segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Eliara Santana: O velho padrão Globo de entrevistar Lula

A proposta de sabatina/entrevista realizada pelo Jornal Nacional com o presidente Lula, ontem, 27/08, em muito se assemelhou à tomada de depoimento de um acusado.

Não somente pelo teor das perguntas, mas também pelo encadeamento dos temas e a condução dos entrevistadores. A pergunta inicial foi, obviamente, sobre as investigações envolvendo o filho do presidente, Fabio Luiz Lula da Silva, que a imprensa chama de “Lulinha”.

Pergunta dura feita por César Tralli, à qual Lula respondeu; o apresentador insistiu no mesmo tema com um outro viés, desdobrando a pergunta em outra provocação; Lula respondeu; o apresentador retomou o tema; depois, Renata Vasconcelos inquiriu sobre o mesmo assunto – o tema corrupção, no início da entrevista, tomou mais de quatro minutos dos 40 disponíveis para o evento, ou seja, mais de 10% do tempo do candidato foram gastos num único tema, que continha apenas provocação e intimidação.

Na verdade, o que estava ali em cena era novamente o uso do repertório corrupção – lembrando que repertórios são temas norteadores da construção da notícia, do noticiário –, que foi deflagrado desde 2014 pelo JN; à época, com os requintes simbólicos do fundo vermelho e um duto enferrujado por onde escorria dinheiro. O interrogatório ao presidente Lula, embalado no formato de entrevista, estava no mesmo molde.

É claro que uma entrevista com candidatos em momento eleitoral decisivo deve explorar todos os temas e realmente questionar aquele candidato sobre propostas, pautas inquietantes, o que ele fez na vida pública, quais são seus projetos.

Mas questionamento não é inquérito, esse é o primeiro ponto importante nesta reflexão. O segundo ponto é que a estratégia do uso da corrupção tem um fim muito específico há bastante tempo no sistema midiático em relação a Lula, sobretudo no sistema Globo – ela é um elemento para provocar desestabilização.

Não é somente um tema que precisa ser abordado, é um instrumento midiático de constrangimento, um modo de fazer com que aquele personagem fique acuado e não consiga se articular para responder às outras perguntas. Não é aleatório, portanto, é técnica, é algo como “padrão Globo de entrevista com Lula”.

E um terceiro ponto refere-se às ausências propositais. Se uma entrevista/sabatina tem por objetivo mostrar ao eleitor quem é o candidato, quais são suas propostas, o que ele fez na vida pública e apresentar um conjunto robusto de perguntas pelos entrevistadores para avaliar o conhecimento daquele candidato sobre os temas pertinentes, o evento protagonizado pelo Jornal Nacional em nada se assemelha a isso.

Lula foi questionado em relação à investigação sobre um filho que não é candidato – investigação sobre a qual pesam denúncias de vazamento seletivo –, foi questionado sobre os problemas de segurança pública do estado da Bahia, do qual ele não é o governador, foi arguido de novo sobre investigações que ele não domina, como no caso do assessor Marcola.

Nada se falou sobre o que ele fez, como tirar o país do Mapa da Fome pela segunda vez, ou sobre o que pretende fazer em relação às bets, que estão destruindo o Brasil e fazem propaganda no intervalo de jornais e novelas da Globo.

A entrevista foi muito mal conduzida – Tralli e Renata pareciam aqueles professores em bancas de avaliação que não estão nem um pouco interessados no trabalho apresentado, mas querem mesmo é mostrar que sabem um monte de coisas.

Arrogância e despreparo, uma combinação bem perigosa. Mesmo assim, a entrevista teve até momentos bem divertidos e bastante esclarecedores. Por exemplo, quando Lula disse que não havia esquecido o powerpoint: “A imprensa brasileira sabe que ela produziu um monstro mentiroso chamado Moro, chamado Dallagnol. Eu não esqueço do powerpoint mentiroso contra mim. Eu não esqueço”.

O presidente se referia à nefasta apresentação de Deltan Dallagnol ligando o então ex-presidente a toda uma trama de corrupção. César Tralli, ao melhor estilo “vestir a camisa da empresa”, correu a justificar a tática da Organização e respondeu: “O senhor falou do PowerPoint. Eu só quero dizer ao senhor, por favor, em relação a essa questão do PowerPoint: nos nossos princípios editoriais, nós fizemos a devida retratação sobre esse assunto. Então, eu peço que a gente siga com a entrevista”.

Ele fazia menção a outro powerpoint super tendencioso contra Lula (que foi apresentado por Andrea Sadi na GloboNews ligando Lula ao caso Master). Foi quase uma confissão de culpa mesmo.

A mediocridade midiática, fruto da intolerância da imprensa com Lula ao longo de décadas, se mostrou, mais uma vez, na entrevista/sabatina do JN. Em alguns momentos, um inquérito; em outros, um debate entre candidatos, dada a postura arrogante dos apresentadores.

Esse tipo de entrevista não é e não pode ser uma conversa entre comadres, de fato. Mas tampouco pode ser transformada num interrogatório em que os jornalistas são advogados de acusação e juízes, ao vivo, em horário nobre na emissora de maior audiência do país.

Por fim, Lula soube se safar das inúmeras tentativas de acuá-lo e de constrangê-lo. Não podemos abusar da euforia e dizer que ele arrasou, tirou de letra etc. Mas é possível dizer que o presidente, atirado à cova dos leões, soube se livrar e achar a saída.

•        Ângela Carrato: A entrevista de Lula aos amarra-cachorros da família Marinho

O presidente Luiz Inácio da Silva não foi entrevistado pelo JN.

Foi interrogado por uma espécie de tribunal de inquisição, cuja parte visível eram os amarra-cachorros da família Marinho, César Tralli e Renata Vasconcellos.

Os desrespeitos e tentativas de diminuí-lo e intimidá-lo foram permanentes.

Os dois jornalistas não o trataram com o respeito devido a um presidente da República.

A boa regra jornalística recomenda que a referência deveria ter sido como presidente, candidato à reeleição ou a um novo mandato. Tratá-lo apenas como “candidato” foi uma maneira para desconsiderar seu status de presidente.

Na apresentação de sua trajetória política esta tentativa já ficava clara, ao desconhecerem seu papel fundamental na cena global, como um dos líderes mais ouvidos e prestigiados.

Outro truque para tentar diminuí-lo foi a cadeira que lhe destinaram no estúdio onde aconteceu a entrevista. Era a mesma ocupada pelos candidatos que o precederem porém com um detalhe: o espaldar estava mais baixo do que o dos jornalistas-inquisidores.

O truque ficou visível para quem observou o enorme salto do sapato da Renata, que é baixa. Sem ele, seus pés não tocariam o chão e sua imagem ficaria achatada, como ficou a do Lula.

Considerações estéticas à parte, é absolutamente inconcebível que numa entrevista com duração de 40 minutos, os 17 iniciais tenham sido dedicados a perguntas sobre “corrupção no governo”.

Os amarra-cachorros da família Marinho inquiriram Lula sobre acusações de corrupção do filho Fábio Luiz, do ex-chefe de gabinete, Marcola, do senador Jacques Wagner e do ex-ministro Carlos Luppi.

Nos quatro casos faltam provas e sobram convicções. Mesmo assim os inquisidores trataram denúncias baseadas em vazamentos seletivos como se fossem processos já julgados e concluídos.

Lula custou a acreditar que trechos de vazamentos de processos, sem qualquer contextualização, pudessem estar sendo citados como “provas”.

A sua resposta para os quatro casos foi a mesma: tudo deve ser apurado e todos têm o direito a se defender.

Especificamente sobre Fábio Luiz, lembrou o que disse para o próprio filho: “você tem obrigação de provar que é inocente”, acrescentando que o Palácio do Planalto não moverá uma palha para auxiliá-lo, diferentemente de outros presidentes que trocaram delegados a fim de proteger familiares.

Os dois inquisidores não se deram por satisfeitos. Questionaram o fato de Lula ter aparecido em solenidade pública pedindo votos para Jacques Wagner, candidato a um novo mandato como senador.

Lula foi categórico: “somos amigos há 45 anos e eu respeito a presunção de inocência. Não sou daqueles que fingem não ver um amigo na rua, porque ele está sendo acusado”.

Era previsível que o tema da corrupção seria explorado pelo JN, mas não da forma torpe em que foi.

Outros assuntos que compõem o kit neoliberal da extrema-direita e dos Marinhos também não faltaram: privatização dos Correios, rombo das estatais e aumento da dívida pública.

Lula descartou privatizar os Correios e desmascarou a mentira do tal rombo nas estatais. Ao recordar os absurdos cometidos pela Operação Lava Jato, ele disse que ainda aguarda um pedido de desculpas da mída, pelos injustos 580 dias em que esteve preso.

A inquisidora Renata ainda tentou rebatê-lo citando “a política editorial da empresa”, que lhe deve ter sido soprada pelo ponto no ouvido, mas percebeu que o melhor era não levar o assunto adiante.

A desfaçatez dos inquisidores era tamanha, que ainda tentaram jogar casos explícitos de corrupção descobertos e combatidos na atual administração, como o do banco Master e dos descontos de aposentados do INSS no colo de Lula.

Algo tão grotesco como acusar de corrupto alguém que denuncia a presença de ladrões em sua casa. Um absurdo total para uma emissora de TV que diz praticar jornalismo profissional e ter compromisso com os fatos.

Lula citou novamente os esquemas da TV Globo com o ex-juiz Sergio Moro, Deltan Dallagnol e com os crimes da Operação Lava Jato, para desespero da Renata e do Tralli.

Outra estocada excelente na Globo foi a respeito dos juros altos. Defensora histórica da autonomia do Banco Central, Lula lembrou este aspecto e o fato de que ele é que sempre se bateu pela redução da taxa de juros e que herdou de Jair Bolsonaro um país quebrado, com um rombo de R$ 94 bilhões, nunca mencionados pela Globo e pelos demais veículos da mídia corporativa.

Outra baixaria foi a tentativa da Globo de criar atrito entre Lula e seu atual ministro da Economia, Dario Durigan, na qual o calejado Lula obviamente não caiu.

Quanto à situação da dívida pública, que a mídia alinhada aos interesses do “andar de cima” considera catastrófica, Lula foi cirúrgico: a dívida brasileira é de 82% em relação ao PIB, enquanto a dos Estados Unidos ultrapassa 120%, sem que haja qualquer alarme na mídia de lá e na de cá.

Foi óbvia a ênfase em temas mais complexos e distantes do domínio público, para ocupar o tempo restante e evitar que Lula pudesse falar das enormes conquistas e avanços de seu terceiro governo na saúde, educação, geração de empregos e assistência social, que têm interesse direto para a população.

Lula novamente foi certeiro. Seus governos anteriores pagaram a dívida externa e puseram fim aos tormentos com o FMI, além do superávit que possibilita a estabilidade de que desfruta o Brasil no cenário internacional.

Chamou atenção, igualmente, os dois inquisidores terem fugido de abordar os enormes avanços do governo Lula no plano internacional, uma vez que ele é reconhecido como um dos maiores estadista contemporâneos.

Chamou atenção, igualmente, as pressões de Donald Trump contra o Brasil não terem sido sequer mencionadas. O nome disso é manipulação e conivência com o imperialismo estadunidense e os interesses da “casa grande” brasileira.

Para encerrar o interrogatório, não poderia ter ficado de fora o tema da segurança pública, apresentado pelos amarra-cachorros dos Marinho como responsabilidade exclusiva do governo federal.

Lula, outra vez, teve que recolocar o assunto no seu devido lugar, ao citar a PEC da Segurança Nacional Pública, que deve ser aprovada nos próximos dias, e a criação do ministério da Segurança Pública, que aguarda apenas a aprovação desta PEC.

Se a dupla de inquisidores achava que ia lacrar contra o presidente, deixando para o final a questão da fila de espera no INSS, Lula concluiu convidando a dupla para a solenidade, na próxima semana em Brasília, quando vai anunciar que seu governo zerou esta fila.

Indescritível a cara de perplexidade dos dois empregados da família Marinho, que ainda tiveram que dormir com as frases finais de Lula: aos 80 anos vivo o melhor momento da minha vida e depois de termos tirado o Brasil duas vezes do Mapa da Fome, agora é a vez de investir em ciência, tecnologia, inteligência artificial e na qualificação dos nossos jovens.

Pelas estocadas de Lula na Globo e na mídia golpista, os Marinho também devem ter ido dormir certos de que, mesmo não tendo dito, a regulação da mídia corporativa e das big techs entrarão em pauta no quarto governo Lula, que eles vem fazendo de tudo para que não ocorra.

Nenhuma inquisição é capaz de deter quem tem compromisso com o povo.

Lula entrou grande e saiu gigante, enquanto a Globo apenas reforçou o seu golpismo e condição de porta-voz da “Casa Grande” e dos interesses imperialistas.

•        Jeferson Miola: O padrão deplorável da Globo

Os debates eleitorais promovidos por emissoras de rádio e televisão perderam a relevância e a influência que exerciam.

Os grupos de mídia contribuem para isso. Estão muito mais empenhados em promover espetáculos dantescos que escandalizam e geram audiência, do que em oferecer processos educativos que auxiliem no discernimento da cidadania sobre as alternativas eleitorais.

Para isso, as empresas contemplam a participação nos debates de candidatos cujos partidos não possuem representatividade alguma.

Legitimam a presença de candidatos cujos partidos não têm representação mínima no Congresso para dispor de tempo de rádio e TV, mas que são instrumentos úteis na engrenagem do espetáculo. Assim foi com Pablo Marçal na eleição municipal de 2024, e está sendo nesta eleição com Renan Santos, do Missão.

Acertou o presidente Lula ao decidir não participar destes debates pelo menos no primeiro turno. Seria ele sozinho num picadeiro enfrentando quatro “padres Kelmon” espumando de ódio. Não teria nada a ganhar, mas muito a perder.

Depois do padrão deplorável de entrevistas da Globo no Jornal Nacional, é de se pensar se faz sentido um candidato da estatura do presidente Lula participar disso.

Claro que os candidatos-satélites do bolsonarismo, todos com um dígito nas pesquisas, tiram proveito da exposição no veículo midiático de maior abrangência nacional, mesmo que também tendo sido sujeitados a esse padrão rasteiro [talvez, porém, com menor agressividade].

Para Lula, no entanto, alguém com a grandeza de ser um dos maiores líderes mundiais contemporâneos, o tipo de entrevista provinciana e desqualificada da Globo é um jogo de perde-perde.

A campanha nas redes e nas ruas; os comícios, as mobilizações, a propaganda de rádio e TV são muito mais funcionais e efetivos na conquista de votos que aquilo que a Globo arrogantemente chama de “sabatina”.

A Globo presta um desserviço à cidadania e à democracia com esse gênero de entrevista inquisitorial e policialesca.

É certo que os candidatos à Presidência devem ser escrutinados sobre denúncias –inclusive as falsas, propagadas para atingir a honra e a reputação– que envolvem a si ou a familiares e aliados próximos.

Mas francamente, diante de desafios tão extraordinários que o Brasil enfrenta, com ataques dos EUA à economia, à soberania e à democracia do país com o apoio interno de traidores, é vergonhoso esse provincianismo miserável da Globo.

É inacreditável que a Globo prive sua enorme audiência de conhecer a trajetória, a experiência e os planos dos candidatos para responderem às urgências sociais do povo brasileiro e das regiões do nosso país na terceira década do terceiro milênio.

É lamentável que não evidencie à população as diferenças entre o que propõem os candidatos e o que realizaram quando estiveram nos governos.

A escolha da Globo empobrece o debate público e naturaliza como “normal” a disputa eleitoral nos termos emoldurados pelos candidatos extremistas e fascistas.

A Globo se condenou a fazer com Flávio Bolsonaro o mesmo tipo de entrevista inquisitorial e policialesca, com perguntas insistentes durante um longo tempo sobre a ficha criminal do gângster.

Se não fizer isso, que seria o mínimo de isonomia jornalística, a Globo assumirá que a entrevista de Lula terá sido uma poderosa peça de propaganda contra sua reeleição.

 

Fonte: Carta Capital/Viomundo

 

Nenhum comentário: