segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Teoria da história e história da historiografia

Em um ensaio inspirado na famosa reflexão de Santo Agostinho sobre o tempo, o historiador João Ohara, professor de história da USP, aponta que, embora tenhamos uma noção intuitiva do que é a teoria da história, não conseguimos defini-la com precisão quando somos questionados.

No ensaio, João Ohara analisa as dificuldades semânticas inerentes à expressão “teoria da história”, destacando a polissemia de seus termos constituintes (“teoria”, “história” e a preposição “da”). A palavra “teoria” pode assumir diversos sentidos (metodológico, filosófico ou de teoria social), enquanto “história” comporta múltiplas acepções (como realidade passada, conhecimento sobre ela ou disciplina acadêmica), o que gera inúmeras permutações possíveis.

O autor também aborda como a área acabou se tornando um “depósito” para pesquisas que não se enquadram nas rubricas tradicionais (baseadas em recortes cronológicos e geográficos), definindo-se mais negativamente do que afirmativamente. Essa indefinição é agravada pela defasagem das rubricas administrativas das agências de financiamento e pela confusão com termos correlatos como “filosofia da história”.

Por fim, o ensaio do professor da USP aborda as consequências práticas dessa indefinição, destacando que a “atitude agostiniana” compromete a própria justificativa da existência da área nos currículos, dificulta a contratação de especialistas e inviabiliza a discussão sobre a consolidação e relevância internacional da produção brasileira. O autor sugere como alternativa mais produtiva trabalhar a partir das definições vagas existentes, explicitando-as e discutindo suas vantagens e desvantagens a fim de estabelecer pontos mínimos de acordo.

Isso implicaria, eventualmente, ter a coragem de fazer juízos classificatórios sobre o que é ou não é teoria da história, ainda que tais decisões sejam desconfortáveis, mas necessárias, segundo o autor, para que a área possa existir como campo de disputa legítimo e não como um “coringa” sem conteúdo definido.

Na sequência, Valdei Araújo, professor de história da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), teceu algumas considerações sobre os argumentos apresentados por João Ohara, publicando-as em um texto online na plataforma Academia.edu e agora disponível na Revista de história da UFG. Nesse texto, Valdei Araújo argumenta que, no Brasil, a teoria da história e história da historiografia alcançou um grande patamar de maturação nas últimas décadas. Entretanto, concorda com João Ohara de que essa presença marcante convive com um dilema persistente: a falta de consenso sobre o que, rigorosamente, define a área, quais são seus limites e como se estabelecem seus critérios de pertencimento.

Segundo o professor de história da UFOP, é preciso matizar a ideia de que a ausência de uma definição única represente fragilidade ou dispersão. A consolidação de uma disciplina científica ou humanística não pressupõe, necessariamente, a adesão a um núcleo teórico rígido, o que poderia se revelar empobrecedor.

Em vez disso, de acordo com o autor, o campo se estabelece na constituição de uma comunidade de debate ativa, cujos membros compartilham redes de interlocução, controvérsias e um conjunto de problemas reconhecíveis, ainda que permanentemente disputados. Sob esse prisma, a fluidez dos limites da teoria e história da historiografia brasileira reflete menos uma falta de unidade e mais o acúmulo de práticas e espaços institucionais construídos ao longo do tempo.

Para compreender essa dinâmica, conforme Valdei Araújo, torna-se indispensável situar o problema historicamente em sua complexidade. A diversidade de agendas contemporâneas, que abrange desde a epistemologia e a ética até os estudos de memória, cultura visual e mídias digitais, não seria uma prova de inchaço, mas o resultado de deslocamentos de interesse e lutas institucionais concretas.

Por fim, o professor da UFOP argumenta que a dificuldade em fixar limites precisos pode ser interpretada de modo dialético. A própria institucionalização da área cria as condições para a expansão de seus horizontes; essa multiplicação de temas, por sua vez, exige a reavaliação de conceitos antigos e impulsiona a autoconsciência reflexiva do campo.

Os argumentos apresentados por João Ohara e Valdei Araújo sobre o estado da arte da teoria e história da historiografia no Brasil, constitui, sem dúvida, em um marco reflexivo para a área. Ambos os autores problematizam o termo “teoria da história”, expondo a polissemia que ronda seus termos constituintes, além de criticarem os efeitos práticos de uma indefinição que, longe de ser inofensiva, compromete currículos, contratações e a própria legitimidade do campo.

João Ohara, com sua inspiração agostiniana, capta a angústia de quem sabe intuitivamente o que é teoria da história, mas vacila ao defini-la; Valdei Araújo, por sua vez, oferece um contraponto dialético, sugerindo que a fluidez dos limites não é sinal de fraqueza, mas o fruto de uma institucionalização madura, capaz de abrigar controvérsias e multiplicar horizontes.

Há, no entanto, um espectro que ronda esses dois argumentos sem nunca ser nomeado: a realidade política, econômica, social e simbólica, concentrada em casos observados ou restritos ao Rio de Janeiro, a São Paulo e a Minas Gerais, considerados como “o Brasil”, isto é, como metonímia de todo o país, e de onde os dois professores falam.

É surpreendente que, num país de dimensões continentais e de desigualdades regionais tão gritantes, uma discussão sobre a consolidação e a relevância de um campo do saber possa se dar como se o território nacional fosse uma superfície lisa, onde todas as paisagens, experiências e vozes ecoassem com a mesma potência.

Comecemos pelo diagnóstico de João Ohara. Quando ele afirma que a teoria da história se define mais negativamente – ou seja, pelo que não é – pelos recortes cronológicos e geográficos que recusam, do que afirmativamente, ele toca num nervo exposto da disciplina. Contudo, essa definição por exclusão não ocorre de uma “forma natural”; ela é moldada por um contexto institucional profundamente concentrado.

As universidades que historicamente pautaram o debate teórico no Brasil (USP, Unicamp, Unesp, UFF, UFRJ e UFMG) não são apenas polos de excelência acadêmica; são, também, os epicentros de um circuito econômico que concentra a maior parte dos recursos públicos nacionais para o financiamento à pesquisa ao longo de décadas, em detrimento das demais regiões do país.

Além disso, é na Região Sudeste do país que estão as sedes dos maiores conglomerados de comunicação nacionais e onde se concentram as principais editoras comerciais e universitárias (EDUSP, Editora Unesp e Editora UFMG). Essas instituições detêm o poder de transformar um livro em referência, e essa referência em capital econômico e simbólico rapidamente divulgado pelos meios de mídia, instalados a poucos quilômetros dos campi dessas grandes universidades.

Não por um acaso, é nesse espaço que se encontram os periódicos acadêmicos considerados referenciais, os comitês de assessoramento das agências de financiamento e as sedes das principais associações científicas. Em outras palavras, consolida-se há muito tempo um consenso estrutural que restringe a produção historiográfica e científica nacional à projeção da realidade do Sudeste do Brasil sobre o restante do país. Ao impor uma perspectiva regional específica como “modelo nacional” para ver, entender e explicar a história, essa dinâmica subordina as demais regiões e bloqueia o diálogo nacional.

Essa assimetria não é um detalhe pitoresco; ela é estruturante, e torna a “atitude agostiniana” descrita por João Ohara um fardo. Para quem está no centro desse sistema, a vagueza ou a imprecisão pode ser um luxo intelectual, um espaço de manobra criativa, pois dá liberdade para desenvolver pesquisas, construir argumentos e se consolidar rapidamente como uma “voz de autoridade” na área.

Para quem não desfruta do mesmo apoio estrutural e habita a periferia do país, a indefinição é um obstáculo burocrático e existencial: espera-se que os “fora do eixo” ou “marginalizados” apenas copiem e reproduzam o que é ditado pelo “centro nacional”, uma vez que os objetos de estudo da realidade ontológica local são tradicionalmente desprezados por esses mesmos centros.

Dessa maneira, apresentar um argumento lastreado em uma realidade não central torna mais difícil justificar a relevância de uma pesquisa, obter financiamento, ter seus artigos aceitos em periódicos de impacto e, sobretudo, ser citado como referência. A própria sugestão de João Ohara referente a necessidade de explicitarmos as definições de teoria da história soa, nesse contexto, como uma faca de dois gumes.

Se esses juízos forem estabelecidos pelos mesmos atores e pelas mesmas instituições que já dominam o campo, o que teremos não será uma delimitação mais clara, mas a consagração de um cânone dito nacional que contempla os interesses de uma forma de ver e entender a realidade que será imposta a todas às demais partes do país.

Passemos, então, às considerações de Valdei Araújo. Seu esforço em matizar a ideia de que a ausência de uma definição única representa fragilidade é profícuo. Ao propor que a consolidação de uma disciplina não exige adesão a um núcleo rígido, mas sim a formação de uma “comunidade de debate ativa”, Valdei Araújo oferece uma saída elegante para o impasse.

Ele vê com bons olhos a multiplicação de temas, pois isso é um sinal de vitalidade, e não de inchaço. E sua sugestão de uma “interpretação dialética”, segundo a qual a própria institucionalização cria as condições para a expansão de horizontes, é, em tese, uma leitura generosa e produtiva da história da área no Brasil.

Todavia, quando Valdei Araújo fala em “espaços institucionais que [a área] não possuía com a mesma densidade há trinta anos”, ele minimiza as disputas que os “novos e os velhos” sujeitos criam para se legitimarem como controladores desses espaços. Além disso, as instituições e seus pesquisadores não são equivalentes: elas possuem orçamentos (dinheiro para bolsas, pesquisas, equipamentos, bibliotecas, funcionários etc.) e, sobretudo, visibilidades distintas.

A “comunidade de debate” que ele evoca, por mais ativa que seja, é mediada por quem já está instalado nos grandes centros, ou por quem representa e reproduz os interesses destes. Essas redes de interlocução, que Araújo corretamente valoriza, não são neutras e operam segundo uma lógica de trocas acadêmicas que favorece as instituições e os pesquisadores já estabelecidos e estruturados.

Mais ainda: a própria “fluidez dos limites” que Valdei Araújo defende como saudável pode ser interpretada, do ponto de vista de quem está “fora do centro”, como um mecanismo de exclusão sutil. Se os limites são fluidos, quem define onde e como eles se movem? Se a área é aberta a novas temáticas, quem as valida como legítimas?

A resposta, ainda que não dita, recai sobre as mesmas instituições e seus pesquisadores, que já detêm o poder de validação. Assim, a dialética de Valdei Araújo, por mais virtuosa que seja, corre o risco de ser uma dialética de circuito fechado: um movimento interno ao centro que celebra sua própria multiplicidade, enquanto a periferia observa, de longe, os critérios mutantes que ora a incluem, ora a excluem.

Diante disso, é forçoso concluir que os textos de João Ohara e Valdei Araújo, com toda a sua sofisticação e pertinência, explicitam de forma ampla as implicações da questão, mas falham em compreender e explicar como ela se desdobra internamente no vasto território nacional. Eles discutem a semântica, a institucionalidade e a comunidade, mas silenciam sobre o financiamento desigual, as inequidades regionais e a força do poder das instituições estabelecidas.

Ignoram que a história nacional, no que tange à produção do conhecimento, mantem-se atada ao eixo econômico RJ-SP-MG, e que as universidades consolidadas, ao se articularem com editoras privadas e grandes conglomerados de comunicação, projetam seus interesses como “interesses públicos”, ao passo que relegam os interesses dos demais entes a um segundo plano, quando não ao esquecimento.

Incluir essa variável no debate não é um desvio provinciano; é, antes, uma exigência epistemológica e política, pois uma Teoria da História que não reflete sobre suas próprias condições materiais de produção e circulação é uma teoria que se pretende universal, mas que, na prática, fala de um lugar e para um público muito específico.

Além dessas questões gerais, há um aspecto concreto e de grande impacto na área que merece destaque e pouco é mencionado: os concursos públicos para docentes em teoria da história. Se o campo não possui contornos bem delimitados, como argumenta João Ohara, torna-se indispensável analisar não apenas a pós-graduação (mestrado e doutorado), mas também os certames destinados ao seu provimento.

Diferentemente de outras áreas, cujas seleções exigem formação e produção bibliográfica específicas (como história antiga, história medieval, história da África, história da América Latina…), a área de teoria da história e história da historiografia frequentemente permite a inscrição de pesquisadores de qualquer especialidade desde que detentores do título de doutor(a). Uma vez aprovados, esses docentes “não especialistas” não têm nenhum constrangimento em ignorar a produção acadêmica específica de seus “pares na área”. Isso, se por um lado amplia o leque de abordagens iniciais, por outro acaba por inflacionar e esvaziar a consolidação de uma eventual agenda de pesquisa para o campo.

O desafio, portanto, não é apenas definir melhor a teoria da história, como quer João Ohara, ou celebrar sua fluidez produtiva, como sugere Valdei Araújo. O desafio é, antes, perguntar: quem tem o direito de definir e quem fica à margem desse movimento? Até que essa pergunta seja incorporada ao debate, a “atitude agostiniana” continuará sendo, para muitos, não uma angústia filosófica, mas uma experiência cotidiana de invisibilidade.

E a “comunidade de debate” continuará sendo, para outros, um clube cujas portas se abrem com mais facilidade para quem já está do lado de dentro. Se a teoria da história brasileira quer, de fato, se consolidar como um campo legítimo e relevante, ela precisará ter a coragem não apenas de classificar, como propõe João Ohara, mas de descentralizar, ou, ao menos, de nomear suas próprias hierarquias geográficas como parte integrante de seu objeto teórico.

 

Fonte: Por Eduardo Henrique Barbosa de Vasconcelos, em A Terra é Redonda

 

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