O
que você não viu no lançamento das campanhas de Lula e Flávio
Começou
oficialmente a campanha eleitoral para a presidência da República. No domingo,
16/08, os candidatos à presidência fizeram seus comícios inaugurais nesta que
promete ser, de acordo com as pesquisas, uma disputa ainda mais acirrada do que
as anteriores.
Encarei
o sol pesado de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, para ver como seria o
início da última campanha presidencial de Lula, seja ele vencedor ou perdedor.
O público, uniformizado de vermelho, com camisetas e bonés de movimentos
sociais e organizações diversas – MTST, MST, CUT, sindicatos vários – satisfez,
aparentemente, a expectativa dos organizadores, que esperavam cerca de 20
mil.
Com o
mote “Onde Tudo Começou”, o evento foi nostálgico. Muitos se emocionaram com a
bonita ideia da largada, relembrar as greves de 1979, quando Lula despontou
como liderança sindical pela primeira vez. Afinal, quando as músicas e bordões
de todas as 5 campanhas presidenciais de Lula à presidência eram transmitidas
no telão, uma parte da nossa vida também era reencenada nas imagens com
definição dos anos 90, nas roupas antiquadas, nos cabelos de Lula
embranquecendo e rareando.
A
campanha entendeu que, hoje, qualquer sociedade precisa tanto de um futuro
quanto do passado, essa coisa longínqua que cada vez mais as redes sociais
roubam de nós: já não se vive mais o passado ou se pratica a memória como
antigamente.
Também
apelava a uma saudade o bordão “é tetra” estampado em uma enorme bandeira
pendurada na arquibancada. Segundo o Uol, Lula participou ativamente da
coordenação do ato, mostrando compreender que, se falta na sua campanha a
promessa de algo novo, por outro lado, seus três governos têm muitos resultados
a mostrar.
Foram
bonitos os reencontros encenados na Vila Euclides: o de Lula com os operários
que participaram da greve de 1979; o de Janja com a memória de Marisa Letícia,
homenageada na fala da primeira-dama, que relembrou que as mulheres também
construíram a luta social, ajudaram a derrubar a ditadura e a mudar o país.
Consciente que o voto do eleitorado feminino tem peso decisivo neste pleito,
Lula falou o tempo inteiro para as mulheres, e Janja prometeu: “vamos juntas
eleger Lula presidente mais uma vez”.
Não
houve grandes surpresas, nem tanto entusiasmo dos presentes, mas o ato cumpriu
a missão de transformar a campanha de um senhor de 80 anos, que já foi
presidente três vezes, em plena era da IA, em algo histórico, que dá
orgulho.
Lula
falou pra caramba, mais de 30 minutos. Relembrou as greves de 1979 e a de 1980,
quando foi preso e os operários reconheceram seu papel como liderança. Leu
números do seu governo mais recente e cobrou que a militância mostrasse aos
indecisos que são melhores que os do governo Bolsonaro. Relembrou números
impressionantes na educação, contrapondo educação com segurança pública,
tentando distinguir seu investimento no futuro dos jovens com a liberação da
venda de armas pelo governo Bolsonaro. Finalizou seu discurso quando o gramado
já estava esvaziando, notando que Janja sempre diz a ele que, “quando começam a
aparecer buracos na multidão, é o povo dizendo que está com fome e quer
almoçar”.
Me
chamou a atenção a menção ao ministro do STF, Dias Toffoli. No improviso, Lula
mostrou rancor, sem chamá-lo pelo nome, ao lembrar que foi “um ministro que eu
indiquei” ao STF que não o permitiu comparecer ao velório do seu irmão Vavá
quando estava preso na PF em Curitiba. Comparou Toffoli com o delegado Romeu
Tuma, que lhe permitia todas as noites visitar a mãe, dona Lindu, quando ele
estava preso durante a ditadura militar. “Numa demonstração de que os homens
não são medidos por épocas, os homens são medidos pelo caráter, pela dignidade,
pela criação que ele teve de berço”, disse.
O
desabafo vem em má hora. Com o TSE dividido, Toffoli será o fiel da balança em
temas fundamentais que irão do uso da IA até campanhas de desinformação e
ataques à integridade das urnas, pois a composição tem, de um lado, ministros
mais conservadores, sendo o presidente e o vice Kássio Nunes e André Mendonca –
ambos indicados por Bolsonaro – e de outro, os advogados Estela Aranha, que foi
assessora de Celso Amorim, e Floriano Peixoto, além dos ministros do STJ
Ricardo Cueva e Antônio Ferreira.
Uma
enorme bandeira aberta do Brasil em meio à multidão e a nostalgia por diversos
Brasis atravessados pela trajetória de Lula bastaram para exalar um patriotismo
que certa vez foi sequestrado pelo bolsonarismo. Fafá de Belém cantou o hino
nacional; havia muitas camisas do time do Brasil com a estrela do PT.
Mas o
tema da soberania nacional, em si, apareceu pouco. No discurso de Lula,
apareceu quando ele falou de terras raras, essenciais para fazer a arquitetura
da nova economia da IA. “Eu não quero nem com os Estados Unidos, nem com a
Rússia, nem com a China, nem com a França, nem com a Inglaterra. Ninguém vai
explorar os nossos minerais raros em benefício do povo brasileiro”.
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Flávio mira narrativas para o combate digital
Já em
Copacabana (onde não estive, mas assisti pelo YouTube), o patriotismo se
apresentava mais uma vez com as camisas da seleção, verde-amarelas. Ali não
havia nostalgia, mas a maior marca era uma saudade, a ausência de Jair
Bolsonaro, cujo nome e rosto estampavam todos os discursos. O público era
evidentemente menor (cerca de 9 mil segundo o Monitor do Debate Político da
USP/Cebrap) e a campanha começou morna, com recentes notícias de desembarque do
centrão ainda reverberando.
Ali
também houve o hino nacional, que foi finalizado com a voz de Jair Bolsonaro
nas caixas de som: “Deus, pátria família e liberdade, obrigada meu Deus por
esse momento”. A abertura já deixou claro que a campanha é mais em seu nome do
que em nome de Flávio, o que torna a candidatura essencial para o futuro do
Bolsonarismo. Não se trata de uma eleição para vencer, mas para manter o
movimento bolsonarista na primazia da política nacional. O próprio Flávio deu o
tom: “é difícil comparar o filho do Pelé com o Pelé”.
O ato
demonstrou, assim, um dos grandes desafios da campanha e seu principal pano de
fundo, a tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro. Ficou claro no discurso
a dificuldade de conciliar uma campanha democrática com a narrativa de que
existe uma perseguição a Jair – “nós [os Bolsonaro] sempre fomos o último
obstáculo para que este país virasse uma ditadura”, disse Flávio. Também será
difícil conciliar a defesa do país e o hino nacional às retaliações impetradas
pelos EUA contra empresários brasileiros a pedido do irmão Eduardo.
Sob o
mote “O Brasil vai vencer”, Flávio tocou no tema que parece ser um calcanhar de
Aquiles para Lula, o da segurança pública. Fez uma promessa clara, a de
aprofundar a designação de organizações criminosas como terroristas, incluindo
nelas as milícias. E bateu na percepção de que o governo federal nada faz para
combater o crime organizado. Estruturou a crítica com um mote bem elaborado: “O
atual governo briga com um país a 10 mil kms de distância mas não briga com
traficante, com ladrão de celular, com assassino”, disse.
Outra
sacada da campanha de Flávio foi a maneira como o candidato buscou
ressignificar a palavra “soberania” à luz do medo da violência que segue sendo
uma das principais preocupações eleitorais de todos os brasileiros. “Nós
perdemos a soberania. Não temos mais soberania sobre nosso celular, nosso
carro, sua bolsa, nossa casa”, disse.
“Quem
tem soberania aqui no Complexo do Alemão? O Governo ou o Comando Vermelho?”,
perguntou. “Um governo que não tem a capacidade e não tem também a vontade de
defender a soberania de quem mora aqui no Brasil, não tem condições de manter a
soberania sobre o seu próprio território, ou tá fechado com crime organizado ou
é muito incompetente”. Assim, ele prometeu: “eu vou resgatar a soberania do
Brasil”.
Essa
engenharia narrativa permite rebater o principal calcanhar de Aquiles da
campanha de Flávio Bolsonaro, sua aliança com os EUA via o irmão Eduardo e as
retaliações dos EUA – algo que sempre pegou mal no Brasil, por mais que tenha
aumentado a porcentagem de brasileiros que acham que Lula deveria negociar com
Trump.
Há aqui
talvez a principal questão que torna a candidatura do campo bolsonarista
competitiva: sua maestria digital. A tática de “roubar” uma palavra ao campo
opositor tem até um nome em estudos de manipulação do discurso digital, se
chama “keyword squatting”, e faz sentido na disputa pela internet pela maneira
como se organiza a distribuição de informações através, por exemplo, de
ferramentas de buscas, tagueamento e organizações por conteúdos relacionados.
Ao usar a palavra “soberania”, a campanha insere sua versão nas buscas e nas
redes sociais, e também passa a confundir um conceito que, para a maioria dos
brasileiros, pode parecer ainda distante, etéreo.
Flávio
demonstrou ainda que tem tração nas redes: enquanto o lançamento oficial da sua
campanha foi assistido por 393 mil pessoas no YouTube, a de Lula teve 226 mil
até a manhã de segunda-feira.
Para
ampliar esta tração, o candidato do PL vai trazer de volta um velho fantasma,
reacendendo as conspirações sobre a facada a Jair Bolsonaro. Antes de ir a
Copacabana, ele anunciou, durante uma live, que faria a campanha com colete à
prova de balas porque, segundo afirma, teria recebido mais de 1.800 ameaças de
morte.
O
colete balístico foi vestido por baixo de uma camisa verde e amarela com os
dizeres “Meu partido é o Brasil”.
Vale
lembrar que, depois do anúncio das novas tarifas de Trump contra o Brasil,
Flávio teve seis vezes mais interações nas redes do que Lula, segundo
levantamento da consultoria Bites. Se na largada Lula levou mais gente IRL (na
vida real), no digital, o bolsonarismo segue tendo vantagem.
Fonte:
Por Natália Viana, da Agencia Pública

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