sábado, 22 de agosto de 2026

Mamografia de rastreamento revela desigualdade entre regiões do Brasil

Entre 2015 e 2024, a cobertura da mamografia de rastreamento pelo SUS (Sistema Único de Saúde) entre mulheres de 50 a 69 anos ficou em apenas 23,7% — menos de um terço da referência de 70% utilizada como parâmetro de estudo.

Os dados são do Panorama do Câncer de Mama, levantamento baseado em informações oficiais do DataSus, e revelam uma realidade preocupante no acesso ao diagnóstico precoce no Brasil.

Em entrevista ao Live CNN, a mastologista Juliana Francisco, parceira médica em campanhas de saúde das mamas, destacou a gravidade do cenário. "O câncer de mama é um problema de saúde pública mundial", afirmou.

Segundo a especialista, dados do Inca (Instituto Nacional de Câncer) projetam aproximadamente 78.610 novos casos de câncer de mama em mulheres para o triênio 2026-2028, sendo a principal causa de morte por câncer nessa população.

<><> Diagnóstico precoce e a importância da mamografia

Juliana Francisco ressaltou que o diagnóstico precoce é a principal chave para aumentar as chances de cura. "Quanto antes a gente descobre o câncer de mama, chegamos a taxas de cura de até 95%", explicou.

A mastologista lembrou que, quando a cobertura mamográfica atinge 70% do público-alvo, é possível reduzir em 30% a mortalidade por câncer de mama — meta que o Brasil ainda está muito longe de alcançar.

Em dezembro do ano passado, houve uma mudança importante na recomendação do SUS: a idade para início do rastreamento foi reduzida de 50 para 40 anos. A decisão se baseia em dados nacionais que mostram que 32% dos casos de câncer de mama em mulheres ocorrem na faixa etária entre 40 e 50 anos.

"A nossa população é um pouco diferente dos modelos estudados no exterior", observou Juliana Francisco, justificando a mudança. A recomendação atual é que toda mulher sem sintomas e sem histórico familiar realize a mamografia uma vez ao ano a partir dos 40 anos.

<><> Desigualdades regionais alarmantes

Os dados do Panorama do Câncer de Mama expõem profundas desigualdades regionais na cobertura do exame. Roraima apresenta o índice mais baixo, com apenas 3,5% de cobertura, seguido por Tocantins, com 6,1%, e Rondônia, com 10,5%.

Estados como Piauí (34%), Bahia (31,5%) e São Paulo (29,8%) apresentam índices maiores, mas ainda muito abaixo da meta de 70%.

"A gente não consegue mostrar exatamente uma causa isolada única", ponderou Juliana Francisco, defendendo a necessidade de uma política integral de cuidado ao câncer, com linhas de cuidado, protocolos e busca ativa pelas pacientes.

<><> Desinformação agrava o cenário

Além das barreiras de acesso, a desinformação representa outro obstáculo grave. Segundo o índice  de conscientização

 do câncer de mama — iniciativa do Instituto Natura, Avon e outros parceiros —, 86% das mulheres não sabem que podem realizar a mamografia em qualquer idade se apresentarem algum sintoma ou indicação médica.

Além disso, 95% desconhecem a lei dos 30 dias, que garante o diagnóstico em até 30 dias a partir da suspeita, e 98% não sabem sobre a lei dos 60 dias, que assegura o início do tratamento em até 60 dias após o diagnóstico. "Quanto mais tempo a gente demora para iniciar o tratamento, maior o risco da mulher morrer pelo câncer de mama", alertou Juliana Francisco.

A mastologista defendeu que qualquer profissional de saúde — e não apenas ginecologistas — deve aproveitar as consultas de rotina para orientar e solicitar o exame de mamografia.

"Se ela for a uma consulta com um clínico para tratar uma pressão alta, que ele já pegue aquela oportunidade e ofereça a mamografia", sugeriu. Para Juliana Francisco, essa abordagem integrada é essencial para mudar a realidade das mulheres brasileiras e reduzir a mortalidade pelo câncer de mama no país.

<><> Falta de enzima na gravidez pode originar esquizofrenia, diz estudo

Uma nova pesquisa, conduzida por cientistas brasileiros, apontam que a inibição de uma enzima durante o período de formação do cérebro pode estar ligada ao surgimento da esquizofrenia.

O estudo investigou a importância da PHGDH (fosfoglicerato desidrogenase), uma enzima considerada chave para o desenvolvimento do sistema nervoso, para a interação entre neurônios e astrócitos do cérebro em formação.

Os resultados do trabalho apontam que a inibição da PHGDH afeta o desenvolvimento neurológico e está implicada em distúrbios como a esquizofrenia.

A pesquisa foi publicada na revista científica Glial Health Research e contou com a participação da FMRP (Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto) da USP (Universidade de São Paulo), Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), CNPEM (Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais), IDOR (Instituto D’Or de Pesquisa e Educação), UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

<><> A enzima PHGDH

Os distúrbios do neurodesenvolvimento estão ligados a deficiências em redes biológicas complexas. O funcionamento cerebral depende da interação neurônio-astrócito – células que trabalham para o funcionamento do cérebro – e o o neurotransmissor D-serina é 

essencial

 para essa comunicação. Por isso, a desregulação dos níveis de D-serina tem sido relacionada à esquizofrenia.

De acordo com a USP, o estudo utilizou modelos neurais humanos desenvolvidos em laboratório para compreender como alterações metabólicas em período precoce podem afetar o desenvolvimento das conexões cerebrais e aumentar a vulnerabilidade a transtornos neuropsiquiátricos.

Estudos anteriores já haviam mostrado que a PHGDH apresentava alterações em pacientes com esquizofrenia. Isso levantou a hipótese de que ela poderia desempenhar um papel importante no desenvolvimento do cérebro e, consequentemente, na doença.Flávio Protásio Veras, professor da Universidade Federal de Alfenas, em Minas Gerais, e pesquisador da FMRP

De acordo com Daniel Martins de Souza, um dos pesquisadores do IDOR e professor de Bioquímica da Unicamp, os cientistas se interessaram em estudar a enzima ao encontrá-la desregulada no tecido cerebral de pacientes com esquizofrenia e de células derivadas de pacientes.

“No início, não tínhamos certeza de que a inibição da PHGDH levaria a alterações relacionadas a transtornos do neurodesenvolvimento. Nossa ideia era entender melhor qual era o papel dessa enzima nas fases iniciais da formação do cérebro”, conta Flávio Veras.

<><> Processo de estudo

Pesquisadores usaram células-tronco humanas para criar neuroesferas, miniaturas 3D que simulam o cérebro em formação, compostas por neurônios e astrócitos (células que alimentam e protegem os neurônios).

A enzima PHGDH foi inibida para avaliar como isso afetava o desenvolvimento dessas células usando diferentes técnicas. Ao bloquear a enzima PHGDH nessas estruturas, eles observaram:

  • Quebra de suprimento: A falta da enzima reduziu a D-serina e desregulou substâncias vitais (como lactato e glutamina), que garantem a energia e o diálogo entre as células cerebrais.
  • Neurônios vulneráveis: Enquanto os astrócitos conseguiram usar caminhos alternativos para sobreviver, os neurônios sofreram sem esse suporte, registrando alta morte celular e falhas na produção de proteínas essenciais. As neuroesferas ficaram menores e com conexões comprometidas.
  • Elo com a esquizofrenia: Essa falha impede a maturação correta dos neurônios e prejudica os receptores NMDA (estruturas de comunicação diretamente ligadas à esquizofrenia).

“Foi a partir desse conjunto de evidências que concluímos que alterações na PHGDH podem aumentar a vulnerabilidade a problemas do neurodesenvolvimento, oferecendo uma nova perspectiva para compreender mecanismos relacionados à doença”, afirma Veras.

 

Fonte: CNN Brasil

 

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