A
fé entra no palco eleitoral
O
início oficial da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição, em 16 de
agosto de 2026, oferece um episódio particularmente interessante para
compreender as transformações da relação entre religião e competição eleitoral
no Brasil. Realizado em São Bernardo do Campo, espaço carregado de significado
na trajetória sindical e política de Lula, o evento combinou referências à
história do movimento operário, à identidade petista, à participação feminina
e, de maneira particularmente significativa, a elementos do universo
evangélico.
A
participação da primeira-dama Janja Lula da Silva ao lado do pastor e cantor
gospel Kleber Lucas, inclusive na apresentação de um jingle em estilo gospel da
campanha, não deve ser interpretada apenas como um elemento cenográfico ou como
manifestação individual de religiosidade.
Em uma
campanha eleitoral, a escolha dos atores que ocupam o palco, dos símbolos
mobilizados e dos públicos aos quais determinadas mensagens são dirigidas
constitui parte da estratégia de comunicação política. Nesse sentido, a
presença de Kleber Lucas pode ser compreendida como um sinal de aproximação com
o eleitorado evangélico, segmento que adquiriu crescente centralidade na
competição eleitoral brasileira.
A
questão analiticamente relevante não é simplesmente saber se Lula ou Janja
“aderiram” ao discurso religioso, mas compreender por que uma candidatura
historicamente identificada com a esquerda trabalhista, que teve apoio de
setores da Igreja Católica, passa a incorporar, de maneira mais explícita,
repertórios simbólicos associados ao campo evangélico.
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Um eleitorado que a esquerda não pode ignorar
Essa
mudança pode ser interpretada à luz da transformação da estrutura do eleitorado
brasileiro. A expansão demográfica e política dos evangélicos tornou esse
segmento um ator eleitoral impossível de ignorar. Mais do que um bloco
homogêneo, trata-se de um universo social internamente diversificado,
atravessado por diferenças denominacionais, geracionais, socioeconômicas e
ideológicas.
A
disputa por esse eleitorado não significa necessariamente uma conversão
programática da esquerda ao conservadorismo religioso, mas pode representar uma
tentativa de reduzir a distância simbólica entre a esquerda e parcelas
importantes do eleitorado evangélico.
É nesse
ponto que a campanha de Lula se diferencia de uma simples estratégia de
segmentação eleitoral. A utilização de elementos religiosos procura também
disputar o significado político da própria fé. O jingle apresentado por Janja e
Kleber Lucas, por exemplo, procura associar religião, respeito e política,
deslocando a ideia de que a identidade evangélica estaria naturalmente
vinculada a um determinado campo ideológico.
A
disputa não ocorre em um espaço político vazio. Desde pelo menos 2018, setores
da direita brasileira construíram uma forte associação entre conservadorismo,
identidade cristã e representação política. Durante o governo Jair Bolsonaro,
símbolos religiosos passaram a ocupar lugar central na comunicação política de
determinados grupos conservadores.
A
religião, nesse contexto, deixou de ser apenas uma dimensão da identidade
social dos eleitores para tornar-se também um marcador de pertencimento
político.
A
eleição de 2026 apresenta uma situação complexa: a esquerda passa a disputar um
repertório simbólico que durante anos foi mobilizado com maior intensidade pela
direita. Isso pode ser entendido como uma forma de despolarização estratégica
do discurso religioso, na medida em que procura separar a identidade evangélica
de uma identificação automática com o bolsonarismo.
Essa
dinâmica pode ser comparada, embora não de maneira simétrica, à utilização de
referências religiosas nas campanhas de Jair Bolsonaro. Em 2022, por exemplo,
durante a convenção que oficializou sua candidatura pelo PL e em outras
ocasiões, Michelle Bolsonaro mobilizou referências bíblicas e uma linguagem
fortemente associada à fé cristã evangélica. Naquele contexto, a religião
funcionava como mecanismo de identificação entre a candidatura e determinados
valores morais e comunitários.
A
diferença fundamental está no ponto de partida. Enquanto o bolsonarismo
construiu parte importante de sua identidade política a partir da associação
entre conservadorismo e cristianismo, a campanha de Lula parece buscar disputar
a predominância simbólica que a direita consolidou na representação política de
parcelas do eleitorado evangélico.
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Quando a identidade religiosa vira representação política
Essa
disputa torna-se ainda mais complexa quando observada em conjunto com outro
fenômeno do campo progressista: a criação, pelo PSol, da chamada “Bancada da
Macumba”, articulação que reúne candidaturas vinculadas às religiões de matriz
africana e reivindica maior presença dos povos de terreiro na formulação de
políticas públicas e na representação parlamentar. O próprio PSol apresenta a
iniciativa como uma forma de enfrentamento ao racismo religioso e de afirmação
política dessas comunidades.
À
primeira vista, a aproximação de Lula com o universo evangélico e a organização
política de representantes das religiões de matriz africana parecem movimentos
bastante diferentes. Analiticamente, porém, eles podem ser compreendidos como
expressões distintas de uma transformação mais ampla: diferentes grupos
religiosos estão buscando converter identidade e pertencimento religioso em
formas de representação política.
A
questão importante não é apenas a presença da religião na política. Em uma
sociedade democrática e plural, grupos religiosos têm legitimidade para
participar da esfera pública, organizar-se politicamente e disputar eleições. O
problema analítico é outro: em que medida a identidade religiosa passa a
funcionar como mecanismo de segmentação eleitoral, mobilização de identidades e
construção de fronteiras políticas?
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Laicidade não é ausência de religião
Essa
distinção é fundamental também para compreender o princípio da laicidade.
Estado laico não significa sociedade sem religião nem política sem atores
religiosos. Significa, antes, que o Estado não deve estabelecer uma religião
oficial ou conferir tratamento político-jurídico privilegiado a uma determinada
crença.
Nesse
sentido, a participação de religiosos na política não é incompatível com a
laicidade. O desafio democrático surge quando a competição política passa a
produzir uma hierarquia entre grupos religiosos ou quando determinadas
identidades religiosas são apresentadas como condição de legitimidade política.
O
fenômeno observado na campanha de Lula pode ser interpretado menos como uma
simples “religiosificação” da esquerda e mais como uma disputa pela
representação simbólica da fé. Ao aproximar-se de setores evangélicos, a
candidatura procura ampliar seu campo de identificação eleitoral; ao mesmo
tempo, a existência de articulações políticas vinculadas às religiões de matriz
africana evidencia que diferentes grupos religiosos também procuram transformar
sua identidade em representação institucional.
O
aspecto mais relevante das eleições de 2026 talvez esteja justamente nessa
transformação. A religião deixou de ser apenas uma variável explicativa do
comportamento eleitoral para tornar-se, gradualmente, parte da própria
linguagem da competição política.
Nesse
cenário, a pergunta central não é se a religião entrou na política brasileira.
Ela já está presente. A questão é saber quem consegue representar a fé, quais
valores são associados a essa representação e como essas associações
influenciam as escolhas eleitorais.
O
lançamento da campanha de Lula oferece um laboratório para pensar fé e política
na estratégia da esquerda. O movimento em direção ao eleitorado evangélico pode
ampliar sua capacidade de comunicação com segmentos até então mais resistentes
à esquerda. Mas também produz um dilema: ao incorporar símbolos e atores
religiosos, até que ponto a campanha consegue ampliar sua coalizão eleitoral
sem transformar a religião em mais um marcador da polarização política
brasileira?
Em uma
democracia plural, o problema não está na presença da fé na esfera pública, nem
na participação de pessoas religiosas na política. O problema surge quando
direita ou esquerda transformam a fé em instrumento de legitimação eleitoral,
sugerindo que determinadas crenças, igrejas ou comunidades religiosas seriam
portadoras de uma autoridade moral superior ou representantes naturais de um
projeto político.
Quando
isso ocorre, a religião deixa de ser apenas uma dimensão legítima da identidade
dos cidadãos e passa a funcionar como mecanismo de disputa pelo poder.
A
instrumentalização da fé não é monopólio ideológico: pode assumir formas
conservadoras ou progressistas. Em ambos os casos, o risco é semelhante:
substituir o debate sobre políticas públicas, valores democráticos e projetos
de sociedade pela disputa sobre quem possui a suposta legitimidade moral de
falar em nome de Deus.
A fé
pertence à liberdade de consciência; o poder político, porém, deve permanecer
submetido ao pluralismo, à razão pública e às instituições democráticas.
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Universal é denunciada ao MP Eleitoral por usar igreja
para fazer campanha
A
Igreja Universal do Reino de Deus, liderada pelo bispo Edir Macedo, foi alvo de
representação à Procuradoria Regional Eleitoral de São Paulo pela Associação
Movimento Brasil Laico, baseada em reportagem do ICL Notícias. A matéria
mostrou como a Universal faz campanha religiosa para mobilizar fiéis e eleger
bispos e pastores.
A
representação pede apuração de abuso de poder econômico, político e religioso;
arrecadação por fonte vedada; propaganda eleitoral em templos e bens de uso
comum; coação e ofensa à liberdade do voto e ao Estado laico; e tratamento
irregular de dados pessoais sensíveis com finalidade eleitoral.
A
reportagem de Gilberto Nascimento mostra que a igreja de Edir Macedo lançou o
“Desafio de Neemias”, a fim de reunir fiéis e voluntários e mobilizá-los para a
atuação política na atual campanha eleitoral. A prioridade da Universal é
eleger na eleição de outubro seus bispos e pastores candidatos a deputado
estadual e federal por todo o país. A mobilização vai até o dia do primeiro
turno da eleição, 4 de outubro.
Citando
a matéria na representação, a Associação Movimento Brasil Laico argumenta que a
campanha foi estrategicamente calibrada para durar 52 dias, encerrando-se
exatamente no dia das eleições em primeiro turno. Com base em evidências que
incluem relatos de ex-pastores, o texto aponta que a iniciativa ultrapassa os
limites da liberdade de culto, configurando, em tese, abuso de poder econômico
e político, uso de fontes vedadas de financiamento e irregularidades no
tratamento de dados sensíveis dos fiéis.
“O que
verificamos é a conversão de uma estrutura monumental de comunicação e
organização religiosa em uma máquina de engajamento eleitoral”, afirma Leandro
Patrício da Silva, diretor-presidente da associação. “O mapeamento de eleitores
através de coleta de dados biométricos e de preferência política sob pretexto
de ‘jornada de fé’ coloca em risco a liberdade do voto e a própria laicidade do
Estado.”
As
principais violações apontadas na representação são as seguintes:
– Abuso
de Poder Econômico e Político: A utilização da infraestrutura midiática e
organizacional da instituição para promover candidaturas de bispos e pastores,
desequilibrando a igualdade de oportunidades no pleito.
–
Arrecadação por Fonte Vedada: A prestação de serviços de comunicação e a
mobilização de rede de voluntários pela igreja, como forma de doação estimável
em dinheiro, vedada pela legislação eleitoral.
–
Tratamento Irregular de Dados Sensíveis: “A coleta de identificação facial
(dado biométrico) associada à filiação religiosa e à preferência eleitoral
configura tratamento de dados pessoais sensíveis (art. 5º, II, da LGPD),
submetido a rígidos requisitos de licitude, finalidade e consentimento
específico e destacado
(art.
11). O emprego dessa base para arregimentação política e direcionamento de voto
suscita graves dúvidas quanto à finalidade, à necessidade e à transparência do
tratamento, além de eventual desvio de finalidade, o que recomenda a
comunicação à Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) e a apuração do
impacto eleitoral do uso desses dados”, diz o texto.
Leandro
Patrício destaca ainda o teor ostensivamente político-eleitoral do discurso: “o
Bispo Renato Cardoso, segundo homem na hierarquia da igreja, já afirmou ser
“incompatível ser cristão e votar em partidos de esquerda”, e cards enviados a
fiéis em Goiás — “As muralhas de Goiás estão sendo construídas. Nós somos parte
dessas muralhas. E você?” — associam diretamente a metáfora religiosa da
campanha à eleição de pastores candidatos”.
Fonte:
Por Helcimara Telles, em A Terra é Redonda/ICL Notícias

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