quarta-feira, 25 de outubro de 2023

O que batalhas urbanas do passado revelam sobre riscos de invasão israelense em Gaza

Israel está concentrando milhares de soldados perto da fronteira de Gaza e parece se preparar para um ataque terrestre. Se as tropas entrarem, soldados israelenses enfrentarão combatentes do Hamas numa área urbana densamente povoada.

O país diz que, desde domingo (22/10), suas forças têm atravessado a fronteira com a faixa de Gaza em "incursões limitadas".

Feras Kilani, jornalista do serviço árabe da BBC, cobriu várias guerras no Oriente Médio e, em muitas ocasiões, fez reportagens a partir de Gaza. Agora ele analisa o que uma incursão de grande escala pode significar.

Durante uma visita ao campo de refugiados de Al-Shati, no norte de Gaza, há cinco anos, eu notei um som de batidas enquanto dirigia. Era como se estivéssemos passando por uma ponte, em vez de terra firme.

O cinegrafista que estava comigo explicou que isso acontecia porque, bem abaixo do asfalto, o solo havia sido escavado, abrindo uma enorme rede de túneis. Construídos pelo Hamas, os túneis se estendem por centenas de quilômetros e permitem ao grupo militante se movimentar sem ser detectado debaixo das ruas estreitas e densamente povoadas de Gaza.

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, prometeu “esmagar e destruir” o Hamas depois que o grupo atacou Israel em 7 de outubro, matando mais de 1.400 pessoas.

Forças israelenses têm lançado ataques aéreos contra Gaza, matando mais de 5 mil pessoas segundo fontes palestinas, e o próximo passo pode ser um ataque terrestre.

Se isso acontecer, os túneis serão parte vital da estratégia de combate do Hamas.

O Hamas teve tempo de antecipar um ataque terrestre e armazenar alimentos, água e armas.

Acredita-se que alguns de seus túneis se estendam até Israel. Eles potencialmente permitiriam que combatentes do grupo se movimentem sem impedimentos para criar emboscadas contra as tropas israelenses à medida que elas avancem pelo norte de Gaza.

Israel acredita que o Hamas tenha acesso a até 30 mil soldados treinados para usar fuzis automáticos, granadas de propulsão e mísseis antitanque.

O efetivo do próprio Hamas é reforçado por outros grupos, como a Jihad Islâmica Palestina e facções islâmicas menores.

A história recente mostra como combates em área urbana podem ser perigosos.

Eu mesmo vi o que pode acontecer quando uma força militar, mesmo bem treinada, tenta cercar e esmagar um inimigo determinado neste tipo de ambiente.

·         Guerra rua por rua

Em 2016, eu estava com as forças especiais iraquianas que se preparavam para atacar a cidade de Mossul.

Autoridades haviam decidido cercar os militantes islâmicos e garantir que eles não tivessem qualquer rota de fuga. Essa estratégia colocou a cidade no eixo de um confronto brutal e mortal.

No dia em que entramos no primeiro distrito de Mossul, a resistência dos militantes foi intensa. Eles vieram com toda força contra o nosso comboio, com um arsenal que incluia balas, granadas e mísseis lançados desde os ombros.

Havia armadilhas em tudo que se pudesse imaginar, incluindo geladeiras e televisões nas casas das pessoas.

Encostar ou pisar na coisa errada podia significar morte.

Estes mesmos perigos também poderão aguardar as tropas israelenses caso elas entrem na cidade de Gaza.

Durante as fases finais da batalha por Mossul, eu vi o foco de muitas tropas iraquianas mudar.

Os combates eram tão intensos e perigosos que eles só conseguiam pensar na sua própria sobrevivência — e isso significava não correr riscos para tentar proteger os civis.

Outro risco eram os atiradores de elite, escondidos entre prédios e escombros por toda a cidade. As forças iraquianas recorreram frequentemente ao uso do poder aéreo para bombardear áreas inteiras e detê-los.

As forças israelenses podem ter que enfrentar a escolha entre correr riscos para combater franco-atiradores bem treinados do Hamas, ou arrasar edifícios inteiros a partir de cima.

O comboio de tropas com o qual viajávamos em Mossul foi atingido por vários carros-bomba. Cinco dos soldados com quem estávamos morreram na enorme explosão que se seguiu.

O choque que abalou os sobreviventes — que viram seus companheiros dilacerados pela explosão — era evidente.

O Hamas não é conhecido por usar carros-bomba, mas já usou homens-bomba no passado. O efeito que esse tipo de ataque pode ter nas forças de segurança pode ser dramático.

Não está claro quanto tempo poderá durar um ataque terrestre a Gaza, mas durante a feroz resistência apresentada pelo grupo Estado Islâmico em Mossul, foram necessários nove meses para que as forças iraquianas finalmente recuperassem o controle da cidade.

·         Segurança

O resultado foi muito diferente na cidade síria de Raqqa, em 2017, onde um grande grupo de militantes radicais foi cercado dentro de uma área densamente povoada.

Naquela oportunidade, a coligação liderada pelos EUA e forças curdas decidiu dar aos combatentes a opção de se retirar.

Eu fiz reportagens sobre a luta curda contra o Estado Islâmico durante muitos anos e, certa vez, um dos seus líderes me levou a uma reunião secreta com um comandante norte-americano na Síria.

Ele concordou com um pedido dos líderes árabes locais para permitir que os combatentes do EI e suas famílias deixassem Raqqa.

Este acordo evitou que a cidade fosse totalmente destruída pelos combates e resultou em um número de vítimas entre militares e civis muito inferior ao de Mossul.

No dia seguinte à partida dos militantes, os civis que permaneceram na cidade saíram de suas casas aliviados por terem sobrevivido. Eles tinham medo de morrer num ataque de grande escala à cidade.

Mas a geografia de Gaza torna difícil prever como este tipo de acordo poderia ser uma opção para Israel e o Hamas.

Raqqa é uma cidade relativamente remota na Síria e os combatentes que foram autorizados a sair tiveram que se dirigir para campos no entorno.

A Faixa de Gaza é pequena em comparação com Raqqa e não há nenhum lugar semelhante para onde os combatentes do Hamas possam ir.

·         Exílio

Houve no passado acordos para enviar pessoas para ainda mais longe.

Em 1982, a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) concordou em deixar Beirute, no Líbano, onde esteve cercada pelas forças israelenses durante três meses, e se mudar para diferentes países.

Os líderes da OLP foram para a Tunísia e outros membros encontraram refúgio no norte de África e no Oriente Médio.

Embora tal acordo possa oferecer uma forma de minimizar os combates e as mortes de civis em Gaza, é difícil enxergar como isso poderia ser possível politicamente.

O governo de Israel prometeu destruir o Hamas após o ataque de 7 de outubro. Permitir que a liderança do Hamas fugisse para um país estrangeiro provocaria uma reação pública intensa.

Mas, a menos que seja encontrada outra opção, o norte de Gaza poderá se tornar um campo de batalha para combates sangrentos de rua em rua entre o Hamas e as forças israelenses. E dezenas de milhares de civis poderão se encontrar no meio do fogo cruzado.

 

Ø  O bairro em Gaza que foi reduzido a escombros em uma única noite

 

Em um piscar de olhos, as construções de Al Zahra, no coração da Faixa de Gaza, passaram de um bairro residencial a uma pilha de escombros.

Pelo menos 25 edifícios residenciais naquela cidade foram demolidos em ataques aéreos de Israel, visando um bairro que era bastante tranquilo e rico.

ofensiva israelense ocorre em retaliação aos ataques do Hamas em 7 de outubro, quando 1,4 mil pessoas foram mortas por membros do grupo islâmico. Cerca de 6,4 mil pessoas foram mortas nos ataques em Israel.

Umm Salim al Saafin perdeu sua casa. Ela chorou muito ao contar que o exército israelense havia ordenado que os moradores do bairro evacuassem suas casas às 20h30 do dia 19 de outubro.

Ela conta que, depois, a área foi bombardeada continuamente, das 21h às 7h de sexta-feira.

Em seu prédio havia 20 apartamentos, cada um ocupado por uma família e que nenhum deles tinha para onde ir.

"Somos civis que vivem pacificamente em nossas casas. Por que estão nos bombardeando? O que fizemos?", disse Umm Mohammed, outra mulher que também perdeu sua casa.

O ataque a Al Zahra deixou cerca de 5 mil pessoas desabrigadas. Esse número se soma às centenas de milhares de residentes de Gaza que foram forçadas a deixar suas casas.

Ele diz que algumas famílias não saíram e ficaram soterradas sob os escombros, mas é dificílimo recuperar os corpos ou mesmo procurar sobreviventes porque as ambulâncias e outras equipes de emergência não conseguem acessar o local e carecem dos equipamentos necessários.

"Tudo o que tínhamos desapareceu", disseram à BBC moradores que retornaram para inspecionar a destruição de procurar pertences em meio aos escombros.

Eles recolheram algumas roupas embrulhadas em lençóis e saíram com travesseiros, colchões e cobertores.

Mas a busca por pertences teve que ser interrompida.

Enquanto a equipe da BBC ainda estava no bairro, um morador disse ter recebido um telefonema do exército israelense ordenando que as pessoas saíssem: os militares iriam destruir uma das torres restantes.

Isso levou à evacuação imediata da área.

A BBC pediu às Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês) comentários sobre o que especificamente foi atacado em Al Zahra.

A entidade afirmou que Israel está "respondendo com força para desmantelar as capacidades militares e administrativas do Hamas" em retaliação aos seus "ataques bárbaros".

"Em total contraste com os ataques intencionais do Hamas contra homens, mulheres e crianças israelenses, as IDF seguem o direito internacional e tomam as precauções viáveis ​​para mitigar os danos civis."

·         Um 'refúgio' feito nos anos 90

A cidade de Al Zahra foi construída no final da década de 1990 em terrenos baldios.

O ex-presidente palestino Yasser Arafat ordenou a sua construção para evitar a expansão do assentamento Nitzarim, que fazia fronteira com a cidade ao norte.

Os edifícios e ruas da cidade eram relativamente modernos, com cerca de 60 torres residenciais que abrigavam até 10 mil pessoas.

O local foi sede de instituições públicas, universidades e escolas.

Hamza, um morador de Al Zahra, conta que a cidade estava longe das recentes operações militares e não tinha sido alvo em guerras anteriores. Esta sensação de segurança tornou o local um refúgio para pessoas deslocadas de outras áreas.

Quando a guerra começou, os residentes de Al Zahra abriram as suas casas aos seus familiares, sendo comum que cada apartamento passasse a abrigar duas ou mais famílias.

Quando as torres foram destruídas, os moradores e seus parentes ficaram sem abrigo.

Mesmo aqueles cujas casas não foram atacadas não podem regressar com medo de serem bombardeados a qualquer momento.

Hamza, que está hospedado com seus parentes, descreve a situação como uma "catástrofe humanitária".

"O aviso para sairmos veio 5 minutos antes do ataque", disse.

 

Ø  Por dentro da 'sala da guerra' de Israel na tensa fronteira com o Líbano

 

Seu nome é "Hamal" – abreviatura de 'sala da guerra', em hebraico. Ela fica no alto das montanhas, na fronteira entre Israel e o Líbano, no centro de um complexo protegido por paredes de segurança.

Aliás, tudo por aqui gira em torno da segurança.

A sala não tem janelas. Para poder passar pela sólida porta de entrada, você precisa deixar para trás telefones celulares e relógios inteligentes – tudo o que puder revelar a localização deste local secreto.

Dentro da sala, há uma série de monitores. Uma equipe acompanha as imagens atentamente, 24 horas por dia.

As telas mostram imagens em preto e branco granuladas, captadas por câmeras permanentemente instaladas ao longo de mais de 100 km, na fronteira entre Israel e o Líbano.

Os turnos costumam ter quatro horas de duração. Militares acompanham o ciclo das imagens, uma após a outra, em busca de qualquer anormalidade.

Desde o dia 7 de outubro, quando militantes do Hamas atacaram o sul de Israel a partir da Faixa de Gaza, matando 1,4 mil pessoas e capturando mais de 200 reféns, o aumento da tensão nesta fronteira também é constante.

Quase todos os dias, militantes libaneses do Hezbollah lançam mísseis antitanques contra Israel. E as forças israelenses respondem com artilharia, jatos e helicópteros de combate.

Os dois lados registraram mortes de civis na última semana. E cada enfrentamento levanta o temor de que a violência na fronteira possa sair de controle.

A capitã "S" lidera a companhia que monitora as câmeras. O trabalho de vigilância é realizado exclusivamente por mulheres.

"Somos os olhos dos soldados, os olhos das forças no campo — de toda a fronteira e o nosso papel é muito importante", diz ela.

Em uma das paredes da sala, fotos de infância das oficiais estão penduradas como se fossem bandeirinhas. Suas datas de nascimento foram escritas embaixo das fotos, usando uma grossa caneta preta.

Todas elas são jovens. A maioria ainda está cumprindo seu período de serviço militar obrigatório nas Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês).

"Somos mulheres fortes, soldadas que conhecem seu trabalho e sua missão. Sabemos que desempenhamos um papel muito importante nesta guerra", prossegue a capitã.

"Nosso primeiro objetivo é a defesa e as meninas sabem disso. Todas elas vêm para o seu turno de vigilância e sabem o que têm que fazer."

Em diversas ocasiões na última semana, militantes tentaram atravessar o muro para o outro lado da fronteira.

O Hezbollah é um grupo político e militar libanês poderoso, apoiado pelo Irã. Pouco a pouco, ele vem aumentando suas tentativas de se infiltrar em Israel.

Os Estados Unidos, o Reino Unido e outros países consideram que o Hezbollah e o seu fiel aliado, o Hamas, são organizações terroristas.

Internacionalmente, existem preocupações de que qualquer erro de cálculo possa levar à abertura de uma nova frente nesta guerra, no norte de Israel.

Um evento significativo — como a explosão do hospital Al-Ahli Arab ou o possível início de uma ofensiva terrestre israelense na Faixa de Gaza — também poderá levar o Hezbollah a tomar ações mais contundentes contra Israel.

E, em alguns momentos, esta possibilidade parece estar muito perto. A sargenta "I" estava no seu turno, observando o monitor, quando as imagens subitamente mudaram.

Figuras obscuras se aproximavam do muro da fronteira. Ela sabia o que precisava fazer e convocou rapidamente um ataque aéreo.

"Reconheci um grupo de terroristas na tela e compreendi que algo estava errado", ela conta. "Este é o meu trabalho, proteger a fronteira norte para que ninguém a invada e nenhum civil fique ferido, especialmente os que moram aqui, perto da fronteira."

"É assustador e estressante, mas preciso manter a calma", explica a militar. "Não vou mentir, é muito assustador ficar aqui, perto da fronteira. Com tudo o que está acontecendo agora no nosso país, é muito difícil processar tudo o que já ocorreu."

Para a sargenta "I", tudo isso é especialmente difícil, porque jovens soldadas que faziam exatamente o mesmo trabalho no sul de Israel foram atacadas pelo Hamas.

"Penso em todas as militares e nas observadoras de câmeras que sofreram o ataque", ela conta.

"Meu coração está com elas. Conheço pessoalmente muitas pessoas que foram raptadas ou assassinadas."

 

Fonte: BBC Árabe

 

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