terça-feira, 25 de agosto de 2026

'Nuvens' e abstenção vão decidir a eleição

Esta coluna sempre lembra a velha máxima do ex-governador de Minas Gerais, José de Magalhães Pinto, também conhecido por ter fundado o Banco Nacional, de que “política é como nuvem; a cada hora está de um jeito”. Também já chamei a atenção para o nível da abstenção como fator decisivo na eleição de outubro. Sobretudo quando o índice de indecisos na pesquisa espontânea da Quaest era de 51% na semana anterior.

A 43 dias do primeiro turno (4 de outubro) e a 64 dias do segundo turno (25 de outubro), se houver, a pesquisa DataFolha, divulgada sexta-feira, mostrou o quadro ainda embaralhado. Mas, tanto a pesquisa Quaest quanto a da Datafolha não tinham nas perguntas aos eleitores contatados um fato importante que pode ter influência fundamental nesta reta final do calendário eleitoral.

Falo da conversa de 1 hora e 20 minutos entre o presidente Lula e o presidente Trump, na manhã desta sexta-feira, 21 de agosto, que reabriu o diálogo entre os dois países sobre o último tarifaço (25% + 12,50%), aplicado há duas semanas. A reabertura das negociações, após Lula reiterar ao presidente americano que as alegações para o tarifaço imposto pelo USTR (o escritório de comércio dos Estados Unidos) são "infundadas”, veio por determinação de Trump.

No meio da tarde, o representante de comércio dos EUA, embaixador Jamieson Greer, ligou para o seu homólogo no governo Lula, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Fernando Dias Rosa, convidando-o para uma reunião de trabalho para acerto de arestas no começo da próxima semana, em Washington. É mais uma mudança de nuvens no cenário externo e nas relações entre os governos Lula e Trump.

As nuvens estavam pesadas e fechadas, o que beneficiava Flávio Bolsonaro, que comemorou o tarifaço contra o Brasil em 2025 (derrubado pela Suprema Corte dos EUA, em fevereiro). Embora tenha plantado com o irmão Eduardo uma série de versões, que Lula disse a Trump serem "infundadas”, Flávio, para evitar o desgaste, disse que a culpa do “tariflávio”, como é citado nas redes sociais, “é de Lula”, por não ter negociado com Trump.

<><> O ‘ganha-ganha’ das conversas

Pois Lula está negociando com Trump. Talvez, com nova ajuda de Joesley Batista, do grupo Friboi, que obteve a suspensão, por 90 dias, das tarifas para a importação de até 300 toneladas de carne moída. A carne moída é essencial ao hambúrguer, e o fim da tarifa ajuda a segurar a inflação. E Trump percebeu que a inflação alta, gerada pela guerra do Golfo, que fugiu ao controle, prejudica os republicanos nas eleições de renovação parcial do Congresso em novembro.

É considerável o prejuízo dos tarifaços elogiados pelo clã Bolsonaro. Estudo do Bradesco apontou que as exportações para os Estados Unidos encolheram US$ 6,9 bilhões no ano passado. O estrago só não foi maior, em faturamento e empregos nas cadeias produtivas, porque o governo Lula fez enorme esforço de conquista de novos mercados, conseguindo exportar US$ 2,7 bilhões para terceiros países, reduzindo as perdas líquidas a US$ 4,2 bilhões. Conversando, os dois lados vão encontrar um “ganha-ganha”, como sempre sustentou o vice Geraldo Alkimin.

Há muitas questões de interesse mútuo dos dois maiores e antigos parceiros das Américas, e a moeda a ser preservada, além da soberania brasileira, é a democracia.

<><> Pesquisas não medem abstenção

Pesquisas eleitorais alegam ter margem de acerto de 95%. Mas, carecem de um fator fundamental em qualquer votação: não têm como estimar a taxa de abstenção. Na última eleição, de 2022, que estava mais polarizada que este ano, 20,9% dos eleitores (mais de 32 milhões de votantes) não compareceram às zonas de votação no primeiro turno. No segundo, foi um pouquinho menor: 20,59%.

Se tivemos 51% de indecisos na pesquisa espontânea da Quaest, quando é o pesquisado que indica sua preferência, sem ajuda de cartelas, e a última Datafolha indicou Lula com 39% contra 33% de Flávio no primeiro turno (brancos e nulos eram 6%, e 4% não sabiam em quem votar), e o placar de 47% a 43% para Lula no segundo turno (brancos e nulo aumentaram para 9% e 2% não sabiam), o segredo da vitória estará, certamente, vinculado à distribuição da abstenção entre os dois candidatos líderes das pesquisas.

Na eleição de 2022, à parte toda a retórica para desgastar a credibilidade do voto eletrônico, pois estava atrás de Lula nas pesquisas (desta vez o Tribunal Superior Eleitoral é presidido por Nunes Marques, ministro indicado para o Supremo Tribunal Federal por Jair Bolsonaro), o então presidente da República articulou com a Polícia Rodoviária Federal dificultar a chegada dos eleitores do Nordeste (principal força eleitoral de Lula) às zonas de votação, com “blitz” nas rodovias federais contra ônibus transportando votantes. Nas grandes cidades foi visível a redução dos ônibus em circulação por parte dos donos de frotas.

Assisti sexta-feira, no Hotel Fairmont, em Copacabana, interessante painel organizado pelo LIDE, iniciativa do ex-governador de São Paulo, João Doria Jr, com os diretores da Paraná Pesquisas, Murilo Hidalgo, e o diretor da Atlas Intel, Andrei Roman. Os dois institutos concorrem com a Quaest e o Datafolha. A conversa foi feita sobre o cenário anterior à reabertura de diálogo entre Lula e Trump, que claramente beneficia o presidente contra Flávio. Ambos assinalaram um certo desânimo dos eleitores com as duas candidaturas que polarizam o país.

Mas Hidalgo chamou a atenção para fato pouco considerado. Para ele (antes da conversa com Trump), Lula teria mais chance de vencer no primeiro do que no segundo turno. Porque as pesquisas estão indicando, nas campanhas para governador (que ajudam a manter a mobilização dos cabos eleitorais e eleitores no segundo turno), a possibilidade de a fatura ser liquidada em 4 de outubro em São Paulo, Rio de Janeiro e nos principais colégios eleitorais do Nordeste. Isso aumentaria a desmotivação (abstenção) até 25 de outubro, quando será o segundo turno. Em 2022, o eleitor de Lula, que foi “seguro” nas estradas pela PRF, veio com mais disposição ao segundo turno.

De novo, sem considerar o fato novo do diálogo Brasil-EUA, Andrei Roman, da Atlas Intel, citou três temas que estavam favorecendo Flávio Bolsonaro. 1- nuvens negras contra Lula, por denúncias de corrupção de seu filho (daí o PT fazer pressão pela prestação de contas dos R$ 61 milhões tomados pelo senador ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro); 2 – criminalidade, que cresceu no Nordeste, com avanço das facções criminosas, o que explicaria a redução dos índices de Lula na região este ano. Roman arrisca dizer que uma chacina ou um assassinato de grande impacto na região poderia alterar o cenário eleitoral; e 3 – economia, o tempo está se encarregando de esvair os impactos de duas importantes medidas no campo econômico: a isenção do Imposto de Renda na fonte para quem ganha até cinco salários-mínimos (R$ 8.105) e o Desenrola. A oposição está aproveitando a quebradeira do varejo, com os altos juros do crediário, para levantar a pauta do ajuste fiscal.

<><> A praga da indexação

Não me canso de mostrar na coluna O Outro Lado da Moeda que a grande causa do crescimento da dívida pública bruta, que chegou a 81% do PIB – considero mais realista falar da dívida pública líquida que está em 67% do PIB, pois o Banco Central carrega diariamente quase R$ 1,5 trilhão em papéis para fazer operações de “open market” - são os juros reais (descontada a inflação) de 10% (agora está em 9,1%!). E desde 2022, o mundo sofre o impacto de duas fortes altas de petróleo e alimentos devidos a guerras (na Ucrânia e Irã).

E o ataque ao ajuste fiscal, que produziria amplo efeito no aumento do PIB e na redução do endividamento de empresas, famílias e governo, com nova queda de dois pontos na taxa Selic (o piso de captação do mercado, que está em 14% ao ano), vem dos economistas do mercado, que ganham mais sem fazer força, quanto maior for a Selic.

Dou 100% de razão ao ministro da Fazenda, Dario Duringan, quando diz que as causas da inflação (no Brasil e no mundo) são a alta do petróleo, causada pela guerra de EUA-Israel contra o Irã, e a especulação com preços dos alimentos, antecipando possíveis impactos do El Niño, no último trimestre. Juro alto não combate isso. Mas, com a praga da indexação (a jabuticaba brasileira que realimenta a inflação com os preços do passado) o mercado ganha motivos para apostar contra o país, impactando as expectativas e os juros.

<><> O telhado de vidro de Zema

Quem ouve o candidato Romeu Zema (Novo-MG), criticando a falta de ajuste fiscal e os juros altos, deveria conhecer um pouco mais o telhado de vidro do ex-governador de Minas Gerais. Em seus sete anos e meio de governo, deu o calote da dívida em cima do governo federal e não fez o ajuste fiscal (gastou usando a folga do calote).

Piores são as críticas ao nível dos juros no país. Levantamento do Banco Central junto a 78 instituições financeiras sobre os juros praticados no crédito pessoal não consignado, entre 3 e 8 de agosto, mostrou a Zema Financeira com a décima maior taxa de juros do país: 321,68% ao ano, ou 12,74% ao mês. O piso de captação do país está em 14% ao ano e a inflação atingiu 4,44% nos 12 meses terminados em julho. A maior taxa era da financeira Valor, com 746,41% ao ano!

A Zema Financeira é presidida por Romero Zema, irmão do ex-governador que é sócio da empresa. Nessas horas, sinto falta do ex-governador Leonel Brizola para exclamar: “Mas que cara de pau, hein!?”

¨      Não há economia que resista…Por Nuno Vasconcellos

Qualquer pessoa sensata, que reflita sobre as medidas mais urgentes que terão de ser tomadas pelo próximo presidente da República — independentemente de quem vier a ser eleito em outubro —, não terá dificuldades para fazer a lista de prioridades. Em primeiro lugar, será preciso resolver a situação fiscal. Em segundo lugar, será importante resolver a situação fiscal. Em terceiro, será obrigatório, e com a máxima urgência, resolver a situação fiscal.

Isso mesmo! Embora a pauta de necessidades seja extensa e inclua temas sensíveis — como a segurança pública, o retrocesso diplomático e o desarranjo institucional —, nenhuma ação do novo governo será eficaz se a realidade não for encarada. E a realidade é que a situação fiscal se deteriorou a tal ponto que transformou o Brasil em um ambiente hostil para a atividade econômica.

A voracidade de um Estado que arranca do cidadão tudo o que consegue e gasta sem saber se terá dinheiro para honrar os compromissos é a causa primária dos males nacionais. Contas públicas desajustadas, como consta dos manuais que Brasília insiste em ignorar, pressionam a inflação e mantêm os juros nas alturas. A necessidade permanente de cobrir o déficit público (que deveria ser combatido com cortes nas despesas federais) serve de desculpa para a cobrança de impostos escorchantes. A soma de tudo fez do Brasil um ambiente hostil a quem quer empreender. Esta é a verdade.

>>>> SINAL DOS TEMPOS

Um exemplo dramático dessa realidade foi exposto na semana passada. Pressionada por um endividamento de R$ 17,3 bilhões, a Casas Bahia se tornou mais uma entre as quase oito mil empresas brasileiras que, neste momento, se encontram em Recuperação Judicial — a maior quantidade da história.

O que torna o caso emblemático é a trajetória da Casas Bahia. Criada em 1952, a empresa nasceu e cresceu sob um modelo de negócios baseado na decisão de vender fiado. Ao abrir a primeira loja, no município de Santo André, no ABC Paulista, o imigrante polonês Samuel Klein — sobrevivente do holocausto — cometeu a ousadia de oferecer crédito aos trabalhadores que chegavam em busca de emprego nas indústrias que se instalavam em São Paulo. O nome Casas Bahia, por sinal, é uma homenagem à origem dos primeiros fregueses.

Em 74 anos de história, o carnê da Casas Bahia ofereceu a milhões e milhões de brasileiros de renda modesta a possibilidade de mobiliar a casa. Ninguém fazia contas para saber a taxa de juros do crediário. O importante era que a prestação “cabia no bolso” e era a única forma do trabalhador ter sua geladeira ou sua televisão. A inadimplência era baixíssima.

Deu certo? Ora, se deu!... A nacional moeda mudou sete vezes e perdeu 15 zeros desde a fundação da empresa. O Brasil enfrentou crise atrás de crise, mas a Casas Bahia resistiu às intempéries e cresceu. Desta vez, ela não conseguiu! Atenção! O pedido de Recuperação Judicial de uma empresa que tem a capacidade de superar crises impregnada no DNA, como é o caso da Casas Bahia, ao invés de um problema de gestão, revela que ela está operando num ambiente insalubre.

CONDENADAS AO CADAFALSO

O Brasil tem hoje uma legião de 84 milhões de inadimplentes — e os devedores da Casas Bahia estão entre eles. Pressionados pelo aumento dos preços dos alimentos e dos serviços, muitos clientes viram minguar o dinheiro de que dispunham para manter as contas em dia. Como não recebeu o dinheiro dos carnês, a rede varejista também ficou sem recursos para se acertar com os credores.

Antes de recorrer à Justiça, a empresa, é claro, foi atrás dos bancos para se financiar. A questão é que, no Brasil, pedir socorro à banca muitas vezes equivale a uma sentença de morte. Os juros são obscenos — e o problema, nesse ponto, vai além da taxa Selic. Atualmente, ela está 14% — o que representa uma taxa básica real de mais de 9% ao ano depois de descontada a inflação. É a segunda maior do mundo, atrás apenas da Turquia.

O problema está nos juros reais que o sistema financeiro cobra das empresas. A taxa financiamento de capital de giro oscila entre 20% a 24% ao ano. Se endividar a uma taxa lesiva como essa, com todo respeito, ao invés de resolver, acaba agravando o problema de quem precisa de dinheiro.

Pensa que acabou? Não! A todo instante, surge um novo imposto, uma nova taxa ou uma alíquota mais pesada para saciar o apetite tributário federal. Um levantamento da CNI e da CNC aponta que 22 tributos foram criados ou tiveram as alíquotas majoradas entre os anos de 2023 e 2025.

Nessa situação, não há empresa que resista. Para elas, é até suportável quando o governo aumente impostos quando os juros são razoáveis. Da mesma forma, os juros podem subir se os impostos são sensatos. Exagerar nos dois ao mesmo tempo é que não dá! Isso é o mesmo que empurrar todo o setor produtivo para o cadafalso.

 

Fonte: Por Gilberto Menezes Côrtes, no JB/O Dia

 

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