Teoria
da história e história da historiografia
Em um
ensaio inspirado na famosa reflexão de Santo Agostinho sobre o tempo, o
historiador João Ohara, professor de história da USP, aponta que, embora
tenhamos uma noção intuitiva do que é a teoria da história, não conseguimos
defini-la com precisão quando somos questionados.
No
ensaio, João Ohara analisa as dificuldades semânticas inerentes à expressão
“teoria da história”, destacando a polissemia de seus termos constituintes
(“teoria”, “história” e a preposição “da”). A palavra “teoria” pode assumir
diversos sentidos (metodológico, filosófico ou de teoria social), enquanto
“história” comporta múltiplas acepções (como realidade passada, conhecimento
sobre ela ou disciplina acadêmica), o que gera inúmeras permutações possíveis.
O autor
também aborda como a área acabou se tornando um “depósito” para pesquisas que
não se enquadram nas rubricas tradicionais (baseadas em recortes cronológicos e
geográficos), definindo-se mais negativamente do que afirmativamente. Essa
indefinição é agravada pela defasagem das rubricas administrativas das agências
de financiamento e pela confusão com termos correlatos como “filosofia da
história”.
Por
fim, o ensaio do professor da USP aborda as consequências práticas dessa
indefinição, destacando que a “atitude agostiniana” compromete a própria
justificativa da existência da área nos currículos, dificulta a contratação de
especialistas e inviabiliza a discussão sobre a consolidação e relevância
internacional da produção brasileira. O autor sugere como alternativa mais
produtiva trabalhar a partir das definições vagas existentes, explicitando-as e
discutindo suas vantagens e desvantagens a fim de estabelecer pontos mínimos de
acordo.
Isso
implicaria, eventualmente, ter a coragem de fazer juízos classificatórios sobre
o que é ou não é teoria da história, ainda que tais decisões sejam
desconfortáveis, mas necessárias, segundo o autor, para que a área possa
existir como campo de disputa legítimo e não como um “coringa” sem conteúdo
definido.
Na
sequência, Valdei Araújo, professor de história da Universidade Federal de Ouro
Preto (UFOP), teceu algumas considerações sobre os argumentos apresentados por
João Ohara, publicando-as em um texto online na plataforma Academia.edu e agora
disponível na Revista de história da UFG. Nesse texto, Valdei Araújo argumenta
que, no Brasil, a teoria da história e história da historiografia alcançou um
grande patamar de maturação nas últimas décadas. Entretanto, concorda com João
Ohara de que essa presença marcante convive com um dilema persistente: a falta
de consenso sobre o que, rigorosamente, define a área, quais são seus limites e
como se estabelecem seus critérios de pertencimento.
Segundo
o professor de história da UFOP, é preciso matizar a ideia de que a ausência de
uma definição única represente fragilidade ou dispersão. A consolidação de uma
disciplina científica ou humanística não pressupõe, necessariamente, a adesão a
um núcleo teórico rígido, o que poderia se revelar empobrecedor.
Em vez
disso, de acordo com o autor, o campo se estabelece na constituição de uma
comunidade de debate ativa, cujos membros compartilham redes de interlocução,
controvérsias e um conjunto de problemas reconhecíveis, ainda que
permanentemente disputados. Sob esse prisma, a fluidez dos limites da teoria e
história da historiografia brasileira reflete menos uma falta de unidade e mais
o acúmulo de práticas e espaços institucionais construídos ao longo do tempo.
Para
compreender essa dinâmica, conforme Valdei Araújo, torna-se indispensável
situar o problema historicamente em sua complexidade. A diversidade de agendas
contemporâneas, que abrange desde a epistemologia e a ética até os estudos de
memória, cultura visual e mídias digitais, não seria uma prova de inchaço, mas
o resultado de deslocamentos de interesse e lutas institucionais concretas.
Por
fim, o professor da UFOP argumenta que a dificuldade em fixar limites precisos
pode ser interpretada de modo dialético. A própria institucionalização da área
cria as condições para a expansão de seus horizontes; essa multiplicação de
temas, por sua vez, exige a reavaliação de conceitos antigos e impulsiona a
autoconsciência reflexiva do campo.
Os
argumentos apresentados por João Ohara e Valdei Araújo sobre o estado da arte
da teoria e história da historiografia no Brasil, constitui, sem dúvida, em um
marco reflexivo para a área. Ambos os autores problematizam o termo “teoria da
história”, expondo a polissemia que ronda seus termos constituintes, além de
criticarem os efeitos práticos de uma indefinição que, longe de ser inofensiva,
compromete currículos, contratações e a própria legitimidade do campo.
João
Ohara, com sua inspiração agostiniana, capta a angústia de quem sabe
intuitivamente o que é teoria da história, mas vacila ao defini-la; Valdei
Araújo, por sua vez, oferece um contraponto dialético, sugerindo que a fluidez
dos limites não é sinal de fraqueza, mas o fruto de uma institucionalização
madura, capaz de abrigar controvérsias e multiplicar horizontes.
Há, no
entanto, um espectro que ronda esses dois argumentos sem nunca ser nomeado: a
realidade política, econômica, social e simbólica, concentrada em casos
observados ou restritos ao Rio de Janeiro, a São Paulo e a Minas Gerais,
considerados como “o Brasil”, isto é, como metonímia de todo o país, e de onde
os dois professores falam.
É
surpreendente que, num país de dimensões continentais e de desigualdades
regionais tão gritantes, uma discussão sobre a consolidação e a relevância de
um campo do saber possa se dar como se o território nacional fosse uma
superfície lisa, onde todas as paisagens, experiências e vozes ecoassem com a
mesma potência.
Comecemos
pelo diagnóstico de João Ohara. Quando ele afirma que a teoria da história se
define mais negativamente – ou seja, pelo que não é – pelos recortes
cronológicos e geográficos que recusam, do que afirmativamente, ele toca num
nervo exposto da disciplina. Contudo, essa definição por exclusão não ocorre de
uma “forma natural”; ela é moldada por um contexto institucional profundamente
concentrado.
As
universidades que historicamente pautaram o debate teórico no Brasil (USP,
Unicamp, Unesp, UFF, UFRJ e UFMG) não são apenas polos de excelência acadêmica;
são, também, os epicentros de um circuito econômico que concentra a maior parte
dos recursos públicos nacionais para o financiamento à pesquisa ao longo de
décadas, em detrimento das demais regiões do país.
Além
disso, é na Região Sudeste do país que estão as sedes dos maiores conglomerados
de comunicação nacionais e onde se concentram as principais editoras comerciais
e universitárias (EDUSP, Editora Unesp e Editora UFMG). Essas instituições
detêm o poder de transformar um livro em referência, e essa referência em
capital econômico e simbólico rapidamente divulgado pelos meios de mídia,
instalados a poucos quilômetros dos campi dessas grandes universidades.
Não por
um acaso, é nesse espaço que se encontram os periódicos acadêmicos considerados
referenciais, os comitês de assessoramento das agências de financiamento e as
sedes das principais associações científicas. Em outras palavras, consolida-se
há muito tempo um consenso estrutural que restringe a produção historiográfica
e científica nacional à projeção da realidade do Sudeste do Brasil sobre o
restante do país. Ao impor uma perspectiva regional específica como “modelo
nacional” para ver, entender e explicar a história, essa dinâmica subordina as
demais regiões e bloqueia o diálogo nacional.
Essa
assimetria não é um detalhe pitoresco; ela é estruturante, e torna a “atitude
agostiniana” descrita por João Ohara um fardo. Para quem está no centro desse
sistema, a vagueza ou a imprecisão pode ser um luxo intelectual, um espaço de
manobra criativa, pois dá liberdade para desenvolver pesquisas, construir
argumentos e se consolidar rapidamente como uma “voz de autoridade” na área.
Para
quem não desfruta do mesmo apoio estrutural e habita a periferia do país, a
indefinição é um obstáculo burocrático e existencial: espera-se que os “fora do
eixo” ou “marginalizados” apenas copiem e reproduzam o que é ditado pelo
“centro nacional”, uma vez que os objetos de estudo da realidade ontológica
local são tradicionalmente desprezados por esses mesmos centros.
Dessa
maneira, apresentar um argumento lastreado em uma realidade não central torna
mais difícil justificar a relevância de uma pesquisa, obter financiamento, ter
seus artigos aceitos em periódicos de impacto e, sobretudo, ser citado como
referência. A própria sugestão de João Ohara referente a necessidade de
explicitarmos as definições de teoria da história soa, nesse contexto, como uma
faca de dois gumes.
Se
esses juízos forem estabelecidos pelos mesmos atores e pelas mesmas
instituições que já dominam o campo, o que teremos não será uma delimitação
mais clara, mas a consagração de um cânone dito nacional que contempla os
interesses de uma forma de ver e entender a realidade que será imposta a todas
às demais partes do país.
Passemos,
então, às considerações de Valdei Araújo. Seu esforço em matizar a ideia de que
a ausência de uma definição única representa fragilidade é profícuo. Ao propor
que a consolidação de uma disciplina não exige adesão a um núcleo rígido, mas
sim a formação de uma “comunidade de debate ativa”, Valdei Araújo oferece uma
saída elegante para o impasse.
Ele vê
com bons olhos a multiplicação de temas, pois isso é um sinal de vitalidade, e
não de inchaço. E sua sugestão de uma “interpretação dialética”, segundo a qual
a própria institucionalização cria as condições para a expansão de horizontes,
é, em tese, uma leitura generosa e produtiva da história da área no Brasil.
Todavia,
quando Valdei Araújo fala em “espaços institucionais que [a área] não possuía
com a mesma densidade há trinta anos”, ele minimiza as disputas que os “novos e
os velhos” sujeitos criam para se legitimarem como controladores desses
espaços. Além disso, as instituições e seus pesquisadores não são equivalentes:
elas possuem orçamentos (dinheiro para bolsas, pesquisas, equipamentos,
bibliotecas, funcionários etc.) e, sobretudo, visibilidades distintas.
A
“comunidade de debate” que ele evoca, por mais ativa que seja, é mediada por
quem já está instalado nos grandes centros, ou por quem representa e reproduz
os interesses destes. Essas redes de interlocução, que Araújo corretamente
valoriza, não são neutras e operam segundo uma lógica de trocas acadêmicas que
favorece as instituições e os pesquisadores já estabelecidos e estruturados.
Mais
ainda: a própria “fluidez dos limites” que Valdei Araújo defende como saudável
pode ser interpretada, do ponto de vista de quem está “fora do centro”, como um
mecanismo de exclusão sutil. Se os limites são fluidos, quem define onde e como
eles se movem? Se a área é aberta a novas temáticas, quem as valida como
legítimas?
A
resposta, ainda que não dita, recai sobre as mesmas instituições e seus
pesquisadores, que já detêm o poder de validação. Assim, a dialética de Valdei
Araújo, por mais virtuosa que seja, corre o risco de ser uma dialética de
circuito fechado: um movimento interno ao centro que celebra sua própria
multiplicidade, enquanto a periferia observa, de longe, os critérios mutantes
que ora a incluem, ora a excluem.
Diante
disso, é forçoso concluir que os textos de João Ohara e Valdei Araújo, com toda
a sua sofisticação e pertinência, explicitam de forma ampla as implicações da
questão, mas falham em compreender e explicar como ela se desdobra internamente
no vasto território nacional. Eles discutem a semântica, a institucionalidade e
a comunidade, mas silenciam sobre o financiamento desigual, as inequidades
regionais e a força do poder das instituições estabelecidas.
Ignoram
que a história nacional, no que tange à produção do conhecimento, mantem-se
atada ao eixo econômico RJ-SP-MG, e que as universidades consolidadas, ao se
articularem com editoras privadas e grandes conglomerados de comunicação,
projetam seus interesses como “interesses públicos”, ao passo que relegam os
interesses dos demais entes a um segundo plano, quando não ao esquecimento.
Incluir
essa variável no debate não é um desvio provinciano; é, antes, uma exigência
epistemológica e política, pois uma Teoria da História que não reflete sobre
suas próprias condições materiais de produção e circulação é uma teoria que se
pretende universal, mas que, na prática, fala de um lugar e para um público
muito específico.
Além
dessas questões gerais, há um aspecto concreto e de grande impacto na área que
merece destaque e pouco é mencionado: os concursos públicos para docentes em
teoria da história. Se o campo não possui contornos bem delimitados, como
argumenta João Ohara, torna-se indispensável analisar não apenas a
pós-graduação (mestrado e doutorado), mas também os certames destinados ao seu
provimento.
Diferentemente
de outras áreas, cujas seleções exigem formação e produção bibliográfica
específicas (como história antiga, história medieval, história da África,
história da América Latina…), a área de teoria da história e história da
historiografia frequentemente permite a inscrição de pesquisadores de qualquer
especialidade desde que detentores do título de doutor(a). Uma vez aprovados,
esses docentes “não especialistas” não têm nenhum constrangimento em ignorar a
produção acadêmica específica de seus “pares na área”. Isso, se por um lado
amplia o leque de abordagens iniciais, por outro acaba por inflacionar e
esvaziar a consolidação de uma eventual agenda de pesquisa para o campo.
O
desafio, portanto, não é apenas definir melhor a teoria da história, como quer
João Ohara, ou celebrar sua fluidez produtiva, como sugere Valdei Araújo. O
desafio é, antes, perguntar: quem tem o direito de definir e quem fica à margem
desse movimento? Até que essa pergunta seja incorporada ao debate, a “atitude
agostiniana” continuará sendo, para muitos, não uma angústia filosófica, mas
uma experiência cotidiana de invisibilidade.
E a
“comunidade de debate” continuará sendo, para outros, um clube cujas portas se
abrem com mais facilidade para quem já está do lado de dentro. Se a teoria da
história brasileira quer, de fato, se consolidar como um campo legítimo e
relevante, ela precisará ter a coragem não apenas de classificar, como propõe
João Ohara, mas de descentralizar, ou, ao menos, de nomear suas próprias
hierarquias geográficas como parte integrante de seu objeto teórico.
Fonte:
Por Eduardo Henrique Barbosa de Vasconcelos, em A Terra é Redonda

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