PIAUÍ E CEARÁ ESTÃO PERTO DE ENCERRAR DISPUTA TERRITORIAL
DE 265 ANOS
Eric Melo era criança
quando ouviu falar pela primeira vez de uma disputa de terras entre Piauí e
Ceará. O assunto era comentado de tempos em tempos na tevê, mas ninguém
ensinava aquilo na escola. Como morava em Teresina, o menino ficou curioso.
Inquiriu os professores de história, revirou os livros didáticos, e nada. “Só
fui entender mesmo o assunto quando cheguei na faculdade”, ele conta. Formou-se
em geografia e, ainda encucado com a briga interestadual, resolveu estudá-lo no
mestrado. Percorreu a longa fronteira entre Piauí e Ceará, esmiuçou papeladas
antigas e, quando deu por si, era um dos maiores especialistas brasileiros
naquilo que é conhecido como o “litígio” entre Piauí e Ceará. É fascinado pelo
assunto.
Não é por menos. O enredo
é algo caricato: faz 265 anos que Piauí e Ceará brigam por um território de 3
mil km² – o dobro da cidade de São Paulo – onde vivem cerca de 8 mil pessoas. O
problema começou em 1758 – quando o Brasil ainda era colônia –, complicou-se em
1880 – quando o Brasil era império – e hoje, em 2023, está resumido numa pilha
de papéis que repousa sobre a mesa de Carmen Lúcia, ministra do Supremo
Tribunal Federal.
Não se sabe, até aqui,
quem tem razão. Os advogados que representam o Piauí alegam que, nos últimos duzentos
anos, municípios do Ceará avançaram indevidamente sobre territórios piauienses.
Segundo essa versão, os municípios infratores são, em ordem alfabética:
Carnaubal, Crateús, Croatá, Granja, Guaraciaba do Norte, Ibiapina, Ipaporanga,
Ipueiras, Poranga, São Benedito, Tianguá, Ubajara e Viçosa do Ceará. As
vítimas, por sua vez, são Buriti dos Montes, Cocal, Cocal dos Alves, Luís
Correia, Pedro II, Piracuruca, São João da Fronteira e São Miguel do Tapuio.
Todas essas cidades ficam na Serra da Ibiapaba, uma cadeia de montanhas que
divide os dois estados.
Os cearenses rebatem a
acusação. Alegam que as terras, exatamente como estão hoje, lhes foram
garantidas por decreto da época do Império. Um lado nunca convenceu o outro. Em
1920, organizou-se uma Conferência de Limites Interestaduais. Ficou decidido
que engenheiros de confiança do presidente da República – Epitácio Pessoa, na
época – fariam um levantamento topográfico para facilitar a melhor definição
das fronteiras. Mas a demarcação acabou não indo para frente. O assunto voltou
à tona oitenta anos mais tarde, pelas mãos de um grupo de deputados estaduais
do Piauí e do Ceará que queriam resolver o imbróglio. Nada feito. Em 2011,
enfim, o então governador do Piauí Wilson Martins (PT) levou a briga à Justiça.
Conflitos entre estados
recaem, necessariamente, sobre o STF. Faz doze anos que Carmen Lúcia está às
voltas com o processo. Em 2012, ela convocou o IBGE para analisar a demanda do
Piauí. Como o resultado foi negativo para os piauienses, o governo estadual recorreu
da decisão. A ministra então trouxe o Exército para a barafunda, ordenando, em
2013, que os militares fizessem uma perícia na Serra de Ibiapaba para resolver
a briga. A operação, orçada em 6,9 milhões de reais, deveria ser paga pelo
Piauí, que abriu o processo. Mas, devido a dificuldades orçamentárias, o
governo demorou a pagar a perícia. O Exército só viu a cor do dinheiro em 2019.
Quando se preparava para ir a campo, veio a pandemia e tudo atrasou. O trabalho
começou, finalmente, em agosto deste ano, e a previsão é de que termine em
2024.
O Brasil saberá, então,
quem afinal é dono das terras serranas de Ibiapaba. Inquieto, Eric Melo, o
jovem pesquisador, sente que a história está acontecendo diante de seus olhos.
Disputas como essa são
herança de um Brasil colonial em que fronteiras eram divididas com pouco rigor
e, frequentemente, à base do improviso. O Piauí, que em 1718 saiu das costelas
do Maranhão e virou uma capitania, coleciona oito conflitos territoriais.
Brigou, além do Ceará, com os vizinhos Bahia, Maranhão e Tocantins. Venceu este
último em 2020, num processo judicial, e com isso arrematou a Chapada das
Mangabeiras, uma área de 140 km² onde fica uma das nascentes do Rio Parnaíba.
Mas nenhuma dessas disputas passadas envolve uma área tão grande quanto a que
está em jogo agora, no STF.
Eric Melo, que já viajou
até para Lisboa em busca de documentos históricos que ajudem a resolver a
contenda, vê razão na tese dos piauienses. Segundo ele, o Ceará – que se
emancipou de Pernambuco em 1799 – avançou mesmo sobre terras pertencentes ao
Piauí. A Coroa, que nessa época ainda estava em Portugal, distante da colônia,
pouco fazia para fiscalizar essas disputas paroquiais. O Piauí se queixava, mas
não era ouvido, diz Melo.
A situação esquentou
décadas mais tarde. Em 1823, o Piauí foi palco de um dos conflitos mais
sangrentos da guerra pela independência do Brasil: a Batalha de Jenipapo.
Camponeses, armados com foices e enxadas enfrentaram tropas portuguesas e foram
derrotados. Mil deles foram mortos em poucas horas. Mais tarde, no entanto,
mercenários cearenses contratados pela capitania do Piauí surpreenderam os
portugueses e os expulsaram do estado. O Piauí, com isso, conquistou sua
independência. No entanto, quem passou a dominar a pequena faixa litorânea do
estado foram os cearenses que participaram da guerra. Com apoio de padres da
cidade de Granja (CE), fundaram ali uma vila que, embora em território
piauiense, prestava contas ao Ceará. Em 1870, enfim, baixaram uma lei que
oficializou o território – chamado por eles de Nossa Senhora da Amarração –
como parte do Ceará.
O Piauí não viu jeito
senão apelar para Dom Pedro II. Depois de ouvir as reclamações piauienses, o
imperador assinou, em outubro de 1880, o Decreto Régio 3.012, ordenando que
Nossa Senhora da Amarração fosse devolvida ao Piauí e mudasse de nome para Luís
Correia. Tudo isso com uma condição: que o Piauí cedesse ao Ceará territórios
banhados pelo Rio Poti, um dos principais afluentes do Parnaíba, localizado na
Serra de Ibiapaba. Os cearenses, com isso, perderiam as terras no litoral, mas,
em contrapartida, passariam a acessar um importante curso d’água no interior, o
que facilitaria a vida nos tempos de seca. Trato feito. A situação, daí em
diante, só se complicou.
A ordem imperial foi
acatada e deu fim à lenda segundo a qual o Piauí não tinha litoral. Hoje, Luís
Correia é um dos quatro municípios do Piauí com acesso ao mar. Tornou-se um
point badalado no Revéillon. Mas o problema não foi totalmente resolvido. “O
Ceará passou por cima do decreto de Dom Pedro II e seguiu tomando os
territórios”, garante Melo.
Em sua temporada
lisboeta, em 2015, o pesquisador perscrutou as estantes do Arquivo Histórico
Ultramarino e do Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Saiu de lá com documentos
e mapas que vão do século XVI ao século XVIII. Depois de analisá-los, concluiu
que cinco municípios cearenses – Poranga, São Benedito, Tianguá, Ubajara e
Viçosa do Ceará – invadiram terras do Piauí. A pesquisa muito agradou aos
procuradores piauienses, que, em julho deste ano, convidaram Melo a ajudá-los
no processo que corre no STF. Desde então, o pesquisador bate ponto como
assessor técnico na Procuradoria-Geral do Piauí.
Do lado cearense, o
Comitê de Estudos de Limites e Divisas Territoriais do Ceará (Celditec), ligado
à Assembleia Legislativa, rebate as afirmações de Melo. O coordenador do grupo,
Luis Carlos Mourão, diz que já foram entregues ao STF 335 documentos
históricos, entre eles mapas antigos, que comprovam a posse do Ceará sobre os
territórios de Serra de Ibiapaba. Segundo a Procuradoria-Geral do Ceará, os
argumentos do Piauí partem de “compreensões equivocadas” do decreto de Dom
Pedro II e da conferência frustrada realizada em 1920.
Em nota enviada à piauí,
a Procuradoria-Geral do Ceará diz que o governo cearense tentou resolver o
processo judicial aberto em 2011 por meio da conciliação, mas o Piauí desistiu
das conversas. Segundo o órgão, o Ceará “tem toda a disponibilidade para o
diálogo, pois o Piauí é um estado irmão”. Francisco Gomes Pierot Júnior, da
Procuradoria-Geral piauiense, diz que os dois estados não chegaram a um
“denominador comum” e, por isso, “não foi possível um acordo”.
Em julho, representantes
do Piauí e do Ceará se reuniram com a equipe do Serviço Geográfico do Exército,
em Brasília. Na ocasião, os militares apresentaram as metodologias que serão
usadas na perícia. Serão quatro etapas, segundo eles: planejamento, coleta de
dados e geração de imagens georreferenciadas, análise de dados históricos e
produção de relatórios periciais. Os peritos vão recorrer a documentos
históricos, leis municipais, mapas, fotografias aéreas e dados demográficos do
IBGE. Tudo isso, garante o Exército, sem deixar de lado aspectos da cultura
local e a sensação de pertencimento da população de cada município.
O litígio desperta
paixões. No final de agosto, defensores públicos organizaram uma audiência em
Viçosa do Ceará, um dos municípios que estão no meio do cabo de guerra, para
informar a população sobre o andamento do processo judicial. O encontro lotou.
Na mesa onde se sentaram as autoridades, foram colados cartazes com dizeres
como: “Num deixo meu Ceará nem no último pau de arara!” e “Numa democracia, a
voz do povo é soberana! Plebiscito já!”. Houve também uma apresentação de
indígenas tapuias cariris, que se opõem à mudança. As terras em disputa na
fronteira entre Piauí e Ceará abarcam territórios das etnias Tabajara,
Calabaca, Mambira e Tapuia Cariri. Os indígenas temem que, caso sejam anexados
ao Piauí, o processo de reconhecimento de suas terras junto à Funai volte à
estaca zero.
O litígio também mexe com
interesses pecuniários. O governo do Ceará alega que, se perder esses
territórios, perderá fontes de renda. Segundo um levantamento feito pelo Comitê
de Estudos de Limites e Divisas Territoriais do Ceará, as terras reivindicadas
pelo Piauí incluem 123 km de estradas (95 de rodovias federais e 26 de rodovias
estaduais), 291 torres eólicas, 52 áreas de mineração e 1.006 estabelecimentos
agropecuários, além de um aeroporto, postos de saúde, escolas e locais de votação.
Os números foram apresentados ao Supremo.
Eric Melo minimiza. Diz
que, embora esses bens possam efetivamente ser transferidos para o Piauí,
nenhuma das treze cidades deixará de ser cearense. No máximo, elas perderão
parte de seu território para a cidade piauiense mais próxima. Os moradores
afetados pela mudança também não precisarão mudar o local de nascimento em
documentos pessoais, ele garante.
Mas nem por isso os
moradores deixam de estar apreensivos, já que aqueles que moram mais perto da
fronteira podem, um belo dia, dormir no Ceará e acordar no Piauí. A ideia não
agrada aos cearenses mais orgulhosos e, além disso, pode gerar algumas dores de
cabeça. Se a mudança ocorrer, eles terão de pagar impostos no Piauí, e não mais
no Ceará? Em ano de eleição, votarão como piauienses ou como cearenses? As
dúvidas pairam sobre o STF.
O Comitê de Estudos de
Limites e Divisas Territoriais do Ceará vem percorrendo essas cidades para
entender o que a população acha do litígio e de suas possíveis consequências.
Segundo o colegiado, já foram visitados quatro distritos e 136 localidades.
Além de promover audiências públicas, o órgão aborda os moradores com
questionários. Em reportagem publicada no site da Assembleia Legislativa do
Ceará, o geógrafo e analista de Políticas Públicas do Ipece (Instituto de
Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará) Cleyber Medeiros afirmou que o
trabalho “avalia não somente a questão do litígio, mas também o sentimento de
pertencimento dessas populações”.
Lidia Rodrigues, 34 anos,
é uma das cearenses que andam apreensivas. Trabalha como orientadora social e
vive em Poranga desde os 3 anos de idade, mas, embora esteja a 1h30 de carro do
Piauí, nunca pisou no estado vizinho. Ela participou de audiências promovidas
pelo governo do Ceará e deixou muito claro o que pensa da mudança: “Não sou a
favor.”
Um político local tentou
mobilizar os poranguenses em torno de um abaixo-assinado defendendo que a
cidade continue integralmente no Ceará. Para que o documento pudesse ter
validade perante o STF, precisaria de ao menos 8 mil assinaturas. Poranga tem
12 mil habitantes. O projeto não foi para frente. “A gente quer continuar sendo
do Ceará, é uma vontade da população”, diz Rodrigues. “A impressão é que se
trata de uma questão política entre os estados, mas no meio disso tem gente.
Nossa opinião e sentimento devem importar.”
Fonte: Revista Piauí

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