1 milhão de hectares de agroflorestas podem
produzir 150 milhões de toneladas de comida, diz estudo
São números (e objetivos)
de encher os olhos – e que fazem acreditar em um país diverso, muito menos
desigual entre regiões no tocante à geração de emprego e renda, assim como a
oferta de comida na mesa brasileira.
A partir do uso de
modelos do Sistema Agroflorestal (SAF), que planta simultaneamente árvores
nativas, frutíferas e/ou madeireiras ao lado de produtos agrícolas, uma área
desmatada de 1,02 milhão de hectares pode, por exemplo, não apenas ser
recuperada, mas também produzir 156 milhões de toneladas de alimentos, permitir
o plantio de 2,03 bilhões de mudas e ainda remover 482,8 milhões de toneladas
de CO2 da atmosfera.
A agrofloresta é também
modelo de exploração da terra vantajoso para o agricultor familiar, pois
permite, ao diversificar a produção, um retorno do investimento em curto prazo,
colhendo e vendendo o que cresce rápido, enquanto se aguarda a renda em longo
prazo, originária da produção de espécies permanentes.
O recém-divulgado estudo
do Instituto Escolhas, de São Paulo, se destaca por esses e outros indicadores
da adoção do SAF na recuperação de terras Brasil afora, realçando os benefícios
potenciais em honrar a meta de 12 milhões de hectares de florestas até 2030,
assumida pelo nosso governo com o Acordo de Paris.
Outro destaque: o estudo
demonstrou que o investimento de R$ 33,1 bilhões na recuperação, por meio de
SAFs, de 1,02 milhão de hectares de terras desmatadas em Áreas de Preservação
Permanente (APPs) e localizadas em pequenas propriedades – principalmente da
agricultura familiar – pode render ganhos de R$ 260 bilhões de receita líquida.
Ou seja, quase oito vezes o valor investido.
“Além da produção de alimentos – e que se
relaciona com a segurança nutricional –, aqui também se fala do plantio de
árvores fundamentais para a preservação dos recursos hídricos da região e a
oferta de nutrientes ao solo”, salienta Sérgio Leitão, um dos fundadores do
Instituto Escolhas. “Tudo isso permitindo que o Brasil demonstre um esforço
real de atender a meta assumida em Paris.”
Para se ter uma ideia do
que está aqui em jogo, a área de 12 milhões de hectares recuperados até 2030,
conforme previsto no Acordo de Paris, corresponde praticamente à da Inglaterra.
De lá para cá, porém, muito pouco acabou por acontecer: cerca de 79,1 mil
hectares foram reflorestados, ou seja, menos de 1% do objetivo original. A
inação, claro, teve um custo: estima-se que o Brasil hoje terá de investir 4
vezes mais para dar conta por completo do compromisso assumido. “Mas há muito o
que ganhar com o cumprimento da meta e o impulso da economia da floresta em
pé”, enfatiza Sérgio.
• Crescimento na produção
Para cada uma das cinco
regiões brasileiras, o Escolhas montou modelos de exploração a partir dos SAFs,
levando em conta as características do bioma local e a aptidão produtiva na
análise de 43 variedades de alimentos de lavoura e extrativismo.
Entre outros resultados,
a produção atual de milho verde, pinhão, buriti, cumaru, jabuticaba, mangaba,
erva-mate e palmito cresceria mais de 100%. A respeito de alimentos em que há
dados oficiais para comparação direta, esse aumento seria de 27,4% para o
cacau, 40,4% para o cupuaçu e 71,1% para o pequi, entre outros; e, no caso das
lavouras de ciclo curto, após os três primeiros anos de cultivo, o crescimento
produtivo seria de 11% para o feijão, 12,4% para a banana e 28,9% para a
mandioca.
Grandes extensões de terra,
e que também fazem parte da área de 12 milhões de hectares a ser recuperada,
podem ser aproveitadas para o plantio de árvores para corte, aponta o estudo.
Já o agricultor familiar precisa de apoio técnico para saber combinar espécies
e florestas de modo a tirar o máximo proveito de sua pequena propriedade sem
prejuízo ambiental.
“Apenas seremos capazes
de cumprir o Acordo de Paris se dermos a mesma importância ao cultivo das
florestas que damos a de outras culturas, como a do milho, da soja e do feijão,
e às atividades do chamado setor agropecuário”, alerta Sérgio Leitão. “Desse
modo, será possível atrair o capital necessário para dar conta do desafio
assumido até 2030”.
É inegável que o plano de
tornar o Brasil mais igualitário já começa a dar os primeiros passos, ao menos
no que diz respeito à erradicação da pobreza na região Norte. No início de
agosto passado, um dos grandes momentos da Cúpula da Amazônia, realizada em
Belém (PA), foi o lançamento do projeto Florestas Produtivas por parte do
Ministério do Desenvolvimento Agrário e Economia Familiar (MDA).
Moisés Savian, à frente
da Secretaria de Governança Fundiária, Desenvolvimento Territorial e
Socioambiental, filiada ao MDA, dedica-se hoje à tarefa de levantar capital
suficiente para dar impulso ao projeto. “Por enquanto, vamos usar o orçamento
aprovado para este ano de cerca de R$ 2 milhões — o governo anterior não deixou
um centavo em caixa! —, que vai permitir iniciar o trabalho com mil famílias no
Pará”, diz ele. “O total a ser ali investido durante os anos de governo Lula
está previsto em R$ 9,8 milhões.”
De que se trata o
projeto? A exploração simultânea do plantio de alimentos com a recuperação de
florestas em comunidades tradicionais amazônicas. Sim, o programa das Florestas
Produtivas aplica em 100% os modelos do Sistema Agroflorestal – e, na fase
inicial, pretende cultivar espécies nativas, caso do açaí, cupuaçu, cacau e
mandioca. “Um de nossos objetivos é dar assistência continuada às famílias
selecionadas e, para tanto, a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa
Agropecuária) deverá indicar um técnico para solucionar as dúvidas dos
agricultores”, adianta Moisés.
À medida que as
negociações (com o BNDES e a Petrobras, entre outros) avancem, o Florestas
Produtivas poderá ser adotado em todo o país – o Maranhão deverá ser o próximo
beneficiado do projeto. Segundo o estudo do Instituto Escolhas, Pará e Maranhão
são os estados com índices de pobreza mais elevados na região amazônica.
“Como a atividade do
plantio de florestas é altamente intensiva em mão de obra, principalmente nos
primeiros três anos de vida, quando os projetos estão se instalando, plantar
florestas significa gerar empregos e acabar com a pobreza”, garante Sergio
Leitão.
A título de exemplo, só
no caso do Pará prevê-se a criação de cerca de 1 milhão de postos de trabalho.
“O Florestas Produtivas é outro modo de cumprir a meta assumida em Paris”, diz
Moisés. Sob uma condição, porém: “Será preciso um esforço conjunto entre
governo e sociedade para recuperar floresta e meio ambiente ao mesmo tempo em
que o cultivo de alimentos produza riqueza para quem mais precisa.”
Fonte: Mongabay

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