terça-feira, 26 de dezembro de 2023

O terror mora na Cisjordânia

Os primeiros assentamentos de colonos judeus na Cisjordânia começaram em 1967, logo após a tomada da região pelas forças de Israel. Desde então foram aumentando até alcançar uma população de 700 mil habitantes. O objetivo do governo é espalhar assentamentos judaicos por toda a Cisjordânia, tornando a independência da Palestina inviável, o que faria a “solução dos 2 Estados” ser praticamente impossível.

No entanto, a partir dos anos 70, os EUA e o Ocidente passaram a defender sua aplicação de modo tão veemente, que Netanyahu – que foi quem mais tempo esteve no poder - resolveu se declarar a favor. Não era verdade e os assentamentos continuaram sendo construídos a toque de caixa.

Com o ataque do Hamas de outubro de 2023, Israel entrou em guerra contra, supostamente, contra este grupo. Identificada com esse grupo pelo establishment sionista, a população civil palestina tornou-se objeto do ódio e de ataques de toda a ordem.

Na Cisjordânia, os colonos fizeram sua parte. Tornaram-se mais violentos, não hesitando em matar a tiros palestinos cuja única culpa era viverem na Cisjordânia.

E estas incursões aumentaram assustadoramente: passaram de uma a 7 por dia. Os dois episódios abaixo ilustram a frieza com que os colonos tratam as suas vítimas.

O primeiro aconteceu em outubro, época da colheita das oliveiras, o principal produto agrícola da Palestina. Alegres, talvez apreciando a abundância de azeitonas que faziam pender os ramos das árvores, o camponês Adeh e sua família (mulher e filhos pequenos) estavam entregues à colheita, quando notaram quatro colonos israelenses armados, que se aproximavam vociferando.

Aterrada, toda a família correu para se salvar do ataque iminente, mas Sadeh não foi feliz, ouviram-se dois disparos e ele caiu, morto. Nenhum dos assassinos foi preso.
Fortemente armados, os criminosos dos assentamentos agora mais agressivos, mortíferos e ousados, contam com o apoio do próprio governo sionista.

Mais de 2000 lares palestinos já foram danificados ou arrasados totalmente, em 84 cidades, vilas e arredores. Até 7 de outubro, não eram muitos os colonos que portavam armas de fogo e as usavam contra os palestinos.

Agora seu número vem aumentando, e será muito maior depois de chegarem às 10 mil armas que Ben Gvir, o fanático e feroz ministro da Segurança Nacional, anunciou que seriam distribuídas nos assentamentos.

Reflexos desse compromisso já se notam em localidades como Turmusayya, quando 400 colonos foram vistos marchando pela estrada principal, depredando carros, casas e plantações no caminho.

Ações que continuaram ao chegarem a seu destino, uma comunidade palestina. Durante as cenas brutais que se desenrolaram, informou o prefeito Lafif Adeeb que um morador foi assassinado e 12 feridos à bala e a turba incendiou mais de 60 veículos, 30 lares e destruiu dezenas de oliveiras.

Os colonos criminosos continuam livres e soltos. Turmusayya foi mais um pogrom sem consequências.

No talvez mais pavoroso pogrom, de Huawei, que encheu o mundo de horror, somente 6 dos criminosos foram presos, porém ficaram pouco tempo atrás das grades. Liberados, esperam o resultado de uma investigação “pro forma” que o governo mandou fazer para satisfazer a opinião pública internacional.

E o próprio primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, em vez de solidarizar-se com a comunidade devastada de Huwara, preferiu dirigir-se aos colonos, recomendando que deixassem esse trabalho para o exército. Soldados, aliás, que já demonstraram estar ao lado dos desordeiros.

Eles raramente intervêm nos atentados. Limitam-se a acompanhar os agressores, quando não participam ativamente das brutalidades. Alguns palestinos reagem, mas enfrentando adversários melhor armados e protegidos, eventualmente por soldados, acabam, em geral, presos.

Os agredidos costumam ser inculpados pelas agressões sofridas. Ben Gvir prometeu a seus adeptos em reunião púbica em reunião pública: “Esmagá-los (os palestinos)um por um”.

E seu aliado Bezalel Smotrich, comentando a bárbara ação em Huwara, vociferou: “Deve ser aniquilada”. Embalados pelas palavras dos seus líderes e pela sua impunidade, os colonos dos assentamentos agiram.

Entre 1 de janeiro e 6 de outubro de 2023 (segundo a Anadolu Agency), as forças de segurança de Israel e colonos mataram 192 palestinos na Cisjordânia – incluindo 40 crianças.

De 7 de outubro até os dias de hoje, 256 palestinos já tombaram assassinados pelos seus vizinhos israelenses. Uma dessas matanças de pacíficos civis palestinos ocorreu ne vila de Qusra e arredores.

Perseguidos por uma chusma de colonos judaicos, um grupo de palestinos se refugiou numa casa para se proteger dos tiros disparados contra eles. Os colonos voltaram naquela noite, destruindo carros e linhas de eletricidade.

Nos dias seguintes, a estrada para a vila foi cortada pelos colonos, que voltaram pouco tempo depois, reforçados por soldados.

Apesar dos tiros que choviam, os palestinos não se entregaram. Mas pagaram um preço alto: três do seu grupo acabaram mortos por colonos e um por soldados, apesar dos esforços dos médicos do hospital local.

No dia seguinte, os palestinos realizaram o funeral das quatro vítimas. No caminho entre o hospital e as moradias delas, o comboio funerário caiu numa emboscada dos colonos, que apedrejaram os veículos e seus ocupantes. Alguns deles reagiram, atiraram as pedras de volta, ao que os colonos e soldados responderam com saraivadas de balas, matando um homem e seu filho.

Sujeitos a violências quotidianas como pedradas, agressões físicas, ameaças de morte, destruição de árvores e colheitas, roubos de carneiros, danos em casas e carros, incêndios nas construções das suas propriedades e até mesmo assassinato, os agricultores palestinos vivem num clima de terror.

Mais de mil já abandonaram tudo (The Wall Street Journal,3/12), fugindo para o exterior.

Felizmente, a queda do prestígio internacional de Israel, causada pelas barbaridades cometidas na Palestina, produziu uma onda de manifestações antigoverno sionista nas cidades do Ocidente (só um protesto em Londres reuniu cerca de 800 mil pessoas).

Nos EUA, a cumplicidade Biden-Netanyahu começou a ser denunciada nas ruas como desrespeito aos valores da civilização norte-americana.

Preocupado com a associação do seu nome à tolerância com as brutalidades a rejeições dos direitos humanos em Israel, Biden criticou fortemente a campanha brutal dos colonos e ameaçou até punir aqueles que as continuassem praticando.

Pragmático, Netanyahu também fez saber que os colonos que se comportassem como selvagens seriam investigados e levados a julgamento. Isso até pode ser eficaz durante um certo tempo. Mas, o primeiro-ministro sionista acabará por soltar as feras.

Afinal, estão cumprindo à risca seu papel de colaborar para a anexação da Cisjordânia, tornando a vida extremamente perigosa e sem chances para os palestinos, o que os levaria a se mudarem para outras praças menos hostis.

Não foi por antiguidade que Netanyahu nomeou o general Yoav Gallante ministro da Defesa de Israel. Foi por sua posição diante dos palestinos: “nós estamos lutando contra animais humanos e agindo adequadamente”, disse.

 

Ø  Israel intensifica operações no sul da Faixa de Gaza

 

As Forças Armadas israelenses intensificaram suas operações no sul da Faixa de Gaza neste domingo (24/12), principalmente na cidade de Khan Yunis, considerada um dos bastiões do grupo Hamas. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu garantiu que o conflito está longe de se encerrar.

Novos bombardeios também atingiram nesta manhã a Cidade de Gaza e Jabaliya, no norte do enclave, palco de enormes destruições nas últimas semanas. No sábado (23/12), 166 pessoas morreram em ataques israelenses no território palestino.

Em entrevista ao canal de TV norte-americano Fox News, Jonathan Conricus, um porta-voz do Exército de Israel, explicou que os combates no norte "continuarão, talvez, em uma menor intensidade". "Nos dirigimos em direção ao sul e concentramos nossas principais operações em um outro bastião do Hamas, Khan Yunis", reiterou.

No sábado, o presidente norte-americano, Joe Biden, conversou com o primeiro-ministro israelense, a quem pediu que civis sejam protegidos. No entanto, o líder democrata reconheceu que não tratou de um cessar-fogo com o premiê. 

Os Estados Unidos continuam a apoiar incondicionalmente Tel Aviv, um aliado histórico. Por outro lado, Washington vem insistindo que Israel passe a uma fase menos intensa de sua ofensiva, com operações mais concentradas no grupo Hamas.

·        Guerra longa

Netanyahu afirmou neste domingo que Israel "paga um preço alto na guerra". Desde o início desta nova fase do conflito, o país contabiliza 152 soldados mortos, 14 apenas na última sexta-feira (22/12).

"Não temos outra escolha a não ser combater", indicou o premiê na abertura de uma reunião do governo, garantindo que a "guerra será longa". "Vamos lutar até o fim - até a libertação dos reféns, até a eliminação do Hamas, até que a segurança seja restaurada no norte e no sul" da Faixa de Gaza, disse Netanyahu. 

O Ministério da Saúde palestino anunciou neste domingo que as operações militares israelenses deixaram 20.424 mortos desde o início da guerra. Do lado de Israel, além das perdas no campo militar, 1.140 pessoas foram mortas em ataques do grupo Hamas em 7 de outubro.

·        Situação catastrófica

Segundo a ONU, a situação no enclave é catastrófica: a maior parte dos hospitais deixou de funcionar e com a escassa ajuda humanitária autorizada a entrar no território, a população é submetida a um alto risco de insegurança alimentar. Cerca de 1,9 milhão de pessoas - cerca de 85% da população do território - foi obrigada a deixar suas casas para fugir dos ataques.

É o caso do palestino Nabil Diab, que se refugiou em Deir al-Balah, no litoral, junto a milhares de pessoas obrigadas a migrar dentro da Faixa de Gaza. Em entrevista à RFI, ele contou que, antes da guerra, a cidade tinha 160 mil moradores, mas hoje abriga cerca de 800 mil pessoas.

"Por causa dos drones e bombardeios não dormimos à noite. Acordamos às 6h da manhã e passamos o dia procurando comida para tentar sobreviver. É essa a nossa vida, um sofrimento imenso", resume.

Diab também relata que milhares de pessoas aguardam por ajudas nos centros humanitários, "tudo isso sob bombardeios". "Faz mais de 70 dias que vemos massacres acontecer. Perdi amigos, familiares, minha casa foi destruída. Ninguém pode imaginar o que estamos vivendo. É a injustiça no sentido literal. Quero que essa guerra termine", diz.

·        Ajuda humanitária insuficiente

Na sexta-feira, o Conselho de Segurança na ONU adotou uma resolução exigindo a entrega “em grande escala” e "imediata" de ajuda humanitária a Gaza. No entanto, por pressão dos Estados Unidos, o texto não menciona a necessidade de um cessar-fogo, já que Israel considera que a ofensiva é necessária para acabar com o grupo Hamas.

Apesar da adoção da resolução, a entrada de comboios humanitários no enclave não teve um aumento expressivo no sábado. Cerca de 93 caminhões puderam atravessar a passagem de Rafah, na fronteira com o Egito ontem, contra uma média de 80 por dia antes do voto no Conselho de Segurança da ONU.

 

Fonte: Correio da Cidadania/rfi

 

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