sábado, 22 de agosto de 2026

O novo fogo de Prometeu

Segundo a mitologia grega, Prometeu é o titã que rouba o fogo dos deuses e o entrega à humanidade. Isso foi encarado como um desafio a Zeus, uma vez que o fogo não, se resume apenas à chama física, mas a possibilidade de angariar o conhecimento, a técnica, a criatividade, representando, então, a capacidade humana de transformar a natureza e construir a civilização. Por conta disso, Prometeu é punido com sofrimento eterno, condenado a permanecer acorrentado a uma rocha, onde uma águia devora diariamente seu fígado.

No decorrer da história o mito recebeu diversas interpretações. Acredito que Prometeu é um dos principais símbolos da relação entre conhecimento, técnica, poder e liberdade. Neste texto, eu o utilizo para chamar a atenção para a ambiguidade do progresso tecnológico: toda grande inovação, não podemos esquecer, amplia as possibilidades humanas, mas também traz responsabilidades, riscos e consequências imprevisíveis.

Ora, Prometeu deu a humanidade a possibilidade criar novos mundos. Um gesto que lhe custou um castigo eterno. De acordo com o mito, o fogo inaugurou uma nova etapa da humanidade e, talvez estejamos diante de uma nova versão do fogo de Prometeu para o século XXI. Séculos depois deste mito ter surgido entre os antigos gregos, esteamos diante de um novo fogo: a Inteligência artificial.

Desta vez não foi um titã que nos forneceu. Ele é fruto desse fogo primordial, oriundo da transgressão de Prometeu, o conhecimento, a técnica e a criatividade. E o que este novo fogo nos possibilita? A Inteligência artificial amplia nossa capacidade de pensar, criar, calcular e produzir. O que nos leva a refletir novamente sobre Prometeu, mas não sobre o fogo de milênios atrás. Já não nos importa discutir se o Titã rebelde estava certo ou não em roubar o fogo. Talvez a pergunta não seja se Prometeu estava certo em roubar o fogo, mas talvez, o que faremos com este novo fogo.

É inegável que as Inteligências artificiais generativas, por exemplo, tem sido amplamente utilizadas nas mais diversas atividades humanas. Trabalho e estudo já não podem prescindir das tecnologias, que já alteram a forma como muitas ações são realizadas. E é preocupante que a primeira reação de muitos, mesmo nas universidades, tenha sido um neoluddismo que deseja proibir o uso da Inteligência artificial, sem abordar as questões que realmente impactam a forma como humanos interagem com a Inteligência artificial.

No entanto, avançam as novas versões das Inteligências artificiais generativas, mas também avançam as análises menos alarmistas. As universidades já entenderam que a simples proibição não funciona. Então passam a atuar, modificando a forma de avaliação, para que o aluno não dependa exclusivamente das ferramentas de Inteligência artificial para realização de provas e trabalhos. Outra frente de adaptação é a regulamentação, coma exigência de declaração explícita do uso de Inteligência Artificial e como ela foi utilizada.

Há casos em que os alunos são convidados a utilizarem a Inteligência artificial e depois questionar as respostas fornecidas. No fundo o que está acontecendo é uma separação de funções. O que é memorização, resumo, tradução, primeira versão de código, a Inteligência artificial faz melhor e mais rápido. O que a universidade brasileira precisa guardar como insubstituível é a certificação humana, no caso, ver o aluno pensando ao vivo, argumentando, errando e corrigindo, trabalhando em grupo, indo a campo, explorando as possibilidades de uso dessa tecnologia, que lembremos, não está isenta de perigos.

Essa reflexão ganha ainda mais importância quando percebemos que esse novo fogo não circula livremente entre toda a humanidade. Sua produção, seu treinamento e sua infraestrutura encontram-se concentrados em poucos atores econômicos, o que torna impossível discutir a inteligência artificial sem discutir também as relações de poder que a organizam. A própria existência desse novo fogo revela uma contradição que Prometeu, Zeus ou qualquer outra divindade, jamais poderia imaginar.

Diferentemente da chama mitológica, que uma vez entregue passou a pertencer a toda a humanidade, a Inteligência Artificial é alimentada continuamente por tudo aquilo que nós produzimos sejam textos, imagens, pesquisas, deslocamentos, preferências, conversas, hábitos de consumo e os incontáveis rastros digitais deixados por cada um de nós cotidianamente. O conhecimento coletivo converte-se, assim, em matéria-prima para sistemas controlados por um número reduzido de grandes corporações tecnológicas, que transformam experiências humanas em ativos econômicos de enorme valor.

Em outras palavras, aquilo que nasce da atividade social retorna à sociedade sob a forma de mercadoria, frequentemente cercada por barreiras de propriedade intelectual, contratos de uso e infraestruturas privadas. Isso me lembra que a pouco tempo, divulgou-se, que livros físicos, mesmo raros, adquiridos para treinar Inteligências artificiais foram sumariamente destruídos após terem sido agregados aos bancos de dados das gigantes da tecnologia que desenvolvem as Inteligências artificiais, criando um monopólio sobre o conhecimento. Sob essa perspectiva, a inteligência artificial não é só uma inovação técnica, mas uma nova etapa da acumulação de capital, na qual a produção do conhecimento e a própria criatividade humana passam a ser continuamente capturadas, processadas e monetizadas.

Considerando o exposto, podemos afirmar que a inteligência artificial representa a expressão mais sofisticada daquilo que Marx, nos Grundrisse, denominou de intelecto geral (general intellect): o conjunto dos conhecimentos científicos, técnicos, linguísticos e culturais produzidos coletivamente pela humanidade ao longo da história.

A Inteligência artificial não é um saber autônomo, nem mesmo uma inteligência independente da experiência humana. Seu funcionamento depende da incorporação de milhões de textos, imagens, códigos, pesquisas e demais manifestações da atividade social acumulada. O paradoxo reside no fato de que esse patrimônio coletivo, produzido pela humanidade durante séculos, passa a ser apropriado, organizado e explorado economicamente por grandes empresas que detêm as infraestruturas computacionais necessárias para seu processamento.

O conhecimento social, que poderia ampliar as possibilidades de emancipação humana, corre o risco de converter-se em mais um mecanismo de concentração de riqueza e poder. Em vez de representar apenas um instrumento de libertação do trabalho repetitivo, a inteligência artificial pode aprofundar uma contradição típica do capitalismo contemporâneo: quanto mais coletiva se torna a produção do conhecimento, mais privada tende a ser sua apropriação.

Esse novo fogo deveria, portanto, iluminar uma questão decisiva do nosso tempo que é saber quem ficará com os benefícios e quem arcará com os custos dessa nova revolução tecnológica.

Se o fogo prometeico era um símbolo da emancipação pela técnica, o fogo da Inteligência Artificial é, principalmente, um objeto de disputa política e econômica. A questão central já não consiste apenas em perguntar se a Inteligência artificial ampliará nossas capacidades intelectuais, mas em compreender quem se apropriará dos frutos dessa ampliação e quais interesses orientarão seu desenvolvimento. Sem enfrentar essa dimensão estrutural, corre-se o risco de celebrar os extraordinários avanços tecnológicos enquanto se naturaliza a concentração do conhecimento, do poder computacional e da riqueza nas mãos daqueles que controlam as infraestruturas digitais que sustentam esse novo fogo.

Não estamos nas colinas da antiga Grécia. Vivemos no século XXI, sob o modo capitalista de produção, pressionados por uma pretensa racionalidade neoliberal que longe de nos estimular a alcançar todo nosso potencial ontológico, nos quer desumanizar a todos. Como toda técnica humana, a Inteligência artificial não é neutra. Ela incorpora interesses, valores e relações de poder.

Isso, por si só nos obriga a fazer alguns questionamentos: Quem controla esse novo “fogo”? A humanidade ou os grandes conglomerados tecnológicos? Estamos criando uma ferramenta para emancipar pessoas ou um mecanismo para ampliar desigualdades? A Inteligência artificial nos libertará do trabalho alienado ou aprofundará novas formas de exploração?

A questão que se coloca a todos nós, já não é se devemos utilizá-la, mas quem controlará esse poder e a serviço de quais interesses ele será colocado. O desafio do nosso tempo talvez não seja impedir o avanço da inteligência artificial, mas decidir a quem ela servirá. Porque a Inteligência artificial pode trazer uma nova forma de liberdade ou aperfeiçoar as correntes do capital. E isso não será algo que será decidido pela tecnologia, mas pelas relações sociais que a governam.

 

Fonte: Por Wagner Pires da Silva, em A Terrra é Redonda

 

 

Nenhum comentário: