sábado, 22 de agosto de 2026

Na Alemanha, um em cada dez jovens não trabalha nem estuda

O número de jovens com idade entre 20 e 24 anos que não estudam nem trabalham aumentou na Alemanha e chegou a 10% em 2025, segundo dados recém-divulgados do Escritório Federal de Estatísticas. Em 2022, esse índice era de 8,8%.

Os motivos por trás desse fenômeno, conhecido no Brasil como "nem-nem" são diversos. Os estatísticos citaram o Relatório Nacional de Educação de 2024, segundo o qual 66% dos jovens nessa situação sequer estavam disponíveis para o mercado, 6% estavam prestes a retomar os estudos e 4% a assumir um trabalho.

Do universo de 10% de jovens nem-nem, portanto, apenas um em cada quatro (25%) constavam de fato como desempregados à procura de uma ocupação remunerada.

Entre os 66% indisponíveis para o mercado de trabalho, as razões mais frequentemente apontadas foram responsabilidades de cuidado com familiares (20%), limitações de saúde (18%) e expectativa de prosseguir com os estudos (17%).

Ainda assim, os números expõem as contradições de um país que recorre cada vez mais a trabalhadores estrangeiros para aliviar a falta crônica de mão de obra especializada em alguns setores, principalmente na saúde e no setor de obras.

<><> "Perspectivas incertas para o futuro"

O Instituto de Ciências Econômicas e Sociais (WSI), ligado à Fundação Hans Böckler, próxima aos sindicatos, classifica a situação na Alemanha como "preocupante". 

Para os jovens adultos afetados, isso significa "uma perspectiva de futuro incerta e uma trajetória profissional muito provavelmente marcada por dificuldades", afirma a diretora científica do WSI, Bettina Kohlrausch. "Para o mercado de trabalho alemão, isso significa a perda de profissionais importantes."

Kohlrausch defende que é preciso ampliar urgentemente a oferta de cursos de formação profissional de qualidade e apoiar mais a capacitação e a entrada no mercado de trabalho de adolescentes e jovens adultos.

Uma garantia real de acesso a cursos técnicos profissionalizantes seria um passo importante nessa direção, afirma ela. 

<><> Alemanha está melhor que a média da UE

Em comparação com os 27 Estados-membros da União Europeia (UE), contudo, a taxa alemã continua abaixo da média de 12,9%. 

A menor proporção foi registrada na Holanda (5,6%), seguida por Suécia (7,3%) e República Tcheca (7,6%). Os índices mais altos foram observados na Romênia (22,8%), na Bulgária (17,3%) e na França (16,2%). Para Luxemburgo, não havia dados atualizados disponíveis.

No Brasil, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) apontou em 2025 que o número de jovens nem-nem chegou a 24% — os dados da entidade, porém, contabilizam jovens já a partir dos 18 anos. Pela mesmo recorte, a Alemanha também somava 10% de jovens nem-nem.

<><> Situação desigual entre áreas urbanas e rurais

Internacionalmente, os jovens nem-nem são conhecidos como NEETs (Not in Employment, Education or Training), ou seja, pessoas que não estão empregadas, estudando ou em formação profissional.

Na Alemanha, as mulheres são ligeiramente mais afetadas do que os homens. Essa diferença também aparece na média da UE.

Já a comparação entre cidades e áreas rurais revela um quadro menos uniforme. Enquanto na Alemanha os jovens das grandes cidades estão mais frequentemente sem emprego ou formação profissional do que aqueles das regiões rurais, no conjunto da UE a situação se inverte.

¨      Imigração ameniza queda da população jovem alemã

Os jovens seguem representando uma parcela historicamente pequena da população da Alemanha. No fim de 2025, cerca de 8,3 milhões de pessoas tinham entre 15 e 24 anos, o equivalente a 10% da população do país, segundo o Departamento Federal de Estatística (Destatis). A participação dessa faixa etária vem caindo desde 2005 e permanece nesse patamar recorde de baixa desde 2021.

O contraste com décadas anteriores é expressivo. No início dos anos 1980, quando a geração dos chamados baby boomers entrava na adolescência e no início da vida adulta, os jovens alcançaram sua maior participação na estrutura demográfica do país. Em 1983, uma em cada seis pessoas na atual Alemanha, ou 16,7% da população, tinha entre 15 e 24 anos.

No país, desequilíbrios na atual pirâmide etária vem gerando desafios previdenciários

<><> Imigração ajuda a sustentar proporção de jovens

Sem imigrantes e seus descendentes, a proporção de jovens na população total seria ainda menor, afirma o Destatis.

Em 2025, a participação de pessoas de 15 a 24 anos era de 8,5% entre a população sem histórico de imigração. Entre aqueles com histórico de imigração, o percentual chegava a 12,2%.

Nessa estatística, o Destatis considera tanto os próprios imigrantes quanto os indivíduos cujos pais migraram para a Alemanha desde 1950. Segundo o órgão, a diferença reflete, em parte, o fato de os grupos migrantes e seus descendentes terem uma estrutura etária mais jovem.

A presença de jovens também varia significativamente entre as regiões alemãs. Os maiores percentuais foram registrados nas cidades-estado de Bremen (11,1%) e Hamburgo (10,5%), além do estado de Baden-Württemberg (10,4%), todos acima da média nacional.

Na outra ponta, os estados do leste alemão concentraram as menores participações. Brandemburgo registrou a menor proporção de jovens, com 8,8% da população, seguido por Mecklenburgo-Pomerânia Ocidental e Saxônia-Anhalt, ambos com 9,1%.

<><> Alemanha abaixo da média europeia

Em comparação com o restante da União Europeia (UE), a Alemanha continua ligeiramente abaixo da média do bloco. No início de 2025, os jovens representavam 10% da população alemã, ante uma média de 10,7% nos 27 países da UE, segundo dados da agência estatística europeia Eurostat.

A Irlanda registrou a maior proporção de pessoas entre 15 e 24 anos no bloco, com 12,7% da população, seguida por Dinamarca e Holanda, ambos com 12,2%. No extremo oposto aparecem Malta, com 9,4%, e Bulgária, com 9,5%, os menores percentuais entre os países da União Europeia.

¨      Alemanha precisa crescer 5 vezes para manter padrão de vida

Um estudo do Instituto Alemão de Economia (IW), encomendado pela Fundação para Empresas Familiares, mostra que, para manter o nível atual de prosperidade econômica, a Alemanha precisaria aumentar seu crescimento de produtividade para cerca de 1,6% ao ano, aproximadamente cinco vezes mais do que a média observada nos últimos seis anos, que foi de apenas 0,3% ao ano.

O avanço da produtividade na Alemanha sofreu uma forte queda ao longo dos últimos anos. Nas décadas de 1980 e 1990, a economia se tornava cerca de 2% mais produtiva a cada ano. Na década de 2010, o crescimento ainda era de aproximadamente 1% ao ano. Mas nos últimos seis anos o aumento médio anual foi de apenas 0,3%. Isso faz com que o crescimento da produtividade já não seja suficiente para manter o padrão de vida na Alemanha. 

<><> Reformas estruturais

Essa meta, segundo especialistas, só poderia ser alcançada com a ajuda de reformas estruturais, já que, devido ao envelhecimento da população, a economia alemã contará com menos trabalhadores nos próximos anos.

"A produtividade é o principal motor do bem-estar econômico, e é justamente esse motor que vem falhando na Alemanha há anos", afirma Michael Grömling, chefe da área de macroeconomia do IW, em entrevista ao jornal alemão Handelsblatt, que teve acesso em primeira mão à pesquisa.

Os economistas afirmam, entretanto, que isso é possível, desde que a Alemanha promova mudanças, para acelerar o desenvolvimento em cinco áreas fundamentais: digitalização, inteligência artificial, inovação, desburocratização e investimentos em infraestrutura.

Segundo os autores do estudo, elevar os investimentos em pesquisa e desenvolvimento ao patamar de Israel, por exemplo, poderia aumentar a produtividade em cerca de 13% no longo prazo. Nesse cenário, uma família de três pessoas teria um ganho potencial de aproximadamente 21 mil euros (R$ 127 mil) por ano em renda e bem-estar econômico.

¨      Vagas na indústria automotiva alemã atingem mínima histórica

A indústria automobilística da Alemanha perdeu 42,3 mil empregos em um ano e opera com o menor contingente de trabalhadores em mais de duas décadas. Nos últimos 6 anos, um em cada seis postos de trabalho do setor foi eliminado. O enfraquecimento da principal indústria do país também afeta fornecedores e outros segmentos da economia.

Dados divulgados pelo Escritório Federal de Estatísticas (Destatis) nesta sexta-feira (14/08) mostram que a indústria automotiva empregava 691,5 mil pessoas ao fim do primeiro semestre de 2026. O número representa uma queda de 5,8% em relação ao mesmo período do ano anterior e foi o menor desde o início da série histórica em 2005.

A retração não se limita ao setor automotivo. Em toda a indústria de transformação, 144 mil empregos foram extintos nos últimos 12 meses. O total de trabalhadores caiu 2,7%, para 5,29 milhões

Segundo levantamento da consultoria EY, porém, a indústria automobilística responde por quase 30% de todos os empregos perdidos no último ano. Desde 2019, foram 142,4 mil empregos cortados no setor, o equivalente a 16% da força de trabalho. Segundo o jornal alemão Handelsblatt, especialistas projetam que o número de trabalhadores poderá cair para cerca de 500 mil até 2030.

Os cortes foram especialmente intensos entre fabricantes de peças e acessórios para veículos.

O especialista Jan Brorhilker, da EY, avalia que o movimento deve continuar. Segundo ele, muitas empresas ainda não concluíram seus programas de reestruturação e, diante dos altos custos trabalhistas, da baixa evolução da produtividade e da crescente concorrência internacional, tendem a acelerar novos cortes.

<><> Novos cortes nas grandes empresas

Os números do Destatis ainda não refletem os planos de demissões mais recentes anunciados pelas grandes empresas do setor.

A BMW informou a intenção de eliminar cerca de 8 mil postos de trabalho em todo o mundo. Em outras companhias, os cortes podem ser ainda maiores. No grupo Volkswagen, que inclui Porsche e Audi, se prevê a eliminação de 50 mil empregos. A Bosch planeja cortar até 22 mil vagas em suas operações de autopeças, enquanto a ZF pretende eliminar 14 mil postos na Alemanha. A Mercedes-Benz também já reduziu milhares de empregos.

Para o especialista Ferdinand Dudenhöffer, do Centro de Pesquisa Automotiva, a tendência é de continuidade da retração. Segundo ele, os elevados custos de produção têm reduzido a atratividade da Alemanha para novos investimentos industriais.

De acordo com sua avaliação, novos investimentos estão sendo direcionados para países como Hungria, Romênia e Espanha, onde os custos trabalhistas são menores, a carga tributária é mais baixa e a energia é mais barata. A Turquia também vem atraindo fabricantes.

<><> Indústria reclama de perda de competitividade

A presidente da Associação da Indústria Automobilística Alemã (VDA), Hildegard Müller, afirma que um número crescente de empresas tem optado por investir fora da Alemanha por razões econômicas.

Segundo ela, empregos e investimentos estão migrando para outros países devido aos altos custos de mão de obra e energia, à burocracia, à lentidão dos processos administrativos e aos problemas de infraestrutura. Müller defende que os governos em Berlim e Bruxelas priorizem medidas capazes de fortalecer a competitividade e preservar empregos.

O economista Sebastian Dullien, do Instituto de Macroeconomia e Pesquisa Econômica (IMK), ligado ao movimento sindical, discorda da ideia de que a solução esteja em reduzir salários ou benefícios sociais.

Para ele, fatores geopolíticos e estratégicos exercem influência maior sobre a competitividade. Dullien defende cláusulas de conteúdo local, tarifas seletivas para setores considerados estratégicos e incentivos direcionados a tecnologias do futuro.

Já o sindicato IG Metall atribui parte da crise às decisões tomadas pela gestão das empresas ao longo das últimas décadas.

<><> Efeitos sobre toda a indústria

Para a EY, a importância da indústria automobilística para a economia alemã permanece central. Quando o setor desacelera, os impactos se espalham para fornecedores e para diversos segmentos industriais dependentes de suas encomendas.

Entre os setores mais afetados estão a indústria química, a produção de metais e o setor de máquinas e equipamentos.

 

Fonte: DW Brasil

 

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