Jornalismo
sem pluralismo
Há, no
jornalismo econômico brasileiro, narrativas recorrentes apresentadas muitas
vezes como se fossem proposições técnicas incontroversas, quando na realidade
dependem de escolhas teóricas, institucionais e distributivas. Isso não
significa toda crítica fiscal ser um “mito”, nem a inflação ter deixado de
importar. Significa ser necessário distinguir identidades contábeis, restrições
institucionais, hipóteses comportamentais e juízos normativos.
Os
dados atuais tornam essa discussão oportuna. O recorrente diagnóstico
mandatório de economista fiscalista midiático – “a dívida pública terá de ser
paga” – é uma formulação enganosa,
Um
Estado sem dívida externa e com títulos de dívida pública em moeda nacional,
isto é, risco soberano, não funciona como uma família na qual herdeiros têm de
liquidar todas as dívidas do finado antes de receber eventual herança. A dívida
pública é normalmente refinanciada: títulos vencem, o Tesouro os resgata e
simultaneamente emite outros.
O
Tesouro Nacional administra emissões, resgates, estoque, vencimentos e reserva
de liquidez – justamente porque administrar a dívida pública significa gerir
continuamente seu refinanciamento. Os detentores de títulos de dívida pública –
Instituições Financeiras em torno de 31,8% do total dos títulos; Fundos de
Previdência: aproximadamente 22,6%; Fundos de Investimento: cerca de 21,6%;
Não-residentes (Estrangeiros): 10%; Seguradoras, Governo e Tesouro Direto com
participações menores – estão interessados nos permanentes rendimentos de
juros. Logo, quando há vencimentos dos títulos públicos, compram outros.
A
pergunta economicamente relevante não é: “Quando o Brasil pagará sua dívida?”,
mas sim: “Em quais condições o Estado conseguirá refinanciar sua dívida ao
longo do tempo?” Isso desloca radicalmente o problema.
O
limite não é uma imaginária data de quitação do estoque, mas a interação entre
taxa de juros, crescimento nominal do PIB, resultado primário, composição e
maturidade da dívida, demanda dos investidores por títulos e credibilidade
político-institucional. Simplificadamente: Δ(d) ≈ (r−g) d – p;
onde (d) é dívida/PIB, (r) é o juro real
efetivo, (g) é o crescimento da renda (ou arrecadação fiscal)
e (p) é o superávit primário.
Essa
equação mostra algo obscurecido pelo debate jornalístico sem pluralismo: uma
taxa real de juros muito elevada pode desestabilizar a dívida mesmo com um
resultado primário relativamente próximo do equilíbrio.
Bancos,
fundos de investimento, fundos de pensão, seguradoras e famílias não desejam
necessariamente “livrar-se” da dívida pública. Para eles, o passivo do governo
é ativo financeiro.
O
título público é simultaneamente: Passivo do Estado = Ativo financeiro dos
detentores, inclusive bancos públicos e governos. Por isso, “eliminar a dívida
pública” significaria também eliminar parcela importante dos ativos seguros
usados na gestão patrimonial privada e nos balanços de entidades públicas.
Nos
números fiscais há uma assimetria e precisam ser distinguidos entre realizados
e projetados. Aproximadamente 0,5% do PIB de déficit primário e 8,5% de juros
são valores projetados para 2026 no cenário-base da IFI do Senado.
Segundo
o Banco Central, em doze meses, o setor público consolidado acumulou déficit
primário de R$ 157,2 bilhões, equivalente a 1,19% do PIB. No acumulado em doze
meses até junho, os juros nominais alcançaram R$ 1,16 trilhões (8,8% do PIB). O
resultado nominal do setor público consolidado, incluindo o resultado primário
e os juros nominais apropriados, no acumulado em doze meses, teve déficit
nominal de R$ 1,31 trilhões (9,99% do PIB).
Mesmo
usando o dado realizado, a diferença é extraordinária: a conta de juros é cerca
de 7,4 vezes o déficit primário. Isso não demonstra ser qualquer gasto social
irrelevante fiscalmente. Previdência, saúde e educação precisam ser financiados
dentro da capacidade fiscal e tributária do Estado.
Mas
enfraquece a narrativa ortodoxa dos “fiscalistas”, segundo a qual o déficit
nominal brasileiro seria essencialmente consequência de um “Estado gastador” em
políticas sociais. Contabilmente, hoje, a grande diferença entre um déficit
primário relativamente pequeno e o enorme déficit nominal é a conta de juros.
Aqui
aparece um segundo mito: confundir déficit primário com “gastos sociais”. Nessa
sutileza conceitual, o resultado primário não mede simplesmente: gastos sociais
– receitas. Ele agrega receitas e despesas primárias de diversas naturezas.
Portanto, não podemos inferir serem saúde, educação ou Previdência os únicos
responsáveis diretos pelo déficit primário de 1,19% do PIB.
Apesar
de todo o conjunto das despesas primárias do Estado, grande parte delas
sociais, receitas tributárias financiam quase integralmente essas despesas. O
desequilíbrio líquido primário é pequeno, quando comparado à despesa líquida
com juros. Essa formulação factual é difícil de contestar.
A baixa
inflação demonstra a natureza do problema. O IPCA de julho foi apenas 0,07%,
acumulando 3,44% em 2026 e 4,44% em doze meses. Enquanto isso, a Selic está em
14% ao ano. O próprio Copom caracteriza esse nível como “significativamente
contracionista”.
Logo,
há uma questão econômica legítima, merecedora de debate plural. Não se deve
simplesmente subtrair os dois números para obter o juro real ex ante –
o correto é considerar a inflação esperada –, mas qualquer medida razoável
aponta para juros reais excepcionalmente elevados.
Por
isso, a inflação em nível historicamente baixo deixou de justificar, por si só,
toda a discussão macroeconômica brasileira continuar girando em torno do
combate inflacionário, sem ponderação equivalente dos efeitos patrimoniais,
fiscais, distributivos e produtivos da taxa de juros.
Fundamento
a “estagdesigualdade” com a Teoria do valor financeiro, elaborada
por mim em um livro digital. A Selic elevada produz efeitos diferentes sobre
dois circuitos: (i) No circuito da renda e produção: Juros↑ → Crédito
mais caro → Alavancagem
empresarial↓ → Investimento↓ → Demanda↓ → Crescimento da renda↓; (ii) No circuito da
capitalização patrimonial: Selic↑ → CDI↑ → Renda fixa↑ → Juros compostos → Patrimônio
financeiro↑.
Isso
cria uma configuração paradoxal: fluxo de renda crescendo lentamente + estoque
financeiro capitalizando rapidamente. É precisamente aí onde o conceito de
estagdesigualdade ganha força analítica.
Quem
depende predominantemente do trabalho vive no circuito do fluxo de renda
relativamente estagnado, diante do padrão da Era desenvolvimentista. Quem já
acumulou grande patrimônio financeiro participa intensamente do circuito de
capitalização.
Há um
feedback: Selic elevada → despesa pública
com juros → renda financeira
privada → acumulação
patrimonial → maior concentração
de riqueza. Simultaneamente: Selic elevada → custo de capital → menor alavancagem
financeira da produção → menor investimento → menor crescimento da
renda.
A
combinação dos dois circuitos produz justamente: Estagdesigualdade = baixo
dinamismo do fluxo de renda (estagnação relativa) + capitalização assimétrica
dos estoques (desigualdade patrimonial).
Há
quatro contrapontos importantes a uma visão indiferente ao problema fiscal.
Primeiro,
rolar dívida não significa inexistir restrição fiscal. Se investidores exigirem
taxas crescentes, encurtarem prazos ou alterarem a composição desejada de suas
carteiras, o custo de refinanciamento aumenta.
Segundo,
resultado primário importa, particularmente porque interage com (r-g). Juros
altos tornam necessário um resultado primário maior para estabilizar
dívida/PIB; mas déficits primários persistentes também aumentam o estoque sobre
o qual os juros incidem.
Terceiro,
juros não constituem simplesmente uma transferência do Estado para “rentistas”.
Os títulos pertencem direta ou indiretamente a fundos de pensão, fundos de
investimento, bancos, seguradoras, empresas e pessoas físicas. O efeito
distributivo precisa ser medido pela propriedade final desses ativos.
Quarto,
não é possível atribuir toda a baixa taxa de investimento à Selic. Expectativas
de demanda, infraestrutura, tecnologia, câmbio, tributação, incerteza política,
capacidade instalada e perspectivas de rentabilidade também entram na decisão
empresarial.
O
verdadeiro problema jornalístico brasileiro é, portanto, o reducionismo
ortodoxo fiscalista – e não “fake news econômicas”. Mitos
econômicos são produzidos pela transformação de uma interpretação teórica
convencional, muitas vezes uma crença equivocada, em senso comum jornalístico.
Forma-se
uma cadeia: hipótese teórica →
interpretação de economistas neoliberais → consenso do mercado → jornalismo econômico
→ opinião
pública. No fim dessa cadeia, deveria falsear a hipótese
inicial – e não a conclusão
aparecer como se fosse um fato.
“Dívida
tem de ser paga”, “o governo precisa fazer a mesma coisa de uma família”,
“déficit público decorre de excesso de gasto social”, “juros altos são
simplesmente consequência do risco fiscal” e “qualquer inflação acima da meta
exige juros extremamente elevados” são proposições discutíveis, não identidades
contábeis.
A
alternativa plural não seria simplesmente inverter todas elas. Seria mostrar ao
leitor as causalidades concorrentes e seus feedbacks: de um lado,
Selic elevada → déficit
nominal maior → dívida
pública / PIB maior → pressão por ajuste fiscal;
de outro lado: Selic elevada →
menor alavancagem financeira →
menor investimento. Ambas as resultantes se sobrepõem
e resultam em: menor crescimento da renda → menor arrecadação tributária
→ piora fiscal.
Em
contrapartida, no estoque de riqueza: Selic elevada → rendimentos
financeiros → juros compostos → capitalização
patrimonial → concentração
da riqueza.
Essa
abordagem sistêmica muda a pergunta central. Em vez de discutir isoladamente
“gasto público demais ou de menos?”, passa-se a investigar como política
monetária, política fiscal, estrutura financeira, distribuição patrimonial e
crescimento interagem e se retroalimentam.
Nesse
enquadramento da complexidade, minha hipótese pode ser formulada de maneira
provocadora de um debate plural: o problema macroeconômico brasileiro
contemporâneo não é simplesmente um “déficit fiscal”, mas sim uma configuração
financeiro-fiscal na qual juros muito elevados simultaneamente ampliam o
déficit nominal, remuneram estoques de riqueza, encarecem a alavancagem e
restringem a expansão do fluxo de renda e, portanto, da arrecadação fiscal.
Esta é
uma hipótese de Economia política a ser testada empiricamente. É justamente o
tipo de hipótese ausente quando o debate econômico é apresentado como se
houvesse apenas uma interpretação tecnicamente admissível.
Fonte:
Por Fernando Nogueira da Costa, em A Terra é Redonda

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