segunda-feira, 2 de junho de 2025

Advogado pede investigação de defensora de 'mãe' de bebê reborn, que desistiu de ação sobre licença-maternidade

A ação trabalhista em que uma recepcionista pedia a condenação de uma empresa pela negativa do pedido de licença-maternidade para cuidar da 'filha' bebê reborn tomou novos contornos na manhã desta quinta-feira (29/5). A recepcionista que afirmava ter legítimo vínculo materno com sua filha reborn apresentou um pedido de desistência da ação junto à 16ª Vara do Trabalho de Salvador, alegando risco à integridade física, à imagem e à honra dela e da advogada após a repercussão do caso. Antes disso, na noite de quarta-feira (28/5), o advogado José Sinelmo Lima Menezes havia afirmado que sua assinatura no processo foi fraudada e pediu instauração de investigação por falsidade ideológica e uso de documento falso.

Num primeiro momento, a ação havia sido movida pela funcionária sob a defesa da advogada Vanessa de Menezes Homem, mas a procuração e a petição inicial estavam com a assinatura do advogado José Sinelmo Lima Menezes. Segundo a manifestação de José Sinelmo Lima Menezes, a advogada teria apresentado uma procuração fraudulenta em nome de advogado alheio ao caso. Por isso requereu que o Ministério Público da Bahia seja oficiado para instaurar uma investigação por falsidade ideológica e uso de documento falso, e que seja instaurado um processo disciplinar ético contra Vanessa Homem na seção baiana da Ordem dos Advogados do Brasil.

Procurada pelo JOTA, Vanessa Homem afirmou que está procurando meios para “estancar” a petição do advogado. “Sinelmo se exaltou devido à pressão que ele estava sofrendo no momento e acabou fazendo besteira”, afirmou. Segundo ela, não é possível alegar que houve fraude na procuração, uma vez que apenas existe o nome do advogado com a assinatura da reclamante.

A advogada também disse que está tranquila sobre eventuais investigações, uma vez que foi apenas um “equívoco” do colega. “Eu acho que o Ministério Público, lendo aquilo ali, vai entender que ele se equivocou”, declarou.

Além disso, Vanessa Homem diz não existir possibilidade de que a trabalhadora volte à pedir por direitos personalíssimos ou qualquer direito à bebê reborn na Justiça Comum ou em outros tribunais.

Por sua vez, na manhã desta quinta-feira (29/5), José Sinelmo Lima Menezes constituiu o advogado Guido Biglia para representá-lo no processo. A defesa dele afirmou que, embora tenha tomado conhecimento do pedido de desistência da ação, ainda está avaliando a estratégia para se posicionar.

<><> O que diz o pedido de desistência do processo sobre licença-maternidade para 'mãe' de bebê reborn

No novo pedido, a trabalhadora declarou que não pretendia fazer uma piada ou afrontar o tribunal. “O que pretendia-se nesta ação era a rescisão indireta em virtude dos abalos psíquicos diários que a Reclamante vem sofrendo em seu ambiente laboral por optar tratar como se filha fosse um objeto inanimado, de certo que esse é um direito seu”, esclareceu.

A recepcionista alega que, em menos de 24 horas da ação proposta, a vida dela e da advogada tornou-se “um verdadeiro inferno”. Segundo ela, advogados têm instigado populares a agredi-la em grupos de WhatsApp.

“Entende-se que as palavras-chave ‘bebê reborn’ e ‘licença-maternidade’ em uma mesma petição acarretaram naqueles que fazem leitura dinâmica ou interpretam o que leem com único intuito de polemizar, assunto para suas pífias rodas de conversas por algum tempo. No entanto, o respeito à integridade física e ética dos profissionais envolvidos, bem como física e mental da Reclamante, precisam ser respeitados e preservados.”

Na manifestação a advogada narra que foi procurada em casa às cinco da manhã, em busca de esclarecimentos sobre o tema, além de ter sido vítima de ataques nas redes sociais. Por isso, as redes sociais de Vanessa Homem foram desativadas.

<><> O que disse José Sinelmo Lima Menezes

Na manifestação do advogado José Sinelmo Lima Menezes, ele afirma que jamais teve qualquer vínculo profissional ou pessoal com a trabalhadora que apresentou o pedido de reconhecimento da licença-maternidade. Ele destaca que, embora tenha seu nome na petição inicial e na procuração, a assinatura digital do processo é da advogada Vanessa Homem, sugerindo que a “profissional apresentou petição inicial com procuração fraudulenta, em nome de advogado absolutamente alheio à relação jurídica processual”.

De acordo com ele, a repercussão midiática da ação trouxe sérios danos à sua imagem profissional, atingindo injustamente sua reputação e credibilidade. Sinelmo pontua que a fraude da procuração constitui crime de falsidade ideológica e falta ética, nos termos da OAB. Ele requereu o imediato desentranhamento do seu nome e número de OAB dos autos, além de requisitar que o MPBA instaure investigação por falsidade ideológica.

•        Caso bebê reborn: Advogada defende causa e explica inconsistências

Na quarta-feira, 28, ganhou grande repercussão o caso da recepcionista que ingressou com ação trabalhista contra uma empresa de investimentos imobiliários pleiteando rescisão indireta e danos morais após ter negada licença-maternidade para cuidar de bebê reborn.

Após o caso ganhar grande repercussão, um novo elemento complicou a narrativa: o advogado José Sinelmo Lima Menezes, cujo nome constava na petição inicial, afirmou que foi vítima de fraude, e que não advoga na causa. Ele apresentou petição alegando que a procuração utilizada é falsa e que jamais teve vínculo, pessoal ou profissional, com a autora da ação.

Outro dado curioso é que, ao verificar a situação cadastral da empresa processada, constatou-se que o CNPJ está inativo há uma década.

Após forte reação sobre o caso na internet, nesta quinta-feira, 29, a advogada da causa, Vanessa Homem, pediu a desistência da ação. 

Diante dos fatos, Migalhas ouviu a advogada. Ela pontuou acreditar na legitimidade do pedido de sua cliente, e rebateu inconsistências: disse que o nome do advogado José Sinelmo foi inserido por engano, e que desconhecia a situação de baixa cadastral da empresa. Afirmou, apor fim, que tem sido duramente atacada nas redes sociais, situação que levou ela e sua cliente a recuarem do processo.

•        Juiz extingue ação sobre auxílio-maternidade a ‘mãe’ de bebê reborn e oficia OAB, PF e MPF para investigar caso

O juiz Júlio César Massa Oliveira, substituto da 16ª Vara do Trabalho de Salvador (BA), homologou o pedido de desistência da ação movida pela ‘mãe’ de bebê reborn que processou uma empresa, depois de ter a licença-maternidade para cuidar da boneca negada. Apesar de ter condenado a mulher a pagar as custas processuais, no valor de R$ 800, na prática, ela ficou isenta pela concessão da justiça gratuita. Além disso, oficiou a Polícia Federal (PF) e o Ministério Público Federal (MPF) para investigarem a alegação feita pelo advogado José Sinelmo Lima Menezes de que sua assinatura no processo havia sido fraudada. Também oficiou a seccional da Bahia da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-BA) para que tome providências em relação a eventuais falhas éticas da advogada Vanessa de Menezes Homem, responsável pela defesa da ‘mãe’ do bebê reborn.

A ação que requeria a rescisão indireta do contrato de trabalho e a indenização por danos morais diante da negativa da licença-maternidade para cuidar da ‘filha’ reborn havia sido movida por uma recepcionista, defendida pela advogada Vanessa de Menezes Homem, mas a procuração e a petição inicial estavam com a assinatura do advogado José Sinelmo Lima Menezes.

Na noite desta quarta-feira (28/5), José Sinelmo havia pedido no processo que seu nome fosse desentranhado dos autos já que alegou jamais ter qualquer contato profissional ou pessoal com a trabalhadora que apresentou a ação relacionada à licença-maternidade por afeição a uma bebê reborn. Ele destaca que, embora tenha seu nome na petição inicial e na procuração, a assinatura digital do processo é da advogada Vanessa de Menezes Homem, e sugeriu que a “profissional apresentou petição inicial com procuração fraudulenta, em nome de advogado absolutamente alheio à relação jurídica processual”.

Também afirmou que a repercussão midiática da ação trouxe sérios danos à sua imagem profissional e atingiu injustamente sua reputação e credibilidade. Sinelmo afirma que a fraude da procuração constitui crime de falsidade ideológica e falta ética, nos termos da OAB. Ele requereu o imediato desentranhamento do seu nome e número de OAB dos autos, além de requisitar que o MPBA instaure investigação por falsidade ideológica.

Já às 7h20 desta quinta-feira (29/5), representada pela advogada Vanessa de Menezes Homem, a recepcionista que afirmava ter legítimo vínculo materno com sua ‘filha’ reborn apresentou um pedido de desistência da ação junto à 16ª Vara do Trabalho de Salvador, alegando risco à integridade física, à imagem e à honra dela e da advogada após a repercussão do caso. Também pediu que a ação passasse a tramitar sob segredo de Justiça.

A recepcionista alega que, em menos de 24 horas da ação proposta, as vidas dela e da advogada viraram “um verdadeiro inferno”. Segundo ela, advogados têm instigado populares a agredi-la em grupos de WhatsApp.

Na manifestação, a advogada narra que foi procurada em casa às cinco da manhã, em busca de esclarecimentos sobre o tema, além de ter sido vítima de ataques nas redes sociais. A conta de Instagram de Vanessa Homem foi desativada.

<><> O que o juiz disse sobre o caso da ‘mãe’ de bebê reborn que desistiu de processar a empresa por negar auxílio-maternidade para cuidar da boneca afetiva

O juiz Júlio César Massa Oliveira negou o pedido de segredo de justiça para o caso. Segundo Oliveira, não se desconhecem as repercussões que o processo gerou na comunidade jurídica, mas tal fato, por si só, não enseja a consequência jurídica do sigilo. O juiz considerou que “não raro situações da vida cotidiana são levadas ao Poder Judiciário e suscitam relevantes debates sociais, como ocorre no caso em análise”.

O magistrado cita reportagem do JOTA e do site Migalhas para argumentar que o “conteúdo do mérito discutido nos presentes autos foi objeto de manifestação por parte da advogada da autora em redes sociais e sites jurídicos, inclusive com a exposição de detalhes do caso”, o que afasta o pedido de sigilo para o caso.

“Eventuais excessos praticados por terceiros fora da relação processual devem ser discutidos nas searas próprias mediante provocação daqueles que se sentiram ofendidos, cabendo-lhes manejar os remédios jurídicos aplicáveis em cada situação concreta”, afirma o juiz.

Ao homologar o pedido de desistência do processo, o juiz narra que a empresa processada encontra-se com baixa na Receita Federal há mais de dez anos, o que impediria a continuidade da demanda, já que se trata de empresa extinta muito tempo antes do ajuizamento da ação.

Quanto aos pedidos de investigação feitos pelo advogado José Sinelmo, "diante da notícia de que jamais teve contato com a parte autora e não fora por ela constituído e, ainda, de que não teria participado de qualquer modo da confecção da petição inicial", o juiz concordou em oficiar a OAB, a PF e o MPF para que investiguem o caso.

Procurado, o advogado Guido Biglia, profissional constituído por José Sinelmo para atuar no caso, afirmou que seu cliente 'está muito abalado' e que reitera os requerimentos de investigação feitos na petição apreciada pelo juiz Júlio César Massa Oliveira.

O JOTA também procurou a advogada Vanessa de Menezes Homem, mas não obteve retorno. Antes da sentença, ela disse à reportagem que estava procurando meios para “estancar” a petição do advogado. “Sinelmo se exaltou devido à pressão que ele estava sofrendo no momento e acabou fazendo besteira”, afirmou. Segundo ela, não é possível alegar que houve fraude na procuração, uma vez que apenas existe o nome do advogado com a assinatura da reclamante.

•        Bebês reborn despertam acolhimento, mas acendem discussões sobre limites emocionais e saúde mental

Eles têm pele de silicone, peso de um recém-nascido, cheirinho de talco e cada detalhe meticulosamente pensado para se parecer, o máximo possível, com um bebê de verdade. Os bebês reborn — bonecas hiper-realistas — vêm ganhando espaço não apenas entre colecionadores, mas também no universo do cuidado emocional e, mais recentemente, no radar de psicólogos, psiquiatras e terapeutas.

O que explica esse fenômeno? Para alguns, os reborns são fonte de afeto, acolhimento e até mesmo uma forma de terapia. Para outros, representam um alerta sobre os limites entre conforto emocional e a negação da realidade. Afinal, onde termina o cuidado e começa o adoecimento?

<><> O afeto que acalma

Não é difícil entender o apelo afetivo dos bebês reborn. Eles podem oferecer consolo, especialmente em contextos de dor. É comum que mulheres que passaram por perdas gestacionais encontrem, na presença simbólica da boneca, um apoio temporário para elaborar o luto. Idosos que vivem com demência, por exemplo, também podem se beneficiar do manuseio desses bebês de silicone, como mostram alguns estudos na área de geriatria, que relatam redução na ansiedade, na solidão e na agitação de pacientes com Alzheimer.

Em situações assim, o bebê reborn funciona como um objeto de apoio emocional, uma ponte simbólica que ajuda a organizar as emoções e a dar sentido a experiências difíceis. A psicologia há muito tempo reconhece o valor dos chamados objetos transicionais — aqueles que oferecem segurança em momentos de vulnerabilidade emocional, como o famoso “paninho” que muitas crianças carregam para se sentir seguras.

<><> Quando o conforto se torna prisão

Mas nem sempre esse recurso é saudável. Quando o vínculo ultrapassa o limite do simbólico e a pessoa passa a viver a fantasia como se fosse realidade, o que era apoio pode se transformar em prisão psíquica. Existem casos em que o apego ao bebê reborn substitui relações humanas, gera isolamento social e até impede o enfrentamento de questões emocionais importantes, como a elaboração do luto, a aceitação da solidão ou a superação de traumas.

O sinal de alerta aparece quando a boneca deixa de ser um apoio temporário e passa a ocupar o lugar de uma presença fixa e insubstituível. Nesses casos, o bebê reborn deixa de ser expressão de afeto e passa a ser um sintoma de sofrimento — um indicativo de que há uma dificuldade maior em lidar com a realidade e com a própria dor.

<><> O sintoma de uma sociedade que não suporta sofrer

Mais do que um fenômeno individual, os bebês reborn também dizem muito sobre o nosso tempo. Vivemos em uma sociedade que parece não tolerar a ausência, o vazio e o sofrimento. Somos constantemente estimulados a buscar prazer instantâneo: no clique das redes sociais, na compra por impulso, na ansiedade por novidades, nas distrações sem fim. Tudo isso alimenta uma lógica de dopamina — uma busca incessante por pequenas doses de satisfação que aliviam, ainda que por segundos, qualquer desconforto.

O bebê reborn, nesse sentido, é quase uma metáfora perfeita da nossa dificuldade contemporânea em lidar com a falta. É a tentativa de transformar ausência em presença, dor em preenchimento, luto em objeto. Em vez de elaborarmos a perda, buscamos anulá-la. Em vez de ressignificar a dor, buscamos silenciá-la com algo que, embora pareça, não é real.

O brincar, que é tão saudável e estruturante na infância, perde sua função simbólica quando, na vida adulta, se transforma em fantasia rígida, na qual o objeto passa a ser vivido como substituto da realidade — e não como representação.

<><> O valor da dor

Apesar de desconfortável, a dor tem um papel fundamental na vida psíquica. É ela que nos convoca a refletir, a reorganizar, a construir novos sentidos. Elaborar o luto, ressignificar ausências e aprender a conviver com aquilo que não podemos mudar faz parte da nossa humanidade.

Quando negamos essa experiência — seja através de distrações constantes, de relações superficiais ou até da tentativa de substituir o que não pode ser substituído — adoecemos. A saúde mental não está na busca pela felicidade constante, mas na capacidade de atravessar, com coragem, também as experiências difíceis da vida.

Por isso, o debate sobre os bebês reborn é, na verdade, um convite para refletirmos sobre nós mesmos, sobre nossos tempos e sobre o quanto estamos, como sociedade, perdendo a capacidade de lidar com a falta, a dor e os ciclos naturais da existência.

•        Projeto que prevê multa de até R$ 18 mil para quem buscar atendimento a bebê reborn é protocolado na Alesp

A deputada estadual Carla Morando (PSDB) protocolou, nesta quinta-feira (29) na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), um projeto de lei que determina aplicação de multa à pessoa que buscar atendimento em serviços públicos para bebê reborn “como se fossem humanos”. O PL 532/2025 prevê cobranças que vão de R$ 9.255,00 a R$ 18.510,00, em caso de reincidência. A ideia, de acordo com o texto, é que os recursos correspondentes às multas aplicadas deverão ser destinados ao Fundo Estadual da Saúde.

O projeto determina, ainda, que as unidades prestadoras do serviço público, ao identificarem um situação como essa, deverão: orientar a pessoa a respeito da inapropriabilidade da conduta e do correto uso do serviço público e comunicar o fato à autoridade competente para o registro do ocorrido, com o detalhamento da situação e a coleta dos dados de identificação do infrator, juntamente com o número do CPF, em formulário próprio, para a adoção das medidas pertinentes ao caso.

Para a deputada, a medida previne “tumultos”, principalmente em ambientes que exigem “atenção plena aos pacientes “reais”, já que um atendimento a nomeados “resultaria em prejuízo à rotina da unidade com inegável reflexo na sobrecarga do sistema.” O PL prevê, ainda. que as sanções nao sejam aplicadas apenas em unidades de saúde, mas também “em outras áreas do serviço público, como educação, transporte, segurança, defesa civil”.

 

Fonte: Jota/Migalhas/Jovem Pan

 

Quatro dicas para cuidar da casa, desde aspirar seu colchão até... limpar sua máquina de lavar louça?

Sou bastante organizada. Cuido da aspiração e da roupa; limpo balcões e pias. Mas quando se trata de eletrodomésticos e problemas estruturais em casa, não entendo de nada. Se você me dissesse que meu ar-condicionado é controlado por uma família de pinguins que sopram ar frio pelas saídas de ar, eu provavelmente não acreditaria, mas também não teria uma explicação melhor.

Apresentamos Kyshawn Lane, o homem por trás da conta popular do Instagram Weekly Home Check . Toda semana, Lane posta vídeos sobre como cuidar da sua casa e dos seus pertences. Com uma voz calma e encorajadora, ele demonstra como aplicar vedações nas portas ou etiquetar a caixa do disjuntor.

Lane sabe que a maioria dessas informações não é intuitiva. Ele comprou sua primeira casa, uma casa centenária, em 2021. A família de Lane morava de aluguel quando ele era criança, então ele não estava acostumado com toda a manutenção que acompanha a compra de uma casa.

"Eu não tinha muita formação em como cuidar de uma casa", diz ele. "Eu simplesmente batia na porta do zelador quando algo dava errado."

Lane decidiu aprender sozinho a cuidar de sua nova propriedade. Ele leu livros sobre o assunto e frequentou o que chamou de "Universidade do YouTube" (ou seja, assistindo a muitos vídeos sobre manutenção residencial) e percebeu que essas habilidades poderiam lhe poupar o pagamento de honorários de empreiteiros.

Lane e seu parceiro elaboraram uma lista de verificação de 52 semanas para manutenção da casa. Acharam tão útil que começaram a compartilhar dicas no Instagram. O primeiro vídeo, em junho de 2023, era sobre a importância de ter um extintor de incêndio em casa. Seis meses depois, eles tinham mais de um milhão de seguidores.

“O conteúdo repercutiu em muitas pessoas, seja você um inquilino, um proprietário experiente ou um comprador de primeira viagem”, diz ele. “Se você cuidar bem da sua casa, ela retribuirá com muito amor, carinho e conforto.”

Eu queria cuidar bem da minha casa. Queria amor e conforto, e que meus eletrodomésticos funcionassem corretamente – e que parecessem tão calmos e competentes quanto Lane. Por telefone, ele descreveu quatro tarefas básicas de manutenção doméstica pelas quais eu poderia começar.

<><> Lave seus ralos

O ralo da pia do meu banheiro não está funcionando direito. Talvez tenha sido o brinco que perdi lá dentro, o cabelo que sempre cai ou os vários anticoncepcionais e ISRS que acidentalmente deixei cair no fundo dele.

Para resolver isso, preciso de dois ingredientes bem básicos. Como descobrirei mais tarde, não há quase nada que eles não possam fazer. "Vinagre e bicarbonato de sódio em casa vão mudar a sua vida", diz Lane.

De acordo com o vídeo de Lane , eu deveria despejar ½ xícara de bicarbonato de sódio no ralo, seguido de cerca de ¼ de xícara de vinagre, e cobrir a abertura do ralo com uma toalha úmida para reter a reação. Após 10 a 15 minutos, enxágue tudo com água fervente. Lane sugere repetir isso a cada dois ou três meses para remover qualquer gordura e cabelo acumulados.

Uma tarde, coloquei uma pequena panela de água no fogão para ferver, peguei bicarbonato de sódio, vinagre, xícaras medidoras e uma toalha e fui ao banheiro.

Despejo a mistura no ralo e deixo descansar, depois volto com a água fervente. Tiro a toalha e despejo a água na pia, mas, para meu horror, ela continua lá. O bicarbonato de sódio e o vinagre não desobstruíram o ralo; parecem tê-lo entupido ainda mais. Fico pensando em como vou contar isso para meu parceiro e para minha querida equipe de manutenção do prédio. Ando de um lado para o outro nervosamente. Depois de vários minutos, ouço sons altos de gorgolejo e engolida vindos do banheiro. Corro para a pia, que agora está vazia, com a água sugada para dentro dos canos. Abro mais torneira, que escorre rápida e suavemente.

Eu me gabo para meu parceiro sobre o ralo desobstruído e omito a parte em que pensei que tinha estragado nossos canos.

<><> Filme tudo o que você possui

A próxima dica de Lane foi filmar um vídeo de inventário da casa. Isso é importante tanto para proprietários quanto para inquilinos, ele explica: em caso de um grande desastre, como inundação ou incêndio, ter um registro dos seus pertences pode ajudar na hora de registrar sinistros tanto para o proprietário quanto para o inquilino. (As seguradoras têm requisitos diferentes para sinistros, por isso é importante conversar com sua seguradora antes de fazer o inventário.)

Pego meu celular e, obedientemente, filmo todo o meu apartamento, abrindo cada armário, gaveta e gabinete. Meu gato me segue por toda parte, fascinado, e entra em cada armário, gaveta e gabinete, tornando quase impossível ver o que há dentro. Meu vídeo tem seis minutos de duração, e a única coisa que posso provar que possuo é um gato preto sedento por câmeras.

<><> Gire e limpe seu colchão

Em seu vídeo da oitava semana, Lane recomenda a manutenção do colchão : especificamente, girá-lo 180 graus para evitar que ele ceda e aspirá-lo para remover poeira, pele morta e alérgenos que podem se acumular em sua superfície. Ele sugere fazer isso duas vezes por ano.

Desfaço a cama, viro o colchão, passo o aspirador e conto meu progresso para meu parceiro, que está no trabalho. "Doente", ele responde. Me jogo no colchão recém-arrumado. A sensação é a mesma, mas gosto de saber que não estou esticada sobre um monte de pele morta. Além disso, me obrigou a lavar os lençóis.

<><> Faça uma limpeza profunda na sua máquina de lavar louça

“As pessoas não sabem quanta manutenção é necessária em eletrodomésticos”, Lane me conta. “As pessoas não sabem que lava-louças precisam ser limpas!”

“Uau”, eu digo, sem nunca ter pensado em limpar minha máquina de lavar louça.

Lane explica o processo em um vídeo : retire a louça, remova as grades da máquina de lavar louça, o braço aspersor e os filtros. Uma dica é filmar a si mesmo fazendo isso para não esquecer a ordem em que tudo fica. Limpe tudo na pia. Em seguida, borrife o interior da máquina com vinagre e limpe com uma toalha de microfibra úmida. "Preste atenção às bordas e aos dispensadores de sabão, pois é aqui que acontece grande parte da sujeira e do acúmulo", diz ele no vídeo. Em seguida, recoloque todas as peças e execute um ciclo normal. Lane sugere repetir isso a cada um ou três meses.

Essa é a tarefa que eu mais odeio. Tirar as grades, o braço aspersor e o filtro é surpreendentemente fácil. Mas detesto olhar para o filtro e gostaria de voltar a não saber que ele existe. A sujeira nele parece fiapos de secadora, só que molhados. Que nojo. Quando borrifo vinagre no interior, ele se mistura com a água parada e cria um aroma nocivo que me lembra uma axila pubescente. Limpo, recoloco as grades e ligo o ciclo.

Depois, faço meu parceiro admirar meu trabalho. "Acho que não preciso lavar a máquina de lavar louça", diz ele.

Será que vou repetir isso daqui a um ou três meses? Provavelmente não. Mas gosto de saber que consigo. E girar o colchão e limpar o ralo é bem fácil. No geral, considero meu experimento de manutenção da casa um sucesso. Agora até tenho um vídeo lindo de seis minutos do meu gato.

 

Fonte: The Guardian

 

Vermelho, branco ou amarelo? O que a sua língua diz sobre a sua saúde

Certa vez, em uma festa, uma mulher disse que conseguiria descobrir tudo o que precisava saber sobre minha amiga olhando para a língua dela. Minha amiga obedientemente abriu a boca e, após alguns momentos de exame cuidadoso, declarou que minha amiga precisava assumir o controle da própria vida.

Sem dúvida, um truque mais impressionante teria sido encontrar alguém que não considerasse esse conselho um bom conselho. Mas a ideia de que nossas línguas contêm pistas sobre o nosso bem-estar abrange milênios e continentes, explica o Dr. Yanfang Ren, professor do Instituto Eastman de Saúde Bucal da Universidade de Rochester. Na medicina tradicional chinesa, por exemplo, diferentes partes da língua estão associadas a diferentes órgãos.

O formato, a cor e a textura da língua de uma pessoa podem oferecer informações valiosas sobre sua saúde, diz Ren. "A língua é muito importante para muitas das nossas funções vitais", explica Ren. Ela nos ajuda a engolir, respirar, falar e fazer poses engraçadas em fotos.

Mas a língua de uma pessoa pode realmente transmitir o seu estado de saúde?

<><> Como é uma língua saudável?

Línguas são como flocos de neve: úmidas. Além disso, não há duas iguais. "Não há como procurar a língua", diz o Dr. Frank Scannapieco, professor de biologia oral da Universidade de Buffalo.

Em termos gerais, a cor da língua varia entre o rosa-claro e o vermelho-escuro, com uma fina camada esbranquiçada de queratina por cima. As pequenas saliências na superfície são chamadas de papilas, que contêm, entre outras coisas, as papilas gustativas .

Para ter uma ideia de qual é o nível de saúde da sua língua, Scannapieco recomenda olhar sua língua no espelho de vez em quando para "ter uma ideia de como ela é normalmente". Depois, se notar mudanças significativas, consulte um dentista ou médico.

<><> O que a aparência da língua diz sobre a saúde de uma pessoa?

“A aparência da língua pode nos dizer muito sobre a nossa saúde”, diz Jiwon Lim, clínico e dentista hospitalar do Centro Clínico do Instituto Nacional de Saúde. “Ela pode nos dizer quando nossos corpos não estão funcionando como deveriam.”

Nem todas as mudanças são sinais de alerta. A aparência da língua muda de dia para dia, dependendo do que você come e bebe. O Blue Gatorade, por exemplo, deixa um resíduo azul-vivo característico na língua, e isso não é motivo para alarme. Café, chá e certos alimentos como frutas vermelhas, beterraba, doces e certos tipos de curry também podem descolorir a língua, mas apenas temporariamente.

A descoloração também pode ser resultado de certos medicamentos, explica Scannapieco. "Uma língua preta ou azulada, como antibióticos, pode causar isso", diz ele. Consulte seu médico para verificar se esses são prováveis efeitos colaterais de algum medicamento que você esteja tomando.

Mas certas alterações podem indicar problemas de saúde mais sérios. Algumas são inofensivas ou desaparecem por conta própria, e outras podem precisar de tratamento com um dentista ou médico. Segundo Ren, a maioria das pessoas não visita o dentista com frequência e, portanto, não tem um profissional médico para avaliar o estado da língua e da boca. "Neste país, apenas cerca de 40% da população consulta um dentista regularmente", diz ele. "Isso é um problema."

>>>> Aqui estão algumas alterações comuns na língua que você deve ficar atento:

# Cor vermelha brilhante:

- uma língua vermelha brilhante, às vezes conhecida como " língua de morango " se for acompanhada de uma textura irregular, pode ser sinal de uma série de condições, incluindo alergias, doença de Kawasaki , síndrome do choque tóxico, escarlatina e deficiência de vitamina B12.

# Manchas brancas:

- Dependendo da textura, manchas brancas na língua podem indicar diferentes condições. Manchas brancas leitosas que causam dor ao escovar ou raspar podem ser um sinal de candidíase oral , diz Scannapieco. Trata-se de um tipo de infecção fúngica mais comum em bebês, crianças pequenas, pessoas com mais de 65 anos e pessoas com sistema imunológico enfraquecido. É tratada com medicamentos antifúngicos.

Se as manchas brancas forem espessas e não puderem ser removidas, pode ser um sinal de leucoplasia , que às vezes é considerada uma condição pré-cancerosa, diz Ren.

# Cor amarelada:

- “Se alguém estiver acumulando resíduos verde-amarelados na língua, isso pode indicar má higiene bucal”, diz Lim. Essa cor de resíduos também tende a se acumular mais em pacientes fumantes, acrescenta ela.

# Manchas vermelhas com borda branca e elevada:

- isso é conhecido como "língua geográfica", pois essas manchas tendem a se mover, aparecendo em diferentes áreas de um dia para o outro. É comum – Ren estima que cerca de 30% da população terá esse problema em algum momento. Também é indolor, benigno e incurável. "Não sabemos o que causa a língua geográfica", diz Lim. Ela afirma que alguns estudos apontam para uma condição autoimune e, para alguns de seus pacientes, parece estar associada a níveis mais elevados de estresse.

# Pequenas feridas:

- Pequenas feridas na língua ou nos tecidos moles da boca são provavelmente aftas. Elas podem ser causadas por lesões na boca (morder a própria língua, por exemplo, ou irritação causada por aparelho ortodôntico), estresse, alterações hormonais e algumas alergias e sensibilidades alimentares, de acordo com a Clínica Mayo . Também podem ser um sinal de certas condições autoimunes, como doença de Crohn ou doença celíaca.

# Cor preta:

- A língua pode ficar preta ou marrom-escura se as papilas não caírem regularmente e crescerem mais do que o normal, permitindo que retenham bactérias e resíduos na boca. Isso pode causar uma condição chamada "língua pilosa preta". É mais comum em pacientes imunocomprometidos, diz Lim. Em pacientes com HIV, cujos glóbulos brancos CD4 estão baixos, por exemplo, seus corpos podem não ser capazes de combater bactérias ou fungos comuns que se acumulam na boca.

<><> Como manter a língua saudável?

“A língua, infelizmente, é algo que muitas vezes ignoramos”, diz Scannapieco.

Isso não quer dizer que você precise fazer muito para mantê-lo limpo. Manter uma boa higiene bucal em geral geralmente é suficiente, diz Lim. Isso significa seguir a recomendação da Associação Americana de Odontologia de escovar os dentes com creme dental com flúor por dois minutos, duas vezes ao dia.

Você pode usar um raspador, mas não exagere, diz Lim. "Se você raspar a língua com muita força, ela pode ficar vermelha ou branca, porque as papilas da língua aumentaram de tamanho", explica ela. Se você optar por usar um raspador de língua, Lim diz que deve ler as instruções e não aplicar muita pressão.

Essa é uma maneira de assumir o controle da sua vida — ou pelo menos da sua boca.

 

Fonte: The Guardian

 

Abolição: Os quilombolas têm motivos para comemorar?

A Lei Áurea, promulgada no dia 13 de maio de 1888, pela princesa Isabel, representante da já decadente Monarquia portuguesa, foi, segundo nos conta a História oficial, a lei responsável pela abolição da escravidão no Brasil, que durou mais de três séculos. Por muitos anos essa data foi celebrada como um importante marco e símbolo da liberdade e da resistência do povo afrobrasileiro. Contudo, não seria uma mulher branca, da elite republicana, a responsável pela libertação do povo negro, uma vez que este não foi um ato benevolente e reparatório, mas sim uma ação inevitável, fruto de intensas lutas, resistências e divergências ideológicas.

Este texto tem por objetivo fazer uma breve reflexão acerca desta data, problematizando questões que contribuíram para a consolidação do Abolição, além de contextualizá-la na atualidade, sob o recorte das comunidades quilombolas. Para tanto, partimos da seguinte questão: “Afinal, temos o que comemorar no 13 de maio?

Para chegarmos a uma possível resposta, ancorada no tempo presente, faz-se necessário um retorno ao passado, período em que os corpos negros foram objetificados, reduzidos à posse de outrem, forjados para serem submissos à diversas opressões e apagamentos a eles imputados. Ao ser colocado na condição de objeto, o negro escravizado teve sua humanidade anulada, o que gera graves reflexos na atualidade, sobretudo no que diz respeito ao acesso a direitos. Tal opressão se manifesta tanto em seu aspecto material – baseada na violência e na exploração de sua força de trabalho – quanto em seu aspecto cultural – mediante apagamento de sua identidade e de suas contribuições na formação do nosso país (Memmi, 2007).

Este aspecto é central para compreendermos de que modo as relações sociais foram construídas em nosso país, tendo, numa pretensa diferenciação racial, o elemento distintivo entre brancos e negros, relação que nos interessa discutir. A construção social da cor foi sendo moldada por séculos, tendo na relação escravista seu ponto de partida, em que, segundo Clovis Moura (1983): “o colonizador luso estabeleceu, no Brasil, um mecanismo naturalizador da consciência étnica do negro através de um comportamento autoritário e racista” (p. 30).

A distinção entre brancos e negros no Brasil ganhou desdobramentos que superam as relações escravistas, abrangendo aspectos políticos, econômico e socioculturais, que ainda coloca determinado grupo às margens, mas que ganha distintas nuances a partir da chegada da Família Real ao Brasil, em 1808. Com a pretensão de construir a imagem de uma “nação brasileira”, rompendo com a ideia de um Brasil colonizado, o então rei Dom João VI, deu início à formação de espaços de produção de memória e de conhecimento científico.

Sob a incumbência dos “homens da sciencia”, que não necessariamente possuíam formação nas áreas das Ciências Humanas e Sociais, pesquisadores buscaram diversas teorias para desenvolver suas teses acerca da composição sociocultural do Brasil. Contudo, o que se consolidou no país foi uma ciência baseada em modelos evolucionistas e social-darwinistas, e categorizações biologizantes de raças humanas. As chamadas “teorias cientificistas” encontraram um terreno fértil no Brasil e foi um marco para se consolidar diferenças e preconceitos baseadas na cor e na raça, o que faz de nós um país reconhecidamente racista, sob diversas vertentes.

A partir de 1870, um discurso evolucionista e determinista ganhou força, a fim de explicar as diferenças internas e o dito “atraso brasileiro” frente ao mundo ocidental, justificado sob uma lógica de inferioridade, sobretudo da raça negra, que, naquele momento, era maioria no país. Teorias, como o evolucionismo social, o positivismo, o social-darwinismo e o naturalismo, emergiam como formas de explicar o curioso caso brasileiro, lideradas por representantes das elites tradicionais brasileiras, muitos de origem colonialista, o que deixa claro que:

No caso, o pensamento racial europeu adotado no Brasil não parece fruto da sorte. Introduzido de forma crítica e seletiva, transforma-se em instrumento conservador e mesmo autoritário na definição de uma identidade nacional e no respaldo a hierarquias sociais já bastante cristalizadas (Schwarcz, 2020, p. 55).

Nesse contexto, o mestiço emerge como elemento de análise, tanto de um ponto de vista otimista – mediante um projeto de embranquecimento – quanto de um ponto de vista pessimista – sendo fator de atraso e de uma população “incivilizada”. Ora, se a raça negra estava diretamente associada ao atraso,

à animalidade – ideia legitimada pela “ciência” e comungada pelo senso comum – clarear a nação passou a ser uma necessidade, um projeto político. E é nesse quadro sociopolítico, em que a Abolição passa a ser entendida como meio de desenvolvimento da emergente nação brasileira, sendo, portanto, inevitável.

Aqui, três aspectos centrais passam a subsidiar a emergência pela Abolição, as quais apresentarei de forma resumida:

•        a transição de uma concepção de “objeto”, de “animal”, para a pessoa humana, entendida como uma passagem da diferença para a desigualdade (Barros, 2014, p. 164), que é de suma relevância ao se considerar o negro como sujeito de direito;

•        a intensificação da luta dos negros escravizados pela Abolição, manifestas por insurgências e resistências, que se intensificaram e ganharam apoio de importantes expoentes, dentre eles políticos, membros da aristocracia e intelectuais;

•        projeto político de branqueamento da população brasileira enquanto saída para solucionar o problema da miscigenação, tida como fator estruturante do atraso brasileiro.

Em suma, o movimento abolicionista ganhou proporção e defensores, ao ponto de se tornar inevitável, não sendo fruto da benesse de nenhum aristocrata ou personagem influente da época. O que a história não convencionou contar é que esse processo foi fruto da resistência do povo negro, que desde os primórdios do Tráfico Transatlântico, negou a submissão a que foi submetido.

Ora, em um país marcado pelo mito de uma pretensa democracia racial, ou seja, de um entendimento de que “todos somos iguais” e de que “as oportunidades são para todos”, o reconhecimento das desigualdades orientadas pela raça se torna um desafio. No caso das comunidades quilombolas, por exemplo, após a Abolição, estes grupos só vão aparecer na jurisdição brasileira em 1998 – 100 anos depois – por meio do artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT), que passa a reconhecê-los como sujeitos de direitos. E de lá pra cá, milhares de comunidades veem se autodeclarando quilombolas, passando a assumir uma identidade até então negada e estigmatizada, sob uma afirmação identitária, com finalidade política de promoção de direitos. E quais direitos?

Falar de acesso a direitos quando o assunto são comunidades quilombolas é desafiador, já que, para esses grupos etnicamente diferenciados, toda a sua existência e reprodução socioeconômica e cultural se fazem no e com o território em que estão inseridos. Em um país de tradição latifundiária, em que terra é sinônimo de riqueza e poder, como produzir justiça social e reparação para grupos negros de origem escrava?

No primeiro Censo quilombola da história do país (2022), foram recenseadas 1.330.186 pessoas quilombolas residentes em 1.700 municípios. Contudo, esses números não refletem o acesso a direitos, uma vez que 90,02% da população quilombola possuem acesso precário ao saneamento; 66,71% não possui água encanada até a residência; 24,77% não tinham banheiro de uso exclusivo do domicílio (UNFPA Brasil, 2025)1. Já a Saúde quilombola tem ganhado espaço recentemente, por meio da Política Nacional de Saúde Integral da População Quilombola – PNASQ, que está sendo elaborada pelo Ministério da Saúde.

Em relação à saúde quilombola, apesar de sua relevância e do significativo avanço que a PNASQ propõe, sem o acesso ao território, não há saúde para a população quilombola, uma vez que são indissociáveis, como discuti em minha tese de doutorado2. Além de fornecer todos os elementos necessários à sua reprodução socioeconômica, o território em que a comunidade está inserida possui uma relevância simbólica, subjetiva, onde se produzem saberes e formas de relacionar que promovem o bem-viver desses grupos.

Contudo, a regularização fundiária de territórios quilombolas é um processo moroso, que depende de orçamento e interesse político, estando muitos deles em áreas de intensas disputas com grandes empreendimentos minerários, em áreas de criação de parques, de implementação de monoculturas, dentre outros. Apesar de o artigo presente na Constituição definir que: “aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos”, o único direito constitucionalmente garantido, ainda é pouco efetivo. Em Minas Gerais, por exemplo, existem 392 comunidades quilombolas certificadas pela Fundação Cultural Palmares (enquanto o movimento estima mais de 2.000). Destas, 18 territórios possuem processo em tramitação junto ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). Essa lacuna demonstra que o principal direito garantido aos quilombolas, não tem sido efetivamente garantido.

Mas uma coisa podemos afirmar: sem território, não há quilombo. E aqui, retomamos à pergunta inicial: Têm os quilombos, motivos para comemorar? O que a Abolição garantiu às comunidades? Liberdade? Inclusão? Justiça social? Reparação?

Ao longo de minha atuação junto a diversos territórios quilombolas pelo estado de Minas Gerais, por meio de ativismo junto a entidades do Terceiro Setor e do movimento quilombola instituído, foi possível perceber que ainda falta muito para que os direitos básicos cheguem a essas comunidades. Questões como falta de infraestrutura, acesso à água, à serviços de saúde, trabalho e renda, segurança alimentar e tantos outros direitos básicos, ainda parecem estar distantes de muitas comunidades. Por mais que a Abolição possa soar como um avanço, ainda há um longo caminho a percorrer, para que esses grupos tenham acesso à dignidade e ao bem-viver.

Ainda pouco visibilizados e pautados na agenda política das esferas federal, estadual e municipal, a herança colonial parece perseguir esses povos, marcados pelo estigma da cor da pele, pelos racismos… Racismo este que se manifesta de diversas formas cotidianas, desde o não acesso a um serviço básico, até as ameaças sofridas por muitas lideranças que lutam pela permanência em seus territórios. Tomemos as palavras do mestre quilombola Nego Bispo:

O que podemos perceber é que essas comunidades continuam sendo atacadas pelos colonizadores que se utilizam de armas com poder de destruição ainda mais sofisticado, numa correlação de forças perversamente desigual. Só que hoje, os colonizadores, ao invés de se denominarem Império Ultramarino, denominam a sua organização como Estado Democrático de Direito e não apenas queimam, mas também inundam, implodem, trituram, soterram, reviram com suas máquinas de terraplanagem tudo aquilo que é fundamental para nossas comunidades, ou seja, os nosso territórios e todos os símbolos e significações dos nossos modos de vida (Santos, 2015, p.76).

Contudo, mais estudos e mais engajamento social se faz necessário para mudar este quadro. Para aqueles que trabalharam por séculos nas terras colonizadas pelos brancos, o direito ao território ainda parece ser uma distante utopia a ser perseguida.

Celebremos o 13 de Maio tornando a luta quilombola visível e legítima!

 

Fonte: por Agda Marina F. Moreira, em Outras Palavras

 

Como o polêmico plano de ajuda humanitária a Gaza apoiado por EUA e Israel provocou caos

O segurança mascarado e armado no topo de um monte de terra observa milhares de palestinos que estão encurralados em ruas estreitas separadas por cercas.

Ele faz um formato de coração com as mãos e a multidão responde: a cerca começa a dobrar conforme eles a empurram.

Esta cena de explosão de alegria foi filmada na terça-feira (27/05), dia da inauguração de um centro de distribuição de ajuda — uma tábua de salvação vital para os moradores de Gaza que não recebem novos suprimentos na Faixa de Gaza há mais de dois meses devido ao bloqueio israelense.

Mas naquela tarde, o cenário logo virou para um caos total. Vídeos mostravam o centro de distribuição tomado por civis desesperados, pisoteando barreiras caídas; as pessoas se encolhiam ao ouvir os sons de tiros.

Este foi o início desordenado de um novo e controverso esquema de distribuição de ajuda operado pela Fundação Humanitária de Gaza (GHF, na sigla em inglês), um órgão recém-criado e apoiado pelos EUA e Israel.

A GHF foi encarregada de alimentar os famintos moradores de Gaza. A ONU afirmou que mais de dois milhões de pessoas correm o risco de morrer de fome.

A fundação, que utiliza agentes de segurança americanos armados, visa contornar a ONU como principal fornecedora de ajuda em Gaza.

Ela foi duramente condenada e boicotada por agências humanitárias e pela ONU. Mas Israel afirmou que uma alternativa ao sistema de ajuda existente era necessária para impedir o roubo de ajuda humanitária pelo Hamas, o que é negado pelo grupo palestino.

Para ter uma ideia dos primeiros dias deste novo sistema de entrega de ajuda, a BBC verificou dezenas de imagens em locais de distribuição, entrevistou especialistas humanitários e de logística, analisou dados de transporte de ajuda israelense e declarações oficiais divulgadas pelo GHF e conversou com moradores de Gaza que buscam suprimentos.

<><> Caos nos centros de distribuição

A GHF disse que pretendia alimentar um milhão de moradores de Gaza em sua primeira semana de operações por meio de quatro locais seguros de distribuição.

Um porta-voz da fundação afirmou na sexta-feira (30/05), seu quarto dia de operações, que a organização havia distribuído dois milhões de refeições. A BBC não conseguiu verificar esse número, que seria inferior a uma refeição por habitante de Gaza ao longo de quatro dias.

A GHF não respondeu às nossas perguntas sobre como estava rastreando quem as estava recebendo.

Em um vídeo filmado na sede da GHF ao norte, perto de Nuseirat, na quinta-feira (29/05), palestinos podem ser vistos fugindo de uma cerca depois que contratados da GHF lançaram um projétil que explodiu com um estrondo alto, um clarão e fumaça.

O GHF disse em um comunicado que seu pessoal "encontrou uma multidão tensa e potencialmente perigosa que se recusou a se dispersar".

"Para evitar a escalada e garantir a segurança de civis e funcionários, meios de dissuasão não letais foram utilizados, incluindo fumaça e tiros de advertência no solo", disse.

"Essas medidas foram eficazes e não houve feridos".

A BBC não pode confirmar isso de forma independente.

Mais tarde naquela noite, o GHF alertou os moradores de Gaza via Facebook que fecharia qualquer local onde ocorressem saques.

O GHF não é a única organização humanitária que enfrenta sérios desafios. Na noite anterior ao alerta do GHF, um armazém do Programa Alimentar Mundial (PAM), da ONU, foi saqueado, resultando em várias mortes que ainda estão sendo investigadas.

Em resposta ao incidente, o PAM disse que os desafios humanitários "estão fora de controle" e pediu "acesso humanitário seguro e desimpedido" a Gaza imediatamente.

O PAM não respondeu às perguntas da BBC sobre como implementaria mais medidas de segurança em seus armazéns.

<><> Comunicação desorganizada

Palestinos que buscam ajuda caracterizaram a operação liderada pelo GHF como desorganizada, dizendo que a falta de comunicação contribuiu para as cenas caóticas vistas nesta semana.

A situação ficou ainda mais nebulosa devido à desinformação. A BBC identificou pelo menos dois perfis no Facebook que se passam por contas oficiais do GHF, compartilhando informações imprecisas sobre a situação dos centros de distribuição de ajuda.

Uma página com mais de 4 mil seguidores publicou informações imprecisas, às vezes junto com imagens geradas por IA, de que a ajuda havia sido suspensa ou que os saques nos centros do GHF estavam desenfreados.

Um porta-voz da GHF confirmou à BBC que ambas as contas do Facebook eram falsas. Ele também afirmou que a fundação havia lançado um canal oficial no Facebook.

Dados de transparência online mostraram que a página foi criada pela primeira vez na quarta-feira (28/05), um dia após o início das operações de distribuição.

A organização humanitária Oxfam e moradores locais de Gaza disseram à BBC que os moradores estão confiando no boca a boca para circular informações quando a ajuda está disponível.

"Todo mundo está com fome. Todos lutam para conseguir o que querem, como vamos conseguir alguma coisa?", disse Um Mohammad Abu Hajar, que não conseguiu garantir uma caixa de ajuda na quinta-feira.

<><> Preocupações humanitárias

A Oxfam criticou a localização dos locais de distribuição do GHF, dizendo à BBC que isso impôs "controle militar sobre as operações de ajuda".

Sua assessora política, Bushra Khalidi, também questionou como pessoas vulneráveis, como idosos, conseguiriam chegar a esses locais, que ficam a alguma distância de alguns centros populacionais.

Quando a ONU distribuía ajuda antes do bloqueio humanitário de Israel, havia 400 pontos de distribuição espalhados por Gaza. No atual sistema de distribuição do GHF, existem atualmente quatro locais conhecidos.

"De modo geral, o objetivo é aumentar drasticamente a concentração da população, fazendo com que as únicas fontes de alimentos permaneçam em um número muito pequeno de lugares", disse Chris Newton, analista do grupo de estudos Crisis Group, sediado em Bruxelas.

"Ou você segue todas as regras e provavelmente sobrevive em um pequeno raio ao redor desses locais, ou é muito improvável que sobreviva."

A presença de segurança armada e soldados israelenses nos locais de distribuição ou perto deles também alarmou especialistas, que disseram que isso minou a confiança nas operações de ajuda.

"Distribuir assistência nesse tipo de ambiente é extremamente difícil. [É] muito mais eficaz quando você tenta trabalhar com as pessoas presentes... em vez de sob a mira de um mercenário", disse o professor Stuart Gordon, da London School of Economics.

Um porta-voz da GHF disse: "Nossa capacidade — e disposição — de agir sob pressão é exatamente o motivo pelo qual a GHF continua sendo uma das únicas organizações ainda capazes de entregar ajuda alimentar essencial a Gaza hoje."

Imagens e vídeos feitos por testemunhas oculares e pelo exército israelense mostraram que as caixas do GHF pareciam conter apenas alimentos enlatados, macarrão, arroz, óleo de cozinha e alguns biscoitos e lentilhas.

"Ajuda humanitária não é apenas uma caixa de comida que você coloca e chama de ajuda humanitária", disse Khalidi.

Os suprimentos entregues às famílias devem ser acompanhados de suporte médico, kits de higiene e purificação de água, disse Gordon.

Um documento de 14 páginas da GHF, visto pela BBC, prometeu distribuir água e kits de higiene nos locais.

Na sexta-feira, apenas um dos quatro locais do GHF estava distribuindo ajuda. O local ficou aberto por menos de uma hora. O GHF anunciou no Facebook que o local fechou porque todos os seus suprimentos haviam sido "totalmente distribuídos".

Quando questionado pela BBC por que apenas um local estava funcionando e por que suas caixas acabaram tão rapidamente, um porta-voz do GHF disse que o fornecimento "variará dia a dia".

"A boa notícia é que fornecemos dois milhões de refeições em quatro dias e aumentaremos a distribuição nos próximos dias e semanas", disse o porta-voz.

Mas muitos ainda estão retornando dos locais de distribuição sem caixas para suas famílias.

"Estou de mãos vazias, do jeito que vim ao mundo", disse Hani Abed do lado de fora do centro perto de Netzarim na quinta-feira.

"Cheguei de mãos vazias e saí de mãos vazias."

¨      Hamas sugere mudanças em resposta à proposta de cessar-fogo em Gaza

O Hamas disse no sábado que havia enviado sua resposta contendo algumas emendas a uma proposta apresentada pelo enviado de Donald Trump para o Oriente Médio, Steve Witkoff, aos mediadores, o sinal mais concreto de progresso em direção a um cessar-fogo desde março.

O grupo palestino disse em um comunicado que, segundo o acordo, libertará 10 reféns vivos e 18 corpos em troca da libertação de prisioneiros palestinos por Israel — uma mudança na proposta mais recente dos EUA que tornará mais difícil para Israel retomar os combates se as negociações sobre um cessar-fogo permanente não forem concluídas até o fim da trégua.

A proposta atualizada inclui uma exigência pelo fim da guerra, que anteriormente era uma linha vermelha para Israel, e prevê que a libertação dos israelenses mantidos em cativeiro em Gaza seja distribuída ao longo da trégua de 60 dias, em vez de em dois lotes no primeiro e no sétimo dia, como a oferta dos EUA sugeriu.

Witkoff respondeu no sábado à noite dizendo que a resposta do Hamas foi "totalmente inaceitável e só nos leva para trás".

“O Hamas deve aceitar a proposta-quadro que apresentamos como base para as negociações de proximidade, que podemos iniciar imediatamente na próxima semana”, disse ele. “Essa é a única maneira de fecharmos um acordo de cessar-fogo de 60 dias nos próximos dias, no qual metade dos reféns vivos e metade dos mortos retornarão para suas famílias e no qual poderemos ter negociações substantivas de boa-fé nas negociações de proximidade para tentar alcançar um cessar-fogo permanente.”

O gabinete do primeiro-ministro israelense disse: “Embora Israel tenha concordado com o esboço atualizado de Witkoff para a libertação de nossos reféns, o Hamas continua aderindo à sua recusa... Israel continuará sua ação pelo retorno de nossos reféns e pela derrota do Hamas.”

Um alto funcionário do Hamas respondeu que o grupo "não rejeitou" a proposta de libertação dos reféns e que a resposta de Witkoff à sua resposta foi "injusta" e mostrou "completa parcialidade" em favor de Israel.

Vários protestos foram realizados na noite de sábado em Israel exigindo um cessar-fogo e a libertação dos reféns.

Falando na Praça dos Reféns em Tel Aviv, Sharon Aloni Cunio, uma refém libertada cujo marido, David Cunio, permanece em cativeiro, disse: “Agora é a hora de fazer um acordo. Devolver os pais aos nossos filhos. Não os tornemos órfãos.”

Uma declaração do Fórum de Reféns e Famílias Desaparecidas afirmou: “Apelamos ao primeiro-ministro daqui. Chegou a hora de um acordo. Pelo bem do futuro dos nossos filhos. Um acordo abrangente para trazê-los todos para casa. Agora mesmo.”

A resposta do Hamas à proposta dos EUA parece próxima de uma versão do acordo divulgada anteriormente, que especificava que o grupo libertaria 10 reféns, bem como vários restos mortais de reféns, durante o cessar-fogo em troca de 1.100 prisioneiros palestinos.

A declaração do Hamas disse: “Esta proposta visa alcançar um cessar-fogo permanente, uma retirada abrangente da Faixa de Gaza e garantir o fluxo de ajuda ao nosso povo e às nossas famílias na Faixa de Gaza.”

Ele disse que sua resposta veio “após a realização de uma rodada de consultas nacionais”.

“Há algumas notas e alterações em alguns pontos, especialmente sobre as garantias dos EUA, o momento da libertação dos reféns, a entrega de ajuda e a retirada das forças israelenses”, disse um alto funcionário do grupo à Associated Press.

A proposta de cessar-fogo dos EUA supostamente envolve uma pausa de 60 dias nos combates e uma redobrada de esforços em direção à paz a longo prazo, bem como garantias de Israel de que não retomará sua ofensiva após o Hamas libertar os reféns, o que o país fez em março.

Os negociadores israelenses aceitaram o acordo, mas a reação inicial do Hamas à proposta foi morna. Na sexta-feira, o grupo militante anunciou que estava realizando consultas com outras facções que operam sob seu domínio em Gaza, incluindo a Jihad Islâmica Palestina.

A resposta do Hamas veio depois de dois dias em que o grupo militante indicou que a proposta dos EUA era mais tendenciosa a favor de Israel do que as anteriores.

Um importante oficial do Hamas, Basem Naim, disse na quinta-feira que a proposta dos EUA "não responde a nenhuma das demandas do nosso povo", incluindo o fim do bloqueio humanitário na Faixa de Gaza, que levou a condições semelhantes à fome entre a população de 2 milhões de pessoas.

A reação do grupo provocou a ira de seus colegas israelenses. O ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, ameaçou o grupo na sexta-feira com "aniquilação" caso não aceitasse. "Os assassinos do Hamas agora serão forçados a escolher: aceitar os termos do 'acordo Witkoff' para a libertação dos reféns – ou serem aniquilados", disse Katz.

Israel ainda não respondeu oficialmente à resposta do Hamas, mas uma autoridade disse a repórteres israelenses, sob condição de anonimato, que Jerusalém estava tratando as mudanças do Hamas como uma "rejeição efetiva".

Profundas diferenças entre o Hamas e Israel frustraram tentativas anteriores de restaurar um cessar-fogo que fracassou em março, após apenas dois meses.

Israel insistiu que o Hamas se desarme completamente e seja desmantelado como força militar e governante, e que todos os 58 reféns ainda mantidos em Gaza sejam devolvidos antes que o grupo concorde em acabar com a guerra.

O governo israelense teme que um cessar-fogo duradouro e a retirada dariam ao Hamas uma influência significativa em Gaza, mesmo que cedesse o poder formal. Com o tempo, os israelenses temem que o Hamas consiga reconstruir seu exército e lançar mais ataques semelhantes aos de 7 de outubro.

Por outro lado, o Hamas teme que Israel possa quebrar o cessar-fogo — como fez em março passado — e retomar a guerra, o que o governo israelense teria permissão para fazer após 60 dias, segundo os termos do acordo.

Um cessar-fogo anterior fracassou em meados de março, depois que Israel se recusou a avançar para uma segunda fase planejada, que poderia ter levado ao fim permanente da guerra, e, em vez disso, reiniciou sua ofensiva na Faixa de Gaza. Negociadores se reuniram nos meses seguintes na tentativa de chegar a um cessar-fogo, com pouco progresso.

Mais de 54.000 pessoas foram mortas em Gaza desde que Israel lançou sua guerra contra o território palestino sitiado em 7 de outubro de 2023. A ofensiva israelense foi uma retaliação a um ataque do Hamas no mesmo dia, que resultou na morte de cerca de 1.200 pessoas e na tomada de 250 reféns pelo grupo. Acredita-se que cerca de 20 reféns ainda estejam vivos e seu retorno é uma exigência fundamental das negociações de cessar-fogo.

À medida que as negociações sobre um cessar-fogo prosseguem, a ofensiva israelense em Gaza se intensifica. Pelo menos 60 pessoas foram mortas em ataques israelenses em Gaza nas últimas 24 horas, segundo autoridades de saúde, enquanto 72 pessoas foram mortas na quinta-feira.

Israel suspendeu a entrada de quase toda a ajuda humanitária em Gaza quando retomou as hostilidades no território palestino. O bloqueio israelense de quase três meses em Gaza levou a população de mais de 2 milhões de pessoas à beira da fome. Embora a pressão tenha diminuído ligeiramente nos últimos dias, com a permissão de Israel para a entrada de parte da ajuda, organizações humanitárias afirmam que a comida que chega está longe de ser suficiente.

“Após quase 80 dias de bloqueio total, as comunidades estão morrendo de fome – e não estão mais dispostas a ver a comida passar”, afirmou o Programa Mundial de Alimentos (PMA) no sábado. A agência humanitária da ONU havia recebido permissão para trazer 77 caminhões carregados de farinha para Gaza durante a noite, mas os caminhões foram parados no caminho por multidões de pessoas famintas.

 

Fonte: BBC Verify/The Guardian