Sobre
a possibilidade de um golpe de Estado (II)
As
nossas Forças Armadas passaram por quase noventa anos de subordinação às das
Forças Armadas americanas, sendo que entre 1945 e 1991 elas se integraram
totalmente ao pensamento estratégico e tático da Guerra Fria anticomunista
capitaneada pelos americanos. Com o fim do bloco soviético não houve uma
redefinição sobre as ameaças militares ao nosso país e os manuais das nossas
Forças Armadas continuam versando sobre o velho modelo anticomunista e na
fidelidade aos Estados Unidos.
Não
tenho dúvidas que a dupla Donald Trump/ Marco Rúbio irá fazer inúmeras
provocações contra Lula. Já estão requentando uma lenda urbana dos tempos da
primeira vitória eleitoral de Lula, acusando o PT de ter recebido recursos
financeiros ilegais do governo de Hugo Chaves. Vão inventar ligações com o
narcotráfico e sabe lá o que mais. O disparo de mensagens bombásticas a partir
do exterior, contando com o apoio das empresas das redes e a complacência do
TSE também deve entrar no script. Mas não acredito que isto
modifique o quadro eleitoral, embora possa criar o clima para uma ação
golpista.
A
escolha da oficialidade a favor ou contra participar de um golpe de Estado não
vai ficar imune às influências da opinião pública.
Comparando
com 2022, quando a hierarquia já estava mais do que balançada pela forte
pressão dos acampamentos na porta dos quartéis, pela onda de atentados dos CACs
e pelas manifestações bolsonaristas nas ruas e nas redes, os elementos de um
ambiente pró golpe eram melhores.
No
momento a maré bolsonarista está em baixa, sem capacidade de mobilização nas
ruas e podemos contar com a oposição da grande mídia e uma maior presença das
forças antigolpe nas redes. Se as eleições se realizarem em calma vai ser mais
complicado para os golpistas romperem com a legalidade sem pretextos, por mais
que o sentimento da oficialidade seja a favor. Sem um comando unificado nas
Forças Armadas a favor do golpe a hipótese de uma revolta dos escalões
inferiores fica mais difícil pelo risco que incorrerão no caso de o golpe não
prosperar.
O que
podem fazer Donald Trump e Marco Rúbio para provocar o golpe no Brasil? Mandar
a generalada americana buzinar nos ouvidos dos nossos Altos Comandos a mensagem
golpista pode dar mais coragem para estes darem o salto no escuro da quebra da
hierarquia e da legalidade. Dou de mão beijada que todos os generais e
almirantes gostariam de tirar Lula e o PT do governo, mas sem um forte respaldo
para o golpe no país eu duvido que se movam.
A única
medida que pode fazer a mesa virar é uma invasão pelas Forças Armadas
americanas que provocaria a adesão das nossas e a tomada do poder. Às vésperas
de uma eleição nos EUA e com Donald Trump altamente desgastado por suas
intervenções externas desastradas, uma invasão de Brasília pela First
Air Cavalry (divisão de paraquedistas), mais uma divisão de marines
(fuzileiros navais) com ainda uma participação dos Seals (espécie
de kids pretos americanos) seria um risco político medonho, mesmo para um louco
como o presidente americano. Infelizmente, é algo que não se pode descartar.
Este
quadro seria impensável até janeiro deste ano, quando foi feita a operação de
sequestro do presidente da Venezuela. Mas vejamos o cálculo feito pelo governo
de Donald Trump: estava em curso uma negociação com a cúpula do governo e das
Forças Armadas venezuelanas, que estava travada por Nicolás Maduro. Retirada a
trava o acordo funcionou, mantendo-se a estrutura existente de poder desde que
submissa a Donald Trump.
No caso
do Brasil este tipo de operação cirúrgica não funcionaria pois temos
instituições democráticas atuantes e independentes, diferentemente da ditadura
venezuelana. Aqui seria preciso fechar Congresso, STF e afastar os ocupantes do
executivo. Ou seja, seria preciso ocupar o terreno e não uma rápida entrada e
saída. Como Donald Trump vai interpretar a mensagem da oficialidade? Com
certeza ele vai ter claro que não vai encontrar resistência militar e vai poder
entregar o cadáver das nossas instituições para as Forças Armadas gerirem o
país, garantidos os interesses dos EUA, como na Venezuela.
Vai ter
peso na criação de um clima contra o golpe a capacidade de Lula de repetir o
extraordinário feito das eleições de 2022, quando seus comícios, sobretudo no
Nordeste, levaram milhões às ruas. Infelizmente, este não me parece um quadro
provável nestas eleições. Lula hoje está mais preocupado em fazer alianças
“fortes” nos Estados (leia-se, compondo com todo mundo, Centrão, direita,
esquerda) do que mobilizar massas aos milhões.
Esperemos
que uma ameaça de golpe trumpista e/ou bolsonarista provoque uma reação
política da sociedade civil que possa se exprimir em multidões nas ruas para
garantir os resultados das eleições, já que não vejo capacidade de mobilização
na esquerda e, quiçá, nem no Lula.
Em
resumo: as condições para um golpe eram muito maiores em 2022 e ele poderia ter
acontecido se o Alto comando do Exército tivesse aderido ou se Jair Bolsonaro
tivesse dado a ordem para a intervenção das Forças Armadas, passando por cima
da generalada. As investigações nos processos contra os golpistas mostraram
como a montagem do golpe foi amadora e desarticulada e a covardia do mito
permite chamar uma quase tragédia de farsa.
Hoje as
condições políticas internas são menos favoráveis a um golpe militar, mas a
ameaça de uma invasão americana tornou-se uma possibilidade real, dados os
interesses de longo prazo dos EUA e os de curto de Donald Trump e o total
desprezo do personagem pelas regras de convívio civilizado entre países
soberanos. Seria uma tragédia inimaginável, capaz de fazer a ditadura 64/85
empalidecer.
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O que podem fazer Trump e Rúbio para provocar o golpe no Brasil?
Mandar
a generalada americana buzinar nos ouvidos dos nossos Altos Comandos a mensagem
golpista pode dar mais coragem para estes darem o salto no escuro da quebra da
hierarquia e da legalidade. Dou de mão beijada que todos os generais e
almirantes gostariam de tirar Lula e o PT do governo, mas sem um forte respaldo
para o golpe no país eu duvido que se movam. A única medida que pode fazer a
mesa virar é uma invasão pelas FFAA americanas que provocaria a adesão das
nossas e a tomada do poder. Às vésperas de uma eleição nos EUA e com Trump
altamente desgastado por suas intervenções externas desastradas, uma invasão de
Brasília pela First Air Cavalry (divisão de paraquedistas), mais uma divisão de
marines (fuzileiros navais) com ainda uma participação dos Seals (espécie de
kids pretos americanos) seria um risco político medonho, mesmo para um louco
como o presidente americano. Infelizmente, é algo que não se pode descartar.
Este quadro seria impensável até janeiro deste ano, quando foi feita a operação
de sequestro do presidente da Venezuela. Mas vejamos o cálculo feito pelo
governo Trump: estava em curso uma negociação com a cúpula do governo e das
FFAA venezuelanas, que estava travada por Nicolau Maduro. Retirada a trava o
acordo funcionou, mantendo-se a estrutura existente de poder desde que submissa
a Trump. No caso do Brasil este tipo de operação cirúrgica não funcionaria pois
temos instituições democráticas atuantes e independentes, diferentemente da
ditadura venezuelana. Aqui seria preciso fechar Congresso, STF e afastar os ocupantes
do executivo. Ou seja, seria preciso ocupar o terreno e não uma rápida entrada
e saída. Como Trump vai interpretar a mensagem da oficialidade? Com certeza ele
vai ter claro que não vai encontrar resistência militar e vai poder entregar o
cadáver das nossas instituições para as FFAA gerirem o país, garantidos os
interesses dos EUA, como na Venezuela. Vai ter peso na criação de um clima
contra o golpe a capacidade de Lula de repetir o extraordinário feito das
eleições de 2022, quando seus comícios, sobretudo no Nordeste, levaram milhões
às ruas. Infelizmente, este não me parece um quadro provável nestas eleições.
Lula hoje está mais preocupado em fazer alianças “fortes” nos Estados (leia-se,
compondo com todo mundo, Centrão, direita, esquerda) do que mobilizar massas
aos milhões. Esperemos que uma ameaça de golpe trumpista e/ou bolsonarista
provoque uma reação política da sociedade civil que possa se exprimir em
multidões nas ruas para garantir os resultados das eleições, já que não vejo
capacidade de mobilização na esquerda e, quiçá, nem no Lula.
Em
resumo: as condições para um golpe eram muito maiores em 2022 e ele poderia ter
acontecido se o Alto comando do Exército tivesse aderido ou se Bolsonaro
tivesse dado a ordem para a intervenção das FFAA, passando por cima da
generalada. As investigações nos processos contra os golpistas mostraram como a
montagem do golpe foi amadora e desarticulada e a covardia do mito permite
chamar uma quase tragédia de farsa. Hoje as condições políticas internas são
menos favoráveis a um golpe militar, mas a ameaça de uma invasão americana
tornou-se uma possibilidade real, dados os interesses de longo prazo dos EUA e
os de curto de Trump e o total desprezo do personagem pelas regras de convívio
civilizado entre países soberanos. Seria uma tragédia inimaginável, capaz de
fazer a ditadura 64/85 empalidecer.
Fonte:
Por Jean Marc von der Weid, em A Terra é Redonda

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