Taxar
ultraprocessados pode reduzir doenças crônicas e mortes associadas ao excesso
de peso
Mantido
no ritmo atual, o ganho de peso da população adulta brasileira deve levar ao
surgimento de 10 milhões de novos casos de 11 doenças crônicas evitáveis entre
2024 e 2044. São enfermidades comuns e bem conhecidas, como diabetes,
hipertensão, doenças cardiovasculares e alguns tipos de câncer, que se instalam
mais facilmente e com maior frequência quando a massa corporal do indivíduo
permanece superior à saudável por alguns anos. Nessas duas décadas, estima-se
que a proporção de adultos com sobrepeso – índice de massa corporal (IMC) entre
25 e 29 – no país passe dos 57% atuais para 75% e ocorra pouco mais de 1 milhão
de mortes em decorrência desses problemas.
Diante
desse cenário, o epidemiologista Leandro Rezende e sua equipe na Universidade
Federal de São Paulo (Unifesp) decidiram simular o impacto que a imposição de
taxas a alimentos pouco saudáveis poderia gerar na saúde da população. Eles
escolheram trabalhar com os chamados ultraprocessados, categoria genérica de
alimentos industrializados aos quais são adicionados altos teores de açúcar,
gordura, sal ou compostos químicos com a finalidade de aumentar sua
durabilidade ou palatabilidade (ver Pesquisa FAPESP nº 265). O consumo desses
alimentos cresceu no país – a proporção de calorias obtidas de ultraprocessados
subiu de 16% em 2003 para 20% em 2018 –, embora permaneça bem abaixo do de
nações como os Estados Unidos, onde ultrapassa os 50% das calorias ingeridas
diariamente.
Cobrar
mais pelos ultraprocessados gera um efeito relevante, que aumenta com o
incremento da taxação. Impor uma taxa de 10% sobre o valor desses alimentos
pode, nesses 20 anos, restringir a 67% o total de adultos com sobrepeso em
2044, evitando quase 526 mil casos novos das doenças associadas ao sobrepeso e
71 mil mortes. Com 20% de aumento, a parcela de brasileiros com sobrepeso
cairia um pouco mais, para 63%. Seriam evitados 861 mil casos de doenças
crônicas e 115 mil óbitos. Já se a taxação chegasse a 50% do valor dos
alimentos, a frequência de sobrepeso na população baixaria para 50% em 2044,
prevenindo 1,8 milhão de adoecimentos e 237 mil mortes (ver tabela abaixo) Os
resultados foram publicados em abril no periódico American Journal of
Preventive Medicine.
“Nosso
estudo avança em relação a trabalhos anteriores ao estimar o potencial impacto
da tributação do conjunto dos alimentos ultraprocessados, e não de itens
isolados, como as bebidas açucaradas”, conta Rezende, coordenador do estudo e
do Núcleo de Pesquisa em Epidemiologia de Doenças Crônicas da Unifesp. “A maior
parte das políticas e dos estudos se concentra em produtos específicos, mas o
efeito da alimentação sobre a saúde depende do padrão alimentar geral. Por
isso, ações voltadas ao conjunto dos ultraprocessados tendem a ter um potencial
maior de impacto na redução do excesso de peso e das doenças crônicas”,
explica.
Só a
taxação de ultraprocessados, no entanto, pode não resolver o problema e até
reduzir o poder de compra. Em um estudo divulgado em março, o economista Valter
Palmieri Júnior, da organização não governamental ACT Promoção da Saúde, que
defende políticas de saúde pública como a alimentação saudável, analisou o
comportamento e a composição da inflação de alimentos no Brasil nas últimas
quatro décadas. A conclusão é que o aumento do preço dos alimentos no país é um
fenômeno estrutural e sistêmico, e não ocasional, relacionado a problemas
conjunturais.
“Nas
últimas duas décadas, a inflação de alimentos manteve-se consistentemente acima
da inflação geral. Esse aumento, porém, não ocorre de forma homogênea entre os
diferentes tipos de alimentos”, escreve Palmieri no documento. “Produtos in
natura ou minimamente processados têm registrado elevações de preço mais
intensas do que os ultraprocessados. Esse padrão é preocupante, pois o consumo
de ultraprocessados está associado ao aumento de doenças crônicas.” De acordo
com o trabalho, entre 2006 e 2026, o poder de compra para frutas, por exemplo,
caiu cerca de 31%. “Esse movimento altera os incentivos econômicos de consumo e
tende a piorar a qualidade da dieta”, afirmou o economista em comunicado à
imprensa divulgado pela Agência de Notícias Bori.
“Os
efeitos da taxação de alimentos sobre o sobrepeso e a ocorrência de doenças
crônicas são plausíveis, mas tendem a ser maiores quando combinados com outras
políticas públicas, como a regulação da publicidade, a educação alimentar e a
criação de ambientes que favoreçam a escolha de alimentos mais saudáveis”,
afirma a epidemiologista Eurídice Martínez Steele, do Núcleo de Pesquisas
Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo (Nupens-USP),
que não participou do estudo publicado no American Journal of Preventive
Medicine. “A resposta ao aumento de preços não é fixa e depende das condições
sociais e do ambiente alimentar. Sem políticas complementares, como subsídios a
alimentos in natura, a taxação pode ter efeito limitado ou até gerar resultados
indesejados, caso não existam substitutos saudáveis acessíveis”, pondera a
pesquisadora.
A
avaliação de Steele é compartilhada por Helen Hermana Hermsdorff, nutricionista
e professora do Departamento de Nutrição e Saúde da Universidade Federal de
Viçosa (UFV), que também não participou do trabalho da equipe da Unifesp. “A
taxação pode ajudar no enfrentamento das doenças crônicas, mas não resolve o
problema sozinha. O sobrepeso e a obesidade envolvem fatores biológicos,
sociais e econômicos, o que exige um conjunto mais amplo de políticas públicas.
É importante retirar do indivíduo a responsabilidade exclusiva pelo
enfrentamento da obesidade e reconhecer que as escolhas alimentares dependem de
políticas públicas que tornem as opções saudáveis mais acessíveis”, afirma.
No
Brasil, a reforma tributária aprovada em 2023 criou o chamado imposto seletivo,
que entra em vigor a partir de janeiro próximo e deve taxar apenas uma parte
dos ultraprocessados: as bebidas açucaradas, que incluem refrigerantes, sucos
industrializados e chás prontos com açúcar.
Fonte:
Por Giselle Soares – Revista Pesquisa Fapesp

Nenhum comentário:
Postar um comentário