sábado, 22 de agosto de 2026

Ex-comunista pode viabilizar governo alemão de ultradireita

Um partido nanico populista de esquerda pode ajudar a sigla de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD) a conquistar um feito inédito na história do país desde a derrota do nazismo na Segunda Guerra Mundial: trazer uma sigla de ultradireita de volta ao comando de um governo.

Mais precisamente, de um governo estadual: o da Saxônia-Anhalt, no Leste alemão, onde a AfD tem aparecido nas pesquisas recentes muito à frente de todos os demais concorrentes, com entre 41% e 43% das intenções de voto. O diretório estadual da sigla ali é classificado pelas autoridades como comprovadamente extremista.

A poucas semanas da eleição estadual, marcada para 6 de setembro, a ex-deputada de esquerda e fundadora da Aliança por Justiça Social e Racionalidade Econômica (BSW), Sahra Wagenknecht, anunciou que seu partido estaria disposto a abrir caminho para que um político da AfD assuma o posto de governador.

"Nosso objetivo eleitoral é tirar do cargo o atual governador", declarou Wagenknecht na quarta-feira passada (12/08) ao tabloide Bild. "E substituí-lo por um governador suprapartidário, que governe com um gabinete técnico e maiorias variáveis [...], também com a AfD."

Do contrário, Wagenknecht afirma que o BSW se absteria da eleição para governador — que, na Alemanha parlamentarista, é decidida pelos deputados. A manobra permitiria à AfD emplacar seu governador por maioria simples dos votos, mesmo sem apoio de outros partidos.

Nascida na Alemanha Oriental e antiga filiada do partido comunista que liderou o regime, Wagenknecht, de 57 anos, é conhecida por mesclar bandeiras econômicas típicas da esquerda com posições mais conservadoras em temas sociais, como oposição à imigração irregular e ao "identitarismo" ou "wokismo"  — que, na sua visão, enfraquece a coesão social e o senso de comunidade. Além disso, é crítica à guerra de Israel na Faixa de Gaza e abertamente simpática à Rússia de Vladimir Putin, apesar da invasão à Ucrânia.

Por anos, a ex-deputada e outrora comunista convicta foi uma das políticas mais proeminentes do partido A Esquerda, que ela abandonou em 2023 para fundar sua própria sigla após sucessivos conflitos com seus antigos correligionários por causa de suas posições heterodoxas.

<><> Conservadores em apuros

A AfD pretende, após a eleição estadual na Saxônia-Anhalt, governar sozinha e nomear o governador. Isso depende, entre outros fatores, de quantos partidos conseguirão entrar no Parlamento e de como eles votarão na eleição para governador.

Atualmente, o governo da Saxônia-Anhalt é comandado pelo conservador Sven Schulze, da União Democrata Cristã (CDU), mesmo partido que hoje lidera a coalizão no governo federal do chanceler federalFriedrich Merz.

No estado, a CDU tem pontuado nas pesquisas com entre 22% e 24% das intenções de voto. Já potenciais parceiros de governo dos conservadores — a depender do cenário, social-democratas e ambientalistas — somam entre 6% e 12%. 

A situação é especialmente incômoda para os conservadores porque a CDU também rejeita categoricamente qualquer aliança com A Esquerda, que aparece com entre 13% e 14% da preferência do eleitorado. Outro potencial aliado, os liberais do FDP, têm poucas chances de obter o mínimo necessário de 5% dos votos para vencer a cláusula de barreira e garantir presença no Parlamento.

O líder do partido A Esquerda, Luigi Pantisano, deu a entender que sua legenda estaria disposta a apoiar a CDU, se necessário, para manter a AfD longe do poder — mesmo que se mantenha na oposição aos conservadores. 

O modelo não seria inédito. Também na Turíngia e na Saxônia, ourtos dois estados do leste, a CDU coopera ou consulta A Esquerda quando precisa de seu apoio no Parlamento para garantir alguma votação importante.

Mas o governador Schulze tem se esquivado do assunto, diante do racha interno no partido em relação à esquerda, tolerada por uma parte e rejeitada por outra, que teme perder ainda mais eleitores para a AfD. 

<><> Tática de Wagenknecht para conseguir mais votos?

A própria presença do BSW no Parlamento estadual ainda é uma incógnita, já que o partido tem oscilado nas intenções de voto entre 4% e 5%, no limite da claúsula de barreira.

Ou seja: na prática, a depender do resultado nas urnas, pode ser que o BSW sequer entre no Parlamento estadual e não tenha, portanto, nenhum poder de impor um governo da AfD aos demais partidos. 

Diante da incerteza nas pesquisas, o discurso de Wagenknecht pode ser justamente uma tentativa de angariar a simpatia do eleitorado e garantir a sobrevivência política do BSW.

Isso porque, embora à exceção do BSW todos os demais partidos rejeitem categoricamente uma aliança com a AfD, praticamente dois em cada três eleitores (69%) no Leste da Alemanha discordavam dessa postura segundo uma pesquisa infratest-dimap no início de agosto. Para a maioria do eleitorado, a aliança é desejável ou, no mínimo, não deveria ser descartada sem analisar caso a caso.

Outra pesquisa recente do YouGov aponta que 47% dos alemães do leste defendem a participação da AfD no governo caso a sigla seja a mais votada, mas não consiga maioria própria. Nesse cenário, só 29% apoiam que os demais partidos formem juntos um governo estadual sem a AfD, enquanto 11% defendem novas eleições e 13% disseram não ter opinião formada sobre o assunto.

"É totalmente antidemocrático excluir permanentemente um partido que é escolhido por cerca de 40% dos eleitores", disse Wagenknecht ao Bild, referindo-se à AfD. 

O BSW — inicialmente fundado sob o nome Aliança Sahra Wagenknecht e majoritariamente baseado na projeção da própria Wagenknecht como figura pública — tem tentado a duras penas se manter relevante no cenário político.

O partido conseguiu conquistar bancadas nos estados orientais da Saxônia e Turíngia, em 2024, e em Brandemburgo, em 2025. Nestes últimos dois, integra coalizões de governo. Também obteve assentos no Parlamento Europeu.

Mas a sigla perdeu força na eleição federal antecipada de fevereiro de 2025, convocada após o desmoronamento do governo do então chanceler federal e social-democrata Olaf Scholz. O BSW sofreu com falta de dinheiro para a campanha e com a própria desorganização, além de ter sido preterido pelos rivais do A Esquerda, que recuperaram terreno graças a vídeos virais e sua oposição aberta contra a AfD.

Com isso, o BSW segue sendo uma legenda nanica, sem representação no Bundestag, o Parlamento Federal.

<><> Aproximação entre AfD e BSW

O candidato a governador da AfD, Ulrich Siegmund, diz não querer assumir o governo da Saxônia-Anhalt por maioria simples, como propõe Wagenknecht.

"O que eu ganharia sendo um governador sem maioria no Parlamento? Preciso de uma equipe estável por cinco anos, na qual este estado possa confiar", disse ao jornal Welt na terça-feira (11/08).

Não está claro se Siegmund concorreria à eleição para governador no Parlamento estadual sem ter maioria própria, já que, nesse caso, dependeria permanentemente do BSW.

Ao apresentar suas propostas em temas como educação, cuidados de idosos e doentes, energia, segurança interna, mídia e liberdade de expressão, o BSW frisou que faz uma "oferta a todos os outros partidos", incluindo a AfD, sugerindo que todos poderiam chegar a acordos caso a caso.

Wagenknecht tem repetido publicamente em diversas ocasiões ser contra a exclusão da AfD de governos, e fez acenos à sigla também no estado da Turíngia, onde o BSW é parceiro júnior dos social-democratas e conservadores em um instável governo sem maioria no Parlamento.

Ali, o chefe local da AfD, Björn Höcke, que também é considerado um extremista de direita pelas autoridades alemãs, tem cortejado a líder populista de esquerda e ofereceu a ela recentemente o apoio de seu partido para torná-la governadora do estado.

"Minha bancada e eu estamos prontos para abrir o caminho para a senhora", disse ele na quinta-feira (13/08). "Vamos fazer história e acabar juntos com o cordão sanitário [dos demais partidos que isolam a AfD] na Turíngia — não em algum momento depois da eleição na Saxônia-Anhalt, e sim agora mesmo."

Wagenknecht dispensou a oferta — de todo modo inútil, já que ela não tem apoio unânime de seu próprio partido na Turíngia.

Embora o BSW tenha sido fundado baseado em seu capital político, ela já não preside mais a sigla desde o final de 2025, após o fiasco nas eleições federais e divisões internas.

"A Turíngia precisa de um novo chefe de governo com credibilidade e que ponha fim à tolice do cordão sanitário", respondeu Wagenknecht em um vídeo publicado no X neste domingo (16/08), dirigindo-se a Höcke. "Nós deveríamos falar sobre a minha proposta de um governador suprapartidário, que você aprova, e por que essa seria uma boa solução também para a Saxônia-Anhalt."

¨      Crise climática avança, mas ativismo perde força na Alemanha

Quando Lars Werner, integrante do grupo de ativistas Última Geração, colou o próprio corpo ao asfalto em um protesto por maior ação climática, há quatro anos, a Alemanha ainda não havia registrado 12,5 mil mortes relacionadas ao calor, como neste ano.

O país também não tinha enfrentado as temperaturas recordes que atigem diferentes regiões da Europa Ocidental nem dificuldades para a navegação no rio Reno devido à baixa vazão.

"Eu poderia dizer 'eu avisei', porque tudo isso era previsível e não me surpreende", afirmou Werner à DW. Ele afirma que, já naquela época, alertava que verões cada vez mais quentes poderiam comprometer o Reno e causar fortes impactos econômicos.

Agora, no atual verão europeu, incêndios florestais levaram à evacuação de vilarejos inteiros. Agricultores devem perder milhões de toneladas de grãos por causa da seca. Hospitais e casas de repouso sem ar-condicionado enfrentam riscos crescentes para pacientes e idosos durante as ondas de calor.

Apesar da gravidade da situação, o governo federal tem sido criticado pela falta de iniciativas mais abrangentes e não convocou uma cúpula nacional para discutir o calor extremo.

Para Werner, medidas pontuais, como flexibilizar a proibição da circulação de caminhões aos domingos, não substituem uma estratégia climática consistente. "É completamente irracional tentar contornar o problema com ajustes regulatórios em vez de adotar uma política abrangente de proteção climática."

<><> Fridays for Future enfrenta dificuldade para mobilizar

O grupo Última Geração encerrou seus protestos há dois anos, após enfrentar forte rejeição pública devido aos seus métodos de ativismo, multas e prisões. Desde então, o principal papel de contestação da política climática passou ao movimento Fridays for Future (FFF), ligado à ativista Greta Thunberg e conhecido em português como "Greve pelo Futuro".

A porta-voz do FFF na Alemanha, Linda Kastrup, acusa o governo de não adotar medidas eficazes de combate à mudança climática. Segundo ela, propostas como aprofundar o leito do Reno para facilitar a navegação ou flexibilizar restrições ao transporte rodoviário tratam apenas os sintomas do problema.

Há uma semana, algumas centenas de manifestantes participaram de um protesto diante da Chancelaria, em Berlim. O número contrasta com as mobilizações de 2019, antes da pandemia de covid-19, quando centenas de milhares de pessoas foram às ruas em defesa do clima.

Uma pesquisa recente da Fundação Bertelsmann mostrou que 80% dos alemães estão preocupados com as mudanças climáticas, e mais da metade defende maiores investimentos públicos na área. Mesmo assim, a preocupação não tem se traduzido em mobilização.

Kastrup afirma que isso não é surpreendente. Na avaliação dela, a postura do chanceler federal alemão, Friedrich Merz, transmite à população a impressão de que o tema perdeu prioridade.

"Quando vemos dezenas de milhares de mortes relacionadas ao calor na Alemanha e praticamente não há reação política, as pessoas acabam entendendo que a proteção climática não é importante. Isso dificulta muito a mobilização", afirmou.

Ela também relata um aumento dos ataques contra ativistas nas redes sociais. "Há dois dias publiquei um vídeo e, em pouco tempo, recebi 2 mil comentários de ódio."

<><> Ucrânia, Gaza e economia disputam atenção pública

Para Sebastian Haunss, cientista político da Universidade de Bremen, é surpreendente que o verão excepcionalmente quente de 2026 não tenha provocado uma nova onda de protestos climáticos.

Segundo ele, a sociedade apresenta sinais contraditórios. Enquanto cresce o número de pessoas que instalam sistemas de energia solar, muitos continuam optando por formas de turismo altamente poluentes, como cruzeiros marítimos.

Haunss destaca ainda o avanço de forças políticas contrárias às regulações para o tema. Segundo ele, partidos como a Alternativa para a Alemanha (AfD) passaram a ocupar um espaço que não existia com a mesma intensidade alguns anos atrás.

O pesquisador observa também que grandes movimentos nacionais deram lugar a uma multiplicidade de grupos locais, menos visíveis para a opinião pública. Ainda assim, acredita que um evento marcante poderia rapidamente reacender as mobilizações.

Outro fator apontado por Haunss é a disputa por atenção. A pandemia de covid-19, a guerra na Ucrânia e as preocupações econômicas reduziram o espaço do debate climático. Além disso, parte dos ativistas que antes se dedicava à pauta climática passou a atuar em outras causas, como os protestos relacionados à guerra em Gaza e à solidariedade aos palestinos.

<><> Divergências dentro da coalizão governista

O ministro do Meio Ambiente, Carsten Schneider, do Partido Social-Democrata (SPD), defende uma mudança na Lei Fundamental alemã, equivalente à Constituição, para transformar a proteção contra ondas de calor em responsabilidade compartilhada entre o governo federal, os estados e os municípios.

A proposta, porém, enfrenta resistência da União Democrata Cristã (CDU) e da União Social Cristã (CSU), parceiras de coalizão do SPD, que alegam preocupações jurídicas.

A deputada Nina Scheer, porta-voz de política energética do SPD, afirma que seu partido atua como principal defensor da transição para energias renováveis dentro do governo.

"Todos os colegas do nosso grupo parlamentar gostariam de avançar mais em proteção climática. Mas também precisamos aceitar recuos para preservar a unidade da coalizão", disse.

Ela cita como exemplo o apoio a medidas para baratear passagens aéreas e ampliar aeroportos regionais, propostas com as quais discorda pessoalmente.

Scheer também defende uma expansão mais rápida das energias renováveis e diverge da ministra da Economia, Katherina Reiche, da CDU, que atribui maior papel ao gás natural no abastecimento energético.

Segundo a parlamentar, a narrativa de que energia renovável é excessivamente cara não corresponde aos fatos. "Dizer que queremos proteção climática, mas que as renováveis são caras demais, simplesmente não é verdade", afirmou.

Pelo Acordo de Paris de 2015 e pela legislação climática nacional, a Alemanha se comprometeu a atingir a neutralidade climática até 2045. Declarações recentes de integrantes do governo, porém, têm levantado dúvidas sobre o grau de empenho na meta.

Recentemente, Merz afirmou que a Alemanha não conseguirá deter sozinha as mudanças climáticas. Para Scheer, a declaração foi desastrosa.

"Na prática, trata-se de uma rejeição a esforços mais ambiciosos de proteção climática justamente no momento em que deveríamos intensificá-los", afirmou.

 

Fonte: DW Brasil

 

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