A
esquerda, a máquina e o capital
A
inteligência artificial não vai desaparecer porque denunciamos seus riscos. A
questão decisiva do século XXI é quem controlará a técnica, para quais fins e
em benefício de quem. Se a luta de classes chegou aos algoritmos e à
inteligência artificial, abandonar esse território não é resistência. É
entregá-lo ao adversário.
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A esquerda está fazendo a pergunta errada
A
esquerda tem razões de sobra para desconfiar da inteligência artificial. Ela
nasce, em sua forma dominante, concentrada nas mãos de algumas das corporações
mais poderosas da história, alimentada por volumes colossais de dados,
infraestrutura computacional, energia e trabalho humano. Pode eliminar postos
de trabalho, intensificar a exploração, ampliar a vigilância, automatizar
decisões e concentrar ainda mais riqueza e poder. O diagnóstico é correto. O
problema começa quando dele se extrai a conclusão errada.
Diante
da inteligência artificial, boa parte da esquerda ainda pergunta o que a
tecnologia fará conosco: quantos empregos destruirá, quais profissões
substituirá, quanto poder entregará às Big Techs, quais capacidades humanas
atrofiará. São perguntas necessárias. Mas são perguntas de quem observa a
transformação tecnológica como objeto, não de quem pretende disputá-la como
sujeito. A pergunta estratégica é outra: o que a classe trabalhadora pretende
fazer com a inteligência artificial?
É
precisamente nesse deslocamento que aparece a tecnofobia. Não na crítica à IA,
que é indispensável; não na defesa de limites, regulações ou mesmo da proibição
de tecnologias socialmente inaceitáveis; mas no momento em que a crítica à
técnica sob o capitalismo se converte em recuo diante da disputa pela própria
técnica. Porque a inteligência artificial não desaparecerá por ser perigosa. O
capital tampouco renunciará a uma força capaz de ampliar produtividade,
reorganizar o trabalho, concentrar conhecimento e produzir poder. Enquanto
discutimos se deveríamos temê-la, outros estão decidindo quem a possui, como
será construída e para que servirá.
É aqui
que a tecnofobia deixa de ser apenas uma insuficiência de leitura e se torna um
erro estratégico. Uma força política pode compreender perfeitamente os perigos
de uma tecnologia e ainda assim fracassar em compreender o poder que existe em
controlá-la. E nenhuma tecnologia desaparece porque aqueles que não a controlam
decidiram recusá-la. Ela apenas continua sendo desenvolvida por quem tem
capital, infraestrutura e capacidade para fazê-lo.
A
esquerda pode, portanto, estar certa sobre quase todos os perigos da
inteligência artificial e ainda chegar à conclusão política errada. A questão
decisiva não é escolher entre aceitar a técnica ou resistir a ela. É decidir
quem terá poder para determinar seus rumos.
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Marx já havia separado a máquina do capital
Há
quase dois séculos, Marx enfrentou uma confusão que retorna agora sob novas
formas. Ao analisar as revoltas operárias contra a maquinaria, escreveu em O
Capital que foi preciso “tempo e experiência” para que os trabalhadores
aprendessem a distinguir a máquina de seu emprego pelo capital e, assim,
deslocassem seus ataques do instrumento material para a forma social que o
convertia em arma contra eles. A distinção é decisiva: a máquina não é o
capital.
Isso
jamais significou neutralidade. Marx descreveu com brutal precisão o que
acontece quando a maquinaria entra na produção submetida à valorização do
capital: ela pode disciplinar o trabalhador, intensificar o ritmo,
desqualificar saberes, ampliar a exploração e transformar o ganho de
produtividade em desemprego. A técnica incorpora relações de poder, reorganiza
o processo de trabalho e pode confrontar quem trabalha como uma força hostil.
Mas é precisamente aí que começa a análise materialista, não onde ela termina.
A
contradição está no fato de que a máquina capaz de eliminar trabalho necessário
contém uma possibilidade que o próprio capitalismo converte em ameaça. Se uma
inteligência artificial permite realizar em duas horas o que antes exigia oito,
há pelo menos duas perguntas possíveis: quantos trabalhadores poderão ser
dispensados ou quanto tempo de vida poderá ser devolvido a quem trabalha? A
capacidade técnica é reduzir trabalho. Transformar essa capacidade em
desemprego, precarização ou redução da jornada é uma decisão determinada pelas
relações de propriedade, poder e distribuição.
É por
isso que a tecnofobia produz uma inversão tão problemática para a esquerda.
Desde quando uma tradição fundada na crítica das relações de produção passou a
localizar na capacidade da máquina de poupar trabalho o problema que deveria
procurar na sociedade que transforma essa economia de trabalho em ameaça à
sobrevivência? O escândalo não é uma máquina poder trabalhar por nós. O
escândalo é termos organizado uma sociedade em que trabalhar menos pode
significar não poder viver.
No
Grundrisse, Marx enxergou ainda mais longe: à medida que ciência, conhecimento
e cooperação social se incorporam às forças produtivas, a riqueza deixa de
depender na mesma proporção do trabalho humano imediato. O horizonte
emancipatório não era manter seres humanos trabalhando onde máquinas poderiam
poupá-los, mas converter o aumento da produtividade em tempo disponível para o
desenvolvimento humano. A inteligência artificial radicaliza essa contradição.
Nunca tivemos instrumentos tão poderosos para economizar determinadas formas de
trabalho; sob o capital, essa possibilidade chega aos trabalhadores primeiro
como medo.
A
pergunta marxista diante da IA, portanto, não é como impedir que a técnica nos
poupe trabalho. É quem se apropriará da produtividade, quem controlará a
máquina e quem ficará com o tempo que ela for capaz de libertar.
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A tecnofobia também pode ser um fetichismo
Há uma
ironia desconfortável na crítica contemporânea à inteligência artificial.
Quanto mais poder atribuímos à máquina, mais facilmente desaparecem de cena
aqueles que realmente decidem o que fazer com ela. Dizemos que a IA vai
destruir empregos, precarizar profissões, vigiar trabalhadores, manipular
comportamentos e concentrar riqueza. A frase transforma a tecnologia em
sujeito. O capital some.
Marx
conhecia bem esse tipo de inversão. No fetichismo, relações sociais produzidas
por seres humanos aparecem diante deles como propriedades naturais das coisas.
Não se trata de afirmar que a tecnofobia seja simplesmente uma nova modalidade
do fetichismo da mercadoria, mas de reconhecer nela uma operação semelhante
quando consequências historicamente determinadas pelas relações de propriedade
e poder passam a ser apresentadas como atributos inevitáveis da própria
técnica. A máquina parece agir sozinha justamente quando mais precisamos
perguntar quem age por meio dela.
A
inteligência artificial não decide que um ganho de produtividade será
convertido em demissão em vez de redução da jornada. O algoritmo não escolhe
sozinho transformar cada movimento de um trabalhador em métrica de desempenho.
Um modelo não determina que conhecimento produzido socialmente será cercado por
propriedade privada. Sistemas técnicos tornam essas operações possíveis,
condicionam escolhas e incorporam relações de poder em sua própria arquitetura,
mas são empresas, proprietários, gestores, Estados e instituições que definem
sob quais relações sociais essas capacidades serão mobilizadas. Apagar esses
sujeitos não radicaliza a crítica ao capital. Apaga o capital da crítica.
É nesse
ponto que a tecnofobia pode produzir seu paradoxo mais profundo: pretendendo
denunciar o poder da tecnologia, acaba por conceder à tecnologia um poder que
pertence às relações sociais. O desemprego aparece como destino técnico; a
vigilância, como consequência inevitável do algoritmo; a concentração, como
natureza da inteligência artificial. E aquilo que foi historicamente construído
começa a parecer tecnologicamente necessário.
Para
uma esquerda materialista, essa inversão é especialmente perigosa. Se a causa
está na máquina, a política termina na contenção da máquina. Mas se a técnica é
um campo material atravessado pela luta de classes, a questão muda
inteiramente: quem detém o poder de determinar sua finalidade? A tecnofobia
começa a perder força no instante em que o capital volta a aparecer na frase.
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O capital não tem tecnofobia
O
capital não está esperando que a sociedade resolva seus dilemas éticos sobre a
inteligência artificial. Enquanto discutimos se devemos temê-la, corporações e
Estados disputam semicondutores, energia, data centers, capacidade
computacional, modelos, dados e cérebros. A corrida pela IA é apresentada como
corrida pela inovação, mas sua materialidade revela algo maior: é uma disputa
pela infraestrutura do poder.
A
concentração já começa na base. Mais de 90% dos modelos de IA considerados
relevantes em 2025 vieram da indústria. A fabricação dos semicondutores mais
avançados depende de uma cadeia extraordinariamente concentrada, enquanto a
capacidade de treinar e operar grandes modelos exige volumes de computação e
energia que poucos atores conseguem financiar. Não existe “nuvem” no sentido
etéreo que a palavra sugere: existem minas, eletricidade, chips, servidores,
cabos, data centers, propriedade intelectual e bilhões em capital. Por trás da
inteligência aparentemente imaterial existe uma infraestrutura brutalmente
material.
É essa
infraestrutura que transforma capacidade tecnológica em poder. Quem controla
computação em escala pode decidir quais modelos serão treinados; quem controla
modelos condiciona aplicações; quem controla plataformas organiza acesso,
circulação e dependência. Dados e conhecimento produzidos socialmente entram
nessa arquitetura e podem retornar à sociedade cercados por propriedade
privada, preços, licenças e regras definidas por poucas corporações. A
inteligência artificial não elimina a velha questão dos meios de produção. Ela
a estende aos meios de produção da própria inteligência social.
O
capital não precisa acreditar que toda inovação seja boa nem ignorar seus
riscos. Basta reconhecer o poder que ela concentra e agir para controlá-lo. A
tecnofobia, ao contrário, corre o risco de transformar a recusa moral de seus
efeitos em ausência política no terreno onde esse poder está sendo acumulado.
Denunciar
monopólios tecnológicos não constrói capacidade tecnológica alternativa. O
capital não precisa que a esquerda ame sua tecnologia. Basta que ela desista de
disputá-la.
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No Sul Global, não disputar é depender
Há uma
diferença brutal entre recusar uma tecnologia e não possuir capacidade para
decidir sobre ela. Para países do Sul Global, essa distinção separa soberania
de dependência. O Brasil pode decidir não desenvolver inteligência artificial,
capacidade computacional ou modelos próprios. Isso não fará a IA desaparecer de
seu território. Fará empresas, governos, universidades e trabalhadores
brasileiros utilizarem sistemas construídos sobre infraestruturas, padrões e
interesses definidos em outros centros de poder.
A
dependência começa muito antes da tela. Está nos semicondutores que não
produzimos em escala avançada, na computação que precisamos contratar, nas
nuvens que armazenam e processam dados, nos modelos que não controlamos e nas
condições de acesso que podem ser alteradas por decisões empresariais, sanções,
controles de exportação ou conflitos geopolíticos. Soberania tecnológica não
significa fabricar sozinho cada chip ou construir uma autarquia digital
impossível. Significa possuir capacidade material suficiente para escolher
interdependências sem transformar dependência em destino.
É por
isso que a disputa pela inteligência artificial já entrou na razão de Estado. O
próprio Brasil começou a investir em infraestrutura pública de computação,
supercomputadores, semicondutores e modelos de linguagem em português, ao mesmo
tempo que procura diversificar fornecedores e reduzir vulnerabilidades
externas. Há mais de meio século, o Chile de Salvador Allende já havia
percebido, com o Projeto Cybersyn, algo que permanece atual: informação,
capacidade de processamento e coordenação econômica também são instrumentos de
soberania. Mudaram as máquinas. A questão do poder permaneceu.
Para a
esquerda do Sul Global, portanto, a tecnofobia carrega uma contradição
adicional: é possível rejeitar a tecnologia produzida pelo centro e terminar
ainda mais subordinado a ela.
A
soberania do século XXI não será medida apenas pelo controle do território
físico, dos recursos naturais ou da moeda. Será medida também pela capacidade
de uma sociedade participar das decisões sobre as infraestruturas que organizam
conhecimento, produção e vida. No Sul Global, abandonar a disputa pela técnica
não é escapar da máquina. É correr o risco de viver dentro da máquina dos
outros.
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A técnica também é luta de classes
Disputar
a técnica não significa ajoelhar-se diante dela. Uma sociedade emancipada não
seria aquela que desenvolve tudo o que é tecnicamente possível, mas aquela que
recupera o poder de decidir coletivamente o que merece ser desenvolvido. Há
tecnologias que devem ser apropriadas, outras transformadas, algumas limitadas
e aquelas que simplesmente não deveriam existir. O contrário da tecnofobia não
é a tecnofilia. É poder sobre a técnica.
Essa
disputa começa antes de a máquina chegar ao local de trabalho. Está em quem
financia a pesquisa, controla a infraestrutura, define os problemas que merecem
ser automatizados, projeta os sistemas e determina suas finalidades. Continua
quando a tecnologia entra na fábrica, no escritório, na escola ou no serviço
público: trabalhadores precisam ter poder para interferir em sua implantação,
contestar seus critérios e participar da decisão sobre aquilo que será
automatizado. E termina onde o capitalismo procura encerrar a discussão: na
apropriação dos ganhos de produtividade.
Se uma
inteligência artificial permite produzir em quatro horas aquilo que antes
exigia oito, a pergunta política não pode se limitar a quantos empregos serão
eliminados. Deve alcançar aquilo que realmente está em disputa: por que não
trabalhar quatro horas? Por que o aumento da capacidade produtiva deveria
pertencer ao proprietário da máquina e não à sociedade que acumulou o
conhecimento capaz de torná-la possível? A promessa emancipatória da automação
só começa onde termina o direito automático do capital de capturar seus
benefícios.
É nesse
sentido que inteligência artificial, algoritmos e automação precisam entrar
definitivamente no horizonte da luta de classes. Sindicatos terão de disputar
algoritmos como disputam jornadas e salários; movimentos populares terão de
disputar infraestrutura e dados; Estados periféricos terão de construir
capacidade tecnológica; universidades públicas terão de produzir conhecimento
que não termine cercado por monopólios privados. Controle popular da técnica
não significa trocar o conselho de administração de uma Big Tech por uma
burocracia estatal. Significa democratizar o poder de decidir o que produzir,
como produzir, para quê produzir e quem se apropria do resultado.
A
esquerda não precisa amar a inteligência artificial. A máquina não nos oferece
emancipação nem nos condena inevitavelmente à barbárie. Entre uma possibilidade
e outra existem política, propriedade, organização e luta.
Durante
demasiado tempo, perguntamos o que a tecnologia fará com os trabalhadores. A
pergunta continua necessária, mas já não basta. O século XXI colocou diante da
esquerda uma tarefa maior: disputar as forças capazes de reorganizar trabalho,
conhecimento e poder antes que sua propriedade pareça tão natural quanto hoje
parece sua presença. A esquerda aprendeu a perguntar o que a tecnologia fará
com os trabalhadores. Agora precisa decidir o que os trabalhadores farão com a
tecnologia.
Fonte:
Por Reynaldo José Aragon, em Brasil 247

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