Espinoza
e o pensamento ecológico contemporâneo
A
filosofia de Baruch Espinoza (1632–1677) estabelece uma das bases conceituais
mais profundas para a visão moderna de ecologia, antecipando em séculos o
pensamento ecocêntrico e a recusa da cisão entre humanidade e natureza. Sua
filosofia pode ser lida como um importante antecedente filosófico do pensamento
ecológico, sobretudo por sua crítica ao antropocentrismo e por sua concepção da
natureza como uma totalidade da qual o ser humano é parte.
Para
ele, Deus não é um ser pessoal, transcendente, que criou o mundo a partir de
fora. Deus é a própria realidade infinita, a natureza em sua totalidade. Tudo o
que existe – seres humanos, animais, plantas, rios, astros – são modos ou
manifestações dessa única realidade. Isso rompe com uma concepção muito
difundida no Ocidente segundo a qual o ser humano estaria separado da natureza
e ocuparia uma posição privilegiada dentro da criação.
Para
Baruch Espinoza, não existe um Deus transcendente que criou o mundo a partir do
nada e que governa a realidade de fora. Ele propõe a célebre fórmula Deus
sive natura (Deus, ou seja, a natureza): existe apenas uma única
Substância infinita, da qual tudo o que existe faz parte.
Da
perspectiva ecológica contemporânea, essa ideia é extremamente fecunda: o ser
humano não está fora da natureza, nem é seu senhor; é uma parte da natureza.
Rompe-se o dualismo cartesiano, a separação radical entre o espírito e matéria,
entre homem e natureza. A humanidade não é “senhora e proprietária da
natureza”, mas sim uma modalidade finita inserida em um todo vivo e
interconectado.
Espinoza
antecipa a visão sistêmica da Terra (como a Hipótese de Gaia), onde a biosfera
não é um depósito estático de recursos para uso humano, mas um processo vivo,
auto-organizado e em perpétua transformação. Espinoza criticou duramente a
ideia de que a natureza existe exclusivamente para servir aos seres humanos.
Ele argumentava que o antropocentrismo é uma ilusão nascida da ignorância das
causas reais das coisas.
Na
filosofia tradicional, especialmente na tradição judaico-cristã, a natureza
pode ser entendida como algo criado para servir ao homem. Espinoza rejeita
radicalmente essa concepção. No Apêndice da Parte I da Ética,
critica a ideia de que todas as coisas naturais tenham sido criadas com uma
finalidade humana. Para ele, é uma ilusão pensar que a natureza existe para
atender às necessidades humanas.
Essa
crítica tem enorme afinidade com a ecologia moderna. O pensamento ecológico
questiona justamente a ideia de que florestas, rios, animais, solos e oceanos
sejam apenas recursos colocados à disposição da humanidade. O ser humano é
natureza, não está diante dela.
Talvez
seja aqui que Espinoza mais se aproxime de uma sensibilidade ecológica
contemporânea. Ele rejeita a separação radical entre “homem” e “natureza”. O
ser humano não constitui um império dentro de outro império – imperium
in imperio. Espinoza tem uma leitura ecológica avant la lettre:
não somos um reino separado do reino natural. Somos constituídos pelas mesmas
relações naturais que constituem todos os demais seres.
Essa
concepção antecipa, em termos filosóficos, aquilo que a ecologia científica
demonstraria séculos depois: os organismos não podem ser compreendidos
isoladamente, mas dentro de redes de relações e interdependências. Antecipa o
conceito moderno de teia da vida e de interdependência ecossistêmica. A
sobrevivência e o florescimento de um organismo estão indissoluvelmente ligados
ao equilíbrio do meio que o cerca.
Outro
conceito importante é “conatus”. Na Ética, Espinoza afirma
que cada coisa, na medida de suas possibilidades, procura perseverar em seu
ser. O ser humano, portanto, não é uma exceção à dinâmica da natureza. Ele
participa de uma tendência geral de conservação e desenvolvimento da própria
existência.
Espinoza
divide a natureza em duas dimensões dinâmicas: a Natura naturans: A
força criadora, ativa, imanente e geradora de todas as coisas (o próprio
Deus/universo em constante produção), e a Natura naturata: O
conjunto de todos os seres particulares, ecossistemas, leis físicas e criaturas
geradas por essa força. Para ele, “A natureza não tem nenhum fim prescrito e
todas as causas finais não passam de ficções humanas.” (Ética, Apêndice
da Parte I).
Uma
leitura ecológica pode confirmar essa perspectiva: a vida não deve ser
compreendida exclusivamente a partir dos interesses humanos. Os demais seres
vivos também possuem sua própria potência de existir. Trata-se de uma ética
ecológica da potência, e não da dominação. O ecocentrismo moderno – que defende
o valor intrínseco de todas as formas de vida, independentemente de sua
utilidade econômica para o ser humano – encontra em Espinoza seu precursor
filosófico direto.
Mas o
que prevaleceu nos séculos posteriores foi a visão cartesiana de que o homem é
o senhor e mestre da natureza. Para René Descartes, o homem é o sujeito, a
natureza é o objeto. Em sua obra Discurso do método, Parte VI,
publicado em 1637, René Descartes afirma que o conhecimento científico
permitirá aos seres humanos tornar-se “como que senhores e possuidores da
natureza”. Sua filosofia contribuiu decisivamente para a construção da moderna
concepção do sujeito humano como conhecedor e da natureza como realidade
exterior passível de ser conhecida, medida e transformada.
Tempos
depois, Francis Bacon, em O parto masculino do tempo, preocupado em
rejeitar o conhecimento puramente especulativo e defender uma nova ciência
prática baseada na observação e na interpretação correta da natureza, afirmou:
“…levando-vos a natureza com todos os seus filhos, para prendê-la ao vosso
serviço e fazê-la vossa escrava”. Em outra passagem, Francis Bacon afirma que a
natureza deve ser “subjugada e dominada”. Francis Bacon frequentemente tratava
a natureza como um objeto feminino cujos segredos precisavam ser
“conquistados”, “subjugados” ou arrancados por meio da experimentação.
O
antropocentrismo, o sentido pragmático-utilitarista do pensamento cartesiano e
a oposição do sujeito-homem em relação à natureza-objeto vão marcar a
modernidade. A natureza, já não mais povoada por deuses, pode ser
dessacralizada, tornada objeto, ser dividida e considerada natureza morta a ser
esquartejada. Esse antropocentrismo rompe a possibilidade de integração
homem-natureza como partes do Universo.
O
patriarcalismo e os sistemas econômicos predatórios que prevaleceram nos
últimos séculos, e prevalecem ainda hoje, podem ser considerados, no plano
conceitual, decorrências do racionalismo cartesiano que inaugura a modernidade.
Discuto essa influência do cartesianismo no pensamento científico moderno em
meu ensaio Fragmentos de um discurso ecológico, (Editora Gaia).
Assim,
Espinoza pode ser relacionado à ecologia por sua rejeição da ideia de que nossa
liberdade consista em dominar a natureza. Para ele, somos mais livres quando
compreendemos as causas que nos determinam e aprendemos a agir de acordo com a
realidade, e não quando imaginamos que podemos impor arbitrariamente nossa
vontade sobre ela. Isso oferece uma crítica filosófica poderosa à ideia moderna
de dominação ilimitada da natureza.
A crise
climática pode ser vista, nessa perspectiva, como resultado de uma civilização
que acredita poder agir como se estivesse separada dos limites naturais:
extrair infinitamente, consumir infinitamente e crescer infinitamente em um
planeta finito.
É claro
que isso não significa que Espinoza tenha antecipado cientificamente a ecologia
que, enquanto ciência, só surgiria no século XIX, com autores como Ernst
Haeckel. A relação é sobretudo filosófica e conceitual. Ele oferece uma
ontologia na qual a separação entre humanidade e natureza perde seu fundamento
e permite inverter uma pergunta tradicional. Em vez de perguntar: Como podemos
dominar a natureza para satisfazer nossas necessidades? Podemos perguntar: Como
podemos compreender nossa inserção na natureza e organizar nossa sociedade de
maneira compatível com sua dinâmica e seus limites? Essa mudança desloca a
humanidade de uma posição de senhora da natureza para a condição de parte
consciente de uma totalidade natural.
Em
síntese: Espinoza não foi um ecologista, mas sua filosofia contém elementos
extraordinariamente compatíveis com a visão ecológica contemporânea: a unidade
da natureza, a inseparabilidade entre humanidade e mundo natural, a
interdependência dos seres, a crítica ao antropocentrismo e a rejeição da ideia
de que a natureza existe simplesmente para servir aos seres humanos. Isso faz
dele um dos filósofos modernos mais férteis para pensar uma ética e uma
política ecológicas no século XXI.
Fonte:
Por Liszt Vieira, em A Terra é Redonda

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