Cansaço
e culpa podem ser sinais de sofrimento causado pelo diabetes; saiba como
identificar
Conviver
com o diabetes vai muito além de medir a glicemia e ajustar doses de insulina.
Para boa parte das pessoas com a condição, a rotina de cuidados constantes traz
também um peso emocional pouco discutido: o diabetes distress.
O
Portal Um Diabético conversou com a médica Claudia Pieper sobre o tema. Ela é
mestre e doutora em Endocrinologia pela UFRJ e membro do Departamento de Saúde
Mental da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD). Nesta entrevista, a
especialista explica o que é esse sofrimento, como identificá-lo e quando
buscar ajuda.
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O que é o diabetes distress
Segundo
Claudia Pieper, esse é o sofrimento relacionado diretamente à convivência com a
doença. Trata-se, nas palavras da especialista, do fardo emocional oculto por
trás da rotina diária de autocuidado.
“Diabetes
distress é definido como o sofrimento ou angústia relacionados com o diabetes;
é o fardo emocional oculto e a frustração quotidiana de viver com uma doença
crônica. Envolve sentir-se oprimido, frustrado ou culpado, ao mesmo tempo que
continua a tentar gerir a rotina diária.” - Claudia Pieper | Membro do
Departamento de Saúde Mental da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD).
Apesar
do nome, o diabetes distress não é classificado como transtorno mental. A
especialista explica que esse sofrimento pode apresentar sintomas semelhantes
aos de ansiedade e depressão. No entanto, ele configura uma resposta de
estresse à convivência com a doença crônica, e não uma condição psiquiátrica.
Depressão e ansiedade, por outro lado, são transtornos diagnosticados conforme
critérios de gravidade. Ambos podem exigir uso de medicamento associado ao
acompanhamento psicoterápico.
Há
ainda uma distinção importante em relação ao chamado diabetes burnout. O
distress envolve frustração e sobrecarga cotidianas. Já o burnout representa um
estado mais profundo de exaustão física e mental. Nesse quadro, a pessoa pode
chegar a abandonar os cuidados com a própria saúde.
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Sinais que merecem atenção
De
acordo com Claudia Pieper, os sintomas mais comuns incluem sensação de
sobrecarga e desamparo. Frustração com os resultados das glicemias, medo
excessivo de hipoglicemia, culpa e raiva também estão entre eles, assim como o
afastamento do tratamento médico. Esses sinais são reconhecidos pelas
Diretrizes Psicossociais da SBD. As diretrizes recomendam avaliar essa carga
emocional como parte do acompanhamento clínico, já que ela pode gerar
alterações comportamentais relevantes na rotina do paciente.
Entre
os sinais de alerta destacados pela especialista estão a preocupação excessiva
com glicemia, alimentação e medicamentos. A sensação de fracasso diante do
tratamento e a irritabilidade relacionada ao diabetes também merecem atenção.
Além disso, vale observar a dificuldade crescente para manter os cuidados
diários. Evitar medir a glicemia e negligenciar a medicação são outros sinais
possíveis. Isso vale para alterações no comportamento alimentar e conflitos
familiares ligados ao tratamento.
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Como o diagnóstico é feito
O
diabetes distress pode ser identificado por meio de escalas já traduzidas e
adaptadas para o português. Entre elas estão a Diabetes Distress Scale (DDS) e
a versão específica para diabetes tipo 1, a T1-DDS. A DDS é um instrumento de
autoavaliação composto por 17 itens. Cada item é classificado em uma escala de
seis pontos, que varia entre “não é um problema” e “um problema muito
significativo”. A pontuação final resulta da média das respostas. Ela avalia
quatro dimensões: sobrecarga emocional, angústia relacionada ao médico,
angústia interpessoal e desconforto com o regime de tratamento.
Nesse
sentido, segundo Claudia Pieper, a suspeita do quadro geralmente parte do
profissional de saúde que acompanha a pessoa com diabetes no dia a dia.
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O impacto no controle glicêmico
Nesse
contexto, a relação entre o diabetes distress e os resultados clínicos é bem
documentada. Níveis elevados de angústia relacionada ao diabetes têm sido
associados a aumento da hemoglobina glicada (HbA1c). Eles também se associam a
comportamentos de autocuidado menos eficazes, tanto no diabetes tipo 1 quanto
no tipo 2. Como consequência, cresce o risco de complicações agudas e crônicas
decorrentes de períodos prolongados de hiperglicemia.
Por
outro lado, estudos científicos mostram que reduzir os níveis de distress
melhora os comportamentos de autocuidado. Essa redução também contribui para a
queda da HbA1c. Por isso, a American Diabetes Association (ADA) recomenda, em
suas diretrizes de 2026, que o diabetes distress seja rastreado ao menos uma
vez ao ano. O rastreamento deve ser repetido em momentos de transição, quando
as metas de tratamento não são alcançadas ou quando surgem complicações.
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Tratamento: um cuidado que precisa ser integrado
Para
Claudia Pieper, o ideal é que o cuidado do diabetes distress seja integrado, e
não uma sucessão de encaminhamentos isolados. Endocrinologista, nutricionista,
enfermeiro ou educador em diabetes e profissional de saúde mental precisam
dialogar entre si. Isso porque o foco do tratamento não deve estar apenas na
reação do paciente, mas também naquilo que produz ou mantém o sofrimento.
“Não
devemos tratar somente a reação do paciente; devemos examinar também aquilo que
está produzindo ou mantendo o distress”, alerta Claudia Pieper.
O
acompanhamento psicoterápico, quando necessário, pode incluir terapia
cognitivo-comportamental, intervenções baseadas em mindfulness e entrevista
motivacional. Técnicas de resolução estruturada de problemas também fazem parte
desse repertório. E a família desempenha papel relevante nesse processo.
Oferecer suporte emocional, ajudar na resolução de problemas e dividir tarefas
quando necessário fazem parte desse apoio. Acompanhar consultas, reconhecer
sinais de sofrimento e evitar críticas e cobranças excessivas também são
atitudes importantes, segundo a especialista.
Claudia
Pieper pondera ainda que o diabetes distress não costuma ser tratado em termos
de remissão, como ocorre em alguns transtornos psiquiátricos. O objetivo do
tratamento não é eliminar toda preocupação com a doença. A meta é reduzir o
sofrimento a um nível que permita à pessoa cuidar da própria saúde sem que o
diabetes domine sua rotina.
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Quando buscar ajuda especializada
A
recomendação da SBD é que o rastreamento de problemas psicossociais seja feito
pela equipe de saúde de forma regular. Esse rastreamento deve ter atenção
especial à diferenciação entre diabetes distress, depressão e ansiedade.
Segundo a diretriz de 2025 da sociedade, identificar e tratar o distress
contribui para melhorar o automanejo. Além disso, favorece a adesão ao
tratamento e o controle glicêmico.
O
primeiro passo, de acordo com Claudia Pieper, é um acolhimento colaborativo,
empático e sem julgamento por parte da equipe multidisciplinar. A partir dessa
conversa inicial, é possível avaliar o nível dessa sobrecarga emocional.
Nesse
momento, a equipe decide entre uma intervenção dentro do próprio cuidado em
diabetes, como educação em diabetes e reorganização do tratamento. A outra
possibilidade é o encaminhamento para psicólogo, psiquiatra ou outro
profissional de saúde mental com experiência na condição.
Fonte:
Um Diabético

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