quarta-feira, 25 de outubro de 2023

Entenda o tamanho do poder militar do Hamas e de Israel

A cada dia que avança o conflito entre Israel e o Hamas surgem novas cenas de mortes e destruição de estruturas inteiras na Faixa de Gaza. Para dimensionar o poderio militar dos dois lados do conflito, a coluna e a repórter Karen Lemos entrevistaram o professor professor Bernardo Wahl, que dá aulas na disciplina Segurança e Defesa da Pós-Graduação de Política e Relações Internacionais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e no bacharelado de Relações Internacionais do Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU-SP).

Ele destacou que o Hamas, grupo islâmico que controla a Faixa de Gaza, tem menos estrutura física (como abrigos para civis, defesa civil) e poder militar do que Israel. Assim, o grupo se vale de táticas de guerrilha. Já os israelenses, contam com equipamentos e apoio dos Estados Unidos. "A Força Aérea Israelense é particularmente poderosa e conta com aeronaves norte-americanas de ponta", contou. 

O retrato da análise do professor, sobre a falta de estrutura que os palestinos convivem, foi relatado nesta reportagem com Hasan Rabee. Ele é palestino naturalizado brasileiro e está em Gaza desde o começo do mês e não consegue deixar o local devido ao fechamento das fronteiras. Ele foi visitar parentes antes da escalada dos conflitos, no dia 7 de outubro, quando o Hamas promoveu a morte de mais de 1 mil israelenses e fez ao menos 200 reféns. A guerra já deixou, ao menos, 6 mil mortos.

>>>> Veja a seguir os principais trechos da entrevista feita por escrito: na noite desta segunda, 23.

·         Qual a estrutura bélica e estrutura militar que a Faixa de Gaza tem para enfrentar Israel?

Bernardo Wahl: O Hamas é uma organização militante fundada em 1987, controlando a Faixa de Gaza desde 2007. Alguns atores políticos o veem como um grupo terrorista, enquanto outros o percebem como uma força de resistência a Israel. A ala militar do Hamas, as Brigadas Izz al-Din al-Qassam, é responsável por conduzir operações militares e ataques contra Israel.

A estratégia militar do Hamas é caracterizada por uma combinação de táticas de guerrilha, guerra assimétrica e uso de recursos locais para resistir a Israel e buscar seus objetivos políticos na Faixa de Gaza.

# Túneis Subterrâneos: uma das características distintivas da estratégia do Hamas é a construção de uma extensa rede de túneis subterrâneos em Gaza. Esses túneis têm múltiplos propósitos, incluindo o contrabando de armas e suprimentos, a mobilidade tática e o uso como bunkers e esconderijos durante conflitos. Eles representam uma parte fundamental da estratégia defensiva do Hamas.

# Foguetes, Mísseis, entre outros: o Hamas mantém uma variedade de foguetes e mísseis, que são lançados em direção a Israel. Essas armas são usadas tanto como uma tática de dissuasão quanto para atacar alvos israelenses em resposta a ações militares. Ademais, o Hamas também possui metralhadoras, fuzis do tipo Ak-47, granadas, drones, paragliders, escavadeiras, etc.

# Guerrilha Urbana: quando confrontado com incursões terrestres israelenses em áreas urbanas, o Hamas emprega táticas de guerrilha urbana. Isso envolve o uso de edifícios e áreas urbanas para emboscadas e confrontos, tornando a progressão das forças israelenses mais difícil.

# Propaganda e Guerra de Informação: o Hamas usa uma estratégia de propaganda para ganhar apoio político e popular, tanto na Faixa de Gaza quanto internacionalmente. Eles buscam influenciar a opinião pública ao destacar a resistência palestina e moldar a narrativa do conflito.

# Redes de Inteligência Local: o Hamas mantém redes de informantes locais para coletar informações sobre as atividades israelenses na fronteira e dentro de Gaza. Isso lhes permite antecipar operações israelenses e se preparar de acordo.

# Adaptação Estratégica: o Hamas é conhecido por adaptar suas estratégias à medida que o conflito se desenrola. Eles buscam oportunidades táticas e exploram as fraquezas da parte israelense.

·         Como é o sistema de proteção e defesa na Faixa de Gaza durante ataques aéreos?

Existe uma grande diferença nas capacidades de defesa civil israelenses e palestinas. Israel investiu significativamente em sua infraestrutura de defesa civil, incluindo sistemas de alerta precoce, abrigos antiaéreos e o sistema Domo de Ferro, a fim de proteger seus cidadãos de ataques com foguetes.

Em contraste, a Faixa de Gaza não possui recursos semelhantes para proteção, e seus residentes frequentemente dependem de chamadas telefônicas ou mensagens de texto esporádicas das Forças Armadas de Israel para serem alertados sobre ataques iminentes. A diferença na defesa civil entre Israel e Gaza é atribuída, em grande parte, ao bloqueio imposto por Israel à Faixa de Gaza, que restringe o acesso a recursos e materiais para a construção de sistemas de defesa civil.

A falta de defesas em Gaza deixa seus civis em uma posição vulnerável, vivendo sob constante temor durante períodos de conflito. Enquanto Israel construiu uma extensa rede de abrigos e sistemas avançados de detecção e interceptação de foguetes, Gaza enfrenta uma situação oposta, com escassez de recursos e um bloqueio que limita severamente a capacidade de desenvolver defesas eficazes. Essa discrepância ressalta as desigualdades no impacto dos conflitos na região, colocando a população de Gaza em uma situação de grande vulnerabilidade.

·         Os palestinos têm onde se abrigar, como bunkers ou abrigos? Os diversos túneis que existem em Gaza podem servir como abrigo, por exemplo?

Não há abrigos antiaéreos civis na Faixa de Gaza. Esta região enfrenta uma situação precária em termos de defesa civil, com falta de proteção e recursos. Os palestinos em Gaza dependem de ligações telefônicas ou mensagens de texto do exército israelense para alertá-los sobre ataques iminentes, uma vez que não possuem sistemas de sirenes ou abrigos antiaéreos. A falta de defesa civil afeta não apenas os civis, mas também trabalhadores humanitários e médicos internacionais que recebem avisos esporádicos e momentâneos dos contra-ataques israelenses.

A situação é agravada pelos cortes de energia, que tornam ainda mais difícil receber alertas. Gaza não possui sistemas de defesa civil comparáveis aos de Israel, devido em grande parte ao bloqueio imposto à região, que restringe o acesso a recursos e materiais para construção de sistemas de defesa civil. A falta de defesa deixa os palestinos em Gaza vivendo em constante temor, sem entender por que suas casas são atacadas e sem os meios para se proteger.

·         Há sirenes para alertar ataques e sistema antimíssil como em Israel?

A Faixa de Gaza não tem um sistema de defesa civil semelhante ao sistema de sirenes e ao sistema antimíssil Domo de Ferro usado em Israel. A infraestrutura de defesa civil em Gaza é limitada, e os palestinos na Faixa de Gaza dependem, em grande parte, de alertas por telefone ou mensagens de texto do exército israelense para serem informados sobre ataques iminentes.

·         Como podemos dimensionar o tamanho da força militar de Israel e do Hamas? É possível?

Israel e o Hamas possuem capacidades e estratégias militares muito diferentes.

<<< Israel:

# Tecnologia Militar Avançada:

- Israel mantém uma das forças militares mais tecnologicamente avançadas do mundo. Possui equipamentos modernos, incluindo navios, tanques, helicópteros de ataque e uma grande frota de drones. A Força Aérea Israelense é particularmente poderosa e conta com aeronaves norte-americanas de ponta.

# Mobilização de Reservistas:

- Israel possui um sistema robusto de reservistas, permitindo convocar um grande número de cidadãos para o serviço militar, aumentando sua força total de tropas quando necessário.

Apoio Econômico e Externo:

- Israel desfruta de apoio financeiro substancial para seus empreendimentos militares, com um orçamento de defesa considerável. Os Estados Unidos são um grande contribuinte, fornecendo bilhões de dólares em ajuda militar anualmente.

# Dissuasão e Defesa:

- A estratégia militar de Israel concentra-se em manter uma força de dissuasão poderosa e uma postura defensiva sólida. O objetivo é proteger seus cidadãos e território e dissuadir possíveis adversários.

# Ataques Precisos:

- Israel frequentemente utiliza ataques aéreos de precisão e operações direcionadas para eliminar ameaças específicas, buscando minimizar danos colaterais.

<<<< Hamas:

# Guerra Assimétrica:

- O Hamas se especializa em guerra assimétrica, o que inclui táticas de guerrilha, ataques com foguetes e estratégias não convencionais para combater um adversário tecnologicamente superior, como Israel.

# Túneis e Foguetes:

- O Hamas desenvolveu uma intrincada rede de túneis sob a Faixa de Gaza, que serve como meio de deslocamento de combatentes e lançamento de ataques surpresa. Além disso, eles acumularam um grande número de foguetes, tanto fabricados localmente quanto fornecidos por outros países, incluindo foguetes de longo alcance.

# Guerra Urbana:

- Operando em áreas densamente povoadas, o Hamas utiliza táticas de guerra urbana para tornar difícil o envolvimento das Forças de Defesa de Israel sem causar baixas civis.

# Apoio Financeiro:

- O Hamas obtém financiamento de diversas fontes, incluindo criptomoedas e redes globais envolvendo organizações de caridade. Essas fontes podem ser menos transparentes do que o apoio estatal tradicional.

# Infraestrutura Militar Limitada:

- Em comparação com Israel, o Hamas possui uma infraestrutura militar convencional mais limitada, mas depende de táticas assimétricas, como ataques relâmpago e estratégias de esquiva.

Em resumo, Israel possui um exército altamente avançado, enquanto o Hamas se baseia em táticas de guerrilha e guerra assimétrica dentro das limitações de um ambiente urbano densamente povoado. Suas estratégias refletem a grande disparidade de recursos e capacidades entre as duas partes.

 

Ø  Sem aviso ou abrigo: por que palestinos não conseguem se proteger dos ataques de Israel na Faixa de Gaza

 

A realidade da população em Gaza sob ataque constante de Israel é de “terror”, foi assim que me descreveu o palestino naturalizado brasileiro, Hasan Rabee, para contar como é sua rotina sob bombas.

Hasan está com sua família em Khan Younis, cidade ao Sul de Gaza, onde convive com bombardeios diários e próximos a sua casa. Ele relatou que ao contrário das cidades de Israel, onde a população é avisada por sirenes sobre a ameaça de mísseis e há bunkers (abrigos subterrâneos) para se protegerem, em Khan Younis os palestinos descobrem que há bombardeios quando sentem os tremores das explosões.

"Não existe nenhum sistema, não tem bunker, não tem abrigo. Não tem nada. Se cair uma bomba ou você estará no hospital ou no cemitério. Não existe nenhum sistema como em Israel. Israel tem a melhor tecnologia e armamento do mundo. Aqui o que que tem? O armamento deles [Hamas] é um lixo, não tem preparação [para defesa da população]", disse em mensagem de áudio enviada à coluna nesta segunda-feira, 23.

Em Israel, além do sistema de bunkers e sirenes, há o “domo de ferro”, um sistema antimíssil que monitora e bloqueia até 90% dos ataques inimigos, segundo informações do Exército de Israel. Quando o radar do sistema identifica uma ameaça, projeta a trajetória desse míssil inimigo e lança um foguete para colidir contra o artefato ainda no ar, evitando que atinja o solo.

Escolas, prédios e hospitais foram atingidos por bombardeios de Israel. O número de mortes apenas em Gaza chega a 5,7 mil, segundo o Ministério da Saúde de Gaza. Somado aos cerca de 1 mil mortos pelo Hamas, em 7 de outubro, total de vítimas fatais supera os 6,7 mil. Um hospital em Gaza foi atingido por uma explosão, na última semana. Há uma disputa de versões entre os dois lados do conflito sobre a autoria da bomba. A Organização das Nações Unidas (ONU) investigará o caso.

 “Todo mundo fica em choque e louco, correndo. Minha filha fica chorando. Não tem abrigo e lugar seguro. Você fala de um país com tecnologia de primeiro mundo e no outro lugar quase não tem armamento, um armamento que não funciona para nada”, contou Hasan.

Além da falta de água, medicamentos e alimentos, a comunicação também é ruim. Os palestinos convivem sem sinal de internet, energia elétrica para carregarem as baterias de celulares e aparelhos eletrônicos.

O relato de Rabee sobre a falta de abrigos e preparo para proteção dos palestinos foi corroborado pelo professor de Segurança e Defesa da Pós-Graduação lato sensu Política e Relações Internacionais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), Bernardo Wahl. Em entrevista à coluna e à repórter Karen Lemos, ele destacou também que Gaza possui diversas fragilidades estruturais, como a falta de um sistema de defesa civil, devido em grande parte ao bloqueio imposto à região.

"A infraestrutura de defesa civil em Gaza é limitada, e os palestinos na Faixa de Gaza dependem, em grande parte, de alertas por telefone ou mensagens de texto do exército israelense para serem informados sobre ataques iminentes", analisou Wahl.

A escalada do conflito aconteceu após homens do Hamas, grupo islâmico que controla a Faixa de Gaza, atacar Israel, deixando ao menos 1 mil mortos, em 7 de outubro. A incursão do grupo matou civis e destruiu casas, cerca de 200 pessoas, entre crianças, mulheres e idosos, foram levados durante o ataque de Israel para Gaza, onde são mantidos reféns.

Ainda que o ataque do Hamas tenha surpreendido as forças de Defesa israelenses e provocado a maior destruição e vítimas dos últimos 70 anos, o poderia militar de Israel, com apoio dos Estados Unidos, é superior ao do Hamas, que recebe suporte do Irã.

 

       Israel cogita inundar túneis do Hamas antes da operação terrestre na Faixa de Gaza

 

Informação foi dada pelo jornalista americano Seymour Hersh, que acrescentou que a medida indicaria que Israel está disposto a descartar o resgate de reféns que seguem na Faixa de Gaza.

Israel está estudando a possibilidade de inundar o sistema de túneis do Hamas, que ligam a Faixa de Gaza ao território israelense, antes de iniciar sua operação terrestre na Faixa de Gaza, disse o jornalista investigativo norte-americano Seymour Hersh, nesta terça-feira (23), em sua coluna no Substack, citando fontes familiarizadas com o assunto.

"Um funcionário americano bem informado me disse que o governo israelense está considerando inundar o vasto sistema de túneis do Hamas antes de enviar suas tropas [para a operação terrestre na Faixa de Gaza], muitas das quais tiveram apenas algumas semanas de treino nas manobras e coordenação necessárias para a invasão", escreveu Hersh.

O jornalista disse que Israel está em processo de transformar a cidade de Gaza em escombros, através de bombardeios constantes, e também está planejando iniciar a invasão terrestre em breve.

Inundar os túneis poderia significar que Israel está pronto para "descartar o resgate dos reféns ainda em perigo", destacou Hersh.

"Onde estão os estimados mais de 200 reféns é uma questão em aberto. Israel está apenas falando sobre o fim do regime do Hamas, e o Hamas até agora libertou quatro reféns."

Mais cedo, o vice-diretor geral de Diplomacia Pública de Israel, Emmanuel Nahshon, disse que Israel está atrasando o início da invasão terrestre em Gaza devido a possíveis armadilhas mortais.

Segundo Nahshon, os militares israelenses estão levando tempo para implementar a incursão, pois precisam de preparar os seus soldados para esta situação única.

 

Fonte: Terra/Sputnik Brasil

 

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