Do presidencialismo de coalizão ao parlamentarismo
de coação
Uma quantidade
considerável de livros, artigos, notícias, reportagens investigativas,
inquéritos policiais, processos administrativos e penais, ações de improbidade
administrativa, entre outros elementos, aponta para uma prática comum em todos
os governos recentes e nos mais vetustos. A obtenção de apoio político no
Congresso Nacional (e o fenômeno se estende para as Assembleias Legislativas,
Câmara Distrital e Câmaras de Vereadores) depende, e dependia, da oferta de
postos de ministro de Estado, cargos comissionados na estrutura da
Administração Pública, liberação de emendas orçamentárias, favores e medidas
fisiológicas de várias naturezas. Esse “sistema” ou “modelo” político ficou
conhecido pelo pomposo nome de “presidencialismo de coalizão”, a partir do
trabalho do sociólogo Sérgio Abranches.
Eis alguns registros
públicos (entre dezenas de outros) que demonstram a correção das últimas
considerações:
a) “União Brasil quer
manter Codevasf e comandar Sudene em troca de apoio a Lula. Lula vive impasse
com União Brasil sobre cargos a serem oferecidos para garantir apoio em
votações na Câmara”;
b) “Partidos que apoiaram
Bolsonaro chantageiam Lula por cargos. O toma lá, dá cá de sempre”;
c) “A promiscuidade
documentada: a planilha que mapeia os interesses ocultos no GDF. (…) A
promiscuidade partidária entre a Câmara Distrital e o governo do Distrito
Federal cega o eleitor brasiliense, que acredita inocentemente na independência
de seus representantes eleitos”;
d) “Lula abre ‘porteira’
de cargos a União Brasil e MDB para ganhar aliados e barrar CPI; e) “Governo Lula
abre mão de verba para Lira distribuir emendas até a deputados da oposição”;
e) “O vocábulo
governabilidade consolidou-se como uma espécie de abracadabra para a caverna de
Ali-Babá. Juntam-se hienas, raposas, aves de rapina, abutres e roedores de toda
espécie. E anotam na tabuleta da porta: ‘Base Aliada’. Sob Lula 3, montou-se um
esquema muito parecido com o que havia na gestão Bolsonaro. A diferença é que o
‘toma lá’ ficou mais caro”;
f) “No toma lá, dá cá com
o Congresso, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai começar a
transferir bilhões de reais do caixa federal para aumentar a base de apoio, sem
qualquer transparência”;
g) “Em 2005, no inquérito
que investigava a corrupção nos Correios, a PF já registrara que, ‘ao longo os
anos, vem ocorrendo, tanto nos Correios quanto em outras empresas estatais do
país, uma espécie de ‘loteamento’ dos cargos em comissão a pessoas dos mais
diversos matizes políticos que se alternam no poder”;
h) “Ao longo dos últimos
anos foi se construindo um padrão de relação entre Congresso e Executivo que
visou garantir verbas públicas para alimentar 513 deputados e 81 senadores, que
acabam funcionando como empresas individuais. Um modelo que na ponta impediu a
realização de política com P maiúsculo, que virou entrave à solução dos
problemas reais da população”;
i) “Lula negocia mais
dinheiro para o centrão em meio a reforma ministerial. Planalto e cúpula do
Congresso fazem acerto envolvendo R$ 2 bilhões para turbinar pastas e órgãos
que canalizam emendas”;
j) “Gaspari diz que
Arthur Lira avacalha a Câmara ao querer a Caixa de porteira fechada. Jornalista
criticou o fisiologismo defendido abertamente pelo parlamentar”;
k) “Bancada do PSD
empareda Padilha por cargo e ameaça ministra: ‘se a gente dançar, ela dança
também’. Deputada Laura Carneiro falou com ministro da articulação política no
Planalto ameaçando derrubar a ministra da Saúde, Nísia Trindade; PSD quer
cargos na Funasa”.
Merece ser sublinhado que
os procedimentos escusos podem mudar de forma ao longo do tempo e em função das
descobertas e desarticulações institucionais. O que antes tomava a forma de A
pode ser mantido assumindo a forma de B. Tancredi, personagem do famoso romance O
Leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, alertou: “Se queremos que tudo
continue como está, é preciso que tudo mude”.
Essas mutações na forma
dos esquemas de corrupção envolvendo o Parlamento não passaram despercebidas
pela ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Rosa Weber na condição de
relatora da ADPF 854/DF. Afirmou a ilustre magistrada em seu voto:
“41. Põe-se em questão a
facilidade com que esquemas de corrupção de tamanha abrangência surgem,
propagam-se e, mesmo após seu declínio, reestruturam-se; envolvem servidores e
autoridades públicas de diversas unidades da Federação; e, ainda assim,
conseguem subsistir mesmo diante da atuação fiscalizatória dos sistemas de
controle e acompanhamento orçamentário. (…) 51. Na era dos esquemas tipo PC
Farias, falava-se em fantasmas, alusão à ocultação da presença por meio de
empresas imateriais, identidades incorpóreas e operações espectrais. Na época
da operação sanguessuga, evidenciava-se o caráter parasitário das condutas. Os
envolvidos aderiam ao orçamento absorvendo recursos por meio de engenharia
burocrática sem revelar a própria existência. Atualmente, a política
patrimonialista, reinventando-se, instrumentaliza formas e fórmulas
jurídico-contábeis para conferir ares de oficialidade a conteúdo inoficioso, aparência
de institucionalidade ao que não encontra amparo na ordem constitucional. Como
se sabe, a liturgia, por si só, não torna sacro o que é secular na essência”.
Nesse sentido, não
obstante a declaração de inconstitucionalidade do “orçamento secreto” do governo
Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal, a distribuição de recursos
orçamentários entre parlamentares e a ausência de transparência persistem no
Governo Lula 3, conforme inúmeras matérias jornalísticas.
Parece fora de dúvida que
as lideranças do Poder Legislativo “sempre” reuniram força suficiente para
exigir contrapartidas, republicanas ou não, para hipotecar apoio às medidas de
interesse do Executivo, independentemente do nome e da inclinação
político-ideológica do mandatário maior da Nação.
A sociedade brasileira é
testemunha de que o chamado “presidencialismo de coalizão” produziu um
altíssimo nível de deterioração da ação política e corrupção em larga escala.
Os escândalos e os mecanismos voltados para a malversação de recursos públicos
se sucederam com indesejável frequência.
Ocorre que o ruim ficou
pior. Existem vários indícios e avaliações, feitas por jornalistas, políticos e
cientistas, apontando para a construção de uma nova, e mais nefasta,
conformação das relações entre o Executivo e o Legislativo. Trata-se do que
pode ser chamado de “parlamentarismo de coação” (ou chantagem, mesmo).
Esse novo momento (ou
“modelo”) se caracteriza: a) pelo aumento da força política do bloco
fisiológico/clientelista no Parlamento; b) incremento da organicidade da
atuação do bloco fisiológico/clientelista. Percebe-se uma movimentação mais
articulada e uniforme, inclusive no reconhecimento de quem são os “líderes” do
grupamento parlamentar; c) clara visibilidade da pressão política sobre o
Executivo. Até a grande imprensa é utilizada para mandar “recados” aos gestores
e deixar muito claro o que é preciso para que os “projetos de interesse do
governo” tramitem com o mínimo de chances de aprovação e d) utiliza-se uma
linguagem cifrada que qualquer pessoa com meio neurônio é capaz de entender. A
reclamação contra a falta de “articulação político-parlamentar do governo” é
facilmente traduzida como insuficiência na distribuição de cargos e verbas para
certos integrantes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal.
Ilustrando as
considerações anteriores, para além de qualquer dúvida, vale conferir uma
entrevista do deputado federal Washington Quaquá, vice-presidente nacional do
Partido dos Trabalhadores (PT). Disse o parlamentar (fonte:
noticias.uol.com.br):
“É só estabelecer uma
cota. Vai ser R$ 50 milhões por deputado a cada ano? Define isso. O cara que é
oposição tem o benefício de poder falar mal do governo à vontade. Ele ganha
voto nesse nicho. E o cara que é do governo, qual é o benefício dele? É poder
governar. É poder realizar coisas na base eleitoral dele. Acho mais do que
justo, mais do que tranquilo./Com R$ 18 bi, R$ 20 bi, R$ 25 bilhões resolve
essa parada. Não é com ministério. Claro que ministério faz parte, mas do ponto
de vista de querer governar junto, participar da política pública./Eu estou lá
todo dia, com a base no Congresso. O que contemplará a base e formará a maioria
para governar são as emendas./Se o governo der R$ 50 milhões para cada deputado
do União Brasil, 90% deles vão votar com a gente./Mas precisa primeiro entender
o presidente [Arthur] Lira como um fenômeno político brasileiro. Hoje, o
presidente da Câmara é o presidente do sindicato dos parlamentares, ele
representa os interesses dos parlamentares. Não tem mais um Ulysses Guimarães,
que defendia teses. Hoje você tem um cara que defende o mandato dos deputados.
Lira faz isso muito bem”.
O termo “chantagem”
sintomaticamente é usado com frequência crescente para caracterizar as relações
entre o Executivo e o Legislativo no plano federal. Recentemente, um editorial
do jornal O Estado de S. Paulo qualificou expressamente as
relações atuais entre o governo e o Parlamento (boa parte dele) como uma
verdadeira chantagem. Foi dito, com todas as letras: “Governo abusa da edição
de medidas provisórias, mas isso não é razão para chantagem de Lira. Requisito
constitucional protege o interesse público, não barganhas privadas (…) É
urgente encontrar uma via de mais equilíbrio nas relações entre Executivo e
Legislativo que passe longe da simples chantagem”. Estas são algumas outras
menções (são inúmeras): a) “O que Arthur Lira está fazendo é chantagem com o
governo” (fonte: brasildefato.com.br); b) “Arthur Lira sacode Brasília com
ameaças e chantagem. Seu poder está a serviço do lobby empresarial contra Lula”
(fonte: cartacapital.com.br); c) “Ao dar ministério a Fufuca, Lula mostra a
Lira que chantagem funciona” (fonte: oglobo.globo.com); d) “O método Lira de
chantagem” (fonte: Ponto de Partida); e) “Na base da chantagem Arthur Lira é um
novo Eduardo Cunha com mais poder” (fonte: noticias.uol.com.br) e f) “MP dos
Ministérios é aprovada na Câmara sob chantagem de Lira” (fonte:
midianinja.org).
Na raiz desse quadro
dantesco está, como foi destacado, a eleição de um grande número de
parlamentares por intermédio dos mais deletérios expedientes fisiológicos e
clientelistas. Quem compra votos ou troca o sufrágio por favores de várias
naturezas torna-se “dono” de um mandato parlamentar (importante espaço de
poder). Sem qualquer tipo de satisfação ao eleitor ou controle social, as
negociatas mais tenebrosas acontecem livremente e são até noticiadas pela
grande imprensa (nas facetas institucionais, como nomeações, liberações de
verbas, etc).
Essas e muitas outras
mazelas presentes na vida nacional somente serão superadas com a inserção dos
interesses populares no centro da ação política. Conscientização, organização e
mobilização dos interesses da maioria da sociedade precisam efetivamente animar
a ocupação dos principais espaços de poder. Infelizmente, estamos muito longe desse
desejável quadro.
Aliás, a situação atual é
mais preocupante do que se pode imaginar. De um lado, temos uma forte
mobilização de importantes segmentos das classes médias sob a bandeira de um
patriotismo desprovido de real significado e facilmente capturado para o que
existe de pior em termos de autoritarismo e elitismo. De outro lado, observamos
uma significativa atuação política de setores progressistas da sociedade
atraídos por um projeto que se autoproclama como popular, mas não passa de uma
engenhosa administração do status quo (os mecanismos e instrumentos estruturais
viabilizadores e reprodutores de profundas injustiças, opressões e
discriminações).
Infelizmente, nos tempos
atuais, resta pouco espaço para a construção de um ambiente pautado por uma
participação visceralmente popular de alta energia.
Ø Lira tenta construir sua ponte para o futuro
Arthur Lira volta a
Brasília nesta semana, depois de longa viagem à Índia e à China, disposto a levar ao plenário projetos que o
governo considera essenciais para equilibrar as contas públicas em 2024 — a
taxação de fundos de investimento (exclusivos) e aplicações financeiras
offshore, por exemplo. A Câmara ficou paralisada nas últimas semanas. Não só
pela ausência de Lira, mas também pelo embate que trava com o governo, em nome
do Centrão, sobre indicações para cargos no comando da Caixa.
Um mês atrás, Lira tentou
conversar com Lula. Estavam em Nova York para a sessão de abertura da
Assembleia Geral da ONU. Encontraram-se numa recepção oferecida pelo embaixador
brasileiro Sérgio Danese. Lira insistiu, mas Lula recusou. Disse que preferia
falar do assunto no Brasil.
Líderes governistas
apostam que Lira não vai esperar as nomeações “de porteira fechada” no banco
federal para votar a pauta econômica do ministro Fernando Haddad. Em outras
ocasiões ele já tentou provar — contam os seus aliados — que na Câmara o jogo
só anda quando ele quer. Lira, dizem eles, pretende mostrar a Lula que ainda é
o dono da bola. Ele está sob pressão, corre contra o tempo porque seu mandato
termina em dezembro de 2024, ano de eleições municipais.
A troca de comando na
Câmara só acontecerá em fevereiro de 2025, mas a campanha pela sucessão está em
curso, acelerada, e o cafezinho no gabinete do presidente começou a ficar
morno. A preocupação de Lira é o que vai fazer quando voltar à planície. Para
manter influência no debate político, precisará da ajuda de Lula. Ou ganhando
um posto de destaque, em um ministério ou estatal, ou controlando cargos
importantes, como a Caixa. Sem poder efetivo em Brasília terá problemas ainda
maiores em Alagoas, sua base eleitoral, onde perdeu o governo do Estado e a
prefeitura da capital. E o principal adversário local, Renan Calheiros,
mantém-se influente no Palácio do Planalto.
Lira tenta dar as cartas.
Conseguiu, por exemplo, que o ministro Fernando Haddad troque por um projeto de
lei, com regime de urgência, a medida provisória que altera o cálculo da
tributação de subvenções concedidas por estados a investimentos. A expectativa
do governo é arrecadar R$ 35,3 bilhões com a mudança, e Haddad tem dito que
essa virou sua pauta prioritária, comparando-a à PEC da transição, que garantiu
recursos para Lula começar o governo. A mudança permite à Câmara comandar o
ritmo da votação no Congresso e evita o rito das MPs, foco permanente de atrito
com o Senado.
Faltam oito semanas úteis
para o ano legislativo terminar. São muitas as pendências — a Lei de Diretrizes
Orçamentárias não foi votada e a reforma tributária ainda terá longo caminho. O
governo precisa aprovar sua agenda econômica, e Haddad tem apelado ao
Legislativo com o argumento de que as incertezas da economia mundial, com duas
guerras em curso, tornam urgentes as reformas propostas.
O presidente da Câmara
deseja, e em certa medida precisa, terminar o ano como o mediador de resultados
positivos para o governo. A partir de fevereiro, as prioridades mudam, e as eleições
municipais passam a dominar a atenção os parlamentares, que dependem da força
das bases regionais para disputar a reeleição em 2026. Lira tenta
construir uma ponte para o próprio futuro, cada vez mais dependente de uma
parceria política com Lula.
Fonte: Congresso em Foco

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