Lula
vencerá com as armas do passado?
No
início de julho, quando a coordenação da campanha de Lula começou a construir
ato de lançamento de sua corrida à reeleição, as pesquisas de opinião
colocavam-no seis pontos à frente de Flávio Bolsonaro, num eventual segundo
turno. A distância parecia crescer. Talvez por isso, o cenário grandioso e o
script do comício, realizado ontem em São Bernardo, tenham sido desenhados com
olhos voltados para o bravo histórico do candidato.
O
Estádio Primeiro de Maio, palco das assembleias operárias que mudaram a
história do país e projetaram Lula, foi apresentado como o lugar “onde tudo
começou”. Repetiu-se várias vezes, nos discursos e em vídeos projetados num
imenso telão, uma frase do então metalúrgico (“Que ninguém nunca mais ouse
duvidar da capacidade da classe trabalhadora”). Ele reencontrou seus
companheiros de então, em cena emocionante. Relembrou dona Lindu. Ouviu Janja
homenagear Marisa, sua companheira à época do sindicato. Contou histórias das
greves, prisões e voltas por cima. Citou conquistas reais de seus governos.
Quase nada disse, porém, sobre as disputas atuais. Entre os silêncios, talvez o
mais ruidoso tenha sido a falta de qualquer menção à batalha pelo fim da escala
6×1 e pela redução da jornada de trabalho.
A
proposta une 68% dos brasileiros. A adesão chega a 76% na faixa etária até 24
anos, onde Lula precisa frear a escalada de Renan Santos e conquistar mais
apoios. A tramitação está emperrada nos corredores do Congresso, por enfrentar
a oposição das bancadas conservadoras e das federações empresariais. Apavora em
particular bolsonaristas como Nikolas Ferreira, cuja popularidade é abalada
sempre que o deputado se arrisca a debater o tema. Trazê-lo ao centro do debate
eleitoral politizaria a disputa, eletrizaria parte importante dos eleitores,
obrigaria Flávio e os demais candidatos de direita a se expor. Além disso,
abriria as portas para uma campanha ativa, em que os apoiadores de Lula (hoje
em grande medida semiparalisados) poderiam recorrer a um repertório que
dominam. Mobilização nos locais de trabalho. Abaixo assinados. Formação de
comitês. Em momentos-chave, manifestações de rua.
Lula,
porém, parece ter outros planos, que talvez expressem os limites do tipo de
governança por que optou. Na última quarta-feira, manteve, no Palácio do
Planalto, seu terceiro encontro recente com o presidente do Senado, David
Alcolumbre, um dos expoentes máximos do Centrão. Busca desencalhar, naquela
casa legislativa, a tramitação do fim da 6×1. Alcolumbre regateia e
procrastina. Quer reeleger-se ao posto, no início do ano e sabe que, se se
mantiver no Planalto, Lula será um apoiador muito importante. Os interesses
recíprocos podem resultar num acordo. É possível, porém, que ele fracasse – se,
por exemplo, o senador pelo Amapá calcular que as chances de Flávio cresceram e
é melhor manter engavetada a redução da jornada de trabalho…
Em
termos de público, o comício de lançamento de Flávio Bolsonaro, realizado
também neste domingo, foi um fiasco. Reuniu no pico, na praia de Copacabana,
8,9 mil pessoas – meros 15% do que seu pai foi capaz de atrair, no mesmo local,
há quatro anos. Mas o candidato sabe que conta com outros trunfos. As big techs
e as corporações de IA norte-americanas exercem controle crescente sobre o
espaço público brasileiro. Centenas de milhões de pessoas entregam às redes
sociais da Meta, Alphabet (Google) e X os conteúdos que produzem. Um
contingente cada vez maior recorre, além destas, às inteligências artificiais
da OpenAI e à Grok de Elon Musk, para dirimir dúvidas quotidianas. O presidente
Donald Trump, cujos laços com a ultradireita global e a família Bolsonaro são
óbvios, tem dado sinais crescentes de que pretende usar este domínio para
influir nas eleições brasileiras deste ano.
O mais
recente destes indícios foi a emissão pela Casa Branca, em 12/8, de um
memorando presidencial supostamente destinado a “combater os cibercrimes”. Vale
ler, em detalhes, a análise minuciosa do documento preparada pelo cientista
político Reynaldo Aragon e publicada hoje em Outras Palavras. Ela diz, em
síntese, que: a) Donald Trump acaba de criar os instrumentos jurídicos que
permitirão às big techs e corporações de IA norte-americanas invadir e
interferir em sistemas de dados estrangeiros, sem conhecimento de seus
proprietários e sem que os Estados Unidos disponham-se a prestar contas a
órgãos multilaterais; b) Estas ações violadoras podem, entre muitas outras
ações, interferir em dados públicos dos países-alvo (os registros de eleitores
do TSE brasileiro, ou, de forma mais ampla, os mecanismos ligados ao gov.br,
por exemplo). Podem, também, driblar restrições legais aos abusos praticados
por meio das redes sociais; c) Já há pretexto para adotar tal tipo de conduta
contra o Brasil. Ele surgiu a partir do momento em que o Estado norte-americano
considerou o PCC e o CV organizações “terroristas” e “ameaças transnacionais”.
Bastaria, agora, alegar que as redes a ser atingidas pela interferência das big
techs norte-americanas “são usadas” pelo PCC e CV.
A
recuperação de Flávio Bolsonaro nas últimas pesquisas eleitorais parece estar
ligada a uma certa normalização. Num primeiro momento, a escolha, por Jair
Bolsonaro, de um filho com enorme telhado de vidro, para representar o clã na
disputa presidencial, foi vista com espanto e descrença. Quando ficou claro,
porém, que ela era definitiva, setores crescentes do eleitorado que são movidos
pelo antipetismo aceitaram-na como um “mal menor” diante de Lula.
Interromper
este processo requer restabelecer o choque de projetos no presente. Tirar a
escala 6×1 das teias de aranha do Congresso Nacional é um caminho claro. Em
entrevista publicada hoje pelo Valor, o ex-chanceler Celso Amorim, hoje
assessor especial de Lula, sugere uma rota complementar. Diante dos ataques
norte-americanos, diz ele, o Brasil não deve temer o uso, o quanto antes, de
ações retaliatórias. Elas estão previstas na Lei de Reciprocidade Econômica.
Permitem, entre outras medidas, “suspensão de concessões comerciais, de
investimentos e de obrigações relativas a direitos de propriedade intelectual”.
Se usadas com coragem, e combinadas com ações pedagógicas, podem levar a ações
de grande repercussão econômica e política. Por exemplo, quebrar os direitos de
patente de empresas farmacêuticas norte-americanas. Reduzir o domínio que
outras corporações dos EUA exercem sobre o mercado audiovisual brasileiro.
Limitar os próprios poderes, nas comunicações brasileiras, das big techs e
empresas de IA daquele país. O cardápio de opções é vasto.
A
campanha eleitoral apenas começou. Lula é muitos. Um dos causos que contou no
comício de ontem foi sua mudança de atitude, na condução das greves de 1979 e
80. Na primeira, ele dobrou a assembleia no estádio de Vila Euclides com uma
manobra. Sabendo que sua proposta – encerrar o movimento – não seria aceita se
levada a votação, evitou fazê-lo e colocou em jogo sua liderança e prestígio
pessoal. Conseguiu que os operários lhe dessem um “voto de confiança para
seguir negociando”, e voltassem ao trabalho… Ganhou a votação mas foi visto,
por meses, como um traidor, admitiu.
Em
1980, escaldado pelo trauma, recusou-se a propor o fim da greve – mesmo sabendo
que mantê-la levaria provavelmente à derrota. O movimento se prolongou por 41
dias. Lula e a liderança foram presos. Ao voltarem, não traziam conquista
salarial alguma, mas os operários os trataram como heróis. Embora derrotada
economicamente, a greve de 1980 desmascarou a ditadura como nunca antes frente
aos trabalhadores. Talvez tenha apressado o fim do regime e o grande ascenso
das lutas sociais, que havia começado poucos anos antes e se estenderia até
1989.
Os
tempos são muito distintos. Não há ascenso, e sim uma desconstrução nacional
que se prolonga quase quatro décadas. Mas mesmo em tempos de retrocesso há
momentos de esperança e retomada. As próximas semanas dirão se ofensiva de
Trump e o acosso de Flávio Bolsonaro serão capazes de despertar em Lula a
energia de 1980.
• Brasil se prepara para uma eleição
difícil, marcada pela interferência de Trump e extrema-direita global. Por Por
Bernardo Gutiérrez
O
presidente Lula da Silva inaugurou a campanha eleitoral no último domingo em
São Bernardo do Campo, a cidade industrial onde forjou sua lenda de
sindicalista, envolto na bandeira brasileira e apelando à soberania nacional.
Simone Tebet, ministra do Planejamento e Orçamento durante o atual mandato de
Lula, foi um pouco mais longe: “Enquanto falam de pátria, quem defende as cores
verde e amarela somos nós, porque eles desfilam com bandeira estrangeira. São
traidores da pátria”. Quase simultaneamente, Flávio Bolsonaro, candidato do
Partido Liberal (PL), se gabava na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, de
ser o único que pode negociar com os Estados Unidos.
Brasil,
que no próximo dia 4 de outubro elege presidente, governadores, deputados e
senadores, vive sua campanha eleitoral mais atípica. Nas últimas semanas, a
ingerência de Donald Trump e dos Estados Unidos na política brasileira fez soar
todos os alarmes em Brasília. Em maio, após sua visita à Casa Branca, o
presidente brasileiro, Lula da Silva, declarou de forma taxativa que Trump “não
vai ter nenhuma influência nas eleições brasileiras, porque quem vota é o povo
brasileiro”. No entanto, a reconciliação entre os dois mandatários ruiu em
poucas semanas. E a sombra da intervenção trumpista nas eleições foi se
abatendo sobre Brasília a passos largos. O desencontro político provocou uma
situação inédita no plano diplomático: os Estados Unidos não têm embaixador no
Brasil desde janeiro de 2025, e o governo Trump acaba de revogar o visto de
Maria Luiza Ribeiro Viotti, embaixadora brasileira em Washington.
O
primeiro alerta chegou a Brasília após a viagem de Flávio Bolsonaro a
Washington, no final de maio. Sua reunião com o chefe do Departamento de
Estado, Marco Rubio, e o vice-presidente, JD Vance, forçou os Estados Unidos a
declarar os grupos de traficantes brasileiros como organizações terroristas.
Desde então, o intervencionismo estadunidense no clima político brasileiro foi
in crescendo, com ações inéditas: o instituto estadunidense McLaughlin &
Associates, vinculado a Trump, realizou pesquisas sobre as eleições do Brasil;
Washington impôs uma nova sobretaxa de 25% ao país sul-americano; aumentou a
pressão contra o Pix (sistema público de pagamentos eletrônico); organizou um
encontro com influenciadores bolsonaristas no consulado estadunidense em São Paulo;
renovou por um ano a emergência nacional dos Estados Unidos contra o Brasil,
por considerar o país uma “ameaça extraordinária”… Como se não bastasse, o The
Wall Street Journal revelou que Trump enviou ao Brasil dois altos assessores do
Departamento de Estado, Riley M. Barnes e Samuel Samson, para questionar o
sistema de urnas eletrônicas do país sul-americano. O Brasil evitou a situação
negando-lhes o visto.
O caso
mais rocambolesco de tentativa de ingerência tem a ver com a nomeação de Daniel
Perez, deputado da Flórida da ala mais radical do trumpismo, sem carreira
diplomática, como embaixador dos Estados Unidos no Brasil. O Senado dos Estados
Unidos ratificou sua indicação sem contar com o agrément (aprovação
diplomática) do governo do Brasil, algo que descumpre o artigo 4 da Convenção
de Viena sobre Relações Diplomáticas de 1961. O governo Trump, por sua vez,
vinculou a revogação do visto da embaixadora brasileira nos Estados Unidos à
não aceitação de Daniel Perez. “O bizarro deste caso é que os Estados Unidos
não seguiram de forma alguma as convenções internacionais. É um comportamento
totalmente contrário às regras internacionais”, afirmou Celso Amorim, assessor
especial da Presidência para assuntos internacionais, em uma audiência no
Congresso dos deputados. Para a jornalista Natalia Viana, diretora executiva da
Agência Pública, o envolvimento direto do Departamento de Estado estadunidense
nas eleições brasileiras não está provocando apenas “tensões diplomáticas”, mas
já configura “ingerência inaceitável e sem precedentes” desde o golpe militar
de 1964.
<><>Um
novo tipo de golpe?
Filipe
Reis, professor de Relações Internacionais da Universidade Estadual da Paraíba
(UEPB), alerta em videochamada com o elDiario.es sobre a imprevisibilidade das
ingerências estadunidenses no processo eleitoral brasileiro: “Acredito que as
autoridades brasileiras não estão suficientemente atentas para defender a
soberania nacional. Não estão se preparando para um tipo de postura dos Estados
Unidos mais agressiva contra o Brasil e contra o próprio governo Lula”. Filipe
Reis alerta inclusive sobre possíveis ataques de guerra híbrida, que envolvam
questões políticas, intervenções na economia e conteúdo em plataformas
digitais, dada “a confluência de interesses corporativos das Big Techs e o
governo dos Estados Unidos”. Fontes diplomáticas do Brasil consultadas por este
meio pedem cautela e defendem respostas proporcionais para cada situação que se
apresente, como a recente aplicação da lei de reciprocidade contra os Estados
Unidos, que tarifará os produtos estadunidenses com o mesmo percentual do
“tarifaço” ao Brasil.
Não
obstante, a ingerência internacional não está vindo apenas dos Estados Unidos,
mas de vários atores da internacional ultradireitista. Benjamin Netanyahu,
primeiro-ministro de Israel, após se reunir com Flávio Bolsonaro, enviou um
vídeo de apoio à sua campanha, incitando os “evangélicos” a iniciar uma guerra
de civilizações. Por outro lado, a entrada em cena do presidente argentino,
Javier Milei, que compareceu ao ato de lançamento da candidatura de Flávio
Bolsonaro e chamou Lula de presidiário, provocou um atrito diplomático inédito
na história. O Brasil rebaixou sua relação diplomática com a Argentina,
expulsando seu embaixador em Brasília e retirando o seu de Buenos Aires. Mauro
Vieira, ministro das Relações Exteriores, em artigo recente critica com dureza
a conivência do bolsonarismo com a internacional ultra: “Agredir, ameaçar,
proferir insultos ao anfitrião, seja em casa, seja no país de quem acolhe a
visita, ou conspirar contra a própria pátria no exterior, são atitudes
equivocadas e condenáveis. (O Brasil) não será governado por controle remoto a
partir de uma capital estrangeira”.
Após as
intervenções de Trump e Milei em favor de Flávio Bolsonaro, fontes do governo
brasileiro reconheceram à Folha de S.Paulo o medo de uma intervenção coordenada
com a ajuda das grandes empresas de tecnologia. O maior temor tem a ver com uma
avalanche de desinformação e uso de inteligência artificial a poucos dias das
eleições. As últimas pesquisas revelam que as eleições, nas quais Lula tem uma
ligeira vantagem, não estão decididas. Lula venceria Flávio Bolsonaro no
segundo turno por 43% a 40%, estando dentro da margem de erro, segundo a
pesquisa Quaest de 14 de agosto.
Em meio
à incerteza e aos temores de uma ingerência maior de Donald Trump na campanha,
a Polícia Civil do Distrito Federal desmantelou um grupo neonazista de 600
pessoas que planejava explodir o palácio presidencial, com o presidente Lula
dentro, antes da realização do segundo turno das eleições.
Fonte:
Por Antonio Martins, em Outras Palavras/elDiario.es/IHU

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