Guerra
contra o Irã encarece comida e energia no Sul Global enquanto Israel enfraquece
rivais para dominar a região
A
guerra dos Estados Unidos e Israel contra Irã e Líbano, assim como o genocídio
que continua sendo cometido na Palestina, estão reconfigurando o panorama
político da região. As alianças estão se recalibrando e as velhas hipóteses
sobre o poder dos Estados Unidos estão sendo postas à prova. A guerra também
pôs em evidência até que ponto a economia mundial continua ligada aos
combustíveis fósseis e à importância estratégica do Golfo para as redes
internacionais de energia e comércio.
Estas
crises demonstram igualmente que o que ocorre na Palestina não fica na
Palestina. O imperialismo e a exploração estenderam-se por toda a região, e
suas repercussões estão sendo sentidas intensamente por todo o Sul Global, com
o aumento dos preços da energia, a insegurança alimentar e as interrupções das
cadeias de fornecimento; e tudo isso intensifica a precariedade econômica.
Portanto, compreender a Palestina é compreender o sistema que produz estas
crises.
LEIA O
BATE-PAPO
·
Desde Abajo: Como a atual guerra regional está
remodelando a relação entre Estados Unidos, Israel e os Estados árabes do
Golfo?
# Adam
Hanieh: O
que temos visto nas últimas duas décadas é uma tentativa por parte dos Estados
Unidos de normalizar as relações entre os Estados árabes do Golfo e o regime
israelense, que são, de fato, os dois pilares de seu projeto imperial no
Oriente Próximo. Isso é claramente anterior ao genocídio em Gaza e à guerra dos
Estados Unidos e Israel contra Irã e Líbano. Compreender esta trajetória requer
situá-la em um contexto geopolítico mais amplo. Em resposta ao declínio
relativo do poder global estadunidense, Washington tentou reafirmar sua
supremacia em regiões como o Oriente Próximo. Uma das formas como o fez é
unindo estes dois pilares sob um guarda-chuva estadunidense mais extenso.
A
ascensão da China e o papel do Golfo na economia energética mundial são
elementos centrais desta estratégia. A China depende, aproximadamente, em 60%
do Oriente Próximo para suas importações de petróleo e, em boa parte, de seu
gás natural liquefeito (GNL); por sua vez, o Golfo tornou-se um centro
logístico-chave para as aspirações comerciais internacionais de Pequim. Ao
mesmo tempo, apesar do aumento do investimento em energias renováveis, não
estamos assistindo a uma verdadeira transição que abandone os combustíveis
fósseis. De fato, a produção mundial de petróleo, carvão e gás alcançou níveis
recorde no ano passado. Pelo contrário, o que estamos vendo é um processo
acumulativo em que as energias renováveis se superpõem a uma base de
combustíveis fósseis em expansão.
As
monarquias do Golfo exemplificam esta dinâmica: lideram a expansão das energias
renováveis em toda a região, ao mesmo tempo que aumentam a produção de petróleo
e gás, sobretudo para reduzir o consumo doméstico de combustíveis fósseis para
gerar eletricidade e para exportar mais petróleo e gás para o estrangeiro. Por
estas razões, o Golfo continua sendo estratégico para esta ordem mundial
dominada pelos combustíveis fósseis, não só para os Estados Unidos, como também
para a China e para a economia global em geral. Portanto, um componente geral
da estratégia estadunidense radica em contrapor-se à crescente influência da
China na região por meio do projeto de normalização, ao mesmo tempo em que
garante o controle permanente das redes energéticas e comerciais que sustentam
a economia global.
# Diana
Buttu:
Depois dos acontecimentos de outubro de 2023, a opinião pública israelense
deixou de se interessar pela normalização. Deixou de ser uma prioridade na
agenda e continua assim. Em seu lugar, o primeiro-ministro israelense, Benjamin
Netanyahu, pôs seu foco em debilitar os Estados árabes e reduzir sua influência
política e econômica. É por isso que, ao longo dos últimos meses de guerra —
uma guerra impulsionada por Israel —, um dos objetivos do regime israelense foi
fomentar uma ruptura entre os próprios Estados árabes. Em certa medida, esta
ruptura já se materializou. Ao mesmo tempo, o regime israelense tentou
debilitar economicamente os Estados árabes com o objetivo de consolidar-se como
potência regional dominante. A questão já não é a normalização, mas sim criar
uma ordem regional que obrigue estes países a tratar com o Estado sionista e na
qual a única forma de chegar aos Estados Unidos seja por meio de Israel.
O que
Netanyahu, seu Governo e grande parte da opinião pública israelense priorizam
agora é o domínio regional. Não só o domínio militar e político que Israel já
vem impondo há muito tempo graças a sua relação com os Estados Unidos, mas
também uma forma mais ampla de supremacia que não permita que apareça na região
nenhuma outra potência competidora. O que inclui debilitar a influência
econômica dos Estados do Golfo. Desta perspectiva, ações como o ataque de
Israel contra o Catar em setembro de 2025 e a constante pressão pelo confronto
com o Irã refletem uma lógica estratégica mais ampla. Até os ataques de
represália contra Israel são considerados um custo aceitável se propiciam
objetivos de maior calado, como a expansão territorial em lugares como Líbano,
Síria e Gaza, e o debilitamento de centros alternativos de poder econômico e
político árabes. Ainda assim, no Golfo estão emergindo diferentes setores.
Alguns atores se questionam por que investiram tanto nos Estados Unidos — e, no
caso dos Emirados Árabes Unidos (EAU), em acordos com Israel — se nenhum dos
dois foi capaz de oferecer uma proteção ou assistência reais. Outros, no
entanto, dobram a aposta e garantem que o único caminho viável para avançar
continua sendo um alinhamento mais profundo. O que é relevante é que já não
parece haver um enfoque regional unitário e unificado como acontecia no
passado.
·
Supõe que a decisão dos Emirados Árabes Unidos de
abandonar a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) significa
uma consolidação mais profunda de sua aliança com o regime israelense?
# Adam
Hanieh: Parte da decisão dos EAU de retirar-se da Opep tem a ver com a situação
atual do mercado mundial do petróleo. O papel principal da Opep foi
tradicionalmente moderar a oferta de petróleo no mercado internacional, mas, em
um contexto em que os preços do petróleo estão elevados — e sendo provável que
se mantenham assim em um futuro próximo —, os EAU buscam maior liberdade para
aumentar a produção e as exportações sem estas restrições. Este movimento
reflete ainda tensões mais profundas entre os EAU e a Arábia Saudita, que segue
sendo a força dominante dentro da Opep. Igualmente, a economia dos EAU
diversificou-se mais nos últimos anos. O petróleo continua sendo essencial, mas
setores como a logística, as finanças, os produtos petroquímicos, a
inteligência artificial, os centros de dados e as energias renováveis cresceram
consideravelmente, o que significa que o petróleo ocupa agora um papel algo
menos dominante do que antes. Dito isto, está claro que os EAU, em particular,
aprofundaram recentemente sua relação tanto com Israel como com os Estados
Unidos, movidos por sua determinação estratégica geral de fortalecer os laços
com Israel por meio do projeto de normalização que surgiu dos Acordos de
Abraão. É o que se aprecia nos informes sobre o fornecimento de sistemas de
armas por parte de Israel aos EAU durante a guerra em curso e nas especulações
da imprensa israelense em torno da visita de Netanyahu aos EAU há alguns meses.
De maneira que, pelo menos no caso dos EAU, a normalização parece estar se intensificando.
Ainda assim, não surpreenderia que houvesse debates entre a elite política dos
Emirados sobre se esta é a estratégia adequada a seguir. No caso da Arábia
Saudita, por sua vez, a situação continua sendo mais complicada e reflete em
parte a fratura entre este país e os EAU. Resta ver se a Arábia Saudita seguirá
finalmente o mesmo caminho.
·
O que revela o enfoque do regime israelense sobre a
normalização com os Estados árabes, quanto a como vê seu lugar na região?
# Diana
Buttu: Antes de outubro de 2023, existia um grande impulso em Israel para
avançar no projeto de normalização com os Estados árabes. Este projeto se
baseava sobretudo em marginalizar os palestinos e enviar uma mensagem à opinião
pública israelense de que o regime nunca necessitara realmente abordar a
questão palestina. Que, em troca, podia manter a paz e os laços econômicos com
o mundo árabe sem pôr fim à ocupação, sem desmantelar o projeto colonial e,
claro, sem abordar os direitos fundamentais dos e das palestinas e, o que é
mais importante, o Direito ao Retorno. O regime israelense vem afirmando há
muito que quer “paz com seus vizinhos”, mas, apesar de contar com um acordo de
paz com o Egito desde 1979, nunca teve o que poderia ser descrito como uma paz
cordial com o Egito. O mesmo ocorre com a Jordânia, apesar do acordo de 1994.
E, ainda que o regime israelense nunca tenha estado em guerra com os EAU, a
relação com este país também foi muito assimétrica. É verdade que há
israelenses que viajam aos EAU, mas não se observa o mesmo fluxo na outra
direção. No entanto, desde outubro de 2023, mesmo o debate sobre a normalização
desapareceu quase por completo do discurso público israelense. De fato, me
surpreenderia que a maioria das e dos israelenses conseguissem mencionar cinco
países árabes além dos quatro que acabamos de mencionar. Em parte, isso se deve
ao fato de que Israel considera a si mesmo separado da região. As e os
israelenses não costumam aprender árabe e, historicamente, Israel imaginou a si
mesmo alinhado com a Europa mais do que integrado ao Oriente Próximo. Por esta
razão, a normalização nunca teve a ver realmente com a integração na região.
Desde outubro de 2023, o discurso político israelense polarizou-se ainda mais.
Como resultado, a normalização já não parece ser o objetivo central. Em termos
gerais, atualmente as e os israelenses não se preocupam com a normalização.
Pode-se dizer que nunca se preocuparam. A retórica sempre se expressou em torno
da paz, mas a trajetória política focalizou cada vez mais o domínio e não a
coexistência.
·
Que papel desempenha a China ante o relativo
debilitamento da dominação estadunidense na região?
# Adam
Hanieh: Ainda que os Estados Unidos continuem dominando do ponto de vista
militar e financeiro, creio que estamos assistindo a um enfraquecimento
relativo de seu poder em nível internacional. Sua posição já não é tão
indiscutível como era antes. Ao mesmo tempo, creio que no interior da China há
um debate em curso acerca de até que ponto deve desempenhar um papel ativo no
Oriente Próximo, ou se lhe interessa mais permitir que os Estados Unidos
continuem enfrentando dificuldades em meio ao debilitamento de sua dominação
regional. Voltando à minha intervenção anterior, este debate vem determinado
pelo reconhecimento por parte da China da importância da região, dada sua
dependência das importações de energia do Oriente Próximo, em particular dos
Estados do Golfo. Existe, além disso, um vínculo mais forte entre o comércio
petroleiro e o domínio do dólar estadunidense em escala global, o que é
importante porque assegura a capacidade de Washington de impor sanções a
Estados e empresas da China e de outros lugares.
Nos
últimos anos, a China levou a cabo um esforço decisivo tanto para aumentar suas
reservas de petróleo como para diversificar suas importações energéticas,
afastando-as do Oriente Próximo e dirigindo-as para sócios como a Rússia. Neste
momento, China e Rússia mantêm intensas conversações sobre novos projetos de
gasodutos para conectar ambos os países. Mas, além da energia, a região
adquiriu uma importância cada vez maior para a estratégia global da China. A
Iniciativa do Cinturão e Rota², por exemplo, depende em grande parte do Golfo
como centro logístico fundamental: cerca de 60% do comércio da China com Europa
e África passa por Dubai. A região reveste, portanto, uma enorme relevância
estratégica para as aspirações comerciais internacionais da China. Por todas
estas razões, creio que os responsáveis políticos chineses estão muito
conscientes do que está sucedendo no Oriente Próximo e, de maneira geral, da
questão relativa ao futuro do poderio estadunidense na região. No entanto, é
difícil imaginar que a China vá assumir o mesmo papel em matéria de segurança
que os Estados Unidos desempenharam historicamente na zona. A China não conta
com a mesma rede de bases militares nem com a mesma capacidade de projeção
militar.
# Diana
Buttu: No que se refere à Palestina mais concretamente, a China manteve
historicamente uma posição bastante coerente: opõe-se à ocupação e apoia uma
solução de dois Estados, assim como muitos outros países. Mas, além disso, em
geral tem evitado envolver-se profundamente na luta palestina. Talvez haja uma
exceção notória: a China acolheu as conversações de reconciliação entre as
facções políticas palestinas durante o genocídio. O objetivo declarado era
fomentar algum tipo de unidade palestina para que, pelo menos, pudesse existir
uma estratégia política unificada para fazer frente ao regime israelense. Mas,
além disso, o papel da China parece bastante limitado. Em minhas conversas com
pessoas da China, a opinião reiterada é que, ainda que Pequim apoie a
Palestina, sua política exterior não se baseia fundamentalmente na intervenção
direta nem em uma implicação política mais profunda. Dito isto, esta posição se
distingue da dos Estados Unidos, que nunca defendeu realmente que é preciso
libertar nenhuma parte da Palestina.
·
Como está afetando as comunidades vulneráveis,
especialmente no Sul Global, a atual crise econômica mundial provocada pela
guerra?
# Adam
Hanieh: Temos que deixar de ver a região como uma gigantesca torneira de
petróleo. O Golfo está profundamente integrado às cadeias de fornecimento
mundiais, e isso significa que as guerras em que estão implicados o Irã ou o
Líbano têm repercussões muito além do Oriente Próximo, especialmente nos países
vulneráveis do resto do Sul Global. Um dos avanços determinantes dos últimos
anos é que as economias do Golfo se diversificaram além da mera exportação de
petróleo cru e gás. Agora são importantes exportadores de produtos químicos,
fertilizantes e outros produtos petroquímicos. Aproximadamente um terço dos
envios mundiais de fertilizantes passa pelo Estreito de Ormuz, junto com
exportações de enxofre e hélio.
O
impacto do aumento dos preços destes produtos, assim como a possibilidade de
interrupções no fornecimento, implica que os países do Sul Global enfrentam o
risco de perturbações muito mais amplas em seus sistemas alimentares. O aumento
dos preços do gás encarece o custo das máquinas, da irrigação e do transporte
marítimo. Os preços dos fertilizantes também estão subindo. Até os plásticos
utilizados para embalar alimentos dependem em grande parte das exportações
petroquímicas do Golfo. Muitos países que dependiam das importações do Golfo já
enfrentavam graves crises antes que começasse a guerra. O Sudão é um exemplo
claro. O país está há anos devastado pela guerra civil e já fazia frente a uma
grave insegurança alimentar, ao mesmo tempo que dependia em grande parte das
importações de fertilizantes do Golfo. Iêmen e Líbano enfrentam
vulnerabilidades similares.
Assim,
as perturbações procedentes do Golfo se amplificam por estas crises
preexistentes. Nesse sentido, é provável que os países do Sul Global se vejam
afetados muito mais profundamente do que países como o Reino Unido ou outros
Estados europeus.
·
Como tudo isso está afetando a luta pela libertação
palestina?
# Diana
Buttu: Não falta muito para que o mundo deixe de prestar atenção na Palestina.
Os dois primeiros anos do genocídio obrigaram as pessoas a prestar atenção em
Gaza pela enorme dimensão da destruição: cidades inteiras arrasadas, dezenas de
milhares de meninos e meninas assassinadas e cerca de 100 mil mortos segundo
algumas estimativas. Mas, mesmo então, a maior parte das ações que o regime
israelense estava levando a cabo em outros lugares continuava passando
despercebida: na Cisjordânia, em Jerusalém, nos territórios ocupados em 1948 e
no Líbano. E agora, com a guerra regional expandindo-se e com o genocídio
mantido, fica mais fácil para o mundo voltar ao que chamam “a rotina de
sempre”, o que, na prática, significa voltar a ignorar a Palestina. Concentrar-se
de verdade na Palestina exigiria enfrentar o regime israelense, mas Estados
Unidos, Canadá e os Estados da Europa Ocidental simplesmente não querem isso.
De modo que a atenção se deslocou para longe de Gaza, para o Irã, que é
precisamente o que queria Netanyahu. Enquanto isso, desde o cessar-fogo de
outubro de 2025, as forças de ocupação israelenses continuaram bombardeando
Gaza diariamente. Centenas de palestinos e palestinas foram assassinados e
milhares foram feridos desde então, mas muito poucos atores internacionais
falam disso. Não houve nenhuma reconstrução significativa, nem uma entrada
importante de alimentos ou material de reconstrução, e Israel continuou
estendendo seu controle sobre Gaza. O próprio Netanyahu alardeou recentemente
que as forças israelenses controlam agora 60% do território e pretendem
apoderar-se de mais. Os palestinos e palestinas voltaram a ser abandonados
agora que a atenção internacional se desviou para outros lugares. Um desenlace
que, lamentavelmente, era totalmente previsível.
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O Boicote Abrangente a Israel: Do Protesto de Base a uma
Ferramenta Internacional de Pressão. Por Wisam Zoghbour
O boicote a Israel deixou de ser
apenas um ato individual limitado a evitar a compra de certos produtos; evoluiu
para um discurso político, econômico e jurídico de alcance global. Seu escopo
expandiu-se de campanhas de consumo para abranger instituições, universidades,
sindicatos e governos, tudo isso em meio à crescente oposição pública às
políticas de Israel em relação ao povo palestino. Uma característica marcante
da fase atual é a ampliação do alcance do movimento de protesto. Ele não se
restringe mais a cidades árabes ou aos tradicionais círculos de solidariedade,
tendo se estendido a cidades de toda a Europa e dos Estados Unidos.
Inúmeras
universidades nessas regiões testemunharam protestos, ocupações e movimentos
estudantis que exigem o fim da guerra, rejeitam a cooperação com instituições
ligadas a Israel e pedem a revisão de investimentos e vínculos acadêmicos.Esses
protestos demonstram que a causa palestina não é mais uma questão marginal na
esfera pública ocidental. Amplos segmentos da opinião pública — particularmente
jovens, estudantes e acadêmicos — agora veem o boicote como uma ferramenta
legítima de pressão civil pacífica.
Esses
apelos ganharam um significado jurídico especial após o parecer consultivo da
Corte Internacional de Justiça, em julho de 2024. Tal decisão concluiu que a
presença contínua de Israel nos territórios palestinos ocupados é ilegal e
reafirmou a obrigação dos Estados de não reconhecer a situação resultante dessa
presença nem de prestar assistência à sua continuidade. Consequentemente, a
questão não é mais se Israel pode ser boicotado, mas sim como transformar o
boicote, de iniciativas esporádicas de base, em uma política organizada e de
impacto.
Um
boicote eficaz não implica visar indivíduos com base em sua identidade, nem
significa necessariamente romper todas as formas de interação da noite para o
dia.
Trata-se,
antes, de construir um sistema de pressão que tenha como alvo atividades,
instituições e empresas diretamente ligadas à ocupação, à expansão de
assentamentos e a violações documentadas, sempre em conformidade com o direito
internacional e garantindo a proteção de civis. Esse sistema começa com o
consumidor, mas não deve parar por aí. Boicotes de base podem evoluir para
boicotes institucionais — abrangendo universidades, sindicatos, organizações
culturais e esportivas e fundos de investimento — e, eventualmente, traduzir-se
em políticas governamentais relacionadas a comércio, investimentos, compras
públicas, tecnologia e cooperação militar. É aí que reside o verdadeiro poder
de um boicote: na sua transição de uma escolha individual para uma decisão
institucional e coletiva.
Apesar
de sua resiliência diante de crises, a economia israelense depende fortemente
do comércio exterior, de investimentos, tecnologia, serviços e mercados
globais.
Consequentemente,
embora o boicote a um único produto de consumo possa ter um impacto limitado, a
pressão torna-se muito mais potente quando visa fluxos de investimento,
contratos internacionais, parcerias tecnológicas e acadêmicas e transações
ligadas aos assentamentos. No entanto, um boicote exige um alto grau de
precisão e credibilidade. Basear-se em listas não verificadas ou visar empresas
sem evidências claras pode enfraquecer a campanha e fornecer aos opositores
argumentos para desacreditá-la. Além disso, um boicote que não oferece
alternativas corre o risco de se tornar um fardo para o consumidor —
particularmente para os palestinos, que já enfrentam condições econômicas
catastróficas. Portanto, o que é necessário é um boicote inteligente, baseado
em evidências, faseado e mensurável — fundamentado em informações precisas e
impulsionado por objetivos claramente definidos.
A mídia
também desempenha um papel fundamental no sucesso desse processo, ao expor os
vínculos econômicos de corporações, rastrear investimentos e contratos,
fornecer informações confiáveis, apresentar alternativas ao público e combater
campanhas de desinformação que buscam esvaziar o boicote de seu conteúdo
político e de direitos humanos. As cenas de protestos nas ruas da Europa e dos
Estados Unidos, juntamente com as ocupações observadas em universidades,
confirmam que o boicote não é mais apenas um apelo palestino; tornou-se parte
de um movimento civil global que se engaja com a causa palestina de várias
maneiras. Em última análise, o boicote não deve ser visto como um substituto
para ações políticas, diplomáticas e jurídicas, mas sim como uma ferramenta de
pressão dentro de uma estratégia integrada.
A
verdadeira questão não é se o boicote, por si só, pode mudar Israel, mas se a
comunidade internacional está preparada para traduzir sua oposição à ocupação e
às violações — atualmente expressa por meio de declarações e comunicados — em
custos políticos, econômicos e jurídicos tangíveis. Quando o boicote se torna
uma política institucional coordenada — respaldada por leis, dados, mídia e
alternativas econômicas —, ele transcende o protesto simbólico,
transformando-se em um instrumento pacífico para influenciar o equilíbrio da
política internacional e apoiar o direito do povo palestino à liberdade, à
independência e à autodeterminação.
Fonte:
Por Adam Hanieh - Tradução: Ana Corbisier, para Diálogos do Sul Global

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