Eliara
Santana: O velho padrão Globo de entrevistar Lula
A
proposta de sabatina/entrevista realizada pelo Jornal Nacional com o presidente
Lula, ontem, 27/08, em muito se assemelhou à tomada de depoimento de um
acusado.
Não
somente pelo teor das perguntas, mas também pelo encadeamento dos temas e a
condução dos entrevistadores. A pergunta inicial foi, obviamente, sobre as
investigações envolvendo o filho do presidente, Fabio Luiz Lula da Silva, que a
imprensa chama de “Lulinha”.
Pergunta
dura feita por César Tralli, à qual Lula respondeu; o apresentador insistiu no
mesmo tema com um outro viés, desdobrando a pergunta em outra provocação; Lula
respondeu; o apresentador retomou o tema; depois, Renata Vasconcelos inquiriu
sobre o mesmo assunto – o tema corrupção, no início da entrevista, tomou mais
de quatro minutos dos 40 disponíveis para o evento, ou seja, mais de 10% do
tempo do candidato foram gastos num único tema, que continha apenas provocação
e intimidação.
Na
verdade, o que estava ali em cena era novamente o uso do repertório corrupção –
lembrando que repertórios são temas norteadores da construção da notícia, do
noticiário –, que foi deflagrado desde 2014 pelo JN; à época, com os requintes
simbólicos do fundo vermelho e um duto enferrujado por onde escorria dinheiro.
O interrogatório ao presidente Lula, embalado no formato de entrevista, estava
no mesmo molde.
É claro
que uma entrevista com candidatos em momento eleitoral decisivo deve explorar
todos os temas e realmente questionar aquele candidato sobre propostas, pautas
inquietantes, o que ele fez na vida pública, quais são seus projetos.
Mas
questionamento não é inquérito, esse é o primeiro ponto importante nesta
reflexão. O segundo ponto é que a estratégia do uso da corrupção tem um fim
muito específico há bastante tempo no sistema midiático em relação a Lula,
sobretudo no sistema Globo – ela é um elemento para provocar desestabilização.
Não é
somente um tema que precisa ser abordado, é um instrumento midiático de
constrangimento, um modo de fazer com que aquele personagem fique acuado e não
consiga se articular para responder às outras perguntas. Não é aleatório,
portanto, é técnica, é algo como “padrão Globo de entrevista com Lula”.
E um
terceiro ponto refere-se às ausências propositais. Se uma entrevista/sabatina
tem por objetivo mostrar ao eleitor quem é o candidato, quais são suas
propostas, o que ele fez na vida pública e apresentar um conjunto robusto de
perguntas pelos entrevistadores para avaliar o conhecimento daquele candidato
sobre os temas pertinentes, o evento protagonizado pelo Jornal Nacional em nada
se assemelha a isso.
Lula
foi questionado em relação à investigação sobre um filho que não é candidato –
investigação sobre a qual pesam denúncias de vazamento seletivo –, foi
questionado sobre os problemas de segurança pública do estado da Bahia, do qual
ele não é o governador, foi arguido de novo sobre investigações que ele não
domina, como no caso do assessor Marcola.
Nada se
falou sobre o que ele fez, como tirar o país do Mapa da Fome pela segunda vez,
ou sobre o que pretende fazer em relação às bets, que estão destruindo o Brasil
e fazem propaganda no intervalo de jornais e novelas da Globo.
A
entrevista foi muito mal conduzida – Tralli e Renata pareciam aqueles
professores em bancas de avaliação que não estão nem um pouco interessados no
trabalho apresentado, mas querem mesmo é mostrar que sabem um monte de coisas.
Arrogância
e despreparo, uma combinação bem perigosa. Mesmo assim, a entrevista teve até
momentos bem divertidos e bastante esclarecedores. Por exemplo, quando Lula
disse que não havia esquecido o powerpoint: “A imprensa brasileira sabe que ela
produziu um monstro mentiroso chamado Moro, chamado Dallagnol. Eu não esqueço
do powerpoint mentiroso contra mim. Eu não esqueço”.
O
presidente se referia à nefasta apresentação de Deltan Dallagnol ligando o
então ex-presidente a toda uma trama de corrupção. César Tralli, ao melhor
estilo “vestir a camisa da empresa”, correu a justificar a tática da
Organização e respondeu: “O senhor falou do PowerPoint. Eu só quero dizer ao
senhor, por favor, em relação a essa questão do PowerPoint: nos nossos
princípios editoriais, nós fizemos a devida retratação sobre esse assunto.
Então, eu peço que a gente siga com a entrevista”.
Ele
fazia menção a outro powerpoint super tendencioso contra Lula (que foi
apresentado por Andrea Sadi na GloboNews ligando Lula ao caso Master). Foi
quase uma confissão de culpa mesmo.
A
mediocridade midiática, fruto da intolerância da imprensa com Lula ao longo de
décadas, se mostrou, mais uma vez, na entrevista/sabatina do JN. Em alguns
momentos, um inquérito; em outros, um debate entre candidatos, dada a postura
arrogante dos apresentadores.
Esse
tipo de entrevista não é e não pode ser uma conversa entre comadres, de fato.
Mas tampouco pode ser transformada num interrogatório em que os jornalistas são
advogados de acusação e juízes, ao vivo, em horário nobre na emissora de maior
audiência do país.
Por
fim, Lula soube se safar das inúmeras tentativas de acuá-lo e de constrangê-lo.
Não podemos abusar da euforia e dizer que ele arrasou, tirou de letra etc. Mas
é possível dizer que o presidente, atirado à cova dos leões, soube se livrar e
achar a saída.
• Ângela Carrato: A entrevista de Lula aos
amarra-cachorros da família Marinho
O
presidente Luiz Inácio da Silva não foi entrevistado pelo JN.
Foi
interrogado por uma espécie de tribunal de inquisição, cuja parte visível eram
os amarra-cachorros da família Marinho, César Tralli e Renata Vasconcellos.
Os
desrespeitos e tentativas de diminuí-lo e intimidá-lo foram permanentes.
Os dois
jornalistas não o trataram com o respeito devido a um presidente da República.
A boa
regra jornalística recomenda que a referência deveria ter sido como presidente,
candidato à reeleição ou a um novo mandato. Tratá-lo apenas como “candidato”
foi uma maneira para desconsiderar seu status de presidente.
Na
apresentação de sua trajetória política esta tentativa já ficava clara, ao
desconhecerem seu papel fundamental na cena global, como um dos líderes mais
ouvidos e prestigiados.
Outro
truque para tentar diminuí-lo foi a cadeira que lhe destinaram no estúdio onde
aconteceu a entrevista. Era a mesma ocupada pelos candidatos que o precederem
porém com um detalhe: o espaldar estava mais baixo do que o dos
jornalistas-inquisidores.
O
truque ficou visível para quem observou o enorme salto do sapato da Renata, que
é baixa. Sem ele, seus pés não tocariam o chão e sua imagem ficaria achatada,
como ficou a do Lula.
Considerações
estéticas à parte, é absolutamente inconcebível que numa entrevista com duração
de 40 minutos, os 17 iniciais tenham sido dedicados a perguntas sobre
“corrupção no governo”.
Os
amarra-cachorros da família Marinho inquiriram Lula sobre acusações de
corrupção do filho Fábio Luiz, do ex-chefe de gabinete, Marcola, do senador
Jacques Wagner e do ex-ministro Carlos Luppi.
Nos
quatro casos faltam provas e sobram convicções. Mesmo assim os inquisidores
trataram denúncias baseadas em vazamentos seletivos como se fossem processos já
julgados e concluídos.
Lula
custou a acreditar que trechos de vazamentos de processos, sem qualquer
contextualização, pudessem estar sendo citados como “provas”.
A sua
resposta para os quatro casos foi a mesma: tudo deve ser apurado e todos têm o
direito a se defender.
Especificamente
sobre Fábio Luiz, lembrou o que disse para o próprio filho: “você tem obrigação
de provar que é inocente”, acrescentando que o Palácio do Planalto não moverá
uma palha para auxiliá-lo, diferentemente de outros presidentes que trocaram
delegados a fim de proteger familiares.
Os dois
inquisidores não se deram por satisfeitos. Questionaram o fato de Lula ter
aparecido em solenidade pública pedindo votos para Jacques Wagner, candidato a
um novo mandato como senador.
Lula
foi categórico: “somos amigos há 45 anos e eu respeito a presunção de
inocência. Não sou daqueles que fingem não ver um amigo na rua, porque ele está
sendo acusado”.
Era
previsível que o tema da corrupção seria explorado pelo JN, mas não da forma
torpe em que foi.
Outros
assuntos que compõem o kit neoliberal da extrema-direita e dos Marinhos também
não faltaram: privatização dos Correios, rombo das estatais e aumento da dívida
pública.
Lula
descartou privatizar os Correios e desmascarou a mentira do tal rombo nas
estatais. Ao recordar os absurdos cometidos pela Operação Lava Jato, ele disse
que ainda aguarda um pedido de desculpas da mída, pelos injustos 580 dias em
que esteve preso.
A
inquisidora Renata ainda tentou rebatê-lo citando “a política editorial da
empresa”, que lhe deve ter sido soprada pelo ponto no ouvido, mas percebeu que
o melhor era não levar o assunto adiante.
A
desfaçatez dos inquisidores era tamanha, que ainda tentaram jogar casos
explícitos de corrupção descobertos e combatidos na atual administração, como o
do banco Master e dos descontos de aposentados do INSS no colo de Lula.
Algo
tão grotesco como acusar de corrupto alguém que denuncia a presença de ladrões
em sua casa. Um absurdo total para uma emissora de TV que diz praticar
jornalismo profissional e ter compromisso com os fatos.
Lula
citou novamente os esquemas da TV Globo com o ex-juiz Sergio Moro, Deltan
Dallagnol e com os crimes da Operação Lava Jato, para desespero da Renata e do
Tralli.
Outra
estocada excelente na Globo foi a respeito dos juros altos. Defensora histórica
da autonomia do Banco Central, Lula lembrou este aspecto e o fato de que ele é
que sempre se bateu pela redução da taxa de juros e que herdou de Jair
Bolsonaro um país quebrado, com um rombo de R$ 94 bilhões, nunca mencionados
pela Globo e pelos demais veículos da mídia corporativa.
Outra
baixaria foi a tentativa da Globo de criar atrito entre Lula e seu atual
ministro da Economia, Dario Durigan, na qual o calejado Lula obviamente não
caiu.
Quanto
à situação da dívida pública, que a mídia alinhada aos interesses do “andar de
cima” considera catastrófica, Lula foi cirúrgico: a dívida brasileira é de 82%
em relação ao PIB, enquanto a dos Estados Unidos ultrapassa 120%, sem que haja
qualquer alarme na mídia de lá e na de cá.
Foi
óbvia a ênfase em temas mais complexos e distantes do domínio público, para
ocupar o tempo restante e evitar que Lula pudesse falar das enormes conquistas
e avanços de seu terceiro governo na saúde, educação, geração de empregos e
assistência social, que têm interesse direto para a população.
Lula
novamente foi certeiro. Seus governos anteriores pagaram a dívida externa e
puseram fim aos tormentos com o FMI, além do superávit que possibilita a
estabilidade de que desfruta o Brasil no cenário internacional.
Chamou
atenção, igualmente, os dois inquisidores terem fugido de abordar os enormes
avanços do governo Lula no plano internacional, uma vez que ele é reconhecido
como um dos maiores estadista contemporâneos.
Chamou
atenção, igualmente, as pressões de Donald Trump contra o Brasil não terem sido
sequer mencionadas. O nome disso é manipulação e conivência com o imperialismo
estadunidense e os interesses da “casa grande” brasileira.
Para
encerrar o interrogatório, não poderia ter ficado de fora o tema da segurança
pública, apresentado pelos amarra-cachorros dos Marinho como responsabilidade
exclusiva do governo federal.
Lula,
outra vez, teve que recolocar o assunto no seu devido lugar, ao citar a PEC da
Segurança Nacional Pública, que deve ser aprovada nos próximos dias, e a
criação do ministério da Segurança Pública, que aguarda apenas a aprovação
desta PEC.
Se a
dupla de inquisidores achava que ia lacrar contra o presidente, deixando para o
final a questão da fila de espera no INSS, Lula concluiu convidando a dupla
para a solenidade, na próxima semana em Brasília, quando vai anunciar que seu
governo zerou esta fila.
Indescritível
a cara de perplexidade dos dois empregados da família Marinho, que ainda
tiveram que dormir com as frases finais de Lula: aos 80 anos vivo o melhor
momento da minha vida e depois de termos tirado o Brasil duas vezes do Mapa da
Fome, agora é a vez de investir em ciência, tecnologia, inteligência artificial
e na qualificação dos nossos jovens.
Pelas
estocadas de Lula na Globo e na mídia golpista, os Marinho também devem ter ido
dormir certos de que, mesmo não tendo dito, a regulação da mídia corporativa e
das big techs entrarão em pauta no quarto governo Lula, que eles vem fazendo de
tudo para que não ocorra.
Nenhuma
inquisição é capaz de deter quem tem compromisso com o povo.
Lula
entrou grande e saiu gigante, enquanto a Globo apenas reforçou o seu golpismo e
condição de porta-voz da “Casa Grande” e dos interesses imperialistas.
• Jeferson Miola: O padrão deplorável da
Globo
Os
debates eleitorais promovidos por emissoras de rádio e televisão perderam a
relevância e a influência que exerciam.
Os
grupos de mídia contribuem para isso. Estão muito mais empenhados em promover
espetáculos dantescos que escandalizam e geram audiência, do que em oferecer
processos educativos que auxiliem no discernimento da cidadania sobre as
alternativas eleitorais.
Para
isso, as empresas contemplam a participação nos debates de candidatos cujos
partidos não possuem representatividade alguma.
Legitimam
a presença de candidatos cujos partidos não têm representação mínima no
Congresso para dispor de tempo de rádio e TV, mas que são instrumentos úteis na
engrenagem do espetáculo. Assim foi com Pablo Marçal na eleição municipal de
2024, e está sendo nesta eleição com Renan Santos, do Missão.
Acertou
o presidente Lula ao decidir não participar destes debates pelo menos no
primeiro turno. Seria ele sozinho num picadeiro enfrentando quatro “padres
Kelmon” espumando de ódio. Não teria nada a ganhar, mas muito a perder.
Depois
do padrão deplorável de entrevistas da Globo no Jornal Nacional, é de se pensar
se faz sentido um candidato da estatura do presidente Lula participar disso.
Claro
que os candidatos-satélites do bolsonarismo, todos com um dígito nas pesquisas,
tiram proveito da exposição no veículo midiático de maior abrangência nacional,
mesmo que também tendo sido sujeitados a esse padrão rasteiro [talvez, porém,
com menor agressividade].
Para
Lula, no entanto, alguém com a grandeza de ser um dos maiores líderes mundiais
contemporâneos, o tipo de entrevista provinciana e desqualificada da Globo é um
jogo de perde-perde.
A
campanha nas redes e nas ruas; os comícios, as mobilizações, a propaganda de
rádio e TV são muito mais funcionais e efetivos na conquista de votos que
aquilo que a Globo arrogantemente chama de “sabatina”.
A Globo
presta um desserviço à cidadania e à democracia com esse gênero de entrevista
inquisitorial e policialesca.
É certo
que os candidatos à Presidência devem ser escrutinados sobre denúncias
–inclusive as falsas, propagadas para atingir a honra e a reputação– que
envolvem a si ou a familiares e aliados próximos.
Mas
francamente, diante de desafios tão extraordinários que o Brasil enfrenta, com
ataques dos EUA à economia, à soberania e à democracia do país com o apoio
interno de traidores, é vergonhoso esse provincianismo miserável da Globo.
É
inacreditável que a Globo prive sua enorme audiência de conhecer a trajetória,
a experiência e os planos dos candidatos para responderem às urgências sociais
do povo brasileiro e das regiões do nosso país na terceira década do terceiro
milênio.
É
lamentável que não evidencie à população as diferenças entre o que propõem os
candidatos e o que realizaram quando estiveram nos governos.
A
escolha da Globo empobrece o debate público e naturaliza como “normal” a
disputa eleitoral nos termos emoldurados pelos candidatos extremistas e
fascistas.
A Globo
se condenou a fazer com Flávio Bolsonaro o mesmo tipo de entrevista
inquisitorial e policialesca, com perguntas insistentes durante um longo tempo
sobre a ficha criminal do gângster.
Se não
fizer isso, que seria o mínimo de isonomia jornalística, a Globo assumirá que a
entrevista de Lula terá sido uma poderosa peça de propaganda contra sua
reeleição.
Fonte:
Carta Capital/Viomundo

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