A
era do obscurantismo
Estamos
atravessando a mais perigosa situação geopolítica desde a Segunda Guerra
Mundial. O brasileiro, que adora se iludir, precisa abrir os olhos
urgentemente.
Quais
são as características marcantes desta fase, cujo início remonta à primeira ou
segunda década do século XXI? Creio que podemos destacar quatro pontos: (i) A
ascensão e consolidação de um mundo multipolar, marcado pelo rápido progresso
da China e de outras nações do Leste da Ásia. (ii) O declínio relativo do
Ocidente, acelerado por escolhas estratégicas altamente problemáticas dos
Estados Unidos (a abertura de uma guerra de três frentes contra a Rússia, a
China e o Irã e, desde 2025, uma fragmentação inédita do Ocidente).
(iii) A
relutância, mais do que isso – a recusa terminante do Ocidente de aceitar seu
declínio relativo – a ponto de estar disposto a violar todos os princípios,
contratos e regras, além de praticar abertamente toda sorte de violência e
pirataria. Estados Unidos e aliados mostram-se prontos, como estamos vendo, a
realizar operações militares e até mesmo ir à guerra na tentativa de preservar
e talvez reverter seu domínio decadente. (iv) Apesar do declínio, o Ocidente,
em especial a superpotência Estados Unidos, não devem ser subestimados, pois
podem fazer – e fazem – grandes estragos urbi et orbi.
Uma
importante faceta do declínio do Império Ocidental é a degradação intelectual e
moral das elites ocidentais. Basta lembrar a baixa qualidade dos atuais líderes
europeus, com poucas exceções, e dos presidentes dos Estados Unidos. Os
estadunidenses realizaram a façanha de eleger George W. Bush não uma, mas duas
vezes para a presidência da República. Elegeram depois Donald J. Trump não uma,
mas duas vezes.
O que
veio a público sobre o poderoso esquema Jeffrey Epstein, com sua penetração
entre lideranças de renome, incluindo políticos, empresários e intelectuais,
desvendou uma rede de corrupção, libertinagem e pedofilia, cuja existência e
alcance poucos poderiam imaginar. Instalou-se a barbárie nas oligarquias do
Ocidente.
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A intensificação do racismo no Ocidente e suas implicações geopolíticas
Tudo
isso é (ou deveria ser) bastante conhecido em suas linhas gerais. Menos
reconhecidas são as conotações raciais presentes nessa tensa situação
geopolítica. Nem sempre se leva na devida conta a existência de um racismo
disseminado, arraigado, de natureza estrutural, que acrescenta uma conotação
especialmente perversa ao quadro geopolítico.
O mundo
pode ser dividido para certos propósitos em duas partes – o Ocidente Coletivo e
o Sul Global. O Ocidente Coletivo costuma ser definido como os países de alta
renda liderados pelos Estados Unidos; inclui Canadá, União Europeia, Reino
Unido, Austrália, Israel, Japão, Coreia do Sul e alguns outros países de alta
renda).
Excluídos
os países asiáticos de alta renda (Japão, Coreia do Sul e Cingapura), a
população do Ocidente representa algo como 12% da população mundial, com
tendência a perder peso. O Sul Global é normalmente entendido como
correspondendo ao resto do mundo, isto é, os países emergentes ou reemergentes
e em desenvolvimento da Eurasia, Ásia, África e América Latina. O que temos
é The West and the rest, título pertinente de um livro de Niall
Ferguson. O Ocidente se vê pressionado pela ascensão do “Resto”, onde vivem
nada menos que cerca de 86% da humanidade.
Um
ponto central: aproximadamente 3/4 da população que reside no Ocidente são
brancos – com as minorias não brancas funcionando principalmente como
trabalhadores de baixa qualificação em empregos que, como se sabe, os brancos
não estão mais dispostos a ocupar. A população do Sul Global é totalmente
diferente em termos de composição racial – os brancos são minoria; a grande
maioria é representada por pretos, pardos, amarelos, mestiços etc.
Historicamente, os brancos são minoria na África, na Ásia e mesmo na América
Latina, onde a colonização europeia teve mais peso.
É do
Ocidente branco que provém um racismo estrutural, ancorado na convicção de que
a civilização ocidental, mais desenvolvida e sofisticada, é produto de povos
superiores. Civilizações muito mais antigas, como a chinesa, a indiana e a
iraniana, sorriem ironicamente diante dessa pretensão. Certa vez perguntaram a
Mahatma Gandhi que avaliação ele fazia, afinal, da civilização ocidental? E ele
respondeu: “Seria uma boa ideia”.
O
racismo ocidental é um fenômeno antigo. Na segunda metade do século XX, esse
racismo ainda era parcialmente disfarçado por camadas variadas de hipocrisia.
Durou pouco. Atualmente, o sentimento de superioridade em relação aos
não-brancos tornou-se mais transparente. Podemos até lançar mão da observação
cínica que se fazia no Brasil de outros tempos: “No nosso país”, dizia-se, “não
há racismo porque os pretos sabem o seu lugar!”.
Se o
racismo ocidental internacional já foi um pouco menos explícito e mais
hipócrita, isso pode ser atribuído provavelmente ao fato de que até pouco tempo
atrás “os povos não-brancos sabiam o seu lugar na ordem mundial controlada pelo
Ocidente”.
Agora o
quadro é outro. Os povos antes colonizados ou semicolonizados não reconhecem
mais a superioridade dos brancos. Não aceitam mais os esquemas coloniais ou
neocoloniais de exploração impostos pelos europeus e estadunidenses. Querem ter
os seus direitos aceitos, na prática e não apenas em tese. Como declarou
Vladimir Putin, “os ocidentais precisam reconhecer que o baile de vampiros
aproxima-se do fim”.
Mas o
Ocidente recusa-se terminantemente a aceitar que esse baile está acabando. A
minoria branca do mundo entrou em estado de negação. Ressente intensamente a
progressiva perda da hegemonia mundial e dos privilégios associados a ela.
Humano, humano demais, diria Friedrich Nietzsche. Séculos de dominação mundial
não são facilmente esquecidos e abandonados.
Não há
exagero nem caricatura nessa descrição geral. Muitos exemplos poderiam ser
oferecidos para fundamentá-la. Um deles é a maneira como o Ocidente vê a
crescente participação do Sul Global na exploração dos recursos naturais
escassos do planeta. A reação típica, desde o final do século XX, tem sido
indignação e denúncias de uso predatório dos “recursos da humanidade”. A
Amazônia, que é predominantemente brasileira, tem sido um alvo preferencial. O
Brasil é constantemente pressionado a aceitar ingerências de governos
estrangeiros ou ONGs na administração e conservação desse componente de um
suposto “patrimônio da humanidade”.
Mal se
falava disso quando o Ocidente deu partida ao processo de degradação do planeta
com a Revolução Industrial. Hoje é diferente, a destruição do meio ambiente,
não pode continuar, afirma-se. Cabe conter o progresso do Sul Global, com a sua
gigantesca população, em nome da preservação do planeta “em benefício de
todos”. Evidentemente, os principais países do Sul Global não compram essa
retórica viesada. Mas ela é sintomática do estado de negação a que estão presos
a maioria dos ocidentais.
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Resistência crescente à imigração e regressão civilizatória
Nesse
ambiente carregado, entra em funcionamento um outro fenômeno de importância
crucial – a migração em larga escala para os Estados Unidos e Europa de pessoas
oriundas da América Latina, África e Ásia Ocidental em busca de melhores
condições de vida ou fugindo de guerras (muitas delas deflagradas pelo
Ocidente).
À
medida que cresce essa migração, cresce a repulsa a imigrantes no Ocidente, em
especial aos muçulmanos. Restrições à imigração têm conquistado amplo apoio
entre europeus e estadunidenses. Essas barreiras e as formas não raro desumanas
que vem tomando o controle das fronteiras e o combate a imigrantes residentes,
até mesmo legais, contribuem para um processo que pode ser designado, sem
exagero, como uma regressão civilizatória nos Estados Unidos e na Europa.
A
popularidade da luta contra a imigração, em ambos os lados do Atlântico Norte,
reflete o desejo, até certo ponto compreensível, de proteger a cultura
ocidental contra a presença crescente de pessoas pertencentes a outras culturas
e outras religiões. Essa preocupação com a preservação da cultura não é muito
presente, por suposto, nas elites cosmopolitas ocidentais, que pouco se
importam com questões culturais e tiram partido da disponibilidade de mão de
obra barata que a imigração traz. Mas é um sentimento compartilhado pelas
classes médias e populares, principalmente fora dos grandes centros urbanos.
O
fundamental, entretanto, é que misturado a esse desejo legítimo aparece cada
vez mais o racismo enraizado antes mencionado e a crença na superioridade e
supremacia da raça branca. Um indicativo disso é o fato de que migrantes
brancos da Ucrânia, por exemplo, enfrentam muito menos obstáculos no restante
da Europa do que árabes ou africanos negros. Um imigrante ou refugiado
ucraniano é visto basicamente como “um de nós”.
O que
temos, na verdade, é uma nova forma de fascismo xenofóbico. No plano
político-partidário, cresce uma “nova direita”, designada frequentemente como
“populista”, que tem no cerne do seu discurso a rejeição radical dos
imigrantes. A nova direita cresce em grande medida por causa da ressonância do
discurso anti-imigração nas massas nos Estados Unidos e na Europa e, também,
por certa dificuldade dos partidos tradicionais de abraçá-lo sem violentar seus
princípios básicos.
Assim
como os judeus na Alemanha nazista e em outros países da Europa, os muçulmanos
e outros não-brancos tornaram-se um conveniente bode expiatório para as
consequências sociais adversas do declínio do Ocidente e da impossibilidade
prática de continuar explorando o resto do mundo para proveito próprio.
Migrantes
não-brancos são responsabilizados por toda sorte de crimes e violências. São
acusados, também, de substituir trabalhadores brancos e gerar desemprego entre
eles – quando, na verdade, desempenham quase sempre aqueles empregos de
remuneração mais baixa que a população branca rejeita ou que não podem ser
facilmente automatizados.
A “nova
direita” estadunidense e europeia não é propriamente nova, portanto, mas antes
uma regressão a concepções e sentimentos pré-iluministas. Pode ser chamada de
fascista ou nazista, pois contém elementos dessa visão de mundo, com os
muçulmanos ocupando o lugar antes reservado aos judeus. A regressão
civilizatória adquiriu tal dimensão que é apropriado falar de uma “Era do
obscurantismo ou Endarkenment”, ou ainda de uma “Era de
embrutecimento”.
Em que
outra época, poderíamos ver uma figura absolutamente tosca como Donald Trump no
centro do palco mundial? Trump é um caso extremo, mas a verdade é que, para
dizer o mínimo, poucos líderes ocidentais estão à altura dos cargos que ocupam.
Em
suma, Europa e Estados Unidos, antes na vanguarda do Iluminismo ou Enlightenment,
patrocinam com afinco um movimento em sentido contrário. O século XVIII ficou
conhecido como o “Século das Luzes”; o século XXI, a julgar pelas suas décadas
iniciais, entrará para a história como o “século das sombras”.
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O genocídio na Palestina
Antes
de falar do Brasil, um breve parêntese sobre Israel. Trata-se de um caso
paradigmático, que constitui o sintoma mais claro do naufrágio da civilização
ocidental. A maior crise humanitária do século XXI – o genocídio praticado por
judeus israelenses contra os palestinos – é um ingrediente central dessa “Era
do obscurecimento”. O apoio à Israel por parte da Europa e, sobretudo, dos
Estados Unidos compromete, de forma talvez irreversível, a adesão do Ocidente
aos valores que costumava pregar.
Israel
está longe de ser um caso isolado. Como ignorar que o colonialismo de
assentamento e o genocídio praticado por Israel na Palestina têm diversos
precedentes? Na verdade, eles fazem parte de uma tradição secular europeia.
Situada no seu contexto histórico, a criação do Estado de Israel é uma
manifestação dessa tradição. E em Israel, aparecem de forma descarada traços
repulsivos da cultura ocidental.
O que
está acontecendo na Palestina é o mais recente genocídio colonial praticado por
europeus brancos contra não-brancos. Começando no século XVI, europeus e seus
descendentes destruíram povos nas Américas, na África, na Ásia e na Oceania
para ocupar suas terras com imigrantes vindos das metrópoles. Na própria
Europa, houve o Holocausto, genocídio que não teria a proeminência que tem se
não tivesse vitimado brancos. Os diversos genocídios praticados por europeus no
que hoje chamamos Sul Global atingiam outras raças, chegando inclusive a
exterminá-las totalmente ou quase, como na Austrália e nas Américas do Norte e
do Sul.
Uma
diferença crucial e muito comentada entre o genocídio na Palestina e os
anteriores, é que o primeiro conta com ampla e instantânea cobertura da mídia,
com impacto planetário. Os alemães podiam, com alguma credibilidade, afirmar
que desconheciam a extensão do que ocorria nos campos de concentração nazistas.
Os
israelenses não têm condições de alegar o mesmo, e nem tentam. Extremistas
sionistas, dentro e fora do governo de Benjamin Netanyahu, chegam a orgulhar-se
da matança, justificando-a como combate ao “terrorismo”. E até mesmo o
assassinato de milhares de crianças é apresentado como a eliminação de “futuros
terroristas”.
O que
aconteceu em Gaza é interpretado, às vezes, como um experimento do Império
decadente – um genocídio transmitido globalmente em tempo real como uma
advertência a todos. A mensagem é algo como: vejam o que pode acontecer a povos
não-brancos que resistirem às pretensões imperiais do Ocidente.
Inevitavelmente,
o apoio político, econômico e militar a Israel por parte dos Estados Unidos e
da maior parte da Europa cobra um imenso preço político. Ninguém mais acredita
mais na existência de um Ocidente de princípios e valores. Essa imagem, antes
tão forte, foi destruída em nome da defesa de Israel.
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Desafios para o Brasil
Para
terminar, algumas palavras sobre nosso país. Como ficamos nessa “Era do
obscurantismo”, nesse “Século das sombras”? Como preparar o Brasil para uma
nova era, muito diferente daquela a que estávamos acostumados.
Primeiro
desafio: o brasileiro deve abandonar, o quanto antes, o seu posicionamento
acomodado e a crença de que as divergências internacionais se resolvem apenas
com boa-vontade, diplomacia e soft power. É imperativa uma
cuidadosa preparação psicológica, econômica e militar para enfrentar as
tempestades pela frente. Não é uma escolha ou algo que possa ser postergado.
Trata-se da questão mais urgente com que se defronta o País.
No
campo psicológico, precisamos superar em definitivo os complexos de
inferioridade que rebaixam o País e tanto dificultam o nosso relacionamento
internacional. Em outros termos, temos que lançar ao mar todos os resquícios de
séculos de colonização cultural. Trata-se, também, de superar nosso tradicional
pacifismo. Não para agredir ninguém, mas em reconhecimento de que para viver em
paz é preciso preparar-se para a guerra. Se vis pacem para bellum,
como diziam os romanos.
No
plano econômico, teremos que buscar a autossuficiência nas áreas essenciais,
evitando sempre que factível a dependência em relação a fornecedores
estrangeiros, especialmente aqueles situados em países que aparecem como
agressores potenciais. As cadeias de produção estratégicas devem ficar em sua
maior parte dentro do território nacional ou em países confiáveis. Essa busca
gera, evidentemente, perdas de eficiência econômica. Mas acabou o tempo em que
se podia confiar, com alguma plausibilidade, na abertura comercial e financeira
como alavancas para o desenvolvimento.
Segundo
desafio, esse mais positivo: o Brasil, por suas características, tem condições,
talvez como nenhum outro país, de oferecer uma palavra nova ao mundo, uma
mensagem de congraçamento e união. Vou mais longe: o nosso destino histórico
talvez seja o de iniciar, junto com outras nações, uma espécie de Segunda
Renascença, capaz de nos livrar das ameaças e catástrofes da “Era do
obscurantismo” em que ingressamos.
Não é a
primeira vez que escrevo sobre esse papel potencial do Brasil, e não quero me
repetir. Remeto o leitor ou leitora a alguns capítulos do meu livro mais
recente, Estilhaços. Digo apenas o seguinte: por suas dimensões,
por resultar da mistura de povos oriundos de todas as partes do planeta, por
sua tradição de abertura ao mundo, inclusive por seu pacifismo, o brasileiro
pode ter um papel de salvação mundial. O próprio sentimento de inferioridade e
a própria tendência ao pacifismo, devidamente reconfigurados, nos preparam para
exercer esse papel.
Delírio?
Talvez. E, no entanto, repetindo uma indagação que fiz nos Estilhaços,
não é pelo delírio que se chega à essência das coisas?
Fonte:
Por Paulo Nogueira Batista Jr., em A Terra é Redonda

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