sábado, 22 de agosto de 2026

Por que a classe média defende os super-ricos e tem pavor de impostos? A psicologia explica

inda pouco problematizada, especialmente no Brasil, a riqueza extrema costuma ser entendida por boa parte das pessoas como uma espécie de recompensa individual. Conforme essa compreensão, pode ser resultado de fatores como um talento quase único, da disposição para correr riscos e/ou de um trabalho ou descoberta excepcional. Algo ligado ao mérito e que serviria de exemplo, não admitindo muitos questionamentos, mas sim louvação. Contudo, quando uma fortuna alcança uma escala capaz de influenciar eleições, moldar o debate público e controlar empresas estratégicas ou plataformas de comunicação, a discussão passa a envolver relações de poder e a própria noção de democracia.

“Nossa deferência [aos muito ricos] geralmente não é comprada diretamente, mas capturada por meio de um mecanismo psicológico”, afirma a professora de Psicologia no College of Charleston Jen Cole Wright. Pesquisadora da área de psicologia moral, ela é autora de quatro livros e tem mais de 50 artigos publicados, sendo que o mais recente trata do paradoxo moral entre as pessoas que condenam essa acumulação extrema de recursos mas mesmo assim relutam em apoiar que os super-ricos sejam taxados.

O caso de Elon Musk ajuda a dar forma concreta a esse paradoxo. Para Wright, ele combina, de modo particularmente visível, “riqueza, propriedade de empresas estratégicas, influência sobre o debate público e controle de uma plataforma”, elementos que, em geral, também estão disponíveis para outras pessoas muito ricas, ainda que de maneira menos explícita. A imagem do empresário como alguém que “se fez sozinho” encobre, segundo ela, a infraestrutura coletiva que permite a formação de grandes fortunas: dados e informações de pesquisas públicas, legislação favorável, sistemas financeiros e, em muitos casos, contratos com governos, empréstimos e subsídios estatais.

Mesmo quando existe a percepção de que a desigualdade é injusta, este sentimento não se transforma automaticamente em apoio político à taxação dos super-ricos ou à priorização de medidas de redistribuição de renda. Wright explica que os danos causados pela concentração de riqueza são difusos, graduais e difíceis de associar a uma vítima específica. “Não é que as pessoas não vivenciem a pobreza de forma direta e concreta; é que elas não conseguem vivenciar diretamente as causas de sua pobreza”, diz.

Já a criação de um novo imposto, por exemplo, é percebida como uma perda individual, imediata e emocionalmente mobilizadora, mesmo se direcionado a quem dispõe de muitos recursos. “(…) não é que as pessoas considerem o dano coletivo pouco importante. Quando perguntadas diretamente, elas muitas vezes dirão que ele é muito grave. O ponto é que considerar algo grave e sentir-se emocionalmente mobilizado a agir são duas coisas diferentes — e o dano difuso frequentemente perde na segunda dimensão, mesmo quando vence na primeira”, explica.

Em entrevista concedida por e-mail, Wright analisa como crenças na meritocracia, na liberdade individual e em um “mundo justo” ajudam a sustentar hierarquias sociais profundas. Ela ressalva que o desejo de liberdade é um valor moral real, e não apenas uma desculpa para o interesse próprio, mas alerta para o desequilíbrio atual. “Está se tornando abundantemente claro que simplesmente permitir que as pessoas acumulem riqueza contribui diretamente para níveis maiores de desigualdade e para o empobrecimento da maioria.”

>>>> Confira a íntegra da entrevista a seguir.

•        Elon Musk é um caso particularmente visível porque reúne riqueza imensa, propriedade de empresas estratégicas, influência no debate público e controle de uma grande plataforma de comunicação. O que o caso dele revela sobre a relação entre a imagem do “homem que se fez sozinho”, a ideia de que alguém merece sua fortuna e o poder político?

Musk é um caso útil para refletir sobre o caráter destrutivo da riqueza extrema justamente porque ele reúne, de forma tão visível e pública, várias coisas que normalmente não reconhecemos como conectadas: riqueza, propriedade de empresas estratégicas, influência sobre o debate público e controle de uma plataforma — embora, é claro, pessoas ricas normalmente tenham esse tipo de influência; elas apenas costumam ser mais discretas a respeito.

Quanto à imagem do “homem que se fez sozinho”, ela é interessante porque há, pelo menos nos Estados Unidos, duas versões desse personagem.

A primeira é a do cowboy solitário, que trabalha duro o dia inteiro no rancho, sob condições climáticas severas, vivendo da terra e sempre disposto a ajudar quem precisa. Esse “homem que se fez sozinho” é o tipo trabalhador, honrado, de colarinho azul, que ganha a vida honestamente por meio do trabalho físico pesado. Essa imagem sugere que uma fortuna é resultado direto do esforço e da genialidade de uma única pessoa — e, ao mesmo tempo, minimiza o fato de que muito poucos desses homens realmente chegam a fazer uma fortuna.

Há outra versão do “homem que se fez sozinho”: o magnata dos negócios, o visionário que, por sua própria inteligência e engenhosidade, descobre como acumular uma fortuna. Não é um homem conhecido por ser honrado ou caridoso, mas por ser implacável e inflexível. Essa imagem também sugere que uma fortuna é resultado direto do esforço e da genialidade de uma única pessoa — e, ao mesmo tempo, minimiza o fato de que as fortunas que esses homens constroem, na melhor das hipóteses, se aproveitam de uma enorme herança compartilhada: pesquisa financiada publicamente, infraestrutura pública, sistemas jurídicos e financeiros, todo o conhecimento acumulado de uma sociedade. Na pior das hipóteses, são produto de subornos, demonstrações de força e manipulação econômica e política. No caso de Musk, a base da Tesla e da SpaceX repousa sobre contratos governamentais, empréstimos e subsídios — além de muita pressão econômica e política.

Essa fusão entre uma narrativa do “self-made man” e a outra é um poderoso truque psicológico. Ela nos torna mais inclinados a sentir que pessoas como Musk devem ter conquistado sua fortuna pelo mesmo trabalho árduo e esforço honesto; que devem possuir a mesma sabedoria e capacidade de julgamento discretas — uma espécie de efeito halo.

É por isso que os muito ricos são tão facilmente recebidos como especialistas em assuntos que jamais estudaram. Essa é a ponte entre riqueza e poder político. Nossa deferência, em geral, não é comprada diretamente; ela é capturada por meio de um mecanismo psicológico.

•        Por que danos coletivos, como pobreza, condições precárias de trabalho ou a captura de instituições democráticas por interesses privados, muitas vezes parecem mais abstratos ou menos emocionalmente imediatos do que a perda pessoal provocada por um imposto?

Essa é uma assimetria importante de compreender, porque ela não exige que alguém seja egoísta ou mal informado — ela está incorporada ao modo como funcionam as respostas morais. E, como qualquer ativista que tente promover mudanças dirá, é muito difícil combatê-la.

Danos coletivos, como os provocados pela concentração de riqueza, são difusos — espalham-se de maneira diluída por milhões de pessoas. Eles são adiados, chegando na forma de uma erosão gradual do poder de negociação, em vez de uma lesão única, datável. Também é difícil vinculá-los a uma vítima identificável: não se pode apontar uma pessoa específica cujo salário foi reprimido por causa da fortuna de outra pessoa.

Não é que as pessoas não vivenciem a pobreza de forma direta e concreta; é que elas não conseguem vivenciar diretamente as causas de sua pobreza. A analogia mais clara, que mencionei no artigo, é a mudança climática: as pessoas podem vivenciar intensamente uma enchente ou uma onda de calor específica, mas não a “mudança climática” em si, que é abstrata e estatística.

Esses danos também são enormes, o que, paradoxalmente, torna mais difícil, e não mais fácil, senti-los. Sua magnitude produz uma espécie de “entorpecimento psíquico” ou “fadiga da compaixão”.

A ameaça de que o dinheiro que você ganhou com esforço seja retirado de você, por outro lado, é uma experiência imediata e concreta. Ela é visceral e fortemente evocativa do ponto de vista emocional, mesmo quando você tem mais dinheiro do que precisa. Em geral, acabamos nos acostumando à perda — podemos deixar de notar os valores que já são descontados de nossos salários, por exemplo. Mas a ideia de uma nova perda, como um novo imposto proposto, recria todo esse ciclo.

Há uma distinção que eu gostaria de tratar com cuidado: não é que as pessoas considerem o dano coletivo pouco importante. Quando perguntadas diretamente, elas muitas vezes dirão que ele é muito grave. O ponto é que considerar algo grave e sentir-se emocionalmente mobilizado a agir são duas coisas diferentes — e o dano difuso frequentemente perde na segunda dimensão, mesmo quando vence na primeira.

•        É possível identificar narrativas ou mecanismos discursivos recorrentes usados por movimentos políticos, especialmente pela extrema direita, para justificar a concentração extrema de riqueza e a desigualdade?

Vou responder talvez com mais cautela do que a pergunta sugere, porque sou psicóloga moral, e não analista política.

Para começar, as narrativas que justificam a concentração extrema não foram realmente inventadas por um movimento específico, de direita ou de esquerda. Elas recorrem a um conjunto de tendências psicológicas bastante gerais e bem estudadas, que qualquer movimento empenhado em defender o status quo — seja ele qual for — pode ativar.

As principais são estas, mencionadas no meu artigo:

•        Justificação do sistema: a tendência documentada de defender as estruturas existentes como justas e legítimas — até “naturais” —, algo que as pessoas fazem mesmo quando essas estruturas as prejudicam.

•        Crenças em um mundo justo: a necessidade de enxergar os resultados como merecidos, com pessoas boas sendo recompensadas e pessoas más sendo punidas, porque a alternativa é assustadora.

•        Crença meritocrática: a ideia de que a riqueza reflete trabalho árduo e talento, que, segundo pesquisas, prevê tolerância à desigualdade independentemente de haver mérito de fato.

Essas não são ideias marginais, mas proteções psicológicas que oferecem conforto em muitos contextos diferentes, para além da questão da riqueza extrema.

O que alguns movimentos políticos fazem é mobilizá-las de maneira mais deliberada e mais pública, frequentemente combinando-as com narrativas sobre grupos “merecedores” e “não merecedores” — dando às pessoas alguém para culpar. Mas as alavancas em si pertencem à psicologia humana comum.

Acho importante enfatizar isso porque significa que o desafio não é diagnosticar um grupo como singularmente irracional, mas compreender por que essas histórias parecem tão naturais e por que é tão fácil aceitá-las.

•        Uma noção particular de “liberdade” é central para a resistência política à taxação dos super-ricos? Como a defesa da liberdade individual é usada para enquadrar — ou ocultar — as consequências sociais da riqueza extrema?

Acho que o enquadramento da liberdade é poderoso por uma razão frequentemente ignorada. É tentador tratar os apelos à “liberdade” como uma cortina de fumaça, uma justificativa para o interesse próprio. Mas o desejo por liberdade funciona como um valor moral genuíno em si mesmo; ele não representa ausência de preocupação moral. As pessoas defendem o direito de ficar com aquilo que ganharam com verdadeira convicção moral. E o enquadramento da liberdade funciona não porque as pessoas estejam sendo enganadas, mas porque ele ativa uma intuição moral sincera.

Como argumento no artigo, a moralidade diz respeito tanto à defesa do espaço de autonomia pessoal — protegendo o direito das pessoas de viverem suas próprias vidas livremente, sem interferência indevida — quanto à proteção contra danos, muitos dos quais decorrem justamente de pessoas vivendo “livremente”.

Esse é o antigo exercício de equilíbrio: você pode viver como quiser, e eu não interferirei desnecessariamente nas suas escolhas, a menos que e até que essas escolhas interfiram na minha própria capacidade de viver como desejo, e assim por diante.

Tudo isso ocorre dentro de comunidades humanas que experimentam formas diferentes de regular esse equilíbrio: algumas erram por impor controles excessivos sobre as escolhas; outras, por rejeitar esses mesmos controles. O problema do primeiro caso é que ele pode facilmente começar a controlar coisas que não deveria — coisas que de fato afetam a capacidade das pessoas de prosperar e viver vidas singulares. O problema do segundo é que ele pode facilmente deixar de controlar aquilo que deveria — coisas que, mais uma vez, afetam a capacidade das pessoas de prosperar.

Portanto, não acho que esteja em jogo uma noção particular de liberdade, mas uma postura específica quanto à prioridade da liberdade sobre a restrição. Está se tornando cada vez mais claro que simplesmente permitir que pessoas acumulem riqueza contribui diretamente para níveis maiores de desigualdade e para o empobrecimento da maioria. Isso é extremamente danoso.

Mas, enquanto não estávamos olhando, as pessoas que acumulavam essa riqueza se apoiaram em nossa lealdade à proteção da liberdade — e na crença no mérito — para nos fazer olhar para o outro lado. Agora que talvez estejamos despertando para o fato de que o dano aos demais é grande demais e que o equilíbrio moral precisa se deslocar na outra direção, elas estão em uma posição de usar seu enorme poder e influência para bloquear ativamente, ocultar e redirecionar quaisquer tentativas de fazer isso.

•        Quão poderosa é a narrativa da meritocracia quando muitos indivíduos extremamente ricos se beneficiam não apenas de esforço individual ou disposição para correr riscos, mas também de heranças, subsídios públicos, contratos governamentais, regulações favoráveis ou vantagens tributárias?

O mais marcante é como a narrativa meritocrática sobrevive tão bem às próprias evidências contrárias que você descreve. Seria de esperar que apontar o quanto uma grande fortuna resulta de herança, subsídio público, regulação favorável ou vantagens tributárias desmontasse essa narrativa — e, no entanto, em grande medida, isso não acontece.

Há algumas razões para isso.

Uma delas é a distinção que pesquisadores fazem entre meritocracia descritiva e meritocracia prescritiva: entre acreditar que as recompensas deveriam acompanhar o mérito e acreditar que elas realmente acompanham o mérito.

A maioria das pessoas apoia fortemente a primeira ideia. Em seguida, outros mecanismos psicológicos — discutidos anteriormente — podem entrar em ação e tornar mais difícil do que deveria ser rejeitar a segunda. A crença de que o mérito deveria importar se transforma na crença de que ele de fato importa.

Isso ocorre porque a crença meritocrática funciona menos como uma conclusão a que as pessoas chegam a partir das evidências e mais como algo reconfortante ao qual elas recorrem. O poder dessa narrativa não repousa realmente nos fatos. Ele repousa no quanto desejamos que ela seja verdadeira.

Infelizmente, isso significa que a informação muitas vezes não move as pessoas da maneira que esperaríamos.

•        No Brasil e, acredito, também nos Estados Unidos, uma parcela da classe média frequentemente se identifica mais com os super-ricos do que com pessoas pobres, apesar de estar muito mais próxima destas em termos de renda e condições de vida. Que mecanismos psicológicos, morais e políticos ajudam a explicar essa identificação?

Esse é certamente um enigma interessante, e posso falar com mais segurança sobre os Estados Unidos do que sobre o Brasil — eu deixaria a você os aspectos específicos do caso brasileiro.

Alguns mecanismos parecem estar em ação.

Um deles é, novamente, a justificação do sistema: as pessoas são motivadas a enxergar a hierarquia em que vivem como justa e legítima. E aqui está a parte contraintuitiva: essa tendência não aparece apenas entre aqueles que se beneficiam da hierarquia, mas também entre os que são prejudicados por ela. De algum modo, acreditar que o sistema é basicamente justo é mais suportável do que acreditar que se está preso em um sistema injusto.

Um segundo mecanismo é aspiracional: as pessoas tendem a se identificar não com o lugar onde estão, mas com o lugar para onde desejam ir. Nos Estados Unidos, as pessoas superestimam sistematicamente o quanto a mobilidade social está ao seu alcance. Assim, identificar-se “para cima” parece menos como tomar partido contra os próprios interesses e mais como tomar partido em favor de seu eu futuro.

Em terceiro lugar está o efeito halo: os ricos são admirados, e seu sucesso é interpretado como evidência de virtude, enquanto a pobreza é estigmatizada. Portanto, identificar-se com os de cima protege a identidade. É mais agradável vincular-se ao grupo admirado do que ao grupo culpabilizado.

É claro que precisamos ter cuidado para não generalizar demais, e suspeito que o peso desses mecanismos varie entre sociedades com estruturas de mobilidade, histórias e ambientes midiáticos distintos. Mas o padrão geral — de que as pessoas defendem e se identificam com aqueles que mais se beneficiam da hierarquia, mesmo quando elas próprias estão próximas de sua base — está entre os achados mais robustos dessa literatura.

 

Fonte: Por Glauco Faria, na Fórum

 

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