Menos
disputada, eleição terá candidatos mais velhos e ricos
As 20,5
mil candidaturas registradas na Justiça Eleitoral até o último final de semana
indicam que a eleição de 2026 será a menos concorrida desde 2010. A disputa
reúne 8,5 mil postulantes a menos do que em 2022, uma queda de quase 30%. É a
primeira interrupção em três décadas de crescimento. Em relação ao pleito
anterior, os concorrentes formam também um grupo mais velho, mais escolarizado
e mais rico.
Os
dados mostram ainda que a participação feminina teve leve aumento e atingiu o
maior patamar proporcional desde 1994, embora o número absoluto tenha recuado
junto com o total de concorrentes (leia mais abaixo). Os jovens chegam às urnas
neste ano com o menor patamar de postulantes desde 1998.
O
perfil típico do candidato em 2026, porém, é homem (62,5% das candidaturas),
branco (48,8%), casado (50,1%) e com ensino superior completo (58,5%). A idade
média é de 49 anos, e a ocupação mais frequente é a de empresário (12,5%). O
patrimônio mediano declarado é de R$ 110 mil, incluindo 34% que afirmam não
possuir bens. Em conjunto, os dados indicam que o perfil dos concorrentes
difere da média do eleitorado brasileiro.
Os
números foram organizados pela DW com base nos dados abertos do Tribunal
Superior Eleitoral (TSE). Os registros de 2026 ainda podem sofrer pequenas
alterações em razão de eventuais indeferimentos pela Justiça Eleitoral.
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Candidatos estão mais velhos
A
redução das candidaturas é acompanhada por uma mudança gradual no perfil dos
concorrentes. A idade média passou de 45 anos em 1994 para 49 em 2026, em uma
trajetória de crescimento quase contínuo ao longo das últimas três décadas.
Os
jovens estão entre os mais afetados. Nomes mais novos, sobretudo os com menos
recursos financeiros e capital político, enfrentam maiores dificuldades para
disputar eleições. A parcela de postulantes entre 18 e 29 anos caiu de 4,8% em
2022 para 4,6% em 2026.
Em
números absolutos, a retração foi de 1.401 para 950 nomes. É o menor patamar
desde 1998. A queda se intensificou desde o pico registrado em 2014.
Considerando apenas os candidatos de 18 a 20 anos, somente 19 disputam vagas no
Legislativo em todo o país.
No
extremo oposto, os candidatos da terceira idade ampliaram sua presença. Nomes
com mais de 60 anos representavam 8,7% dos postulantes em 1994 e agora chegam a
19,8%. O avanço é praticamente contínuo desde 2002, quando enquanto também se
observa um envelhecimento da própria população brasileira.
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Patrimônio volta a crescer
A
evolução patrimonial dos candidatos acompanha a mudança de perfil da disputa.
Considerando a mediana do patrimônio declarado, indicador que divide o grupo em
duas metades e evita distorções provocadas por grandes fortunas, observa-se uma
retomada do crescimento nos últimos anos.
Em
valores corrigidos pela inflação, a mediana patrimonial era de R$ 119 mil em
2006. A quantia caiu sucessivamente até atingir R$ 45 mil em 2018 e voltou a
subir desde então, chegando a R$ 110 mil em 2026.
Entre
os candidatos que declararam possuir bens, o avanço é mais nítido. Nesse grupo,
a mediana passou de R$ 333 mil em 2022 para R$ 404 mil em 2026. A diferença
entre homens e mulheres permanece elevada: entre aqueles que possuem patrimônio
declarado, eles informam uma mediana 86% superior à das candidatas.
Os
postulantes mais ricos ajudam a elevar os números. A proporção dos que
declararam mais de R$ 5 milhões em patrimônio, por exemplo, passou de 2,3% para
3,8% do total. Como a DW mostrou, porém, os valores informados não precisam ser
atualizados pelo valor de mercado, o quetraz um retrato defasado sobre o
tamanho da riqueza dos candidatos.
"O
perfil médio sempre foi homem, casado, com alta escolaridade e alta renda. O
aumento [do patrimônio] não destoa; as eleições brasileiras são historicamente
elitizadas", afirma Hannah Maruci, cofundadora d'A Tenda das Candidatas e
pós-doutoranda no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).
A
legislação permite que candidatos utilizem recursos próprios em suas campanhas
até o limite de 10% dos gastos eleitorais estabelecidos para o cargo. Ao mesmo
tempo, as doações de pessoas físicas seguem limitadas a 10% dos rendimentos
brutos declarados no ano anterior ao pleito.
Para o
cientista político Cláudio Couto, da Fundação Getulio Vargas (FGV), na prática,
candidatos com maior capacidade financeira são favorecidos. "Os partidos
também vão recrutar mais gente com esse perfil, porque é mais dinheiro que eles
podem usar e menos recursos do fundo partidário e eleitoral que precisam gastar
com eles", argumenta.
Entre
as profissões, os maiores saltos percentuais ocorreram entre estudantes e
bolsistas, cuja participação passou de 1,3% para 2,5% e advogados, de 7,2% para
8,2%. Em sentido contrário, perderam espaço administradores, de 3,2% para 2,5%;
aposentados, de 2,9% para 2,3%; e comerciantes, de 2,9% para 2,6%.
A
escolaridade também subiu. Cerca de 28,5% dos candidatos possuem Ensino
Superior Completo, a maior proporção desde 1994.
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Mulheres avançam, mas seguem longe da paridade
As
reformas eleitorais influenciaram o aumento da participação feminina. A cota
mínima de 30% de candidaturas para cada gênero foi criada em 1997 e passou a
ser efetivamente exigida a partir de 2010. Ao longo dos anos, porém, novas
regras surgiram. Em 2009, os partidos passaram a ter de destinar pelo menos 5%
do Fundo Partidário a programas de incentivo à participação política das
mulheres. Em 2018, o STF e o TSE determinaram que ao menos 30% dos recursos do
Fundo Eleitoral e do tempo de propaganda fossem destinados às candidaturas
femininas, percentual que deve acompanhar a proporção.
A
partir das eleições de 2022, os partidos também passaram a ter incentivos
financeiros para eleger mulheres e pessoas negras. Os votos recebidos por esses
candidatos para a Câmara dos Deputados são contabilizados em dobro para fins de
distribuição de recursos públicos às legendas.
O
resultado foi um novo recorde de participação feminina. As mulheres passaram de
33,8% das candidaturas em 2022 para 34,8% em 2026, o maior percentual da série
histórica iniciada em 1994, quano representavam apenas 7,3%.
Em
números absolutos, porém, o contingente feminino também encolheu, acompanhando
a redução geral dos registros, de 9,8 mil para 7,1 mil. Em relação ao total de
candidatos, porém, elas seguem sub-representadas.
"As
candidaturas aumentam, mas ainda é um aumento tímido, considerando que as
mulheres são maioria da população. As leis de cota colocam que o mínimo é de
30% de cada gênero, mas a gente vê que esse mínimo acaba se tornando um teto.
Ainda está muito distante da representatividade de acordo com a
população", afirma a cientista política Hannah Maruci.
"As
mulheres têm que receber [recursos] proporcionalmente. A mesma coisa vale para
as candidaturas negras. Ainda que seja baixa, a porcentagem [de 34,8%] de
candidatas ainda é bem mais alta do que a de eleitas na Câmara Federal, por
exemplo", conclui.
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Negros têm leve retração
Os
dados de autodeclaração de cor e raça, disponíveis desde 2014, também indicam
mudanças no perfil dos concorrentes. Desde 2020, os partidos devem distribuir o
Fundo Eleitoral e o tempo de propaganda de forma proporcional ao número de
candidaturas negras. Com isso, a participação de negros, somando pretos e
pardos, passou de 44,3% em 2014 para 50,3% em 2022, quando superou pela
primeira vez a de brancos.
Contudo,
na ocasião, o TSE identificou um fluxo de candidatos que mudaram sua declaração
para pretos ou pardos para brancos em 2022. Para evitar fraudes, a Justiça
Eleitoral passou a promover mecanismos para conferir essas mudanças. Neste ano,
pardos e pretos representaram 49,8% das candidaturas.
Os
indígenas também ampliaram sua pequena presença relativa na disputa. Em números
absolutos, o total permaneceu praticamente estável, passando de 188 candidatos
em 2022 para 191 em 2026. O aumento proporcional foi maior, explicado pela
forte redução do número total de registros, mas segue abaixo de 1% dos
postulantes.
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Regras eleitorais enxugaram disputa
A
redução do número de candidaturas está ligada às mudanças promovidas pelas
reformas eleitorais dos últimos anos, que alteraram a lógica de funcionamento
dos partidos e das disputas proporcionais, argumenta Cláudio Couto. A Emenda
Constitucional 97, de 2017, proibiu as coligações partidárias nas eleições
proporcionais, regra que passou a valer em 2020.
Antes,
partidos pequenos podiam se beneficiar dos votos de legendas maiores ao
disputar cadeiras em uma mesma coligação. Com o fim dessas alianças, cada sigla
agora depende do próprio desempenho eleitoral. Desde 2022, um limite menor de
candidaturas também passou a valer: cada partido ou federação pode lançar até
100% do número de cadeiras em disputa.
Também
entra em jogo a cláusula de desempenho, que condiciona o acesso a recursos ao
resultado de cada legenda. A exigência vem sendo aplicada progressivamente
desde 2018 e chega a novos patamares em 2026.
A isso
se soma a criação das federações partidárias, adotadas pela primeira vez em
2022. Como a federação funciona como uma única agremiação que atua
conjuntamente por quatro anos, acaba por diminuir a fragmentação do sistema.
O
efeito combinado dessas mudanças também reduz a sustentabilidade de legendas
muito pequenas e promove uma disputa mais enxuta. Em 2026, disputam as eleições
13 candidatos à Presidência da República, 195 aos governos estaduais, 311 ao
Senado, 7,6 mil à Câmara dos Deputados e 11,1 mil às assembleias legislativas e
à Câmara Legislativa do Distrito Federal, distribuídos por 30 partidos.
"Eu
não me canso de dizer que, embora ela tenha sido chamada por muita gente de
minirreforma eleitoral, de mini ela não tem absolutamente nada", afirma
Cláudio Couto, sobre as regras aprovadas em 2017.
"Isso
tudo mudou a dinâmica. Os partidos também começam a perceber que é melhor
otimizar recursos porque, afinal de contas, é preciso respeitar a
distribuição."
Para
ele, há uma preocupação com a eficiência. "Tem diminuído o número efetivo
de partidos, ou seja, a fragmentação partidária no nível legislativo nacional.
Esse era o cenário esperado desde o começo. Existe um processo de aprendizagem
institucional que leva algum tempo para gerar todos os efeitos. O pessoal
percebe numa eleição que, se não reduzir o número de candidatos, vai
desperdiçar recursos; na seguinte, eles diminuem", diz.
• A campanha resolve tudo que Brasília
ainda não resolveu
Brasília
finalmente encontrou uma solução para a escala 6×1. Infelizmente, não é para
você. Enquanto milhões de brasileiros discutem se é razoável trabalhar seis
dias para descansar um, deputados e senadores entraram naquela época em que o
calendário legislativo adquire uma flexibilidade invejável. Com a campanha nas
ruas, o Congresso passa a funcionar em semanas de “esforço concentrado”,
expressão criada por alguém que certamente compreendia a importância de
escolher muito bem as palavras.
Campanha
faz parte da democracia e parlamentares não deixam simplesmente de trabalhar
fora do plenário. Mas há uma ironia difícil de desperdiçar: justamente quando o
país discute reduzir a jornada de milhões de trabalhadores, seus representantes
reorganizam a própria rotina para conciliar mandato, campanha e vida política.
A compreensão de que o tempo é um recurso limitado existe em Brasília. Só falta
universalizar o conceito.
A
proposta para acabar com a escala 6×1 é um exemplo maravilhoso de como o
Congresso consegue fazer um assunto andar sem cometer a imprudência de levá-lo
a algum lugar. Nesta semana, conforme apurou o ICL Notícias, o presidente do
Senado, Davi Alcolumbre, assinou o despacho das propostas sobre o tema. A
Secretaria-Geral da Mesa prepara os encaminhamentos, mas ainda não há definição
clara sobre quando a discussão efetivamente avançará.
O
trabalhador pode ficar tranquilo: o processo está andando. Só não sabemos
exatamente para onde nem quando chega. É uma especialidade brasiliense. O
assunto se movimenta o suficiente para permitir uma nota oficial dizendo que se
movimentou, mas não o bastante para causar o transtorno de uma decisão.
Enquanto
o Congresso organiza sua agenda, a campanha trouxe outra paixão antiga da
política brasileira: segurança pública. É o assunto perfeito para eleição. Tem
medo, indignação, polícia, facção, arma, cadeia e, sobretudo, frases que cabem
maravilhosamente num vídeo de 30 segundos. Levantamento da Quaest apontou
segurança como o assunto mais discutido em sete dos primeiros debates para
governos estaduais.
Flávio
Bolsonaro percebeu a oportunidade e colocou o tema no centro de sua campanha,
exibindo Guilherme Derrite como uma de suas principais credenciais na área.
Derrite fala em endurecimento penal, redução da maioridade e mudanças profundas
na segurança. Tudo perfeitamente coerente até aparecer um número: neste ano,
ele faltou a 22 das 26 reuniões da Comissão de Segurança Pública da Câmara. Uma
ausência de 84%.
É uma
relação sofisticada com o tema. Segurança pública parece ser uma dessas paixões
que funcionam melhor à distância.
Presença
em comissão evidentemente não mede sozinha o trabalho de um parlamentar.
Deputados têm plenário, articulações, viagens e outras atividades do mandato.
Mas seria uma delicadeza excessiva fingir que 84% de ausência não significa
nada quando o parlamentar é apresentado ao eleitor justamente como especialista
naquele assunto. Se educação fosse a grande bandeira de alguém que quase nunca
aparecesse na Comissão de Educação, provavelmente alguém faria uma pergunta.
Com segurança, aparentemente, basta falar mais alto.
É aí
que 6×1 e segurança começam a contar a mesma história. A política brasileira
desenvolveu uma extraordinária paixão por problemas na mesma proporção em que
eles são eleitoralmente úteis. Jornada de trabalho mobiliza gente cansada.
Segurança mobiliza gente com medo. Ambas produzem discursos, vídeos, slogans e
promessas. A parte desagradável vem depois: votar, negociar, comparecer,
escolher, explicar como fazer e apresentar resultado. Essa etapa infelizmente
rende menos reels.
Na
segurança, a contradição é especialmente grave porque o problema é real.
Facções controlam territórios, disputam mercados ilegais e infiltram atividades
econômicas. Nesta eleição, a própria Justiça Eleitoral recorreu às Forças
Armadas diante de riscos à votação em localidades de nove estados. Há um país
bastante complicado acontecendo fora do palanque.
Mas
campanha gosta de solução simples para problema complexo. Aumentar pena,
diminuir idade, construir presídio, botar Exército, mencionar Bukele. Discutir
inteligência policial, lavagem de dinheiro, controle territorial, integração
entre forças, sistema prisional, fronteiras e capacidade de investigação dá um
trabalho infernal. E nós já estabelecemos que trabalhar é um assunto delicado.
A 6×1
sofre de fenômeno parecido. Todo mundo tem opinião. Pouca gente com poder para
decidir demonstra pressa suficiente para transformar opinião em voto. Por isso
“esforço concentrado” é uma expressão tão maravilhosa para este momento: sem
querer, descreve mais do que o calendário do Congresso. O esforço está cada vez
mais concentrado onde existe voto.
Não há
obrigação de aprovar o fim da 6×1 simplesmente porque a proposta é popular, nem
de um deputado comparecer a absolutamente todas as reuniões de uma comissão. A
questão é coerência. Se acabar com a 6×1 é prioridade, quando o Congresso
pretende decidir? Se segurança é a emergência nacional descrita nos palanques,
onde está a mesma urgência quando as câmeras vão embora?
E se
deputados e senadores conseguem reorganizar a agenda porque campanha,
deslocamentos e vida política exigem tempo, talvez não seja revolucionário
compreender por que um trabalhador também gostaria de ter mais do que um
domingo para lembrar que existe.
O
eleitor também merece mais do que candidatos prometendo acabar com o crime
antes da sobremesa. Precisa saber o que será feito, quanto custa, se funciona e
quais resultados autorizam aquela pessoa a pedir confiança.
Talvez
essa seja a melhor fotografia da primeira semana de campanha: o trabalhador
quer tempo. O eleitor quer segurança. Brasília quer voto. E, dos três, só
Brasília já conseguiu reorganizar a agenda.
Com
esforço concentrado.
Fonte:
DW Brasil/ICL Notícias

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