segunda-feira, 2 de setembro de 2024

Por que a geração Z e os millennials não atendem mais o telefone

"Olá, esta é a caixa postal de Yasmin Rufo. Por favor, não deixe mensagem, pois não vou ouvir, nem ligar de volta."

Infelizmente, esta não é a mensagem da minha caixa postal. Mas eu certamente gostaria que fosse, bem como a maior parte dos jovens da geração Z (nascidos entre 1995 e 2010) e dos millennials (nascidos entre 1981 e 1995).

Uma pesquisa recente concluiu que 25% das pessoas com 18 a 34 anos de idade nunca atendem o telefone. Os participantes responderam que ignoram o toque, respondem por mensagens de texto ou pesquisam o número online se for desconhecido.

A pesquisa do site Uswitch envolveu 2 mil pessoas. Ela também concluiu que cerca de 70% das pessoas com 18 a 34 anos preferem mensagens de texto a chamadas telefônicas.

Para as gerações mais velhas, falar ao telefone é normal. Meus pais passaram a adolescência brigando com seus irmãos pelo telefone fixo no corredor, o que só fazia com que toda a família ouvisse as suas conversas.

Já a minha adolescência foi passada em mensagens de texto. Fiquei obcecada por elas desde o momento em que ganhei meu Nokia cor-de-rosa de presente de aniversário, com 13 anos de idade.

Eu passava todas as noites depois da escola redigindo textos de 160 caracteres para os meus amigos.

Eu retirava todas as vogais e espaços desnecessários, até que a mensagem parecesse um grupo de consoantes aleatórias que os próprios serviços de inteligência teriam dificuldade de decifrar. Afinal, eu nunca iria pagar a mais para escrever 161 caracteres.

E, em 2009, as ligações telefônicas do meu celular custavam uma fortuna. "Nós não demos este telefone para você fofocar com suas amigas a noite inteira", relembravam meus pais sempre que recebiam minha conta telefônica, todos os meses.

Foi assim que surgiu uma geração de pessoas que só se comunicam por texto. As ligações por telefone celular eram para emergências e o telefone fixo era usado raramente para falar com os avós.

A psicóloga Elena Touroni explica que, como os jovens não desenvolveram o hábito de falar ao telefone, ”agora parece estranho, pois não é o normal".

Por isso, os jovens podem esperar o pior quando o telefone começa a tocar – ou se iluminar em silêncio, já que ninguém com menos de 35 anos de idade tem o toque configurado no seu telefone.

Mais da metade dos jovens que responderam à pesquisa do Uswitch reconheceram acreditar que uma ligação inesperada significa más notícias.

A psicoterapeuta Eloise Skinner explica que a ansiedade em torno das ligações vem de "uma associação com algo de ruim – uma sensação de pavor ou mau presságio".

"À medida que as nossas vidas ficam mais atribuladas e os cronogramas de trabalho mais imprevisíveis, temos menos tempo para ligar para um amigo, simplesmente para saber como ele está", explica ela. "Por isso, as ligações telefônicas ficam reservadas para as notícias importantes das nossas vidas, que, muitas vezes, podem ser difíceis."

Para Jack Longley, de 26 anos, "é exatamente isso". Ele nunca atende ligações de números desconhecidos, pois "ou é golpe, ou é marketing. É mais fácil simplesmente ignorar as ligações, em vez de procurar saber quais delas são verdadeiras."

Mas não falar ao telefone não significa que os jovens não mantenham contato com seus amigos. Nossos grupos de bate-papo se movimentam o dia inteiro, com uma série de mensagens corriqueiras, memes, fofocas e, mais recentemente, mensagens de voz.

Muitas dessas conversas, agora, acontecem nas redes sociais, particularmente no Instagram e no Snapchat, onde é mais fácil enviar imagens e memes ao lado dos textos. E, mesmo com o consenso de que as ligações telefônicas são indesejadas, o uso de mensagens de voz divide as gerações mais jovens.

Na pesquisa do Uswitch, 37% das pessoas com 18 a 34 anos de idade declararam que as mensagens de voz são sua forma preferida de comunicação. Por outro lado, apenas 1% dos participantes com 35 a 54 anos preferem mensagens de voz em vez de ligações telefônicas.

"A mensagem de voz é como falar ao telefone, só que melhor", afirma a estudante Susie Jones, de 19 anos. "Você tem o benefício de ouvir a voz dos seus amigos, mas sem pressões. Por isso, é uma forma mais educada de comunicação."

Mas, para mim, é difícil ouvir mensagens de voz de cinco minutos de uma amiga contando as novidades sobre a vida dela. Elas devaneiam, as mensagens ficam repletas de palavras como "tipo" e "ahn" – e toda a história poderia ser contada em duas mensagens de texto.

As mensagens de texto e de voz permitem que os jovens participem das conversas no seu próprio ritmo. E eles podem responder de forma mais atenciosa e ponderada.

•        Fobia do telefone no trabalho

Mas até que ponto a fobia das chamadas telefônicas na sua vida pessoal afeta o lado profissional?

O advogado Henry Nelson-Case tem 31 anos de idade. Ele também é criador de conteúdo – e é terrivelmente fácil se identificar com sua série de vídeos sobre "millennials devastados".

As cenas incluem a angústia de enviar um e-mail para toda a empresa, como se recusar educadamente a trabalhar além do horário e, é claro, um vídeo que mostra um funcionário fazendo de tudo para evitar uma ligação telefônica.

Ele afirma que "a ansiedade associada a conversas em tempo real, possíveis constrangimentos, não ter as respostas e a pressão para responder imediatamente" fazem com que ele odeie falar ao telefone.

"As ligações telefônicas nos expõem mais e exigem um nível de intimidade mais alto, enquanto as mensagens de texto são mais distanciadas e permitem que você se conecte sem se sentir vulnerável ou exposto", explica Elena Touroni.

A advogada Dunja Relic, de 27 anos, conta que evita as ligações no local de trabalho porque "elas podem ser demoradas e atrasar as tarefas". Eloise Skinner descreve isso como o sentimento de que "poderia ter sido um e-mail".

"Existe um senso cada vez maior de proteção do nosso tempo", explica ela. "Ligar para alguém exige que a pessoa que recebe a chamada faça uma pausa no seu dia e dedique atenção à conversa – algo difícil para os multitarefas."

O empresário James Holton, de 64 anos, conta que seus funcionários mais jovens raramente respondem às ligações telefônicas: "ou eles têm uma mensagem padrão dizendo que estão ocupados, ou colocam meu número em redirecionamento, de forma que a chamada nunca é recebida".

"Eles sempre têm uma desculpa na manga", segundo Holton. "A mais comum é 'meu telefone está em modo silencioso, de forma que não vi a chamada e me esqueci de ligar mais tarde'."

Ele conta que precisou se adaptar, depois que observou que havia "uma clara dificuldade de comunicação". "Se os funcionários são mais confortáveis com textos, é minha responsabilidade respeitar a decisão deles."

Mas será que a preferência pela comunicação escrita e a tendência de trabalhar em casa estão nos fazendo perder a capacidade de manter conversas informais e não programadas?

Para Skinner, se a tendência atual continuar, "poderemos perder a sensação de proximidade ou conexão".

"Quando nos comunicamos verbalmente, nós nos sentimos mais alinhados, emocional, profissional ou pessoalmente", explica ela. "Esta conexão pode gerar maior sensação de realização, especialmente no ambiente de trabalho."

Mas a gerente de supermercado Ciara Brodie, de 25 anos, contraria a tendência. Ela diz que "adora e reconhece quando meus chefes do trabalho ligam para mim".

"É algo mais atencioso do que a mensagem de texto, pois exige um certo nível de esforço, que faz com que você realmente saiba que seu gerente valoriza sua informação", explica ela.

Ela gosta particularmente de conversar com os colegas pelo telefone nos dias em que trabalha em casa. "Pode ser solitário, de forma que é bom permanecer conectada."

Algumas pessoas podem dizer que esta nova tendência de comunicação é mais uma prova de que somos a "geração floco de neve". Mas, na verdade, estamos muito longe disso.

É mais uma questão de adaptação. É claro que, 25 anos atrás, as pessoas eram resistentes à mudança do fax para o e-mail, mas a mudança tornou a nossa comunicação muito mais eficiente.

Talvez tenha chegado a hora de reconhecer o poder do texto e, da mesma forma que aposentamos a máquina de fax nos anos 1990, podemos deixar as temidas ligações telefônicas para trás em 2024.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

Mortes ligadas ao álcool caem entre jovens e adolescentes, aponta estudo

A faixa etária dos jovens e dos adolescentes teve queda no total de mortes relacionadas ao consumo de álcool no Brasil, de acordo com uma análise que compara dados de 2010 e 2022 (os mais recentes disponíveis) realizada pelo Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA), organização não governamental que é referência no tema no país.

A pesquisa foi divulgada nesta sexta-feira (30) e aponta que casos de violência predominam como a causa de morte para os mais jovens, enquanto doenças e transtornos são maioria nos óbitos relacionados ao álcool entre as pessoas acima de 35 anos.

Abaixo, veja a variação do percentual das faixas etárias no total de mortes no Brasil:

•        Até os 17 anos, houve uma redução de 3,2% para 1,8%;

•        E entre os 18 e 34 anos, houve redução de 20,5% para 13,7%;

•        Na população de mais de 55 anos, houve um aumento de 42,6% para 55,5%.

Desde os anos 2000, na maioria dos países desenvolvidos, o consumo de álcool entre jovens tem diminuído consideravelmente desde os anos 2000.

Em todo o mundo, a prevalência do chamado Beber Pesado Episódico (BPE) - o consumo de 5 ou mais doses numa única ocasião por homens ou 4 ou mais doses por mulheres de uma vez - é menor entre adolescentes (15-19 anos) do que na população total, mas atinge o pico na idade de 20-24 anos.

No Brasil, uma pesquisa de 2019 com estudantes entre 13 e 17 anos mostrou estabilidade quanto ao consumo atual de álcool e aumento da experimentação de álcool entre pessoas do sexo feminino de 13 a 17 anos.

O Vigitel, monitoramento do Ministério da Saúde, indicou queda do consumo abusivo de álcool entre os jovens de 18 a 24 anos e de 25 a 34 anos em 2021, mas a edição de 2023 mostrou um novo aumento: de 19,3% para 21,4% (18 a 24 anos) e de 25,5% para 29,8% (25 a 34 anos).

Especialistas destacam que, quanto mais cedo ocorre o primeiro contato com álcool, maiores são os riscos de problemas. Estudos apontam que a experimentação antes dos 15 anos aumenta em quatro vezes o risco de desenvolver dependência de álcool na vida adulta.

<><> Pretos e pardos

Já as pessoas pretas e pardas lideram as mortes totalmente atribuíveis ao uso de álcool em 2022 no país. Isso não significa necessariamente que os negros praticam mais o consumo abusivo, mas - ao se depararem com o problema - as chances de obter tratamento de qualidade são menores.

A pesquisa indica que, em 2022, a população negra apresentou 10,4 mortes totalmente atribuíveis ao álcool por 100 mil habitantes; enquanto a taxa para as pessoas brancas foi de 7,9, ou seja, cerca de 30% superior. Essa diferença é ainda mais significativa entre as mulheres. A taxa desses óbitos entre pretas e pardas é de 2,2 e 3,2, respectivamente, e entre brancas, 1,4.

No caso das mulheres, 72% dos óbitos por transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de álcool ocorrem entre mulheres pretas e pardas.

<><> Mortes atribuíveis ao álcool na população geral

Em relação aos óbitos da população geral - de todas as faixas etárias - atribuíveis ao álcool, a pandemia interrompeu a tendência de queda de 2010 a 2019, mas em 2022, a taxa atingiu 33 mortes associadas ao álcool por 100 mil habitantes no período, ainda abaixo da verificada em 2010 (36,7).

“O que eu acho que realmente explica a queda de mortes, é muito mais política pública, como a Lei Seca – que foi ficando cada vez mais rígida– e a proibição da comercialização de álcool para menores. Essas duas políticas públicas que a gente teve na última década deram resultado. No começo, a Lei Seca tolerava uma lata de cerveja, agora a tolerância é zero”, destaca a doutora em sociologia e coordenadora do CISA, Mariana Thibes.

<><> As principais causas de mortes ligadas ao álcool até 17 anos em 2022, segundo o CISA, foram:

•        Agressão por meio de disparo de outra arma de fogo ou arma não especificada: 17%

•        Lesão autoprovocada intencionalmente por enforcamento, estrangulamento e sufocação: 6%

•        Inalação de conteúdo gástrico: 4%

•        Afogamento e submersão não especificados: 4%

•        Pneumonia: 3%

<><> Já as principais causas de mortes ligadas ao álcool entre 18 e 34 anos em 2022, segundo o CISA, foram:

•        Agressão por meio de disparo de outra arma de fogo ou arma não especificada: 31%

•        Lesão autoprovocada intencionalmente por enforcamento, estrangulamento e sufocação (suicídio): 8%

•        Agressão por meio de objeto cortante ou penetrante: 5%

•        Agressão por meio de disparo de arma de fogo de mão: 5%

•        Acidente com um veículo a motor ou não motorizado: 4%

<><> Na faixa de 35 a 54 anos, as principais causas de óbitos ligadas ao álcool, segundo o CISA, foram:

•        Doença alcoólica do fígado: 24%

•        Transtornos mentais e comportamentais devido ao uso de álcool: 18%

•        Agressão por meio de disparo de outra arma de fogo ou de arma não especificada: 6%

•        Fibrose e cirrose hepáticas: 5%

•        Lesão autoprovocada intencionalmente por enforcamento, estrangulamento e sufocação (suicídio): 4%

<><> Na faixa de mais de 55 anos, as principais causas de óbitos ligadas ao álcool, segundo o CISA, foram:

•        Doença alcoólica do fígado: 16%

•        Transtornos mentais e comportamentais devido ao uso de álcool: 11%

•        Fibrose e cirrose hepáticas: 8%

•        Hipertensão essencial (primária): 5%

•        Pneumonia: 4%

<><> Mortes atribuídas ao álcool por região

A pesquisa aponta ainda que 16 estados apresentam taxa de mortes atribuíveis ao álcool por 100 mil habitantes superior ao índice nacional, com Paraná (42,0), Espírito Santo (39,4) e Piauí (38,9) liderando o ranking.

<><> Proporção de doenças e/ou óbitos atribuíveis ao álcool

A Fração Atribuível ao Álcool (FAA) indica quantos casos de uma doença poderiam ser evitados se o consumo de álcool fosse eliminado completamente.

De acordo com o relatório de 2024 da CISA:

•        23% dos acidentes de trânsito poderiam ter sido evitados em 2022 se o consumo de álcool fosse eliminado,

•        12% dos afogamentos,

•        18% dos casos de autoagressão,

•        8% dos casos de AVC hemorrágico,

•        28% dos casos de câncer da cavidade oral e lábios,

•        18% dos casos de câncer de esôfago,

•        21% dos casos de câncer de laringe,

•        42% dos casos de cirrose hepática,

•        4% dos casos de câncer de mama;

•        25% dos casos de pancreatite,

•        11% dos casos de epilepsia e

•        2% das mortes por HIV.

<><> Consumo de álcool no Brasil e no mundo

Um relatório divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em junho deste ano destacou que o álcool provoca 2,6 milhões de mortes todos os anos no mundo e os homens representam quase 75% das mortes. O relatório é baseado em dados de 2019, as últimas estatísticas disponíveis.

O consumo de álcool é atribuído a uma em cada 20 mortes no mundo todos os anos, devido a acidentes de trânsito, problemas de dependência e doenças cardiovasculares, câncer ou cirrose.

Até pequenas quantidades podem ser carcinogênicas, o que levou a Organização Mundial da Saúde a declarar que "quando o assunto é o consumo de álcool, não existe quantidade segura que não afete a saúde".

Na maioria dos países europeus e no Brasil, a idade mínima para a compra de bebida alcoólica é de 18 anos, enquanto, nos Estados Unidos, é de 21 anos de idade.

 

•        Existe quantidade segura de consumo de álcool? Entenda recomendação para brasileiros

Uma recente mudança na recomendação de consumo de álcool no Canadá chamou atenção pelo rigor — de acordo com o documento, a única quantidade segura de álcool é zero, nenhuma gota.

Diferentemente do Canadá, o Brasil não tem um consenso determinado por uma entidade médica nacional, mas segue a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS), que também afirma não existir um padrão de consumo de álcool que seja absolutamente seguro.

Atualmente, não existem definições oficiais para dose padrão e consumo moderado no Brasil.

O Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa) considera que uma dose padrão corresponde a 14g de etanol puro no contexto brasileiro. Isso corresponde a 350 ml de cerveja (5% de álcool), 150ml de vinho (12% de álcool) ou 45ml de destilado (como vodca, cachaça e tequila, com aproximadamente 40% de álcool).

Já a OMS define como dose padrão 10g de etanol puro, e recomenda que homens e mulheres não excedam duas doses por dia e que se abstenham de beber pelo menos dois dias por semana.

Pela diretriz canadense, a quantidade de uma dose para mulher e duas doses para homem como limite também é considerada uma quantidade baixa, mas por semana, e não por dia, como indica a OMS.

“É necessário considerar que o Canadá é uma potência em termos de guidelines [diretrizes] de saúde. No campo da comercialização da maconha, foi o primeiro país com grande economia a legalizar, e fazem estudos muito sérios”, avalia Arthur Guerra, psiquiatra e presidente do Cisa.

“Esta sobre o álcool é uma recomendação dura e forte — e é claro que não sou contra, são considerações feitas com base em estudos médicos. Mas deve-se também considerar o ponto de vista sociocultural — dependendo do país, é algo muito fácil de ser quebrado. Se um casal divide uma garrafa de vinho em um jantar comemorativo, já está fora do limite”, afirma Guerra.

“Esse consumo moderado, no entanto, leva em conta o organismo de uma pessoa completamente saudável — sem qualquer doença crônica, como diabetes e hipertensão, que atingem cerca de 9% e 26% dos brasileiros, respectivamente, ou mesmo indivíduos que têm histórico familiar de alcoolismo”, aponta Álvaro Pulchinelli, toxicologista do Fleury Medicina e Saúde.

“Então, as recomendações como as da OMS e as canadenses, que são bastante rígidas, refletem uma verdade para maioria da população, já que não há valores bem definidos de qual seria o consumo seguro de álcool em todas as situações”, complementa o médico.

De acordo com o presidente do Cisa, o mesmo vale para quem tem doenças psiquiátricas.

“Pacientes com doenças como depressão, ansiedade e esquizofrenia não deveriam consumir álcool. E se eventualmente, em uma celebração, a pessoa beber uma taça, isso significa que vai afetar o quadro psiquiátrico base? Não necessariamente. Mas o uso binge [bebedeira] e regular é totalmente contraindicado”, afirma Guerra.

<><> Não adianta fazer 'poupança' de limite de bebida

A forma como cada um consome seus drinques também deve ser levada em consideração.

“Claro que as pessoas teriam prejuízo com grandes quantidades de ingestão semanal, ou com essa quantidade quando o indivíduo fala que não vai beber a semana inteira. Ah, então eu posso descontar tudo no sábado? Não, não é assim que funciona. Não é poupança de banco, que você fala 'ah, eu economizei e agora eu posso gastar'”, diz o toxicologista Álvaro Pulchinelli.

Ele aponta que quem bebe "pesado" de fim de semana tem tanto risco quanto o "bebedor" crônico.

“Quem exagera em um único dia estressa o organismo duas vezes: pelo álcool em si e pela sobrecarga. É por isso que as diretrizes passaram a falar em limite diário em vez de limite semanal.”

<><> Riscos do consumo exagerado ou prolongado do álcool

O consumo de álcool é um fator causal em mais de 200 doenças e lesões, de acordo com a OMS.

Entre as comorbidades, o hábito está ligado ao maior risco de doenças não transmissíveis graves, como cirrose hepática, alguns tipos de câncer e doenças cardiovasculares, além de lesões resultantes de violência, acidentes de trânsito e também da dependência ao álcool.

Outro dado da OMS aponta que cerca de 80% das mortes em que o álcool foi um “fator importante” ocorreram em três dos países mais populosos: Estados Unidos (36,9%), Brasil (24,8%) e México (18,4%).

Para pessoas com a doença, além dos riscos à saúde, vício em álcool pode resultar em danos a outras pessoas, como familiares e amigos, dificuldade em manter relacionamentos, sejam profissionais ou pessoais, e prejuízos financeiros.

 

Fonte: g1/BBC News Brasil 

No interior do Maranhão, denúncia de escola irregular e supersalários na educação

“Só sei que na Juçara, povoado aqui, não tem escola não. Se tiver, é só no papel.” A fala assertiva é de uma moradora do povoado Juçara, localizado em uma área remota da zona rural de Conceição do Lago-Açu, a cerca de 300 km de São Luís, Maranhão. Segundo ela, em 2023, uma sala de aula improvisada funcionou em uma casa de taipa do povoado, mas teria sido desativada após a denúncia sobre a situação improvisada.

Apesar da denúncia de que a escola não funcionaria de forma regular, a gestão municipal inseriu, na plataforma EducaCenso, dados de uma escola municipal em funcionamento no local, com 12 estudantes matriculados. As informações entraram na conta dos mais de R$ 51 milhões em recursos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) previstos para o município em 2024.

Por meio de mensagem no WhatsApp, a secretária de Educação à época, Elcilene Pinheiro Pereira dos Santos, conhecida na cidade como professora Cici, questiona a acusação. “Temos salas alugadas de alvenaria para atender sete alunos nesse povoado específico que fica isolado por ser região ribeirinha, que chamamos de ponto de apoio”, refutou.

Janes Ribeiro, presidente da Associação de Produtores Rurais do Povoado Juçara, confirma que a casa de taipa teria sido o local escolhido, pela gestão pública, para funcionar como sala de aula. “2023 iniciou na ‘escola de barro’. Visto que a localidade Juçara é uma ilha, de difícil acesso, tanto no verão como no inverno, foi pedido que o município contratasse um educador para a localidade. O impasse foi arranjar um local para o devido funcionamento. Foi então que o próprio professor disponibilizou provisoriamente uma sala de sua casa”, atestou o representante comunitário.

Durante todo o primeiro semestre de 2024, os estudantes do povoado não assistiram às aulas. Por ser distante da sede do município, em uma região carente, muitos moradores de Juçara não têm condições de custear o transporte diário delas até lá, para os que vão à escola. Em julho deste ano, uma sala foi alugada na casa de Janes Ribeiro e as aulas iniciaram.

Além da escola de Juçara, outras duas no município também teriam dados imprecisos. Segundo o Sistema de Informações sobre Orçamentos Públicos em Educação (SIOPE), a escola de Alto da Paz e a de Mosquito realizaram pagamentos a servidores lotados nelas, mesmo não havendo dados sobre eles no Censo da Educação Básica. De acordo com o Censo, as escolas nem sequer funcionariam. Entretanto, nas folhas de pagamento dos servidores municipais disponibilizadas pelo Sistema de Informações sobre Orçamentos Públicos em Educação (Siope), de janeiro a abril de 2024 foram pagos R$ 164 mil às equipes das duas escolas.

<><> Por que isso importa?

•        Denúncias de desvios de recursos no orçamento da Educação são frequentes devido à complexidade dos repasses e dificuldade de fiscalização.

•        Fraudes ou má gestão desses recursos têm impacto direto no acesso à educação de milhões de brasileiros.

Mesmo após diversas tentativas de contato com os gestores de Conceição do Lago-Açu, inclusive acionando o Ministério Público do Maranhão para tentar garantir o cumprimento da Lei de Acesso à Informação (LAI), nenhuma informação solicitada sobre as escolas e os recursos do Fundeb destinados à educação no município foi prestada.

•        Matrículas de Juçara entraram na conta do Fundeb

De acordo com o Censo da Educação Básica, Conceição do Lago-Açu possui 55 escolas. Para o cálculo do Fundeb de 2024, foram consideradas 35 escolas e o total de 5.245 matrículas. As outras 20 escolas não tiveram os dados cadastrados – entre elas, estão as de Mosquito e Alto da Paz.

Para o cálculo do valor total do Fundeb repassado a Conceição do Lago-Açu em 2024, o dado de 12 matrículas na escola de Juçara foi considerado. A informação está na planilha com a descrição das matrículas consideradas para o Fundeb 2024, disponibilizada pela assessoria de comunicação do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). No total, R$ 51 milhões em recursos do Fundeb estão previstos para o município.

O cálculo desse valor é feito em relação ao número de matrículas, mas é uma equação bem mais complexa do que apenas multiplicá-las pelo Valor Anual por Aluno do Fundeb (VAAF). “No âmbito de cada estado, o Valor Anual por Aluno do Fundeb representa a razão das receitas aportadas ao Fundo e as matrículas ponderadas dos entes federados do Estado”, explica Nayanne Santana, assessora de comunicação do FNDE.

As receitas captadas para o Fundeb provêm de impostos, do Fundo de Participação dos Municípios, do Fundo de Participação dos Estados, dos royalties do petróleo e gás, dos repasses do estado e dos programas educacionais do governo federal. Todos estão definidos na Lei do Fundeb.

Para cada município, é calculado um VAAT de acordo com as matrículas ponderadas. Para tanto, são levadas em consideração as características de ensino de cada escola, como as etapas (creche, pré-escola, primeiros anos do fundamental, últimos anos do fundamental, ensino médio), as modalidades (educação de jovens e adultos, educação especial, educação quilombola, educação indígena, educação profissional), a duração da jornada (tempo integral ou parcial) e o tipo (urbano, rural, território quilombola, território indígena), além do nível socioeconômico. Esses dados são retirados do Censo da Educação Básica.

•        Cadastro de dados é de competência da Secretaria de Educação do município

A competência para inserir os dados sobre as escolas municipais na plataforma EducaCenso é da Secretaria de Educação de cada município. Informações como a quantidade de matrículas, de professores e de funcionários, bem como a modalidade, etapa e tipo de ensino, devem ser inseridos pelos gestores. Elas comporão o Censo da Educação Básica, divulgado anualmente pelo Instituto Anísio Teixeira (Inep), órgão do Ministério da Educação. É com esses dados que o valor do Fundeb, para cada município, é calculado.

Os valores do VAAT de 2024 estão definidos na Portaria MEC/MF nº 5, de 8 de maio de 2024, assim como o valor mínimo nacional (VAAT-MIN) de R$ 8.426,10 e os valores de complementação. Para Conceição do Lago-Açu, o VAAT é de R$ 6.443,48. Por estar abaixo do mínimo nacional, a União envia o valor da complementação.

Mesmo assim, não é possível precisar o montante destinado especificamente à escola de Juçara, porque os repasses de recursos não são enviados diretamente a cada escola. A estimativa, sem as complementações da União, é que a escola consumiria R$ 127 mil em recursos do Fundeb aos cofres do município. Quando questionada, por meio de mensagem no WhatsApp, sobre a aplicação de recursos do fundo na educação dos alunos do povoado de Juçara, a ex-secretária de educação do município silenciou. Por lei, o Fundeb destina-se à manutenção e ao desenvolvimento da educação básica pública.

•        Salários fora do padrão e matrículas suspeitas

A análise dos vencimentos declarados pela Secretaria de Educação de Conceição do Lago-Açu nas folhas de pagamento do Fundeb, acessíveis via Siope, revela que 40 servidores recebem proventos que variam de R$ 9 mil a R$ 19 mil, enquanto o salários da maioria está na faixa de R$ 1,4 mil a R$ 1,9 mil. Os nomes dos servidores aparecem duplicados, em cada mês, nos documentos. Estão lotados no mesmo cargo e escola, com carga horária de trabalho idêntica, mas os vencimentos são diferentes. A distribuição dos vencimentos mostra a desproporcionalidade nos salários pagos.

Um dos salários é da ex-secretária de Educação, a professora Cici. Mesmo estando alocada em apenas uma instituição de ensino, a Escola Municipal Manoel de Nazareth dos Santos, ela receberia dois salários, segundo os dados da prefeitura: um salário-base de R$ 3.069,20 que, com o complemento do Fundeb, atinge o montante de R$ 7.739,42; e outro de R$ 2.783,86, que vai a R$ 5.066,63 após a complementação do fundo. No total, excetuando o mês de março, quando a servidora recebeu, como docente, expressivos R$ 27.827,30, o salário mensal dela é de R$ 12.806,05.

Além disso, na folha do Fundeb de fevereiro de 2024, são listados outros 34 pagamentos de R$ 60 mil, que totalizam R$ 2 milhões. Nenhum dos pagamentos foi destinado a um servidor efetivo, e os nomes dessas pessoas não se repetem nas folhas de pagamento dos outros meses. Muitos estão registrados com números de matrícula genéricos, como 99999999.

A reportagem questionou a prefeitura sobre os pagamentos à ex-secretária e aos servidores com matrícula genérica, que não respondeu até a publicação.

Os valores estão bem acima da faixa salarial dos servidores da educação informada na tabela com o padrão remuneratório dos cargos do município, disponível no Portal da Transparência da prefeitura de Conceição do Lago-Açu. Os salários dos professores, de acordo com a tabela, variam de R$ 1.097,82 a R$ 2.081,17. As folhas de pagamento de 2024, com os vencimentos dos servidores municipais, não estão disponíveis no site da prefeitura.

Por lei, o Fundeb destina-se à valorização dos profissionais da educação, incluindo uma condigna remuneração.

 

Fonte: Por Diógenes de Luna, da Agencia Pública

 

Ucrânia: A estranhíssima “ofensiva de Kursk”

O ex-diplomata e ex-agente secreto britânico Alastair Crooke publicou contundente artigo a partir da invasão da região de Kursk, na Rússia, por tropas da Ucrânia. no site Strategic Culture.

Digo “a partir” porque a análise de Alastair Crooke vai muito além do fato em si, no campo de batalha. A partir deste, ele se dirige a outro campo de batalha, que alega ser mais importante do que o primeiro: o das narrativas criadas e impostas ao público leitor/ espectador, em seus diferentes níveis, por governos e mídias.

Em primeiro lugar, caracterizemos o analista, pois Alastair Crooke não é um personagem qualquer. Hoje com 75 anos, Alastair Crooke nasceu na Irlanda. Trabalhou no sistema financeiro britânico, até entrar no serviço secreto do Reino Unido, MI6, onde permaneceu durante mais de 30 anos, sob a camuflagem de ser um diplomata. Atuou na Irlanda do Norte, África do Sul, Colômbia, Paquistão e Oriente Médio. Na sequência, tornou-se diplomata dentro da União Europeia. Entre suas funções desempenhou papel relevante conseguindo armas para os jihadistas lutarem contra os soviéticos no Afeganistão.

No Oriente Médio, como um dos enviados da União Europeia, atuou a partir da Embaixada Britânica em Tel Aviv, procurando estabelecer pontes entre grupos islâmicos, como o Hamas e o Hezbollah, e as forças israelenses, com quem, afirma-se, tinha bom relacionamento.

Depois de condecorado pelo governo britânico em 2004, com a medalha da Ordem de São Miguel e São Jorge,  estabeleceu-se em Beirute. Fundou e dirige o site Conflicts Forum, onde defende esforços de aproximação entre o Mundo Islâmico e o Ocidente. Alega estar sendo censurado em plataformas como o Facebook e outras do Ocidente, sob acusação de “fazer o jogo” de Vladimir Putin, coisa que nega. Desconheço e não me cabe aqui discutir as motivações pessoais de sua labiríntica trajetória, de que citei apenas resumidíssima síntese. Interessa a análise que faz da situação das duas guerras entre Rússia e Ucrânia, a do campo de batalha propriamente dito e a do mundo narrativo e de informação.

A principal tese subjacente no artigo de Alastair Crooke é a de que não foi a Ucrânia que invadiu Kursk, mas sim a OTAN através da Ucrânia. Esta tese rima com a de que a guerra da Ucrânia, do ponto de vista Ocidental, é uma “proxy war”, uma “guerra terceirizada” entre os Estados Unidos e seus aliados, e a Rússia. A outra tese é a de que o objetivo da invasão foi tanto o de avançar no terreno russo quanto — ou mais — o de criar um novo glóbulo narrativo que animasse uma contenda que vinha sendo perdida pelo Ocidente no campo simbólico.

A partir daqui desenvolvo meu próprio raciocínio, embora lastreado pelas informações mais amplas do que as minhas que constam no artigo de Alastair Crooke, que podem ser verificados pela leitura dele.

Desde sempre esta guerra teve um impulso a partir do governo dos Estados Unidos, da OTAN, de seus aliados geopolíticos (União Europeia, Reino Unido, Japão, os quatro outros países do grupo das Cinco Irmãs e mais alguns anexos) e da mídia cooptada ou conivente) no sentido de criarem uma narrativa pró-Ucrânia.

Devia-se apresentá-la não só como merecedora da vitória, como Davi contra Golias, mas como a vencedora, desde o início. Devia-se apresentar a Rússia como de joelhos diante das sanções econômicas, e Putin como à beira da queda política e pessoal (a mídia conivente inundou-se de matérias aludindo a doenças dele). A esmagadora maioria da mídia ocidental comprou e vendeu esta perspectiva, assim como comprara e vendera, no passado, a falsa tese das armas químicas de Saddam Hussein no Iraque.

Não funcionou. Apesar de alguns contratempos iniciais, a invasão consolidou o domínio russo sobre grandes áreas do Donbass. As sanções econômicas prejudicaram mais os tutelados europeus pela OTAN do que a própria Rússia. Putin nem fraquejou, nem se abalou, nem caiu. Ao contrário, a pressão do Ocidente jogou-o nos braços da China, que o recebeu de bom grado, conseguindo em troca o apoio de um dos dois maiores arsenais de armas nucleares do planeta.

No campo de batalha a contraofensiva ucraniana de 2023 fracassou. Apesar do esforço titânico da mídia mainstream ocidental, propalando supostas vantagens ucranianas, estas se provavam cada vez mais irreais e inconsistentes. A confiança dos aliados ocidentais dos Estados Unidos e da OTAN começou a definhar. A pressão sobre a Rússia provou-se uma contra-bomba de efeito moral: inflação crescente na Europa, desindustrialização na Alemanha, preços da energia na estratosfera, com o corte do fornecimento russo, alimentos muito mais caros, fármacos e insumos agrícolas idem… recessão!

Os ataques de drones ucranianos contra alvos russos, incluindo Moscou, pareciam picadas de mosquito num elefante. Incomodavam, mas não furavam a pele do inimigo. Para reanimar o espírito guerreiro na mídia, nos aliados e na opinião pública belicista, era necessário um fato novo, inusitado. E ele veio: a surpreendente invasão de Kursk.

Pelo pouco que se pode saber numa guerra onde a informação precisa é escassa, nenhum objetivo militar de maior porte foi alcançado. Forças russas não se deslocaram do Donbass ucraniano para reforçar a defesa em Kursk. A central nuclear da região, que poderia ser um objetivo interessante, continua em poder dos russos. A capital regional, idem. Apesar de pego de surpresa, Vladimir Putin não se abalou nem tremeu. E promete mais do que a recuperação do território ocupado: promete vingança.

No plano retórico, porém, a situação é outra. O combalido governo de Kiev demonstrou poder de iniciativa. Na mídia mainstream, a Rússia e Vladimir Putin ficaram “acuados”. Criou-se uma onda favorável a reanimar a disposição de aliados já recalcitrantes em apoiar militar e financeiramente o ralo sem fundo que o governo de Kiev está cada vez mais parecendo ser.

Vai dar certo? Depende. Talvez um paralelo histórico nos ajude a decifrar hipotéticas respostas a esta pergunta. E aqui se ressalta uma outra dimensão do ataque em Kursk: a simbólica.

Kursk foi o terreno da batalha decisiva na Frente Leste da Segunda Guerra Mundial. Nela o conflito se decidiu, mais do que em Stalingrado, mais do que na Normandia.

A batalha durou do começo de julho ao fim de agosto de1943. Segundo vários especialistas, foi a maior batalha da história humana. Outros, mais modestos, a definem como uma das maiores batalhas. Todos, em todo caso, a descrevem como a maior batalha de blindados que já houve no mundo.

No total foram utilizados mais de dez mil blindados nela, sendo que metade deles foi danificada ou destruída. As perdas humanas passaram do milhão, tanto quanto pode se estimar, pois os dados são imprecisos, sobretudo do lado alemão, que maquiava seus números. As perdas soviéticas foram gigantescas, mas a vitória foi esmagadora.

O exército alemão teve a iniciativa. Kursk era o que militarmente se chama de um “saliente”: um enclave soviético em meio a um território tomado pelo inimigo. A ofensiva alemã tinha por objetivo aniquilar este enclave.

Politicamente, o objetivo de Hitler era parecido com o da OTAN/Kiev: retomar a ofensiva depois do fracasso de Stalingrado, demonstrar aos aliados que a Wehrmacht ainda era capaz de tomar a iniciativa, fossem esses aliados o Japão e a Itália, fossem seus simpatizantes nos territórios anexados, como a Áustria, ou ocupados, como na Croácia, na Romênia e na… Ucrânia, além de outros.

Nada deu certo. O enclave resistiu até a chegada de reforços. Os nazistas tiveram que recuar, e a partir daí, na Frente Leste, a iniciativa foi do Exército Vermelho, até a tomada de Berlim, quase dois anos depois.

Dois fatores externos ajudaram os soviéticos. Diante da hesitação de alguns de seus generais, Hitler decidiu retardar o ataque ao enclave. Também pesou na sua decisão o desejo de que os novos blindados fabricados na Alemanha, tecnicamente superiores aos antigos e aos soviéticos, chegassem à frente de batalha. Curiosamente esta superioridade técnica, que seria uma vantagem para os alemães, revelou-se contraproducente, assim como na frente da aviação. A mudança inovadora dos aparelhos dificultava a fabricação de peças de reposição. Enquanto isto, os soviéticos continuavam produzindo os mesmos tanques T-34 de sempre, com pequenas modificações, sobretudo na torre do canhão, dando-lhes maior versatilidade.

A segunda vantagem veio através dos aliados ocidentais. Ao mesmo tempo em que a Wehrmacht iniciava o ataque ao enclave soviético, aqueles, depois de baterem os alemães no norte da África, desembarcavam na Sicília, criando a Frente Sul na Europa. Hitler se viu forçado a ordenar o deslocamento de tropas da Frente Leste para a península italiana, enfraquecendo mais ainda o derrotado exército alemão diante do avanço soviético.

A batalha de Kursk, de 81 anos atrás, lança uma sombra lúgubre sobre a iniciativa de Kiev. O paralelo é inequívoco, com as forças ucranianas portando, entre outros, armamento alemão, e com vários de seus militares decorando seus uniformes com penduricalhos nazistas.

Ao invés de colocar uma espada no peito de Vladimir Putin, a invasão de Kursk pode ter posto um espinho no coração de patriotismo russo, o que pode ser fatal para Kiev.

PS – Desnecessário, mas pertinente lembrar que o autor destas linhas não nutre a menor simpatia por Vladimir Putin, nem pela invasão da Ucrânia. Mas também não tem o menor entusiasmo por esta guerra estúpida, muito menos pela OTAN, nem por seu títere em Kiev a também não pelos neonazis que infestam as forças armadas ucranianas. Salvo em raríssimas ocasiões, e esta não é uma delas, uma mesa de negociação é sempre melhor do que um campo de batalha.

 

¨      Ucrânia parece ter recebido carta branca para operações em regiões russas, diz Moscou

Aparentemente, a Ucrânia recebeu carta branca para operações em regiões russas, disse a representante do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova.

A vice-secretária de imprensa do Pentágono, Sabrina Singh, disse na quinta-feira (29) que os EUA permitem que a Ucrânia contra-ataque a Rússia com armas norte-americanas durante o ataque terrorista à região de Kursk. O coordenador de comunicações estratégicas do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, John Kirby, disse na segunda-feira (26) que os Estados Unidos e a Ucrânia continuarão conversando sobre o uso permitido de armas fornecidas pelos EUA para atacar território russo, mas essas discussões permanecerão privadas.

"Conclusões extremamente sérias decorrem de tudo isso. A Ucrânia recebeu carta branca completa para operações em regiões russas. Além disso, o governo de Joe Biden está obviamente se preparando para fazer novas concessões a [Vladimir] Zelensky e desamarrar suas mãos para usar virtualmente qualquer tipo de arma norte-americana, incluindo profundamente em território russo", disse Zakharova.

De acordo com a representante, o curso de escalada dos EUA está se tornando cada vez mais provocativo.

No dia 6 de agosto, as forças ucranianas cruzaram a fronteira para a Rússia e lançaram uma ofensiva na região de Kursk. Comentando o ataque, o presidente russo Vladimir Putin disse que a Ucrânia havia realizado outra provocação em larga escala, atirando indiscriminadamente em alvos civis. Putin afirmou que o inimigo receberia uma resposta adequada nas regiões de fronteira da Rússia.

O Ministério da Defesa russo disse na quinta-feira que as tropas ucranianas perderam até 7.450 militares e 74 tanques durante a ofensiva na região de Kursk.

Nesta sexta-feira (30), o chefe de política externa da União Europeia (UE), Josep Borrell, afirmou que permitir que a Ucrânia use armas do bloco europeu para atacar o território da Rússia não significa entrar em guerra com Moscou.

"Acho ridículo dizer que permitir alvos dentro do território russo significa estar em guerra contra Moscou. Não estamos em guerra contra Moscou", disse Borrell a repórteres antes de uma reunião informal dos ministros da Defesa da UE.

Ninguém quer estar em estado de guerra com a Rússia, mas ataques com o uso de armas europeias no território da Rússia devem ser permitidos, acrescentou o principal diplomata da UE, afirmando que o bloco pretende criar um centro de coordenação na Ucrânia para fornecer assistência militar, mas o envio de instrutores militares ainda não foi discutido.

"Estamos pensando em ter um centro de coordenação na Ucrânia, não há acordo para treinar soldados ucranianos em solo ucraniano com instrutores europeus", afirmou Borrell, lembrando que os Estados-membros da UE esgotaram seus estoques militares devido aos suprimentos para a Ucrânia.

 

¨      Um terço dos ucranianos apoia negociações com a Rússia se apoio do Ocidente cessar, diz pesquisa

Duas entidades inquiriram a opinião do público ucraniano, que foi revelado como tendo alguma vontade de terminar o conflito dadas as condições apropriadas para isso.

Mais de um terço dos moradores ucranianos acredita que Kiev deve iniciar negociações com a Rússia para encerrar o conflito se a assistência ocidental for interrompida, de acordo com uma pesquisa realizada pela Fundação de Iniciativas Democráticas da Ucrânia e pelo serviço sociológico do Centro Razumkov.

Ucrânia deve agir se a assistência militar dos países ocidentais diminuir ou parar. Assim, um pouco mais de um terço (35%) [dos entrevistados] acredita que as autoridades ucranianas devem iniciar negociações com a Rússia para acabar com a guerra, 23,5% que devem tentar congelar o conflito, mas não fazer quaisquer concessões à Rússia", diz o resultado da pesquisa publicada no portal da Fundação Iniciativas Democráticas.

Outros 21% dos entrevistados acreditam que as autoridades ucranianas devem continuar as ações militares mesmo que a assistência ocidental seja cortada. Além disso, cerca de 20% dos entrevistados acharam difícil responder.

A pesquisa foi realizada de 8 a 15 de agosto, usando o método face a face. Um total de 2.017 pessoas com 18 anos ou mais foram entrevistadas, e a margem de erro não excede 2,3%.

<><> Zelensky pede para Índia sediar próxima cúpula da Ucrânia e recebe silêncio de Modi

Vladimir Zelensky, líder ucraniano, sugeriu que o primeiro-ministro indiano Narendra Modi realizasse uma cúpula sobre a Ucrânia na Índia antes das eleições presidenciais dos EUA em novembro, informou a Bloomberg nesta sexta-feira (30), citando fontes.

A proposta teria ocorrido durante a visita de Modi a Kiev na semana passada. Zelensky quer que a reunião seja realizada como consequência da conferência sediada pela Suíça em junho, garantindo assim o apoio do Sul Global, informou a Bloomberg.

No entanto, Modi ainda não concordou em sediar a cúpula, em parte devido à insatisfação da Índia com o fato de a Rússia ter sido excluída do processo até agora, de acordo com a agência de notícias.

Em julho, Zelensky disse à mídia francesa que queria ver a Rússia participar da próxima cúpula sobre a Ucrânia, já que a comunidade internacional concordou que sua participação era importante para alcançar "resultados significativos" na resolução do conflito.

 

O vice-ministro das Relações Exteriores russo, Mikhail Galuzin, disse à Sputnik, comentando a próxima potencial conferência sobre a Ucrânia, que Moscou não aceita ultimatos e não participaria de tais eventos.

A Suíça sediou uma conferência de alto nível sobre a Ucrânia no resort Burgenstock, fora de Lucerna, de 15 a 16 de junho. A Rússia não recebeu um convite, mas mesmo se tivesse, não teria comparecido à conferência, disseram autoridades russas.

 

Fonte: Por Flávio Aguiar, no A Terra é Redonda/Sputnik Brasil