Immanuel
Wallerstein previu a queda do império estadunidense
Em julho de 2002,
Immanuel Wallerstein participou do programa matinal de perguntas e respostas da C-SPAN. Ele
acabara de escrever um ensaio para a
revista Foreign Policy com um título provocativo: “The
eagle has crash landed” [A águia se estatelou]. Wallerstein argumentava que
a posição de domínio dos EUA no cenário mundial estava em declínio.
Enquanto
ele falava, havia passado menos de um ano desde os ataques terroristas de 11 de
setembro e a subsequente invasão estadunidense do Afeganistão. O governo Bush
preparava suas forças armadas e a população dos Estados Unidos para a invasão
do Iraque, que começaria em março de 2003.
É
importante lembrar que George W. Bush era uma figura popular na época. O índice de aprovação do presidente
atingiu o recorde de 90% em setembro do ano anterior e permaneceu acima de 70%
quando Wallerstein tornou pública seu alerta sobre o declínio.
No
entanto, para Wallerstein, aquele deve ter parecido o momento exato para
intervir. Ele vinha escrevendo sobre o declínio da hegemonia estadunidense
desde o início da década de 1980. Mesmo assim, ainda acreditava, no período
entre as invasões do Afeganistão e do Iraque, que os Estados Unidos tinham a
oportunidade de gerir esse declínio de maneira eficiente.
Wallerstein
não acreditava ser possível estender indefinidamente o domínio global de uma
grande potência. Ele observou que as grandes potências se tornam hegemônicas —
um termo que se refere ao domínio global inigualável — devido a fatores
econômicos, políticos e militares que, em última análise, também causam a
erosão dessa hegemonia. O declínio da hegemonia dos EUA começou muito antes do
11 de setembro, com a crise econômica da década de 1970 e a guerra no Vietnã.
Para
Wallerstein, os Estados Unidos enfrentavam a escolha que todas as potências
hegemônicas em declínio enfrentam: declinar suave ou abruptamente. George W.
Bush escolheu a segunda opção. Hoje, Donald Trump acelerou ainda mais o
declínio dos EUA ao utilizar agressivamente uma das poucas armas restantes para
uma hegemonia moribunda: suas forças armadas extremamente poderosas.
Ciclos
de hegemonia
Por que
a hegemonia dos EUA estava em declínio? Para Wallerstein, a hegemonia
estadunidense do século XX pouco diferia da hegemonia holandesa do século XVII
ou da hegemonia britânica do século XIX. Essas três potências (e somente essas
três, em sua opinião) alcançaram a hegemonia surfando em uma onda de forças
econômicas que não conseguiam controlar totalmente e prevalecendo militarmente
sobre um rival. Após o triunfo, a potência hegemônica criava instituições à sua
imagem. Os britânicos, por exemplo, prevaleceram sobre a França e, em seguida,
criaram o Concerto da Europa em 1815.
A
ascensão dos Estados Unidos à hegemonia começou após a recessão global de 1873.
Como Wallerstein relatou, a participação decrescente da Grã-Bretanha nos
mercados mundiais se devia aos Estados Unidos e ao seu principal rival, a
Alemanha. Os Estados Unidos se tornaram um grande produtor de aço e,
posteriormente, de automóveis, enquanto a Alemanha se tornou uma grande
produtora de produtos químicos industriais. A ascensão econômica de cada país
seguiu-se a uma crise política interna e a uma estabilização (relativa): para
os Estados Unidos, a vitória da União na Guerra Civil; para a Alemanha, a
unificação sob a liderança prussiana após a guerra com a França.
Wallerstein
entendia as duas guerras mundiais como uma guerra prolongada de trinta anos
entre os rivais. Ele observou que as Províncias Unidas dos Países Baixos e a
Grã-Bretanha também se tornaram hegemônicas após guerras que duraram cerca de
três décadas (no caso dos Países Baixos, isso ocorreu após a Guerra dos Trinta
Anos original, entre 1618 e 1648).
Após a
vitória sobre a Alemanha e as Potências do Eixo em 1945, os líderes dos EUA
acreditavam que precisavam de três coisas para manter sua
prosperidade: primeiro, clientes internacionais para sua produção industrial;
segundo, uma ordem mundial que garantisse o comércio a baixo custo; e terceiro,
uma espécie de pacto que assegurasse que a produção não fosse interrompida.
Washington
alcançou esses objetivos reconstruindo a Europa Ocidental e o Japão, criando
importantes instituições internacionais como as Nações Unidas e firmando uma
espécie de acordo com a União Soviética. A última dessas ações, simbolizada
pela Conferência de Yalta em fevereiro de 1945, foi para Wallerstein muito mais
significativa do que a fundação da ONU dois meses depois.
Na
visão convencional, a Guerra Fria, de aproximadamente 1945 a 1991 (usando a
métrica mais longa possível), foi uma disputa entre adversários estadunidenses
e soviéticos. Para Wallerstein, esse período foi estruturado em torno de
um pacto implícito entre
as grandes potências. A esfera de influência dos EUA abrangia cerca de dois
terços do mundo, e a soviética, o restante. Cada potência podia dominar sua
zona de influência e usar a ameaça da outra para coagir parceiros relutantes. O
Pacto de Yalta era mantido por um “equilíbrio de terror” entre as nações.
O auge
da hegemonia estadunidense ocorreu aproximadamente entre 1945 e 1970. Como
todas as potências hegemônicas, os EUA tornaram-se vítimas do próprio sucesso.
Em 1970, a Europa Ocidental e o Japão eram, na visão de Wallerstein, os pares
econômicos dos Estados Unidos. No processo de construção de parcerias
comerciais, cruciais para o sucesso estadunidense no pós-guerra, os EUA também
criaram rivais.
Como
todas as potências hegemônicas, os Estados Unidos começaram a perder sua
vantagem econômica na mesma sequência em que a construíram originalmente.
Primeiro, a potência hegemônica perde sua vantagem na agricultura e na
indústria. Depois, perde a vantagem no comércio. Finalmente, perde sua vantagem
nas finanças.
Também
na década de 1970, a derrota de Washington no Vietnã expôs a fragilidade
militar dos EUA e demonstrou sua incapacidade de impor a própria vontade ao
mundo. O Vietnã, escreveu Wallerstein, simbolizou a rejeição da ordem mundial
estadunidense pelos povos esquecidos do mundo, às vezes chamados de Terceiro
Mundo, às vezes de Sul Global. O movimento de independência no Vietnã contra as
potências coloniais (França, Japão e Estados Unidos) foi uma extensão do
movimento global de protesto que atingiu seu ápice em 1968. Segundo
Wallerstein, “os participantes do movimento de 1968 não condenaram apenas a
hegemonia estadunidense. Eles condenaram a conivência soviética com os EUA,
condenaram Yalta” e enxergavam apenas “dois campos — as duas superpotências e o
resto do mundo”.
O
colapso da União Soviética em 1991, contrariando a opinião convencional, foi
para Wallerstein um desastre para os Estados Unidos, pois o país perdeu seu
grande Outro. Em um ensaio de 1992,
Wallerstein insistiu que a Guerra Fria “não era um jogo a ser vencido, mas sim
um minueto a ser dançado […] O fim da Guerra Fria, na prática, eliminou o
último grande pilar da hegemonia e da prosperidade dos EUA: o escudo
soviético.”
A
resposta de Washington ao declínio hegemônico tem sido reafirmar sua grandeza,
em discursos e ações, buscando recuperar sua posição no mundo. Mas, como
Wallerstein explicou na C-SPAN, “se você é o número um, não precisa gritar que
é o número um. As pessoas sabem que você é o número um. Se você precisa gritar,
algo está errado. Algo está acontecendo.”
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Atirando no mensageiro
Os
ouvintes da C-SPAN não ficaram nada satisfeitos com a mensagem de recusa de
Wallerstein. Um deles perguntou se bandeiras eram hasteadas no campus de Yale,
dada a aparente postura anti-estadunidense de Wallerstein. Outro o acusou de
ter fugido do serviço militar na Guerra do Vietnã, sem perceber que ele havia
sido convocado anteriormente, durante a Guerra da Coreia. Um terceiro
estremeceu ao pensar em Wallerstein como presidente: “Se um cara como ele
governasse o país, os Estados Unidos acabariam como um tatu, enrolado em uma
bola, esperando para ser chutado.”
Essas
manifestações de indignação eram normais para Wallerstein, que havia escrito
sobre o impacto psicológico nacional que o declínio da hegemonia causa naqueles
que o vivenciam. Era um período potencialmente perigoso para a política interna
e para os líderes aos quais o público poderia recorrer.
No
programa, Wallerstein explicou que era apenas o mensageiro e que os Estados
Unidos estavam se isolando do mundo — não apenas das nações que precisavam
cortejar, mas também de seus aliados mais próximos. “Se você superestima seu
poder e age como um valentão”, disse ele, “você perde mais do que se dialogar
de forma simples.”
Alguns
ouvintes viam Wallerstein como alguém empenhado em reformar a política externa
dos EUA. Um deles perguntou como responder às acusações de ser
anti-estadunidense. Wallerstein explicou que tentava usar a razão. Ele
argumentou que a política externa dos EUA operava contra os interesses
individuais.
Não
estou apelando para o altruísmo. Estou apelando para o egoísmo. Vocês estão
causando um impacto negativo muito mais rápido nos EUA e nas vidas que levam.
Em termos do seu próprio padrão de vida, em termos do seu risco de morte, em
termos de tudo aquilo que defendem, vocês estarão em pior situação se seguirem
essas políticas do que se mudarem de política.
O
declínio não significou catástrofe. Historicamente, as potências hegemônicas
não caem muito longe. Elas acabam absorvidas em meio às outras grandes
potências, embora com maior conforto material do que a maioria (basta olhar
para os Países Baixos ou o Reino Unido hoje).
Além
disso, como Wallerstein escreveu naquele ensaio de 1992, o declínio poderia ser
“a maior bênção de todas”. Os Estados Unidos tiveram a oportunidade de abraçar
a moralidade. “Foi Abraham Lincoln quem deu o tom moral: ‘Assim como eu não
quero ser escravo, também não quero ser senhor’”.
No
início da década de 1990, Wallerstein vislumbrou dois futuros possíveis para os
Estados Unidos. Um deles envolveria o neofascismo, caracterizado por conflitos
sociais, com as camadas mais baixas da sociedade sujeitas à brutalidade e ao
preconceito. O segundo cenário, mais promissor, seria uma forma de
solidariedade nacional por meio da social-democracia e do movimento em direção
ao igualitarismo.
Embora
Wallerstein não fosse dado a previsões excessivamente otimistas, ele acreditava
que o caminho igualitário era mais provável do que o caminho neofascista. Ele
vislumbrava uma catarse resultante de “uma tensão social compartilhada”,
combinada com a prosperidade econômica estadunidense e noções populares de
liberdade, que produziria um movimento contra os principais aspectos da
“distribuição desigual”: gênero, raça e etnia, idade e classe. Ele imaginava
que o ímpeto de 1968, após ter rompido com a hegemonia estadunidense e
destronado a ideologia do liberalismo centrista, levaria a um
movimento de massa em prol do progresso.
Wallerstein
também se baseou na história. Nos dois primeiros exemplos de hegemonia na
economia capitalista mundial, a holandesa e a britânica, o declínio hegemônico
foi seguido, eventualmente, por um movimento em direção ao bem-estar social e à
igualdade. Por que os Estados Unidos seriam tão diferentes?
No
entanto, Wallerstein também deixou em aberto a possibilidade do neofascismo. Se
o fim da Guerra Fria significou o fim da dominância dos EUA sobre dois terços
do mundo, então também significou o fim do liberalismo centrista como
garantidor cultural da economia capitalista mundial. Pelo menos desde as
revoluções de 1848, o liberalismo centrista havia sido a força gravitacional
que mantinha a esquerda radical e a direita conservadora sob controle.
O
liberalismo centrista prometia a concretização dos direitos democráticos e do
bem-estar econômico, não imediatamente para todos os povos, mas num processo
lento e ordenado a ser gerido pelo Estado ao longo de gerações. O liberalismo
centrista, como Wallerstein afirmou em seu livro The modern
world-system IV [O moderno sistema-mundo IV], era usado pelos “fortes
para moderar o descontentamento dos fracos”. Indivíduos fortes moderavam o
descontentamento das massas fracas, e Estados fortes moderavam o descontentamento
dos Estados fracos.
Contudo,
a vantagem econômica dos EUA vacilou à medida que o Sul Global começou a
rejeitar a estrutura de poder de Yalta. Após o colapso de um dos principais
atores, a União Soviética, as massas e os Estados fragilizados provaram não ser
tão fracos assim. Nessa situação, para Wallerstein, “os conservadores voltariam
a ser conservadores, e os radicais, radicais. Os liberais centristas não
desapareceram, mas tiveram seu número reduzido”. As possibilidades ideológicas
eram agora infinitas.
Após a
Guerra Fria, Wallerstein vislumbrou um grande potencial para o declínio da
hegemonia estadunidense, que poderia ser acompanhado por uma redistribuição
econômica interna. Dez anos depois, o movimento radical não se materializou,
enquanto os falcões conservadores estavam firmemente entrincheirados no poder.
Eles buscavam demonstrar poderio militar porque, em sua visão, “se Washington
não exercer sua força, os Estados Unidos se tornarão cada vez mais
marginalizados”.
Mas
Wallerstein percebeu que suas ações teriam o efeito oposto. Dada a
inevitabilidade do declínio, a política externa agressiva do governo Bush “só
contribuirá para o declínio dos Estados Unidos, transformando uma decadência
gradual em uma queda muito mais rápida e turbulenta”.
Em
retrospectiva, o ensaio e a aparição de Wallerstein na televisão em 2002
constituíram uma tentativa de desviar os Estados Unidos de sua trajetória. Ele
evidentemente havia abandonado a esperança em um movimento social-democrata e
agora redirecionava sua atenção para o próprio declínio do poder hegemônico.
No
verão de 2002, mais de seis em cada dez estadunidenses eram a favor de uma segunda
guerra no Iraque. A opinião de Wallerstein era a de um grupo impopular, porém
persistente, de críticos. Diante de tais críticas, o presidente Bush
simplesmente observava que a história julgaria suas ações.
Hoje,
está claro que os partidários da guerra não conseguiram preservar a hegemonia
estadunidense, nem remodelar o mundo de uma forma mais favorável aos interesses
dos EUA. O que aconteceu desde então?
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Declínio e negação
Oséculo
XXI não tem sido fácil para os Estados Unidos. Os líderes estadunidenses têm se
esforçado para recuperar a hegemonia perdida. À medida que o poder econômico
dos EUA diminuiu em comparação com o resto do mundo, Washington tem usado suas
forças armadas para demonstrar força e alcançar ambições políticas.
“À
medida que o poder econômico dos EUA diminui em comparação com o resto do
mundo, Washington tem usado suas forças armadas para demonstrar força.”
Na
verdade, os Estados Unidos realizaram mais intervenções militares desde 1991 do
que entre 1798 e 1990. Essa escolha foi a estratégia clássica de uma potência
hegemônica em declínio que nega a realidade, consciente de sua decadência, mas
inconsciente de que sua melhor opção viável seria a gestão adequada desse declínio.
Os
Estados Unidos não tornaram o mundo mais pacífico ou mais próspero, nem
melhoraram as nações que invadiram. Em Universalismo europeu: A
retórica do poder (2006), Wallerstein questionou a lógica do
intervencionismo. A potência invasora raramente torna o local invadido melhor
do que se não tivesse intervido, uma conclusão confirmada pelas aventuras
militares dos EUA no Oriente Médio.
O
veredito de Wallerstein, de 2002, poderia ter sido escrito este ano (ou esta
semana, aliás). Ele escreveu que os Estados Unidos se encontram como “uma
superpotência solitária que carece de poder verdadeiro, um líder mundial que
ninguém segue e poucos respeitam, e uma nação perigosamente à deriva em meio a
um caos global que não consegue controlar”. A reação dos defensores da reforma
de 1968, que ele descreveu, veio tanto do Sul Global não alinhado quanto das
massas descontentes domésticas. No século XXI, a concatenação que começou no
nível do sistema mundial rapidamente se deslocou para a política interna
estadunidense e, em seguida, para o exterior.
O fim
da Guerra Fria desvinculou o radicalismo e o conservadorismo do liberalismo
centrista. Os efeitos foram drásticos. Décadas de consenso neoliberal foram
desafiadas por figuras como Donald Trump e Bernie Sanders. Quando Trump assumiu
a presidência — primeiro em 2017, novamente em 2025 — ele o fez como um crítico
da ordem liberal estadunidense.
Contudo,
a política dos “EUA em primeiro lugar” não resultou na revitalização da
produção nacional, na melhoria do bem-estar social ou na proteção dos
trabalhadores. Em vez disso, o trumpismo é caracterizado pela corrupção desenfreada e
massiva (tanto interna quanto externa), pelo militarismo no exterior e
políticas internas de deportação em massa. Os Estados Unidos continuaram
expandindo seus compromissos e gastos militares, mas sem um empenho com o
bem-estar social interno. Enquanto isso, o otimismo em relação ao
futuro entre os estadunidenses diminuiu de forma geral desde 2013.
Em
resumo, os Estados Unidos escolheram o caminho neofascista que Wallerstein
inicialmente considerou o menos viável: conflito social, brutalidade e
preconceito. Os membros das camadas mais altas da sociedade buscaram manter
seus privilégios e recompensas notáveis. Consequentemente, os estadunidenses
têm vidas mais precárias, vivendo de salário em
salário,
com menos proteção contra os riscos de doenças, do envelhecimento e da
instabilidade no emprego.
Em
2026, a guerra dos Estados Unidos no Irã resume duas tendências do declínio da
hegemonia estadunidense. Uma é a incapacidade dos Estados Unidos de impor sua
vontade, apesar de possuírem um poderio militar extremamente grande. A outra é
o descontentamento da população estadunidense com a queda do padrão de vida e
com uma classe dirigente em que já não confia.
Como
observou Wallerstein, esses sentimentos de descontentamento podem ser poderosos
catalisadores para a ação política. Washington pode se ver surpreendida mais
uma vez por eventos caóticos globais e domésticos que não consegue controlar.
Fonte:
Por Gregory P. Williams - Tradução Pedro Silva para Jacobin Brasil

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