Vorcaro
e Flávio Bolsonaro resumem 50 anos da Lei de Gérson
Sou
chegado em uma efeméride. Principalmente quando o assunto da data é algo tão
afetivo quanto um velho comercial de tv da nossa juventude.
A Lei
de Gérson acabou de completar 50 anos neste 2026. Viva? Nada disso.
“Gosto
de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também, leve Vila Rica!”
Era uma simples propaganda de cigarros, lembra?, porém virou a síntese do
caráter do brasileiro e rendeu infinitos simpósios nas universidades e nos
botecos.
No
cinquentenário da lei informal que mais funciona no dia a dia do país, o seu
maior representante é o banqueiro bandido Daniel Vorcaro, óbvio. Seguido,
naturalmente, por toda a turma que levava vantagem da vantagem, como o senador
Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência.
O filho
01 de Jair levou do dono do Master pelo menos R$ 61 milhões, conforme confissão
em telefonema revelado pelo Intercept Brasil. A grana seria para a realização
do filme “Dark Horse”. Quase cem dias depois do estouro da notícia, Flávio nada
explicou direito sobre a mutreta.
“Gosto
de levar vantagem em tudo, certo?” E ficou por isso mesmo. A Polícia Federal e
o ministro STF André Mendonça (relator do inquérito sobre o caso no STF) nada
fizeram para mover a história.
Em 50
anos da lei dos espertos, só o próprio ex-atleta que batiza a regra foi
prejudicado.
Em
campo, Gérson era o cérebro da Seleção Brasileira tricampeã do mundo de 1970.
Combativo,
leal e capaz de dribles e lançamentos espetaculares, o meio-campista nunca usou
de artimanhas ou malandragens para passar a perna nos adversários ou ludibriar
os colegas de equipe. Sempre foi um exemplo de ética no meio esportivo.
Por
causa de um anúncio publicitário, porém, seu nome virou batismo de uma lei que
nem está no papel, mas representa tudo que nós entendemos como “jeitinho
brasileiro”.
A Lei
de Gérson surgiu em 1976, depois da campanha da agência Caio Domingues &
Associados para a marca Vila Rica. No comercial de televisão, o craque exaltava
as qualidades do produto: “É gostoso, suave e não irrita a garganta. Por que
pagar mais caro se o Vila me dá tudo aquilo que eu quero de um bom cigarro?”
Até aí,
tudo bem. O que pegou mesmo foi a mensagem final, quando ele, com um sorriso
maroto, olha para a câmera e diz: “Gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve
vantagem você também, leve Vila Rica!”
Em
poucos dias de exibição, os brasileiros repetiam aquele slogan em várias
situações do cotidiano, sempre no sentido de tirar proveito — assim a lei
informal é mantida até agora. O atleta já havia se aposentado quando gravou a
propaganda. Foi escolhido por ser realmente um fumante de prestígio. O torcedor
estava habituado a vê-lo com cigarro em fotos antes das partidas e até em
intervalos de jogos.
A frase
interpretada pelo jogador era repetida nos botecos pés-sujos e nos restaurantes
de luxo, mas o uso da expressão Lei de Gerson só pegou nos anos 1980, quando o
repórter Maurício Dias, da revista semanal “Isto É” a utilizou em uma
entrevista com o psicanalista pernambucano Jurandir Freire Costa.
Para o
publicitário Eduardo Domingues, diretor da agência responsável pelo anúncio, o
sentido antiético só ganhou força mesmo em 1981, quando a revista Exame deu o
título “Lei de Gérson” a uma reportagem sobre a quebradeira do banco
BrasilInvest, do empresário Mario Garnero.
A mesma
agência ainda tentou reduzir o efeito negativo com um novo comercial. “Levar
vantagem não é passar ninguém para trás, é chegar na frente”, explicava o
reclame. Tarde demais. A lei que não saiu das nossas casas legislativas — e
sequer foi escrita em algum lugar — já estava consolidada na sociedade
brasileira.
O
“Canhotinha de Ouro” jamais pensou que a sua atuação fora de campo pudesse
render tanta polêmica.
“Eu fiz
uma propaganda, fui um artista ali, como tantos outros. A ideia foi essa, a de
levar vantagem em tudo porque esse cigarro era mais barato que os outros. Todo
cigarro é igual, não é? Mas esse aqui é melhor porque é mais barato”, disse.
“Aí eles pegaram essa vantagem como se fosse pernada nos outros, passar os
outros para trás. É a lei do Gérson. Lei do cacete, porra. Não tenho nada com
isso aí.”
Na sua
carreira no futebol, Gérson de Oliveira Nunes, nascido em Niterói (RJ) em 1941,
jogou pelo Flamengo, Botafogo, São Paulo e Fluminense.
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Caso Dark Horse: 5 perguntas para as quais a PF precisa
encontrar respostas. Por Paulo Motoryn
Há três
meses, quando meus então colegas do Intercept Brasil e eu começamos a publicar
a série Vaza Flávio, uma parte importante da história apareceu de maneira
relativamente clara: Flávio Bolsonaro havia participado diretamente da
negociação de US$ 24 milhões com Daniel Vorcaro para financiar Dark Horse, o
filme sobre Jair Bolsonaro.
Documentos
mostravam que pelo menos US$ 10,6 milhões haviam sido enviados ao fundo
Havengate, nos Estados Unidos, entre fevereiro e maio de 2025. De lá para cá,
porém, a impressão que tenho é quase oposta à ideia de que o caso está
esclarecido. Quanto mais informações aparecem, mais evidente fica o tamanho das
lacunas.
A
abertura do inquérito no Supremo, autorizada em 23 de julho pelo ministro André
Mendonça após parecer da Procuradoria-Geral da República, colocou formalmente
Flávio, Eduardo Bolsonaro, Mario Frias, Daniel Vorcaro e outros personagens sob
investigação. A apuração alcança suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de
divisas e corrupção relacionadas à negociação e ao uso dos recursos.
Na
minha visão, há, pelo menos, cinco perguntas que ainda precisam ser
respondidas.
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1. Cadê as notas fiscais?
Esta é
a pergunta mais importante de todas. Há milhões de dólares identificados
chegando aos Estados Unidos. Há um fundo, o Havengate, administrado por Paulo
Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro, e por Altieris Santana. Há documentos
que colocavam Eduardo como produtor-executivo do Dark Horse, com poder de
gestão e decisão sobre a produção, inclusive em matéria financeira. Há também
mensagens nas quais Eduardo orientava interlocutores sobre a melhor forma de
colocar os recursos nos Estados Unidos. O que ainda não temos é uma prestação
de contas pública que permita acompanhar o caminho completo do dinheiro.
A GoUp,
produtora do filme, afirmou ter entregue documentação financeira à Polícia
Civil de São Paulo e diz possuir laudo atestando a origem privada e rastreável
dos recursos. Esses documentos, porém, não foram tornados públicos.
É
justamente aí que entram as notas fiscais, contratos, extratos e comprovantes
de pagamento. Quem recebeu os milhões administrados pelo Havengate? Quanto
efetivamente chegou à produção do filme? Quais serviços foram contratados?
Quanto permaneceu no fundo?
E há
uma questão ainda mais sensível: a Polícia Federal apura se parte desses
recursos bancou despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos ou outras
ações de aliados de Jair Bolsonaro naquele país. Eduardo nega ter recebido o
dinheiro e afirma que não exerceu função de gestão no fundo. Sem as contas
abertas, essa controvérsia permanecerá sem resposta.
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2. Houve alguma contrapartida para o Banco Master?
Esta é
a pergunta que pode mudar de patamar todo o caso. Até aqui, não há prova
pública de que Flávio Bolsonaro tenha oferecido qualquer contrapartida a Daniel
Vorcaro ou ao Banco Master em troca do investimento no filme. Isso precisa ser
dito com todas as letras. Mas a hipótese é suficientemente relevante para já
estar no radar das investigações.
O ICL Notícias mostrou que, em 2025,
Flávio atuou no Senado em favor de uma mudança na legislação ambiental que
reduziu a responsabilidade de instituições financeiras por danos provocados por
empreendimentos financiados. Naquele período, o Master tinha operações em setores
como mineração, minerais críticos e créditos de carbono, potencialmente
beneficiados pela regra. Flávio votou a favor do dispositivo, apresentou emenda
sobre o tema depois do veto presidencial e posteriormente votou pela derrubada
desse veto. Não há evidência pública de que tenha feito isso a pedido de
Vorcaro.
Após a
reportagem, deputados pediram à Polícia Federal que cruzasse essa atuação
parlamentar com os demais elementos da investigação, inclusive dados bancários,
fiscais, telefônicos e telemáticos. Essa é exatamente a apuração que precisa
ser feita.
Mais do
que isso, é necessário reconstruir todas as ações de Flávio e de seus aliados
em temas de interesse do Master durante o período em que Vorcaro financiava o
projeto: emendas, projetos, votos, reuniões, indicações, articulações políticas
e contatos com órgãos públicos.
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3. Qual foi o papel de Jair Bolsonaro?
Até
agora, o personagem menos explorado dessa história talvez seja justamente
aquele que aparece no centro do filme: Jair Bolsonaro. Nós revelamos no
Intercept que, em março de 2025, houve uma articulação para levar o
ex-presidente à mansão de Daniel Vorcaro em Brasília. A ideia era que Jair e o
banqueiro assistissem juntos a um documentário.
Segundo
as mensagens, o encontro integrava uma estratégia de aproximação relacionada à
busca do apoio de Vorcaro para o Dark Horse. O banqueiro concordou em
recebê-lo, mas os registros não permitiram confirmar que a visita tenha de fato
ocorrido. A defesa de Thiago Miranda afirmou posteriormente que o encontro não
aconteceu. Mas essa resposta não encerra o assunto.
Se Jair
Bolsonaro não foi pessoalmente à casa de Vorcaro, houve algum outro contato?
Telefonema? Videoconferência? Interlocução por terceiros? Ele sabia dos valores
envolvidos? Participou de alguma conversa sobre a captação? Autorizou que seus
filhos e Mario Frias buscassem esse dinheiro em seu nome?
São
perguntas relevantes porque não estamos falando de um investimento lateral em
um empreendimento qualquer. Estamos falando de US$ 24 milhões negociados para
financiar uma produção cinematográfica dedicada a construir a narrativa pública
sobre a vida de Jair Bolsonaro.
É
difícil considerar completamente esclarecida essa negociação sem conhecer o
papel desempenhado pelo próprio biografado.
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4. O que Flávio e Vorcaro falaram ao telefone?
Nesta
terça-feira (18), revelei na newsletter Noites Húngaras um detalhe que
havia permanecido praticamente escondido no enorme volume de mensagens do caso:
Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro falaram por telefone ao menos cinco vezes
somente em setembro de 2025. As chamadas identificadas somaram 6 minutos e 20
segundos.
Uma
delas chama especialmente atenção. Em 8 de setembro, às 22h12, Flávio ligou
para Vorcaro e os dois conversaram durante 2 minutos e 38 segundos. A chamada
começou instantes depois de o senador enviar o famoso áudio cobrando uma
solução para os pagamentos do Dark Horse. O conteúdo dessas conversas continua
desconhecido.
Há
ainda outro problema: os cinco telefonemas podem não ser todos. Em 16 de
setembro, mensagens mostram Flávio dizendo a Vorcaro que havia “retornado” um
contato. Nem a tentativa inicial nem esse aparente retorno aparecem no
histórico de chamadas do WhatsApp. A explicação mais plausível é que tenham
ocorrido pela rede telefônica convencional, o que significa que há contatos
entre os dois que o vazamento simplesmente não permite enxergar.
A
investigação precisa descobrir quantas ligações realmente ocorreram — e,
principalmente, o que foi tratado nelas.
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5. De onde veio o US$ 1,7 milhão que faltava?
Os
documentos que revelamos no Intercept permitiam identificar seis
transferências, realizadas entre fevereiro e maio de 2025, que somavam US$ 10,6
milhões. Mas um Relatório de Inteligência Financeira do Coaf, citado
posteriormente pela PGR e revelado pela revista Piauí, identificou uma
movimentação de US$ 12.333.335 entre a Entre Investimentos e Participações e o
Havengate Development Fund. É uma diferença de cerca de US$ 1,7 milhão.
E aqui
existe uma lacuna que considero especialmente importante: ainda não sabemos se
esse dinheiro adicional corresponde a uma ou mais novas parcelas, quando elas
foram pagas ou sequer se os dois números representam exatamente o mesmo
conjunto de operações. O parecer da PGR não informa a data das movimentações
nem quantas transferências formaram os US$ 12,3 milhões.
Isso
importa porque, em setembro de 2025, Flávio Bolsonaro ainda cobrava Vorcaro
pela liberação de recursos. Se houve novos desembolsos depois daqueles US$ 10,6
milhões já conhecidos, é fundamental descobrir quando ocorreram, quem os
autorizou e em que circunstâncias.
Esse,
para mim, é o ponto central dos próximos capítulos de Dark Horse. O escândalo
não é apenas saber que um banqueiro se comprometeu a colocar US$ 24 milhões num
filme sobre Jair Bolsonaro e que milhões efetivamente atravessaram a fronteira.
O que falta descobrir é por que esse dinheiro foi dado, onde ele terminou e o
que aconteceu depois. Enquanto isso não tiver resposta, o caso estará muito
longe de encerrado.
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Proposta de Flávio Bolsonaro para as contas públicas é
‘balela’, diz Durigan
O ministro da Fazenda, Dario Durigan,
criticou nesta quinta-feira (20) a proposta da campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de
criação de um conselho de governança fiscal unindo Executivo, Legislativo e
Judiciário.
“Como
[Flávio] propõe isso se todo dia a gente está vendo ataque aos outros Poderes e
desrespeito institucional?”, questionou o ministro durante entrevista à Rádio
CBN. “Isso é balela, não é crível. A solução vai ser a família Bolsonaro
discutindo com o Supremo e entrando num acordo sobre responsabilidade fiscal?”.
Embora
a proposta de um conselho de governança fiscal não conste no programa oficial
da campanha do PL, a coordenadora econômica da campanha, Daniella Marques, tem
dito que a solução para o problema fiscal é a “harmonia entre os Poderes”. Em
entrevista à GloboNews no último dia 3, ela propôs a criação desse órgão
colegiado.
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Críticas a proposta
Ao
criticar a proposta da campanha de Flávio, Durigan discutia a necessidade de
corte de despesas ineficientes e propunha dar mais transparência à aplicação de
verbas via emenda parlamentar, algo que, segundo ele, será feito em diálogo com
os demais Poderes.
“Se
estamos destinando um volume grande para as emendas parlamentares, precisamos
mostrar para a população que as pessoas estão, de fato, recebendo isso com
eficiência, que não tem mau uso, sobrepreço. Isso é fundamental que a gente
faça no próximo governo dentro do diálogo [com o Legislativo] que já foi
construído”, disse.
Durigan
voltou a afirmar que pretende manter a regra de gastos atual, o chamado
arcabouço fiscal, mas com ajustes nos gastos obrigatórios. Disse também que o
governo está preparado para fazer um ajuste fiscal de cerca de 2% do PIB
(Produto Interno Bruto) em um eventual próximo mandato de Lula (PT).
O
ministro ainda lembrou dispositivos incluídos na lei de subvenção ao etanol que
poderão reduzir os gastos obrigatórios em cerca de R$ 10 bilhões no ano de 2027
caso haja déficit primário -o limite ao crescimento dos fundos e ao orçamento
da saúde-, como uma sinalização de que o governo tem disposição de conter o
aumento da despesa.
Fonte:
Por Xico Sá, em ICL Notícias

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