sábado, 29 de agosto de 2026

Immanuel Wallerstein previu a queda do império estadunidense

Em julho de 2002, Immanuel Wallerstein participou do programa matinal de perguntas e respostas da C-SPAN. Ele acabara de escrever um ensaio para a revista Foreign Policy com um título provocativo: “The eagle has crash landed” [A águia se estatelou]. Wallerstein argumentava que a posição de domínio dos EUA no cenário mundial estava em declínio.

Enquanto ele falava, havia passado menos de um ano desde os ataques terroristas de 11 de setembro e a subsequente invasão estadunidense do Afeganistão. O governo Bush preparava suas forças armadas e a população dos Estados Unidos para a invasão do Iraque, que começaria em março de 2003.

É importante lembrar que George W. Bush era uma figura popular na época. O índice de aprovação do presidente atingiu o recorde de 90% em setembro do ano anterior e permaneceu acima de 70% quando Wallerstein tornou pública seu alerta sobre o declínio.

No entanto, para Wallerstein, aquele deve ter parecido o momento exato para intervir. Ele vinha escrevendo sobre o declínio da hegemonia estadunidense desde o início da década de 1980. Mesmo assim, ainda acreditava, no período entre as invasões do Afeganistão e do Iraque, que os Estados Unidos tinham a oportunidade de gerir esse declínio de maneira eficiente.

Wallerstein não acreditava ser possível estender indefinidamente o domínio global de uma grande potência. Ele observou que as grandes potências se tornam hegemônicas — um termo que se refere ao domínio global inigualável — devido a fatores econômicos, políticos e militares que, em última análise, também causam a erosão dessa hegemonia. O declínio da hegemonia dos EUA começou muito antes do 11 de setembro, com a crise econômica da década de 1970 e a guerra no Vietnã.

Para Wallerstein, os Estados Unidos enfrentavam a escolha que todas as potências hegemônicas em declínio enfrentam: declinar suave ou abruptamente. George W. Bush escolheu a segunda opção. Hoje, Donald Trump acelerou ainda mais o declínio dos EUA ao utilizar agressivamente uma das poucas armas restantes para uma hegemonia moribunda: suas forças armadas extremamente poderosas.

Ciclos de hegemonia

Por que a hegemonia dos EUA estava em declínio? Para Wallerstein, a hegemonia estadunidense do século XX pouco diferia da hegemonia holandesa do século XVII ou da hegemonia britânica do século XIX. Essas três potências (e somente essas três, em sua opinião) alcançaram a hegemonia surfando em uma onda de forças econômicas que não conseguiam controlar totalmente e prevalecendo militarmente sobre um rival. Após o triunfo, a potência hegemônica criava instituições à sua imagem. Os britânicos, por exemplo, prevaleceram sobre a França e, em seguida, criaram o Concerto da Europa em 1815.

A ascensão dos Estados Unidos à hegemonia começou após a recessão global de 1873. Como Wallerstein relatou, a participação decrescente da Grã-Bretanha nos mercados mundiais se devia aos Estados Unidos e ao seu principal rival, a Alemanha. Os Estados Unidos se tornaram um grande produtor de aço e, posteriormente, de automóveis, enquanto a Alemanha se tornou uma grande produtora de produtos químicos industriais. A ascensão econômica de cada país seguiu-se a uma crise política interna e a uma estabilização (relativa): para os Estados Unidos, a vitória da União na Guerra Civil; para a Alemanha, a unificação sob a liderança prussiana após a guerra com a França.

Wallerstein entendia as duas guerras mundiais como uma guerra prolongada de trinta anos entre os rivais. Ele observou que as Províncias Unidas dos Países Baixos e a Grã-Bretanha também se tornaram hegemônicas após guerras que duraram cerca de três décadas (no caso dos Países Baixos, isso ocorreu após a Guerra dos Trinta Anos original, entre 1618 e 1648).

Após a vitória sobre a Alemanha e as Potências do Eixo em 1945, os líderes dos EUA acreditavam que precisavam de três coisas para manter sua prosperidade: primeiro, clientes internacionais para sua produção industrial; segundo, uma ordem mundial que garantisse o comércio a baixo custo; e terceiro, uma espécie de pacto que assegurasse que a produção não fosse interrompida.

Washington alcançou esses objetivos reconstruindo a Europa Ocidental e o Japão, criando importantes instituições internacionais como as Nações Unidas e firmando uma espécie de acordo com a União Soviética. A última dessas ações, simbolizada pela Conferência de Yalta em fevereiro de 1945, foi para Wallerstein muito mais significativa do que a fundação da ONU dois meses depois.

Na visão convencional, a Guerra Fria, de aproximadamente 1945 a 1991 (usando a métrica mais longa possível), foi uma disputa entre adversários estadunidenses e soviéticos. Para Wallerstein, esse período foi estruturado em torno de um pacto implícito entre as grandes potências. A esfera de influência dos EUA abrangia cerca de dois terços do mundo, e a soviética, o restante. Cada potência podia dominar sua zona de influência e usar a ameaça da outra para coagir parceiros relutantes. O Pacto de Yalta era mantido por um “equilíbrio de terror” entre as nações.

O auge da hegemonia estadunidense ocorreu aproximadamente entre 1945 e 1970. Como todas as potências hegemônicas, os EUA tornaram-se vítimas do próprio sucesso. Em 1970, a Europa Ocidental e o Japão eram, na visão de Wallerstein, os pares econômicos dos Estados Unidos. No processo de construção de parcerias comerciais, cruciais para o sucesso estadunidense no pós-guerra, os EUA também criaram rivais.

Como todas as potências hegemônicas, os Estados Unidos começaram a perder sua vantagem econômica na mesma sequência em que a construíram originalmente. Primeiro, a potência hegemônica perde sua vantagem na agricultura e na indústria. Depois, perde a vantagem no comércio. Finalmente, perde sua vantagem nas finanças.

Também na década de 1970, a derrota de Washington no Vietnã expôs a fragilidade militar dos EUA e demonstrou sua incapacidade de impor a própria vontade ao mundo. O Vietnã, escreveu Wallerstein, simbolizou a rejeição da ordem mundial estadunidense pelos povos esquecidos do mundo, às vezes chamados de Terceiro Mundo, às vezes de Sul Global. O movimento de independência no Vietnã contra as potências coloniais (França, Japão e Estados Unidos) foi uma extensão do movimento global de protesto que atingiu seu ápice em 1968. Segundo Wallerstein, “os participantes do movimento de 1968 não condenaram apenas a hegemonia estadunidense. Eles condenaram a conivência soviética com os EUA, condenaram Yalta” e enxergavam apenas “dois campos — as duas superpotências e o resto do mundo”.

O colapso da União Soviética em 1991, contrariando a opinião convencional, foi para Wallerstein um desastre para os Estados Unidos, pois o país perdeu seu grande Outro. Em um ensaio de 1992, Wallerstein insistiu que a Guerra Fria “não era um jogo a ser vencido, mas sim um minueto a ser dançado […] O fim da Guerra Fria, na prática, eliminou o último grande pilar da hegemonia e da prosperidade dos EUA: o escudo soviético.”

A resposta de Washington ao declínio hegemônico tem sido reafirmar sua grandeza, em discursos e ações, buscando recuperar sua posição no mundo. Mas, como Wallerstein explicou na C-SPAN, “se você é o número um, não precisa gritar que é o número um. As pessoas sabem que você é o número um. Se você precisa gritar, algo está errado. Algo está acontecendo.”

<><> Atirando no mensageiro

Os ouvintes da C-SPAN não ficaram nada satisfeitos com a mensagem de recusa de Wallerstein. Um deles perguntou se bandeiras eram hasteadas no campus de Yale, dada a aparente postura anti-estadunidense de Wallerstein. Outro o acusou de ter fugido do serviço militar na Guerra do Vietnã, sem perceber que ele havia sido convocado anteriormente, durante a Guerra da Coreia. Um terceiro estremeceu ao pensar em Wallerstein como presidente: “Se um cara como ele governasse o país, os Estados Unidos acabariam como um tatu, enrolado em uma bola, esperando para ser chutado.”

Essas manifestações de indignação eram normais para Wallerstein, que havia escrito sobre o impacto psicológico nacional que o declínio da hegemonia causa naqueles que o vivenciam. Era um período potencialmente perigoso para a política interna e para os líderes aos quais o público poderia recorrer.

No programa, Wallerstein explicou que era apenas o mensageiro e que os Estados Unidos estavam se isolando do mundo — não apenas das nações que precisavam cortejar, mas também de seus aliados mais próximos. “Se você superestima seu poder e age como um valentão”, disse ele, “você perde mais do que se dialogar de forma simples.”

Alguns ouvintes viam Wallerstein como alguém empenhado em reformar a política externa dos EUA. Um deles perguntou como responder às acusações de ser anti-estadunidense. Wallerstein explicou que tentava usar a razão. Ele argumentou que a política externa dos EUA operava contra os interesses individuais.

Não estou apelando para o altruísmo. Estou apelando para o egoísmo. Vocês estão causando um impacto negativo muito mais rápido nos EUA e nas vidas que levam. Em termos do seu próprio padrão de vida, em termos do seu risco de morte, em termos de tudo aquilo que defendem, vocês estarão em pior situação se seguirem essas políticas do que se mudarem de política.

O declínio não significou catástrofe. Historicamente, as potências hegemônicas não caem muito longe. Elas acabam absorvidas em meio às outras grandes potências, embora com maior conforto material do que a maioria (basta olhar para os Países Baixos ou o Reino Unido hoje).

Além disso, como Wallerstein escreveu naquele ensaio de 1992, o declínio poderia ser “a maior bênção de todas”. Os Estados Unidos tiveram a oportunidade de abraçar a moralidade. “Foi Abraham Lincoln quem deu o tom moral: ‘Assim como eu não quero ser escravo, também não quero ser senhor’”.

No início da década de 1990, Wallerstein vislumbrou dois futuros possíveis para os Estados Unidos. Um deles envolveria o neofascismo, caracterizado por conflitos sociais, com as camadas mais baixas da sociedade sujeitas à brutalidade e ao preconceito. O segundo cenário, mais promissor, seria uma forma de solidariedade nacional por meio da social-democracia e do movimento em direção ao igualitarismo.

Embora Wallerstein não fosse dado a previsões excessivamente otimistas, ele acreditava que o caminho igualitário era mais provável do que o caminho neofascista. Ele vislumbrava uma catarse resultante de “uma tensão social compartilhada”, combinada com a prosperidade econômica estadunidense e noções populares de liberdade, que produziria um movimento contra os principais aspectos da “distribuição desigual”: gênero, raça e etnia, idade e classe. Ele imaginava que o ímpeto de 1968, após ter rompido com a hegemonia estadunidense e destronado a ideologia do liberalismo centrista, levaria a um movimento de massa em prol do progresso.

Wallerstein também se baseou na história. Nos dois primeiros exemplos de hegemonia na economia capitalista mundial, a holandesa e a britânica, o declínio hegemônico foi seguido, eventualmente, por um movimento em direção ao bem-estar social e à igualdade. Por que os Estados Unidos seriam tão diferentes?

No entanto, Wallerstein também deixou em aberto a possibilidade do neofascismo. Se o fim da Guerra Fria significou o fim da dominância dos EUA sobre dois terços do mundo, então também significou o fim do liberalismo centrista como garantidor cultural da economia capitalista mundial. Pelo menos desde as revoluções de 1848, o liberalismo centrista havia sido a força gravitacional que mantinha a esquerda radical e a direita conservadora sob controle.

O liberalismo centrista prometia a concretização dos direitos democráticos e do bem-estar econômico, não imediatamente para todos os povos, mas num processo lento e ordenado a ser gerido pelo Estado ao longo de gerações. O liberalismo centrista, como Wallerstein afirmou em seu livro The modern world-system IV [O moderno sistema-mundo IV], era usado pelos “fortes para moderar o descontentamento dos fracos”. Indivíduos fortes moderavam o descontentamento das massas fracas, e Estados fortes moderavam o descontentamento dos Estados fracos.

Contudo, a vantagem econômica dos EUA vacilou à medida que o Sul Global começou a rejeitar a estrutura de poder de Yalta. Após o colapso de um dos principais atores, a União Soviética, as massas e os Estados fragilizados provaram não ser tão fracos assim. Nessa situação, para Wallerstein, “os conservadores voltariam a ser conservadores, e os radicais, radicais. Os liberais centristas não desapareceram, mas tiveram seu número reduzido”. As possibilidades ideológicas eram agora infinitas.

Após a Guerra Fria, Wallerstein vislumbrou um grande potencial para o declínio da hegemonia estadunidense, que poderia ser acompanhado por uma redistribuição econômica interna. Dez anos depois, o movimento radical não se materializou, enquanto os falcões conservadores estavam firmemente entrincheirados no poder. Eles buscavam demonstrar poderio militar porque, em sua visão, “se Washington não exercer sua força, os Estados Unidos se tornarão cada vez mais marginalizados”.

Mas Wallerstein percebeu que suas ações teriam o efeito oposto. Dada a inevitabilidade do declínio, a política externa agressiva do governo Bush “só contribuirá para o declínio dos Estados Unidos, transformando uma decadência gradual em uma queda muito mais rápida e turbulenta”.

Em retrospectiva, o ensaio e a aparição de Wallerstein na televisão em 2002 constituíram uma tentativa de desviar os Estados Unidos de sua trajetória. Ele evidentemente havia abandonado a esperança em um movimento social-democrata e agora redirecionava sua atenção para o próprio declínio do poder hegemônico.

No verão de 2002, mais de seis em cada dez estadunidenses eram a favor de uma segunda guerra no Iraque. A opinião de Wallerstein era a de um grupo impopular, porém persistente, de críticos. Diante de tais críticas, o presidente Bush simplesmente observava que a história julgaria suas ações.

Hoje, está claro que os partidários da guerra não conseguiram preservar a hegemonia estadunidense, nem remodelar o mundo de uma forma mais favorável aos interesses dos EUA. O que aconteceu desde então?

<><> Declínio e negação

Oséculo XXI não tem sido fácil para os Estados Unidos. Os líderes estadunidenses têm se esforçado para recuperar a hegemonia perdida. À medida que o poder econômico dos EUA diminuiu em comparação com o resto do mundo, Washington tem usado suas forças armadas para demonstrar força e alcançar ambições políticas.

“À medida que o poder econômico dos EUA diminui em comparação com o resto do mundo, Washington tem usado suas forças armadas para demonstrar força.”

Na verdade, os Estados Unidos realizaram mais intervenções militares desde 1991 do que entre 1798 e 1990. Essa escolha foi a estratégia clássica de uma potência hegemônica em declínio que nega a realidade, consciente de sua decadência, mas inconsciente de que sua melhor opção viável seria a gestão adequada desse declínio.

Os Estados Unidos não tornaram o mundo mais pacífico ou mais próspero, nem melhoraram as nações que invadiram. Em Universalismo europeu: A retórica do poder (2006), Wallerstein questionou a lógica do intervencionismo. A potência invasora raramente torna o local invadido melhor do que se não tivesse intervido, uma conclusão confirmada pelas aventuras militares dos EUA no Oriente Médio.

O veredito de Wallerstein, de 2002, poderia ter sido escrito este ano (ou esta semana, aliás). Ele escreveu que os Estados Unidos se encontram como “uma superpotência solitária que carece de poder verdadeiro, um líder mundial que ninguém segue e poucos respeitam, e uma nação perigosamente à deriva em meio a um caos global que não consegue controlar”. A reação dos defensores da reforma de 1968, que ele descreveu, veio tanto do Sul Global não alinhado quanto das massas descontentes domésticas. No século XXI, a concatenação que começou no nível do sistema mundial rapidamente se deslocou para a política interna estadunidense e, em seguida, para o exterior.

O fim da Guerra Fria desvinculou o radicalismo e o conservadorismo do liberalismo centrista. Os efeitos foram drásticos. Décadas de consenso neoliberal foram desafiadas por figuras como Donald Trump e Bernie Sanders. Quando Trump assumiu a presidência — primeiro em 2017, novamente em 2025 — ele o fez como um crítico da ordem liberal estadunidense.

Contudo, a política dos “EUA em primeiro lugar” não resultou na revitalização da produção nacional, na melhoria do bem-estar social ou na proteção dos trabalhadores. Em vez disso, o trumpismo é caracterizado pela corrupção desenfreada e massiva (tanto interna quanto externa), pelo militarismo no exterior e políticas internas de deportação em massa. Os Estados Unidos continuaram expandindo seus compromissos e gastos militares, mas sem um empenho com o bem-estar social interno. Enquanto isso, o otimismo em relação ao futuro entre os estadunidenses diminuiu de forma geral desde 2013.

Em resumo, os Estados Unidos escolheram o caminho neofascista que Wallerstein inicialmente considerou o menos viável: conflito social, brutalidade e preconceito. Os membros das camadas mais altas da sociedade buscaram manter seus privilégios e recompensas notáveis. Consequentemente, os estadunidenses têm vidas mais precárias, vivendo de salário em salário, com menos proteção contra os riscos de doenças, do envelhecimento e da instabilidade no emprego.

Em 2026, a guerra dos Estados Unidos no Irã resume duas tendências do declínio da hegemonia estadunidense. Uma é a incapacidade dos Estados Unidos de impor sua vontade, apesar de possuírem um poderio militar extremamente grande. A outra é o descontentamento da população estadunidense com a queda do padrão de vida e com uma classe dirigente em que já não confia.

Como observou Wallerstein, esses sentimentos de descontentamento podem ser poderosos catalisadores para a ação política. Washington pode se ver surpreendida mais uma vez por eventos caóticos globais e domésticos que não consegue controlar.

 

Fonte: Por Gregory P. Williams - Tradução Pedro Silva para Jacobin Brasil

 

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