma evidência de suposta relação de proximidade entre o juiz e o suposto “mentor da associação ilícita”.

<><> Operação Retomada

O juiz é citado em documento da operação como “figura central” dos fatos investigados e contra quem recaem “as suspeitas de manipulação de atos de jurisdição”. A defesa nega qualquer ilícito.

Documento da operação obtido pela coluna mostra como um grupo de empresários, entidades, advogados e servidores atuava junto ao Judiciário para conseguir decisões favoráveis contra os interesses de aposentados.

O juiz foi responsável por uma decisão relâmpago que, por sua rapidez, chamou a atenção dos investigadores. No caso, ele levou apenas 16 minutos para decidir em um processo.

“Em alguns casos, aliás, tamanha foi a velocidade no curso do processo que, entre o protocolo inicial e o julgamento, passaram-se apenas poucos minutos, como ocorreu com o processo em que a petição inicial foi aviada às 11h10 do dia 08 de junho de 2024 (um sábado) e a sentença foi prolatada às 11h26 do mesmo dia”, diz um dos documentos da apuração.

Em fevereiro de 2025, no entanto, a Justiça anulou a decisão relâmpago. Ao analisar o mesmo processo e os mesmos documentos que Glauco Marques, a juíza verificou que “os possíveis associados, em sua maioria, não têm vínculo algum com a comarca de Gurinhém, sequer com o Estado da Paraíba, pois residem em outros Estados da Federação.”

•        Defesa

A coluna procurou a defesa do juiz Glauco, que afirmou que os valores supostamente recebidos por Glauco “referem-se a pagamentos realizados como forma de quitação de empréstimos pessoais anteriormente contraídos pela sua esposa”.

Também destaca que tanto Glauco, quanto sua esposa, “jamais tiveram conhecimento da suposta origem ilícita dos cheques utilizados para tais pagamentos” e “sequer conhecem” o suposto operador do esquema que teria assinado os cheques.

“Reiteramos a confiança na Justiça e na elucidação dos fatos, certos de que a verdade prevalecerá”, disse.

Sobre a operação Retomada, que investiga os descontos contra aposentados, a defesa do juiz Glauco Marques afirmou que o juiz sempre esteve disponível para contribuir com a Justiça e nega todas as imputações feitas na representação do Ministério Público, que resultaram no afastamento do cargo de juiz.

O advogado também cita que o processo está sob sigilo, mas destaca que “não há uma única prova ou ao menos indícios que determinem qualquer ligação ou mesmo afetividade e amizade entre Glauco e os advogados das referidas associações”.

“O que se tem, na verdade, é um juiz que, em sua judicatura, homologou acordos entre a associação citada e seus próprios associados, e deferiu liminares que por vezes não foram sequer revogadas pelo Egrégio Tribunal de Justiça da Paraíba”, afirma.

De acordo com o advogado, após o cumprimento de “dezenas de cautelares, inclusive, buscas e apreensões, não se olvidou qualquer transação bancária efetivada em favor do juiz, ou mesmo conversas entre os envolvidos”.

RELEMBRE O CASO:

A operação Retomada, do Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público da Paraíba, investiga um juiz responsável por uma decisão relâmpago em favor do grupo criminoso investigado.

De acordo com documentos da investigação, o juiz Glauco Coutinho Marques, da comarca de Gurinhém, levou apenas 16 minutos para decidir em um caso que envolvia o grupo investigado.

O magistrado é um dos investigados na operação. Documentos da operação obtidos pela coluna mostra como o grupo atuava junto ao Judiciário para conseguir decisões favoráveis. Segundo o MP da Paraíba, eles se valiam da prática chamada de “fórum shopping”, quando se escolhe a juízo para entrar com a ação de modo a conseguir uma decisão favorável.

Como mostrou a coluna, a investigação mira 11 associações e entidades que moveram 230 ações coletivas na Paraíba. No total, cerca de 100 mil aposentados e pensionistas em todo país foram atingidos e os descontos ilegais somam R$ 126 milhões.

A investigação cita pelo menos um exemplo em que a velocidade com a questão foi decidida pode ser um indício de fraude, já que se passaram apenas 16 minutos entre a petição inicial (protocolada em um sábado) e a decisão.

“Em alguns casos, aliás, tamanha foi a velocidade no curso do processo que, entre o protocolo inicial e o julgamento, passaram-se apenas poucos minutos, como ocorreu com o processo nº 0800888-50.2024.8.15.0761, em que a petição inicial foi aviada às 11h10 do dia 08 de junho de 2024 (um sábado) e a sentença foi prolatada às 11h26 do mesmo dia”, diz um dos documentos da apuração.

Em outro episódio, os investigadores detalham o caso de uma entidade, sediada em Mato Grosso e que em 19 de julho de 2023 determinou a criação de uma filial em Gurinhém -distante mais de 3 mil quilômetros do seu polo central.

No mesmo dia, a nova sucursal teria dado entrada em ação revisional de contrato com repetição de indébito contra 21 instituições financeiras em nome de servidores da Marinha do Brasil, do Senado Federal, do estado de Goiás e do Tribunal Superior do Trabalho, nenhum dos quais morador da Paraíba.

Poucos dias depois, em 24 de julho de 2023, o juiz deferiu o pedido de tutela provisória. Segundo narrado pelas autoridade, ele teria descido, no corpo da decisão, “a um nível incomum de detalhamento para o respectivo cumprimento”.

“Na sequência, no intervalo de poucos minutos do lançamento da medida na plataforma do PJe, para executá-la de pronto, houve larga sucessão de atos cartorários”, diz a decisão.

Outro caso citado na operação é o de uma entidade que possui sede em dois endereços em João Pessoa. Contudo, não foi identificada “qualquer sinal de funcionamento da pessoa jurídica” nos locais citados.

Essa instituição, diz a operação, “propôs diversos pedidos de homologação de acordos extrajudiciais na comarca em que oficiava Dr. Glauco Coutinho Marques, também em aparente fórum shopping. Com efeito, a promotoria de justiça encontrou, inicialmente, 09 (nove) demandas ajuizadas inexplicavelmente naquele foro”.

De acordo com a CGU, decisões judiciais manipuladas na comarca de Gurinhém, na Paraíba, promoviam diversas modalidades de irregularidades.

Uma delas, era a “suspensão dos descontos referentes a empréstimos consignados já efetivados em contracheques de servidores, aposentados e pensionistas”. Dessa forma, era liberada a margem para novos empréstimos consignados feitos por meio das associações fictícias.

O grupo também usava as decisões judiciais para excluir o registro negativo nos cadastros de proteção ao crédito como o Serasa, liberando a obtenção de mais empréstimos.

Segundo a investigação, agentes públicos e privados, entre eles um servidor do Poder Judiciário na Paraíba e advogados, fraudavam o registro de sócios em associações de fachada para ajuizar ações coletivas em Varas da Justiça específicas que davam decisões favoráveis ao grupo.

“Identificou-se a prática sistemática de fraudes envolvendo empréstimos ofertados a idosos, por meio de associações fictícias que, sob o disfarce de contribuições associativas, operavam como instituições financeiras informais, à margem da regulação do Banco Central e das normas de proteção ao consumidor”, diz o Gaeco.

Segundo a investigação, duas questões principais chamam atenção na tramitação desses processos: a celeridade no andamento e a “sonegação” proposital da vigilância da Promotoria de Justiça da comarca em casos envolvendo idosos.

•        Autor de PL que iguala facções a terroristas ouve negativa do governo

Autor do projeto de lei que equipara facções do narcotráfico a grupos terroristas, Danilo Forte (União Brasil) reclama que o governo Lula tem se posicionado contra a medida.

Mesmo sem a adesão do Palácio do Planalto, o parlamentar conseguiu os apoios necessários para que o texto seja votado em regime de urgência na Câmara dos Deputados.

“Fiz esse debate dentro do Ministério da Justiça. E eles, na grande maioria, têm um entendimento de que a Lei do Terrorismo é uma lei estática de 2016. O governo não tem a compreensão do tamanho do caos que está hoje e não vê a importância de se combater isso como um ato de terror”, diz o parlamentar.

“O crime organizado aterroriza o Brasil. Sitia cidades, bloqueia a comunicação, é financiado pelo tráfico de drogas e pela violência e, agora, está adentrando a política. Isso precisa acabar. E, para acabar, precisa ter ação enérgica juridicamente capaz de fazer com que o preso fique preso. E que não fique se comunicando com o resto da sociedade e dirija o crime a partir da cadeia”, argumentou o autor da proposta.

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O texto prevê a aplicação de penas mais duras e fim de audiências de custódia, de fianças e indultos a criminosos que integrem facções do narcotráfico como PCC e Comando Vermelho.

A posição do governo Lula

Em conversa com a coluna, um integrante do Ministério da Justiça e Segurança Pública confirmou a reunião com o deputado Danilo Forte. E explicou por que o governo é contra classificar facções do narcotráfico como organizações terroristas.

Ele opinou que as consequências, principalmente no campo econômico, seriam “devastadoras”, pois impactaria o fluxo de capital estrangeiro para o Brasil, o turismo, o preço dos seguros. “Há investimentos internacionais que não podem ser feitos em países que contêm organizações classificadas como terroristas”, diz.

“Não querer tratar a questão na Lei Antiterrorismo não significa reduzir a gravidade da situação. O governo aceita discutir, sem dúvida, penas mais duras a essas facções, mas dentro da Lei de Organizações Criminosas, que já existe”, continuou.

Na visão do governo, a Lei Antiterrorismo tem objetivo de atacar organizações com objetivos ideológicos, ao passo que a Lei de Organizações Criminosas visa a punir grupos que procuram lucro.

Esse interlocutor da pasta sustentou que o conceito de terrorismo não pode ser banalizado, uma vez que os critérios que definem a prática são estabelecidos em convenção da ONU. A definição envolve questões como xenofobia, discriminação, preconceito de raça, cor, etnia e religião.

Além disso, há interpretações de que a classificação de organizações terroristas no Brasil poderia, de certa forma, “autorizar” que outros países tomem iniciativas para agir por contra própria em solo brasileiro, ferindo a soberania nacional.

O Ministério da Justiça e Segurança Pública vai procurar o deputado Danilo Forte para dialogar alternativas ao projeto apresentado.

Como mostrou a coluna, o governo Trump estuda classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas mesmo sem o aval do Brasil.

<><> Quem é Cigano, amigo de Peixão, que participou do maior assalto do PCC

Adriano Pereira, mais conhecido como Cigano, apontado como sendo uma das lideranças do Primeiro Comando da Capital (PCC) no Sul do país, é amigo de Álvaro Malaquias Santa Rosa, 38 anos, o traficante Peixão, amplamente procurado no Rio de Janeiro e um dos chefes do Terceiro Comando Puro (TCP).

Segundo a polícia, dentro da facção, Cigano esteve, por muito tempo, responsável por fazer a ponte entre o Terceiro Comando Puro (TCP) e o PCC — por isso a relação próxima entre os dois criminosos.

Cigano é é apontado como um dos participantes no assalto aos carros-fortes no aeroporto de Caxias do Sul (RS). em junho de 2024, e estava preso até essa quinta-feira (27/5).

No entanto, o suspeito conseguiu escapar após romper a tornozeleira eletrônica que usava e fugir do Hospital Nossa Senhora das Graças, em Canoas (RS), onde tinha passado por uma cirurgia.

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O homem foi preso em Juquitiba, em SP, dois dias após o assalto. A polícia apontou que, além do PCC, integrantes da facção gaúcha Bala na Cara também participaram da ação.

No roubo cinematográfico, os assaltantes conseguiram levar cerca de R$ 30 milhões, mas deixaram para trás cerca de R$ 15 milhões.

Um policial morreu após ser baleado durante a ação criminosa.

Anteriormente, Cigano já havia ficado detido no Complexo de Israel, no Rio de Janeiro.

As circunstâncias da fuga estão sendo investigadas, e forças de segurança trabalham para localizar e recapturar o foragido.

 

Fonte: Metrópoles

 

Eu posso sustentar minha vida. Por que não posso ser menos ansioso com dinheiro?

Sendo autônomo, estou familiarizado com os altos e baixos da minha conta bancária: o alívio das faturas sendo pagas, a consternação quando as contas a esvaziam novamente. Minha vigilância, frequentemente beirando a ansiedade, nunca desaparece.

O que encontro no meu aplicativo bancário tem o poder de influenciar meu dia e fazer com que eu sinta a leveza dos meus passos ou uma nuvem pairando sobre mim.

Os preços dos alimentos e da energia subiram; os salários e os salários, não. Poucas pessoas diriam que não estão sentindo a pressão, especialmente nesta época do ano. Todo convite festivo parece ter um preço — e nunca me sinto tão confusa sobre necessidades versus desejos quanto quando sou bombardeada com e-mails de promoções de fim de ano.

Ao mesmo tempo, minhas preocupações com dinheiro não são inteiramente baseadas na realidade. Posso não ter salário e benefícios, nem um parceiro para dividir as contas, mas, em outros aspectos, estou em terreno estável: sou dono da minha casa, minhas despesas gerais são baixas e tenho economias.

Em comparação com muitos outros, estou em uma boa posição. Então, por que tenho dificuldade em acreditar?

A verdade é que dinheiro nunca é só uma questão de dólares ou libras, diz Elizabeth Husserl, consultora de investimentos registrada e autora de The Power of Enough: Finding Joy in Your Relationship with Money.

“Dinheiro é algo muito pessoal, assim como a nossa experiência com ele”, diz ela pelo Zoom. “A mesma quantia pode significar coisas diferentes para pessoas diferentes, com base em estilos de vida, escolhas e desejos.”

Preços em alta e margens mais apertadas desencadeiam sentimentos de desconforto e ansiedade, fazendo com que nos concentremos em ganhar mais dinheiro como forma de escape. Husserl chama isso de "ciclo abundância-escassez".

Embora compreensível, essa fixação em ganhar ou poupar pode começar a "invadir outros aspectos da vida que nos trazem bem-estar", diz Husserl. Podemos trabalhar em detrimento da nossa saúde ou negligenciar nossos relacionamentos em busca de um futuro imaginário em que o dinheiro não será uma preocupação.

A saúde financeira "cria uma base realmente importante", diz Husserl. Não conseguir cobrir as necessidades básicas da vida causa estresse e instabilidade existencial; há também uma associação bem documentada entre dificuldades financeiras e problemas de saúde mental.

Nossa relação com o dinheiro pode ter um impacto psicológico, e é importante tomar medidas para proteger nosso bem-estar, mesmo em meio a dificuldades financeiras reais e urgentes.

Há apenas um número limitado de horas por dia que você pode gastar se candidatando a empregos ou analisando seu saldo bancário, ressalta Husserl — mas, ao reservar um tempo para atender a outras necessidades, como conexão, você pode encontrar oportunidades de trabalho ou ofertas de apoio.

Por outro lado, pessoas que estão em uma posição relativamente estável podem ficar obcecadas com sua situação financeira, em detrimento de seu bem-estar, diz Husserl: "É uma questão do que é um medo percebido versus um medo real... podemos encontrar o alinhamento certo."

Na pior das hipóteses, o ciclo abundância-escassez pode levar as pessoas a pensar que nenhuma quantia de dinheiro será suficiente, diz Husserl. "Aí você olha para trás e pensa: 'Bem, isso não foi divertido – o quanto eu trabalhei e o quanto eu me sacrifiquei.'"

Algumas pessoas passam a vida inteira economizando e morrem antes de poderem aproveitar as recompensas, diz Husserl. Outras se aposentam e descobrem que não têm a mínima ideia de como encontrar realização fora do trabalho e "têm uma enorme crise de identidade", diz ela.

Fixar-se na segurança financeira pode, na verdade, nos distrair de nos conhecermos ou de reconhecermos necessidades não atendidas – por exemplo, por intimidade ou propósito. "Às vezes, simplesmente jogamos dinheiro nos problemas para não sentir vergonha", diz Husserl.

"O dinheiro é algo muito pessoal, assim como a nossa experiência com ele", diz Elizabeth Husserl. Fotografia: Cortesia de Elizabeth Husserl

Grande parte da terapia de compras é motivada por pessoas que querem ter algo para mostrar após longas horas de trabalho ou fazer com que seu trabalho estressante valha a pena — mas mesmo um salário alto não necessariamente compensa o trabalho indefinido em um emprego que você odeia, diz Husserl: "Esse é um ótimo exemplo de como usamos o dinheiro como bode expiatório".

Da mesma forma, a segurança também pode assumir a forma de relacionamentos fortes ou de uma saúde física robusta — ambos facilmente negligenciados na busca por maiores economias ou um estilo de vida melhor.

Ao reconhecer os impulsos emocionais por trás de nossos gastos e economias, podemos não apenas administrar melhor nossas finanças, mas também entender como nos sentir mais satisfeitos com o que temos, diz Husserl.

Um de seus clientes estava gastando demais em encontros, mas se sentia deprimido pela experiência. Depois de reconhecer que não estava pronto para um relacionamento sério, ele decidiu dar um tempo nos encontros e, em vez disso, investir em uma massagem regular, suprindo sua necessidade de contato físico.

E embora cortar o café seja frequentemente apresentado como uma maneira fácil de economizar, se as idas ao seu café local forem uma fonte importante de conexão social, pertencimento ou comunidade, esse gasto pode valer a pena.

Por mais crucial que seja ter um plano financeiro e garantir que nossos compromissos básicos sejam cumpridos, o dinheiro "não pode ser nossa única sensação de segurança", diz Husserl. "Temos que parar de mudar as regras do jogo e dizer: 'Por que continuo mudando as regras?'"

O objetivo de usserl com os clientes é criar uma relação consciente com o dinheiro que permita facilidade e até mesmo alegria. "Buscamos um caminho sustentável para ganhar, gastar, investir e aproveitar a vida", diz ela.

Isso inclui ampliar nossa definição de riqueza, diz Husserl. O dinheiro pode ser um assunto tão complexo porque está imerso em nossa compreensão de autoestima.

Embora seja banal dizer que a felicidade não pode ser comprada, o dinheiro pode funcionar como um espelho, diz Husserl, chamando nossa atenção para as áreas em que sentimos que nossas vidas estão carentes. "Riqueza é viver uma vida com sentido", diz ela. "É exatamente isso que todos nós almejamos."

Ela sugere começar imaginando ou registrando em um diário uma conversa sobre dinheiro, abordando-a como você abordaria uma pessoa e anotando quaisquer pensamentos e sentimentos que surgirem: o teor emocional é de ganância, medo, ressentimento, admiração?

Para quebrar os hábitos do que Husserl chama de “cérebro da escassez”, também é benéfico desacelerar — tanto antes de gastar quanto ao saborear experiências.

Isso nos ajuda a saber que tipo de despesa nos traz valor e onde podemos economizar, diz Husserl: "Você começa a separar o que é uma obrigação e o que parece algo que você quer fazer".

Uma maneira de se sentir satisfeito com o que você tem é sintonizar-se com a verdadeira “riqueza da vida”, diz Husserl.

Durante o período festivo, isso pode significar priorizar gastos com viagens para passar bons momentos com amigos e familiares, em vez de comprar presentes por impulso. Se você está inquieto no trabalho, planeje o próximo ano em vez de fazer compras para preencher o vazio.

Conversar com Husserl esclarece alguns dos meus pensamentos sobre finanças, mudando a agulha da ansiedade com as despesas de fim de ano para a aceitação – e até mesmo um vislumbre de expectativa. Embora meus gastos neste mês sejam inevitavelmente altos, lembro-me de que isso é típico desta época do ano; sinto-me mais confiante na minha capacidade de recuperação e mais conectado aos meus objetivos financeiros mais amplos.

Essa clareza ajuda a aliviar minha culpa por recorrer constantemente ao cartão de crédito e, ao mesmo tempo, me protege contra excessos em promoções sazonais. Depois de analisar minhas finanças com mais clareza, sinto uma gratidão renovada. Meu aplicativo bancário pode não trazer boas notícias, mas, de outras maneiras, me sinto rico.

 

Fonte: The Guardian

 

O sebo bovino é realmente seguro para a saúde e a pele?

Em março, o secretário de saúde, Robert F. Kennedy Jr., afirmou que o sebo bovino , uma gordura animal, é mais saudável do que sua alternativa vegetal, os óleos de sementes. Kennedy disse que os EUA querem que as empresas alimentícias " troquem os ingredientes tradicionais por sebo bovino". Algumas, como a Steak 'n Shake e a Sweetgreen , já o fizeram.

O sebo bovino, também conhecido como "gotejamento bovino", é produzido pela remoção, fervura e resfriamento do tecido adiposo que envolve os órgãos do gado. Restaurantes de fast-food americanos o utilizavam para fritar alimentos como batatas até a década de 1990 , quando passaram a usar óleos de sementes . Hoje, pode ser encontrado em sabonetes, velas e produtos para cuidados com a pele .

No ano passado, Kennedy postou no X que "é hora de transformar óleo de fritura em sebo novamente", acrescentando que os óleos de sementes "são uma das principais causas da epidemia de obesidade" e que os americanos estão "sendo envenenados sem saber" por eles.

Mas será que o sebo bovino é realmente a opção mais saudável? E é seguro ou benéfico para a pele? Veja o que os especialistas dizem.

<><> O sebo bovino é saudável?

Não há benefícios conhecidos para a saúde no consumo de sebo bovino, afirma Christopher Gardner, cientista nutricional e professor de medicina na Faculdade de Medicina da Universidade de Stanford.

A gordura bovina é uma das principais fontes alimentares de gordura saturada , juntamente com manteiga, banha, óleo de palma e óleo de coco, de acordo com a American Heart Association (AHA).

As gorduras saturadas — comumente encontradas em hambúrgueres, tacos, sobremesas e queijo — são bem conhecidas por aumentar o colesterol LDL (o colesterol "ruim"), o que, com o tempo, causa acúmulo de placas nas artérias, o que pode levar a doenças cardíacas.

As Diretrizes Dietéticas para Americanos de 2020-2025 estabelecem que a gordura saturada deve representar menos de 10% da ingestão calórica diária de uma pessoa. No entanto, cerca de 70% a 75% dos adultos nos EUA ultrapassam esse limite. A mesma recomendação se aplica ao Reino Unido, onde cerca de 80% da população excede o limite, segundo estimativas.

<><> O sebo bovino é mais saudável que o óleo de sementes?

Não. Vários estudos mostram que dietas ricas em gorduras saturadas, como sebo bovino, e pobres em gorduras insaturadas, como óleos de sementes, estão associadas a piores resultados de saúde, afirma Alice Lichtenstein, professora de ciência e política nutricional na Universidade Tufts.

Uma revisão de 2017 da AHA concluiu que a substituição de gordura saturada por óleo vegetal poli-insaturado reduziu os eventos de doenças cardiovasculares em 30% , um efeito semelhante ao de medicamentos para baixar o colesterol. Estudos observacionais também descobriram que esse tipo de dieta está associado a taxas mais baixas de outras causas importantes de morte.

Um estudo publicado no mês passado descobriu que substituir a manteiga, também conhecida como gordura saturada, por óleos vegetais ajuda a prevenir a morte prematura por câncer e doenças cardíacas.

Alegações incorretas sobre os efeitos inflamatórios dos óleos de sementes se espalham há anos, mas Gardner diz que elas são resultado de interpretações errôneas.

Os óleos de sementes são mais ricos em ácidos graxos ômega-6 e mais pobres em ômega-3, ambos gorduras poli-insaturadas que o corpo utiliza para reduzir o colesterol ruim. Em estudos de laboratório e com animais, os primeiros parecem causar mais inflamação do que os últimos, diz Lichtenstein. No entanto, estudos em humanos não produziram resultados semelhantes.

“Em algum momento, as pessoas inverteram isso e disseram que o ômega-6 é ruim e, portanto, os óleos de sementes estão nos matando”, diz Gardner. “Mas não é assim que funciona.”

Conectar óleos de sementes ao aumento das taxas de obesidade nos EUA também é enganoso, diz Gardner. Os americanos estão consumindo mais alimentos ultraprocessados , muitos dos quais contêm açúcares e sódio adicionados, que contribuem para a obesidade. Muitos alimentos industrializados também contêm óleos de sementes, diz Gardner, mas isso não significa que eles sejam os únicos culpados.

“Posso quase garantir que as pessoas que comem muitos biscoitos, bolos, batatas fritas e donuts feitos com sebo bovino não ficarão mais saudáveis de repente”, diz Gardner.

<><> O sebo bovino é seguro para a pele?

O sebo bovino é tecnicamente seguro para a pele, afirma a Dra. Heather Rogers, dermatologista e professora assistente clínica da Universidade de Washington. Algumas empresas de cuidados com a pele incluem o ingrediente em seus desodorantes, manteigas corporais e bálsamos labiais e faciais.

Ainda assim, não vale necessariamente a pena usá-lo em cuidados com a pele, diz Rogers. Pode ter um cheiro ruim (alguns dizem que tem um aroma parecido com urina ), além de ficar rançoso rapidamente e manchar roupas, lençóis e travesseiros, diz ela.

“Tive vários pacientes e amigos que usaram sebo bovino como um tratamento 'milagroso' para a pele”, diz Rogers, “mas nenhum deles o usou por muito tempo porque não é uma experiência agradável”.

Além disso, Rogers diz que as empresas de cuidados com a pele costumam misturar sebo bovino com óleos essenciais para tornar seus produtos mais atraentes. "Fragrâncias são uma causa muito comum de reação alérgica", diz ela. "Então, você pega algo que é aceitável e depois piora a situação."

Outra ressalva: produtos químicos se acumulam na gordura, então o sebo bovino pode conter substâncias nocivas, como pesticidas, se o gado de onde ele veio tiver sido exposto a eles, diz Rogers. Se você planeja usar sebo bovino na pele, use produtos de vacas alimentadas com capim ou criadas organicamente, diz ela.

<><> Sebo bovino é bom para o rosto?

O sebo bovino pode prevenir a perda de água quando aplicado no rosto, diz Rogers, mas ainda assim não é um bom hidratante. "Hidratante, por definição, é uma combinação de óleo e água", diz ela. "Sua pele precisa de ambos, mas o sebo bovino é apenas gordura, então você não obtém nenhum benefício adicional."

O sebo bovino também é comedogênico, especialmente para pessoas com pele oleosa, diz Rogers. Isso significa que pode obstruir os poros e causar acne – no entanto, isso ainda não foi estudado exaustivamente, acrescenta ela.

O sebo bovino contém pequenas quantidades de vitaminas D, A, K e E, diz Rogers. No entanto, não contém as vitaminas que comprovadamente são "mais poderosas para a nossa pele", como a vitamina C.

Dito isso, o sebo bovino tem um efeito oclusivo, ou selante. Assim como a vaselina ou o óleo de rícino, ele pode ajudar a pele danificada por eczema ou outras doenças de pele e lesões a cicatrizar mais rapidamente, diz Rogers: "Sua pele precisa manter seus níveis de água para se curar. Quando você tem uma ferida aberta, toda essa água evapora, a pele resseca e forma uma crosta." Produtos oclusivos podem ajudar a reter essa água.

Mas a gordura bovina "não é um tratamento milagroso", diz ela, e os dermatologistas não a recomendam. "Não vai ajudar com rugas ou acne", diz Rogers. "Não ativa nenhuma mudança na sua pele."

Rogers afirma que a manteiga de karité – gordura extraída da semente da árvore de karité – é uma alternativa semelhante, porém mais eficaz, ao sebo bovino para o cuidado da pele. Ela é menos saturada, não comedogênica, tem efeitos anti-inflamatórios e mais antioxidantes, o que protege as células da pele contra danos e melhora a textura da pele, afirma ela.

“Existem tantas opções maravilhosas por aí, mas para mim a banha de boi é um extremo”, diz Rogers.

<><> A lição para viagem

Um único ingrediente em pequenas doses raramente tem um grande impacto na sua saúde, portanto, remover ou adicionar algo como sebo bovino à sua dieta não fará uma grande diferença, diz Lichtenstein. Em vez disso, considere "o pacote completo", incluindo o que você come e o que não come, diz ela, e busque uma dieta bem balanceada em frutas, vegetais e grãos integrais.

Para reduzir a ingestão de gordura saturada, especialistas recomendam comer carne magra e queijo com baixo teor de gordura, por exemplo, ou recorrer a outras fontes de proteína, como feijão. Cozinhe com óleo de canola, milho, oliva ou soja em vez de manteiga e tente comer doces com menos frequência.

“Estamos sempre buscando a resposta fácil que vai melhorar tudo, como se pudéssemos ter o bolo e comê-lo também. Mas fazer o bolo com sebo bovino não vai melhorar a situação”, diz Lichtenstein. “A maior parte das evidências indica que isso não terá um efeito positivo e, para muitas pessoas, terá um efeito negativo.”

 

Fonte: The Guardian

 

Franqueados da Cacau Show relatam prejuízos milionários e impactos das dívidas na vida pessoal

São muitas as histórias parecidas. E elas começam com o encantamento, a “magia” da maior franquia de chocolates do país, a expectativa de um bom negócio, a empolgação com a realização de um sonho.

Até que chegam as primeiras cobranças, taxas e multas que não haviam sido mencionadas lá no início. Aditamentos do contrato, novos preços pelos produtos. Para continuarem funcionando, os franqueados encomendam mais produtos, na expectativa de vender mais e ter lucro. Surgem dívidas impagáveis com a franqueadora, avalizadas com bens como casas e carros do franqueados. É quando começa o pesadelo.

A coluna ouviu relatos de dezenas de franqueados. A maioria opta pelo anonimato por causa do medo. Além das retaliações, eles devem para a Cacau Show. Não conseguem sair sem assumir dívidas mirabolantes ou abrirem mão dos bens que foram dados como garantia. O contrato prevê, ainda, a interferência da Cacau Show na venda das lojas falidas, avaliando os compradores que passam a ser, também, franqueados da rede.

Dona Irene Angelis, ex-franqueada há quase uma década, vê um ciclo. “A sensação que eu tenho é que quanto mais franqueado quebrar, mais loja ele vai repassar, vai ganhar taxa de franquia, vai ganhar juros. Virou uma indústria. E ele lucra com tudo. Ficou bilionário deixando um rastro de pessoas quebradas”, revela dona Irene, que chegou a ter seis lojas da rede.

“É um rastro de gente doente, gente que perdeu a casa, que não consegue dormir, gente que não dorme, gente com problemas psicológicos”, completa. Dona Irene conta que ficou doente, desenvolveu síndrome do pânico e insuficiência cardíaca. Perdeu R$ 3 milhões.

“Quando você entra, quando você assina os contratos, é um mar de rosas. Depois, o contrato vai mudando, vai fazendo aditamento. E você já está amarrado, não tem como pular fora. Não tem essa de não tá bom, sai. Você já colocou o seu dinheiro”, relata.

>>>> “Vai benzer”

Quando o mundo mágico oferecido aos franqueados começa a ruir, muitos procuram ajuda, mas, ao invés de planos de negócios, apoio ou qualquer ajuda realmente útil, escutam discursos motivacionais. Uma franqueada conta que procurou a consultora que atendia a loja e escutou que “precisava se benzer”. “Ela insinuou que era só comigo”, lembra.

A franqueada conta que procurou cursos de formação antes de realizar o sonho de montar uma loja da Cacau Show. Peguei minhas economias, investi no sonho de ter uma loja. E, depois de três anos trabalhando feito louca, sem folga, sem férias, sem passar Natal nem Páscoa com a minha família, saí cheia de dívidas, muito abalada emocional e psicologicamente”, relata.

>>>> “Morta-viva”

“Perdi a vontade de viver, me sinto uma morta-viva”, conta uma franqueada que ainda tenta se desfazer da loja montada por ela. “Sonhei por muito tempo, envolvi toda a minha família, todo mundo ajudou. Quando as coisas começaram a dar errado, eu não aceitei, insisti, achei que, me dedicando mais, eu viraria o jogo”, pontua.

“Eu sentia que o problema era eu, já que via tantos casos de sucesso. Fui ficando doente e me endividando”, lembra. Ela conta ter uma dívida de R$ 750 mil e diz não saber como irá quitá-la. “Não sei como reagir, sinto medo e vergonha.”

Enchente

A comoção em todo o país por causa das enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 não fez a Cacau Show mudar qualquer regra ou cobrança. Após ver sua loja destruída, uma franqueada procurou ajuda e recebeu cobranças.

“A água foi até o teto. Montanhas de chocolates, móveis, eletrônicos, eletrodomésticos, louças. Tudo foi pela sarjeta”, conta. “Ao invés de qualquer apoio, recebi ligações de consultores questionando o motivo de a loja estar fechada, sem vendas.”

Ela precisou pagar pelos produtos destruídos. “A pior parte foi a cobrança de toda a mercadoria perdida, com royalties, taxas. Não isentaram o pagamento de nada, nem um desconto”, revela. Ao tentar sair, ela pediu ajuda novamente, tentou negociar a dívida. Ouviu outro não.

“Essa franquia é desumana, fora as perdas financeiras, tem a perda da saúde mental e física”, ressalta. “Pra mim, é praticamente uma pirâmide, uma organização criminosa, contam sempre com o fluxo de novos franqueados ingressando na rede. O produto e o cuidado com ele são o que menos importa. O negócio é cobrar taxas e mais taxas, multas… e assim eles vão extorquindo os desavisados. E por precisarem deste fluxo de gente nova entrando, pregam a cultura do medo, do silêncio, da mordaça, ninguém pode falar mal, ir contra eles, para não contaminar os novos”, afirma.

>>>> Seita

A coluna mostrou que franqueados da Cacau Show relatam o clima de “seita” dentro da maior rede de franquias do Brasil, com punições para quem questiona as normas e práticas da empresa. Quem comanda boa parte dos momentos devocionais é Alexandre Tadeu da Costa, conhecido como Alê Costa, fundador e CEO da Cacau Show – que hoje conta com mais de 4 mil unidades espalhadas em todo o país.

A realidade de parte deles, no entanto, é bem diferente da apresentada por Alê Costa nas redes sociais e em entrevistas em programas especializados de negócios. Franqueados relatam, por exemplo, que, ao reclamarem de problemas, como cobranças ou mudanças no valor dos produtos, passaram a ser perseguidos. Uma das retaliações era a disponibilização de chocolates com validade prestes a expirar, bem como produtos encalhados, com pouca saída, para venda. Essa situação, muitas vezes, inviabiliza o funcionamento das franquias e leva os empresários a fecharem as portas.

“É inequívoco que a política interna da demandada [Cacau Show] afronta o princípio constitucional da liberdade profissional, porquanto, a restrição de crédito para fornecimento exclusivo de produtos, instrumento essencial da atividade econômica, sob a alegação de existência de litígios judiciais entre franqueado e franqueadora, não está amparada em motivo idôneo e constitui mero revanchismo, uso arbitrário das próprias razões por via transversa, cuja finalidade não é outra senão inibir o legítimo direito constitucional de ação dos demandantes [franqueados], o que também viola o princípio constitucional da inafastabilidade da jurisdição”, apontou o juiz Julio Roberto dos Reis.

Insatisfeitos, franqueados criaram um perfil em uma rede social para compartilhar relatos. A página foi batizada de “Doce Amargura”. A responsável, que ainda é franqueada, optou por um pseudônimo, devido ao medo de novas retaliações. Ela, no entanto, foi surpreendida por uma visita do vice-presidente da Cacau Show, Túlio Freitas. A loja dela, no interior de São Paulo, fica a mais de 600 km da sede da empresa. Segundo a empresária, o vice-presidente a perguntou “o que era preciso” para que ela parasse. Agora, a mulher tenta, judicialmente, rescindir o contrato com a Cacau Show.

Após a publicação do texto, a Cacau Show afirmou, por meio de nota, que “não reconhece as alegações apresentadas pelo perfil Doce Amargura em redes sociais. “Somos uma marca construída com base na confiança mútua, no respeito e na conexão genuína com nossos franqueados”, diz o comunicado.

“Cada experiência é única e pessoal. Prezamos por relações próximas, transparentes e sempre pautadas pelo diálogo — pilares que sustentam nosso crescimento conjunto e tornam possível a construção de uma jornada empreendedora repleta de conquistas e momentos especiais.”

O texto também afirma que “o diretor comercial, Túlio Freitas, realiza visitas às lojas como parte de suas atribuições, com o objetivo de fortalecer o relacionamento com os franqueados e entender as necessidades do negócio”. “Essas visitas são realizadas de forma profissional e não têm qualquer relação com o perfil mencionado.”

“Não compactuamos com qualquer conduta que contrarie esses valores. Seguimos firmes em nosso propósito: vivemos para, juntos, tocar a vida das pessoas, compartilhando momentos especiais”, encerra a nota.

•        Franqueados afirmam que rede funciona como “seita”

Grandes eventos motivacionais com palestras, música alta, discursos e depoimentos emocionantes de sucesso. Lives e encontros virtuais para falar do poder da iniciativa, do pensamento positivo e da dedicação incansável à empresa. E, ao mesmo tempo, total ausência de espaço para discutir cláusulas dos contratos e as políticas da empresa – como aumento abrupto dos preços dos produtos.

Franqueados da Cacau Show relatam o clima de “seita” dentro da maior rede de franquias do Brasil, com punições para quem questiona as normas e práticas da empresa. Quem comanda boa parte dos momentos devocionais é Alexandre Tadeu da Costa, conhecido como Alê Costa, fundador e CEO da Cacau Show – que hoje conta com mais de 4 mil unidades espalhadas em todo o país.

A realidade de parte deles, no entanto, é bem diferente da apresentada por Alê Costa nas redes sociais e em entrevistas em programas especializados de negócios. Franqueados relatam, por exemplo, que ao reclamarem de problemas, como cobranças ou mudanças no valor dos produtos, passaram a ser perseguidos recebendo chocolates para vender com a validade perto de expirar e produtos encalhados com pouca saída. Situação que, muitas vezes, inviabiliza o funcionamento das franquias e leva os empresários a fecharem as portas.

Na Justiça, a Cacau Show acumula processos por cobranças indevidas e por não fornecer produtos de forma adequada para lojas franqueadas. Caso em que as retaliações ficam ainda mais rígidas. Processo que tramita na 25ª Vara Cível de Brasília evidencia que punições como a retirada de crédito – obrigando os franqueados a comprarem os produtos à vista – é institucionalizada, com previsão contratual.

“É inequívoco que a política interna da demandada [Cacau Show] afronta o princípio constitucional da liberdade profissional, porquanto, a restrição de crédito para fornecimento exclusivo de produtos, instrumento essencial da atividade econômica, sob a alegação de existência de litígios judiciais entre franqueado e franqueadora, não está amparada em motivo idôneo e constitui mero revanchismo, uso arbitrário das próprias razões por via transversa, cuja finalidade não é outra senão inibir o legítimo direito constitucional de ação dos demandantes [franqueados], o que também viola o princípio constitucional da inafastabilidade da jurisdição”, apontou o juiz Julio Roberto dos Reis.

Insatisfeitos, franqueados criaram um perfil em uma rede social para compartilhar relatos. A página foi batizada de “Doce Amargura”. A responsável, que ainda é franqueada, com medo de novas retaliações, optou por um pseudônimo. Ela, no entanto, foi surpreendida por uma visita do vice-presidente da Cacau Show, Túlio Freitas. A loja dela, no interior de São Paulo, fica a mais de 600 km da sede da empresa. Segundo ela, o vice-presidente a perguntou “o que era preciso” para que ela parasse. Agora, ela tenta, judicialmente, rescindir o contrato com a Cacau Show.

•        Funcionários relatam ritual comandado por CEO

Há dias em que todos os funcionários da sede da Cacau Show precisam ir para o trabalho vestidos de branco. O motivo? A participação em um ritual comandado pelo fundador e CEO da empresa, Alexandre Tadeu da Costa, conhecido como Alê Costa.

O momento, segundo relatos de funcionários e ex-funcionários, é solene. Eles são convidados, após tirarem os sapatos e se estiverem vestidos adequadamente, a entrarem em uma sala escura, iluminada apenas por velas, onde encontram Alê Costa repetindo cânticos.

Lá dentro, acompanham o líder repetindo as palavras, como se fosse uma prece, enquanto caminham, atrás dele, em círculos. A participação não é obrigatória, mas, assim como no caso dos franqueados, quem questiona ou não demonstra entusiasmo com as regras passa a ser perseguido.

As situações constrangedoras não param por aí. Denúncias como a proibição de que funcionárias engravidem chegaram a ser protocoladas no Ministério Público do Trabalho (MPT).

O documento, acolhido pelo MPT, aponta ainda outras situações abusivas, como gordofobia, “com humilhações públicas e discriminação estética que afetam a autoestima e saúde mental das vítimas”; homofobia, “com relatos de perseguição e piadas ofensivas direcionadas a pessoas LGBTQIA+”; e assédio moral e sexual, “promovido por superiores hierárquicos e, em muitos casos, ignorado ou acobertado pela direção da empresa”.

A denúncia também aponta a realidade de medo e apreensão vivenciada pelos funcionários. “A maioria das vítimas tem medo de denunciar e sofre em silêncio, pois a franqueadora tem mão de ferro, e gosta de perseguir e retaliar não apenas franqueados, como funcionários e ex-funcionários que ousem falar sobre os abusos”, diz o documento.

•        Funcionários são “incentivados” a fazerem tatuagens iguais a de CEO

Além dos “rituais corporativos”, funcionários da Cacau Show relatam que as cerimônias comandadas pelo fundador e CEO da rede, Alexandre Tadeu da Costa, conhecido como Alê Costa, incluem incentivos a decisões mais definitivas.

Em encontro com lideranças da empresa, Alê Costa chegou a levar um tatuador para que ele reproduzisse nos funcionários a mesma tatuagem que ele carrega no antebraço com a palavra “atitude”. No discurso, Alê Costa disse que a inscrição na pele indicaria o engajamento e o compromisso com a empresa.

A tatuagem também era exibida em cursos a distância para novos funcionários. Na gravação, ele mostrava a tatuagem e dizia que atitude — a palavra tatuada — era fundamental para vender mais, por isso ele havia tatuado.

Ritual

Como mostrou a coluna, a empresa tem diversos “rituais corporativos”, como os integrantes da empresa definem os momentos devocionais. Há dias em que todos os funcionários da sede da Cacau Show precisam ir para o trabalho vestidos de branco.

O momento, segundo relatos de funcionários e ex-funcionários, é solene. Eles são convidados, após tirarem os sapatos e se estiverem vestidos adequadamente, a entrarem em uma sala escura, iluminada apenas por velas, onde encontram Alê Costa repetindo cânticos.

Lá dentro, acompanham o líder repetindo as palavras, como se fosse uma prece, enquanto caminham, atrás dele, em círculos. A participação não é obrigatória, mas, assim como no caso dos franqueados, quem questiona ou não demonstra entusiasmo com as regras passa a ser perseguido.

As situações constrangedoras não param por aí. Denúncias como a proibição de que funcionárias engravidem chegaram a ser protocoladas no Ministério Público do Trabalho (MPT).

O documento, acolhido pelo MPT, aponta ainda outras situações abusivas, como gordofobia, “com humilhações públicas e discriminação estética que afetam a autoestima e saúde mental das vítimas”; homofobia, “com relatos de perseguição e piadas ofensivas direcionadas a pessoas LGBTQIA+”; e assédio moral e sexual, “promovido por superiores hierárquicos e, em muitos casos, ignorado ou acobertado pela direção da empresa”.

A denúncia também aponta a realidade de medo e apreensão vivenciada pelos funcionários. “A maioria das vítimas tem medo de denunciar e sofre em silêncio, pois a franqueadora tem mão de ferro, e gosta de perseguir e retaliar não apenas franqueados, como funcionários e ex-funcionários que ousem falar sobre os abusos”, diz o documento.

 

Fonte: Metrópoles

 

As Coreias estão em uma guerra de informações — e Kim Jong Un pode estar vencendo

A fronteira entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul é cercada por densas cercas de arame farpado e centenas de postos de guarda. Mas, espalhado entre eles, há algo ainda mais incomum: alto-falantes gigantes, camuflados em verde.

Enquanto eu observava o Norte numa tarde do mês passado, um dos alto-falantes começou a tocar músicas pop sul-coreanas em volume alto, intercaladas com mensagens subversivas.

"Quando viajamos para o exterior, isso nos energiza", ecoou uma voz feminina do outro lado da fronteira — uma provocação óbvia, já que os norte-coreanos não têm permissão para sair do país.

Do lado norte-coreano, eu podia ouvir de longe uma música de propaganda militar, enquanto seu regime tentava abafar as transmissões inflamatórias.

Tecnicamente, a Coreia do Norte e a Coreia do Sul ainda estão em guerra e, embora já tenham se passado anos desde que um dos lados atacou o outro, os dois lados estão lutando em uma frente mais sutil: uma guerra de informação.

O Sul tenta enviar informações ao Norte, e o líder da Coreia do Norte, Kim Jong Un, tenta a todo custo bloqueá-las.

A Coreia do Norte é o único país do mundo onde a internet ainda não penetrou. Todos os canais de TV, estações de rádio e jornais são administrados pelo Estado.

"A razão para esse controle é que grande parte da mitologia em torno da família Kim é inventada. Muito do que eles contam às pessoas são mentiras", diz Martyn Williams, pesquisador do Stimson Center, sediado em Washington, e especialista em tecnologia e informação norte-coreana.

Expor essas mentiras a um número suficiente de pessoas pode fazer com que o regime caia. É isso que pensa a Coreia do Sul.

Os alto-falantes são uma ferramenta usada pelo governo sul-coreano, mas, nos bastidores, um movimento clandestino mais sofisticado está crescendo.

Um pequeno número de emissoras e organizações sem fins lucrativos transmitem informações para o país na calada da noite em ondas de rádio curtas e médias, para que os norte-coreanos possam sintonizar e ouvir em segredo.

Milhares de pendrives e cartões micro-SD são contrabandeados pela fronteira todo mês, carregados com informações estrangeiras — entre elas, filmes sul-coreanos, dramas de TV e músicas pop, além de notícias, tudo criado para desafiar a propaganda norte-coreana.

Mas agora aqueles que trabalham na área temem que a Coreia do Norte esteja em vantagem.

Kim não só está reprimindo duramente aqueles flagrados com conteúdo estrangeiro, como o futuro desse trabalho pode estar em risco. Grande parte dele é financiado pelo governo dos EUA e foi afetado pelos recentes cortes do presidente americano, Donald Trump, a programas de ajuda humanitária.

Como isso afeta a longa guerra de informação entre os dois lados?

<><> Contrabandeando música pop e séries de TV

Todo mês, uma equipe do Unification Media Group (UMG), uma organização sem fins lucrativos sul-coreana, analisa as últimas notícias e ofertas de entretenimento para criar playlists que eles esperam que repercutam na população do Norte.

Em seguida, eles os carregam em dispositivos, que são categorizados de acordo com o risco de visualização. Em pendrives de baixo risco, estão dramas da TV sul-coreana e músicas pop — recentemente, eles incluíram uma série romântica da Netflix, Se a Vida te Der Tangerinas..., e um hit da popular cantora e rapper sul-coreana Jennie.

As opções de alto risco incluem o que a equipe chama de "programas educacionais" – informações para ensinar os norte-coreanos sobre democracia e direitos humanos, o conteúdo que Kim supostamente mais teme.

Os pendrives são então enviados para a fronteira chinesa, onde os parceiros de confiança da UMG os transportam através do rio para a Coreia do Norte, correndo grande risco.

As séries dramáticas da TV sul-coreana podem parecer inofensivas, mas revelam muito sobre a vida cotidiana no país — pessoas morando em apartamentos altos, dirigindo carros velozes e comendo em restaurantes de luxo. Isso destaca tanto a liberdade deles quanto o atraso da Coreia do Norte.

E desafia uma das maiores invenções de Kim: a de que os habitantes do Sul são pobres e miseravelmente oprimidos.

"Algumas [pessoas] nos dizem que choraram assistindo a esses dramas e que eles as fizeram pensar sobre seus próprios sonhos pela primeira vez", diz Lee Kwang-baek, diretor da UMG.

É difícil saber exatamente quantas pessoas acessam os pen drives, mas depoimentos de desertores recentes parecem sugerir que as informações estão se espalhando e causando impacto.

"A maioria dos desertores e refugiados norte-coreanos recentes dizem que foi o conteúdo estrangeiro que os motivou a arriscar suas vidas para escapar", diz Sokeel Park, cuja organização Liberty in North Korea trabalha para distribuir esse conteúdo.

Não há oposição política nem dissidentes conhecidos na Coreia do Norte, e reunir-se para protestar é muito perigoso, mas Park espera que alguns se sintam inspirados a realizar atos individuais de resistência.

<><> Fuga da Coreia do Norte

Kang Gyuri, de 24 anos, cresceu na Coreia do Norte, onde administrava um negócio de pesca. No final de 2023, ela fugiu para a Coreia do Sul de barco.

Assistir a programas de TV estrangeiros a inspirou, em parte, a fugir, diz ela. "Eu me sentia tão sufocada e, de repente, tive uma vontade enorme de ir embora."

Quando nos encontramos em um parque em uma tarde ensolarada em Seul no mês passado, ela se lembrou de ouvir programas de rádio com a mãe quando criança. Ela assistiu ao seu primeiro K-drama aos 10 anos. Anos depois, descobriu que pendrives e cartões SD estavam sendo contrabandeados para o país dentro de caixas de frutas.

Quanto mais observava, mais percebia que o governo estava mentindo para ela. "Eu achava normal que o Estado nos restringisse tanto. Achei que outros países convivessem com esse controle. Mas depois percebi que isso só acontecia na Coreia do Norte."

Quase todas as pessoas que ela conhecia assistiam a programas de TV e filmes sul-coreanos. Ela e seus amigos trocavam seus pendrives.

"Conversamos sobre os dramas e atores populares e os ídolos do K-pop que achávamos bonitos, como alguns membros do BTS."

"Também falávamos sobre como a economia da Coreia do Sul era tão desenvolvida; simplesmente não podíamos criticar o regime norte-coreano diretamente."

Os programas também influenciaram a maneira como ela e seus amigos conversavam e se vestiam. "A juventude norte-coreana mudou rapidamente."

<><> Esquadrões de repressão juvenil e punições

Kim Jong Un, ciente do risco disso tudo para seu regime, está revidando.

Durante a pandemia, ele construiu novas cercas elétricas ao longo da fronteira com a China, dificultando o contrabando de informações. E novas leis introduzidas em 2020 aumentaram as punições para quem é flagrado consumindo e compartilhando mídia estrangeira. Uma delas afirma que aqueles que distribuem esse conteúdo podem ser presos ou executados.

Isso teve um efeito inibidor. "Essa mídia costumava estar disponível para compra em mercados. As pessoas a vendiam abertamente, mas agora você só pode obtê-la de pessoas em quem confia", diz Lee.

Após o início da repressão, Kang e suas amigas também ficaram mais cautelosas. "Não conversamos mais sobre isso, a menos que sejamos muito próximas, e mesmo assim somos muito mais reservadas", admite ela.

Ela diz estar ciente de que mais jovens estão sendo executados por serem flagrados com conteúdo sul-coreano.

Recentemente, Kim também reprimiu comportamentos que poderiam ser associados à exibição de K-dramas. Em 2023, ele tornou crime o uso de frases ou sotaques sul-coreanos.

Membros de "esquadrões de repressão à juventude" patrulham as ruas, encarregados de monitorar o comportamento dos jovens. Kang lembra de ter sido parada com mais frequência, antes de escapar, e repreendida por se vestir e pentear como uma sul-coreana.

Os esquadrões confiscavam seu telefone e liam suas mensagens de texto para ter certeza de que ela não havia usado nenhum termo sul-coreano.

No final de 2024, um celular norte-coreano foi contrabandeado para fora do país pelo Daily NK (serviço de notícias da organização de mídia UMG, sediada em Seul).

O telefone foi programado para que, quando uma variante sul-coreana de uma palavra fosse digitada, ela desaparecesse automaticamente, substituída pelo equivalente norte-coreano — algo quase orwelliano.

"Os smartphones agora são parte integrante da maneira como a Coreia do Norte tenta doutrinar as pessoas", diz Williams.

Após todas essas medidas repressivas, ele acredita que a Coreia do Norte está "começando a levar vantagem" nessa guerra de informação.

<><> O efeito Trump

Após o retorno de Donald Trump à Casa Branca no início deste ano, foram cortados fundos para diversas organizações de ajuda humanitária, incluindo algumas que trabalham para informar os norte-coreanos. Ele também suspendeu o financiamento de dois serviços de notícias financiados pelo governo federal: a Rádio Free Asia e a Voz da América (VOA), que transmitiam notícias todas as noites para a Coreia do Norte.

Trump acusou a VOA de ser "radical" e anti-Trump. A Casa Branca disse que a medida "garantiria que os contribuintes não seriam mais responsáveis por propaganda radical".

Mas Steve Herman, ex-chefe do escritório da VOA em Seul, argumenta: "Esta era uma das poucas janelas para o mundo que o povo norte-coreano tinha, e ela ficou em silêncio sem nenhuma explicação."

A UMG ainda está esperando para descobrir se seu financiamento será cortado permanentemente.

Park, da Liberty na Coreia do Norte, argumenta que Trump "incidentalmente" deu uma ajuda a Kim e chama a atitude de "miopia".

Ele argumenta que a Coreia do Norte, com sua crescente coleção de armas nucleares, representa uma grande ameaça à segurança — e que já que a diplomacia e a pressão militar não conseguiram convencer Kim a desnuclearizar, a informação é a melhor arma que sobra.

"Não estamos apenas tentando conter a ameaça da Coreia do Norte, estamos tentando resolvê-la", argumenta ele. "Para isso, é preciso mudar a natureza do país."

"Se eu fosse um general americano, estaria perguntando 'quanto custa isso? E, na verdade, esse é um bom uso dos nossos recursos'".

<><> Quem deve pagar a conta?

A questão que permanece é: quem deve financiar esse trabalho? Alguns questionam por que ele recaiu quase inteiramente sobre os EUA.

Uma solução poderia ser a Coreia do Sul pagar a conta, mas a questão da Coreia do Norte é fortemente politizada aqui.

O partido liberal de oposição tende a tentar melhorar as relações com Pyongyang, o que significa que financiar a guerra de informação é inviável. O candidato do partido nas eleições presidenciais da próxima semana já indicou que desligaria os alto-falantes se eleito.

Mesmo assim, Park continua esperançoso. "O lado bom é que o governo norte-coreano não pode entrar na cabeça das pessoas e extrair informações que vêm sendo acumuladas há anos", ressalta.

E, com o desenvolvimento das tecnologias, ele está confiante de que a disseminação de informações ficará mais fácil. "A longo prazo, acredito mesmo que isso será o que mudará a Coreia do Norte."

¨      Guerra nuclear espacial: a ameaça de Kim Jong-um contra ‘Domo de Ouro’ de Trump

A Coreia do Norte criticou o plano dos Estados Unidos de criar um escudo antimísseis futurista chamado "Domo de Ouro", afirmando que a iniciativa pode "transformar o espaço sideral em um potencial campo de guerra nuclear".

O sistema de defesa, que o presidente Donald Trump pretende lançar até o fim de seu mandato, tem como objetivo combater ameaças aéreas de "próxima geração" aos EUA, incluindo mísseis balísticos e de cruzeiro.

O Ministério das Relações Exteriores de Pyongyang classificou o plano como "o auge da presunção e arrogância", segundo noticiou a mídia estatal.

A chancelaria norte-coreana acusou o governo americano de estar "obcecado" com a militarização do espaço sideral e alertou que o projeto pode desencadear "uma corrida global armamentista nuclear e espacial".

A Coreia do Norte considera os Estados Unidos um inimigo e rotineiramente condena os exercícios militares conjuntos entre os EUA e a Coreia do Sul.

Para Pyongyang, o Domo de Ouro representa uma ameaça capaz de "enfraquecer significativamente" seu arsenal nuclear, disse Hong Min, analista sênior do Instituto Coreano para a Unificação Nacional, à agência AFP.

"Se os EUA concluírem seu novo programa de defesa antimísseis, o Norte será forçado a desenvolver meios alternativos para contorná-lo ou neutralizá-lo", afirmou.

Em 2022, o regime norte-coreano aprovou uma lei que declara o país como potência nuclear, e nos últimos anos tem testado diferentes tipos de mísseis balísticos e de cruzeiro.

No início deste ano, alegou ter disparado um novo míssil balístico de alcance intermediário com ogiva hipersônica, que, segundo Pyongyang, "será capaz de conter de forma confiável quaisquer rivais na região do Pacífico".

A Coreia do Norte se junta à China nas críticas ao plano dos EUA. Pequim afirmou na semana passada estar "seriamente preocupada" com o Domo de Ouro, que, segundo o governo chinês, tem "fortes implicações ofensivas".

"Os Estados Unidos, ao seguir uma política de 'EUA em primeiro lugar', estão obcecados em buscar segurança absoluta para si mesmos", disse o Ministério das Relações Exteriores da China.

"Isso viola o princípio de que a segurança de todos os países não deve ser comprometida e mina o equilíbrio e a estabilidade estratégicos globais."

Muitos analistas consideram necessária uma atualização dos sistemas de defesa limitados dos EUA, mas alertam que o desenvolvimento do Domo de Ouro pode enfrentar desafios técnicos e políticos.

Um dos obstáculos é o alto custo: uma verba inicial de US$ 25 bilhões (cerca de R$ 141 bilhões) já foi reservada em um novo projeto de orçamento — embora o governo estime que o valor final possa ser até 20 vezes maior ao longo das décadas.

 

Fonte: BBC News em Seul