Primeiro,
as bombas. Depois, hotéis de luxo: Conselho da Paz, o plano de Trump para
lucrar com as ruínas de Gaza
O “Conselho da
Paz” de Donald Trump não busca pacificar Gaza: privatiza a
diplomacia, sequestra uma resolução da ONU e torna o genocídio palestino um
negócio imobiliário de luxo. Esta análise desmonta a arquitetura jurídica,
financeira e ideológica de um projeto que substitui o multilateralismo pela
autocracia pessoal e a solidariedade internacional por um pagamento de bilhões
de dólares.
No final de julho deste ano de 2026, o
gabinete de segurança político-militar de Israel aprovou o ingresso limitado da
Força Internacional de Estabilização em Gaza, marcando o início operativo dos
chamados “projetos-piloto” do autodenominado “Conselho da Paz” (Board of
Peace, BoP). Convém distinguir, no entanto, entre o deslocamento armado da
chamada Força Internacional de Estabilização — que começou a operar no terreno
— e os órgãos de governança civil do Conselho, cujos comitês permanecem, como
se detalha mais adiante, fora de Gaza. Este movimento, concebido em função do
plano diplomático de 20 pontos da Casa Branca e lançado formalmente no Fórum
Econômico Mundial de Davos em janeiro, foi promovido pelo aparato de propaganda
da administração de Donald Trump como o primeiro passo para a pacificação. No
entanto, deixa evidente uma realidade irrefutável: a arquitetura das relações
internacionais e o direito humanitário se encontram sob um dos assédios mais
severos da história contemporânea.
Em 17 de novembro de 2025, a Resolução 2803
do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) acolheu
sua criação para coordenar o deslocamento desta força multilateral, tal como
documentou a Chatham House. No entanto, ao dar seus primeiros passos sobre os
escombros palestinos, o Conselho revelou rapidamente sua verdadeira natureza.
Longe de constituir um esforço multilateral para o alívio humanitário, os
analistas e especialistas internacionais concordam que a iniciativa reflete,
quase em sua totalidade, as ambições pessoais, políticas e financeiras de
Trump. As necessidades objetivas da segurança internacional são subordinadas a
uma agenda de lucro corporativo e controle territorial.
<><> O sequestro da Resolução
2803 e a autocracia diplomática
A primeira grande fratura deste projeto com a
legalidade internacional radica em sua gênese jurídica. Ainda que o Conselho de
Segurança da ONU tenha aprovado a Resolução 2803 em novembro de 2025 para
delimitar o mandato de uma força multilateral, a Carta Constitutiva do
“Conselho da Paz”, redigida por Washington, operou um sequestro institucional.
O paradoxo é máximo: uma força com um mandato de estabilização avalizado pela
ONU foi posta a serviço de um plano de desenvolvimento imobiliário administrado
por um consórcio privado, desnaturalizando por completo seu propósito
humanitário original. Segundo uma análise do Institute for National
Security Studies (INSS), o documento omitiu
qualquer referência específica a Gaza ou à própria resolução das Nações Unidas,
autonomeando a plataforma como um ente permanente para a solução de disputas à
margem do direito internacional.
Esta manobra esconde uma estrutura de
governança profundamente personalista. Os estatutos designam Donald Trump como
presidente inaugural (Chairman), em sua capacidade individual, sem fixar
limite de mandato nem mecanismo de sucessão automática. Segundo um funcionário
estadunidense citado pela ABC News, “a presidência pode ser exercida por Trump
até que renuncie a ela”. Na prática, isso lhe outorga um controle indefinido —
potencialmente vitalício — sobre a tomada de decisões, a atribuição de recursos
e as nomeações da direção. Mais alarmante ainda é o fato de que a entidade não
está subordinada ao Estado estadunidense; um eventual sucessor na Casa Branca
não assumiria a direção do Conselho e, inclusive, Trump conta com poder de veto
sobre qualquer nomeação futura e com o poder unilateral de dissolver o
organismo.
É a privatização definitiva da diplomacia: a
política exterior como patrimônio pessoal.
Segundo o informe de Bruce Jones para a
Brookings Institution, esta arquitetura institucional não é casual. Em seus
informes, os autores advertem que o lançamento da plataforma coincidiu com as
medidas caóticas e motivadas pelo interesse pessoal de Trump. Os especialistas
do think tank concluem que não existe vontade real de reforma do sistema da
ONU, e sim a tentativa de erigir um feudo político que garanta ao mandatário
uma cota de influência geopolítica e de poder permanente. Deste modo, Trump
asseguraria seu legado autocrático muito depois de abandonar a Sala Oval.
Trata-se da substituição da diplomacia coletiva pelo insustentável modelo de
“um líder, um clube”.
<><> A “Riviera do Oriente Médio”
e a mercantilização sobre os escombros
Se a estrutura legal do Conselho é
reprovável, seu fundamento econômico e moral raia a obscenidade. O modelo de
financiamento do projeto instaura uma lógica pouco habitual, mesmo para os
padrões da diplomacia transacional, na esfera pública global: uma diplomacia de
pedágio. A participação dos Estados soberanos está condicionada a um convite
direto do presidente e ao pagamento de uma exorbitante quantia de pelo menos 1
bilhão de dólares para assegurar um assento permanente, tal como revelou a PBS
NewsHour.
A Casa Branca rejeitou esta leitura: diante
do primeiro vazamento do montante, um porta-voz qualificou a informação de
“enganosa” e afirmou que não existe uma cota mínima obrigatória, e sim um
mecanismo que “oferece ser membro permanente a países que demonstrem um
compromisso profundo com a paz, a segurança e a prosperidade”. No entanto, o
próprio rascunho da carta — confirmado depois por fontes oficiais à PBS e à NPR
— fixa este montante como condição explícita para ser membro permanente, o que
sugere que o desmentido inicial buscava, sobretudo, conter o dano reputacional.
O destino destes fundos é o epicentro das críticas mais ferozes. O Conselho
afirma ter assegurado 7 bilhões de dólares de recursos internacionais e 10
bilhões adicionais dos Estados Unidos, mas o canal de distribuição é
deliberadamente opaco.
Segundo revelou o Financial Times em
maio de 2026, em um artigo reproduzido pelo The Irish Times,
citando quatro fontes com conhecimento direto do fundo, o mecanismo
administrado pelo Banco Mundial e avalizado pelo Conselho de Segurança da ONU
não recebeu um único dólar dos 17 bilhões prometidos: “zero dólares foram
depositados”, segundo uma dessas fontes. Em seu lugar, as contribuições são
canalizadas por meio de uma conta privada que o Conselho mantém no JPMorgan
Chase — um mecanismo que, diferentemente do fundo do Banco Mundial, não está
sujeito a nenhum requisito independente de transparência nem de prestação de
contas para os países contribuintes. Um funcionário do próprio Conselho admitiu
ao FT que “os contribuintes optaram por usar outras vias”, sem
explicar por que se evitou o canal supervisionado pela ONU. Neste emaranhado,
destaca-se a figura de Jared Kushner, genro de Trump, que, por meio de sua
firma de capital privado, Affinity Partners — financiada em boa parte por
fundos soberanos do Golfo —, opera como o principal condutor destes
investimentos milionários, segundo informa a investigação de Responsible
Statecraft. A finalidade oculta deste fluxo de capital não é o desenvolvimento
humano.
Há mais de um ano, por meio de sua rede
social Truth Social, Trump publicou um vídeo perturbador, gerado por
inteligência artificial, apresentando-se com uma aura messiânica e com o lema:
“Donald is coming to set you free” (Donald vem para libertá-lo). Em que
consiste esta libertação? Em transformar um território arrasado pelas bombas
estadunidenses e israelenses na “Riviera do Oriente Médio”. O projeto revelado
por meios de comunicação como a CBC News expõe a construção de 200 hotéis de
luxo, possíveis ilhas artificiais e desenvolvimentos imobiliários em frente ao
mar Mediterrâneo.
Como adverte taxativamente Khalil Jashan,
diretor executivo do Arab Center Washington DC, é perverso e moralmente
inaceitável projetar condomínios de superluxo sobre as fossas comuns de dezenas
de milhares de habitantes de Gaza.
Enquanto se planeja um paraíso corporativo, a
população palestina sobrevivente encontra-se mergulhada na fome e na miséria
absoluta, com uma renda média que não supera os 500 ou 600 dólares anuais. O
Conselho da Paz é, de qualquer ponto de vista, uma brutal máquina de lucro para
a família Trump e suas elites corporativas próximas, construída, em sentido
literal, sobre as covas comuns do povo palestino.
<><> A articulação sionista e a
agenda de anexação de Netanyahu
A análise desta arquitetura corporativa
ficaria incompleta sem abordar seu motor ideológico: a convergência do
“Conselho da Paz” com a agenda do sionismo político e empresarial. Para o
governo de Benjamin Netanyahu, este projeto não representa uma imposição
estadunidense, mas uma vitória estratégica incalculável e uma extensão de seus
objetivos de anexação. Ao terceirizar a administração civil e a “reconstrução”
de Gaza para um consórcio internacional de caráter privado, Tel Aviv atinge uma
meta histórica: manter o controle territorial e de segurança sobre a Faixa,
lavando as mãos quanto à carga legal, demográfica e humanitária da população
ocupada. A execução desta agenda descansa sobre dois pilares fundamentais do
círculo íntimo de Trump, ambos vinculados às redes de financiamento político
pró-Israel que sustentam a ala pró-Netanyahu do Partido Republicano.
Por um lado, Jared Kushner aparece como o
arquiteto estratégico e econômico do plano. Tal como documentam as
investigações da Responsible Statecraft [7] sobre a natureza destes
fluxos corporativos, Kushner retoma a doutrina transacional de seus Acordos de
Abraão, buscando substituir os direitos políticos, históricos e de
autodeterminação do povo palestino pela promessa vazia de uma “paz econômica”
mercantilizada. Por outro lado, a materialização do projeto recai em Steve
Witkoff. Longe de ser um diplomata tradicional, este magnata imobiliário assume
o papel de negociador principal e executor-chave no terreno. Enquanto Kushner
projeta a estratégia a partir dos escritórios financeiros, Witkoff é o
encarregado da diplomacia direta e da aplicação de pressão sobre os líderes
regionais árabes. Sua trajetória como negociador próximo ao governo de
Netanyahu e seu papel como enviado especial de Trump para o Oriente Médio (Special
Envoy for Middle East Issues) explicam por que cada decisão operativa do
Conselho tende a alinhar-se e a blindar os objetivos de expansão territorial do
regime israelense. Em conjunto, como advertem analistas em Foreign
Policy in Focus (FPIF), ao catalogar o plano como um modelo de
subjugação colonial permanente, a dupla Kushner-Witkoff consolida um esquema em
que a suposta reconstrução opera como o golpe de graça na solução dos dois
Estados.
<><> Uma hierarquia sem voz
palestina
A natureza distópica da autodenominada
“Riviera” tem seu correlato exato no projeto hierárquico do organismo, que
consolida um modelo que analistas descrevem como um apartheid burocrático. O
“Conselho da Paz” é operado por comitês estruturados para garantir que o
capital estrangeiro e os interesses imperiais mantenham o domínio absoluto
sobre o território. Na cúspide piramidal situa-se o Comitê Executivo, presidido
por Trump e integrado por figuras como o secretário de Estado Marco Rubio, o
enviado Steve Witkoff, Jared Kushner, o ex-presidente do governo britânico Tony
Blair, o presidente do Banco Mundial Ajay Banga e representantes dos mediadores
regionais Catar, Egito e Turquia. Nenhum de seus membros é palestino.
No nível hierárquico seguinte encontra-se a
“Junta Executiva de Gaza”, responsável teórica pelos delineamentos estratégicos
de reconstrução; de novo, não conta com um único representante palestino. É
unicamente na base, desprovidos de autoridade real e poder de veto, que se
situam os integrantes da “Administração Nacional de Gaza”, formada por
tecnocratas locais. Apesar de serem os únicos com experiência legítima sobre o
terreno, impuseram-lhes um mandato sobre o qual não tiveram voz nem voto. Como
diz a analista Julie Norman, este modelo reflete uma visão de Gaza imposta do
exterior, tratando a Faixa não como uma sociedade com direito à
autodeterminação, mas como um “pátio de recreio para investimentos” (investment
playground). É um esquema de colonização moderna avalizado por uma rede
conceitual corporativa, denunciado até mesmo por acadêmicos no European
Journal of International Law (EJIL!), em que o futuro de uma nação se
decide nas salas de juntas corporativas do Ocidente.
<><> A miragem operativa e o
exílio burocrático no Egito
Apesar do colossal esquema propagandístico e
midiático, a realidade no terreno desnuda a inviabilidade do projeto. O poder
fático deste “Conselho da Paz” é uma miragem. Hani Mustafa, pesquisador
convidado do Conselho Europeu de Relações Exteriores (ECFR), expôs um paradoxo
humilhante: a entidade carece de capacidade operativa e seus comitês de
governança civil, encarregados de projetar o futuro da Palestina, nem sequer
puderam pôr um pé fisicamente em Gaza. Obrigados a operar do exílio burocrático
no Egito, o Conselho evidencia sua desconexão total com a realidade material do
conflito.
O projeto integral de reconstrução está
paralisado. Diante da impossibilidade de avançar, o organismo se viu forçado a
reduzir suas operações a “projetos-piloto” de acampamentos protegidos por uma
Força Internacional de Estabilização, cujo controvertido ingresso foi resenhado
pela Foundation for Defense of Democracies (FDD). À paralisia administrativa
contrapõe-se, no entanto, um dado revelador sobre as verdadeiras prioridades do
projeto: enquanto o plano integral de reconstrução civil permanece congelado, o
primeiro contrato de construção efetivamente assinado pelo Conselho não é para
moradias, hospitais ou infraestrutura civil, mas para um posto militar.
Como revelou The Guardian,
documentos de contratação filtrados em fevereiro de 2026 já antecipavam uma
base de 350 acres, com capacidade para 5 mil efetivos da Força Internacional de
Estabilização, construída em território de Gaza atualmente sob controle
israelense. Esta previsão se materializou em 6 de agosto de 2026, quando o
Conselho adjudicou o contrato à firma estadunidense Arkel International — com
antecedentes de obras para o governo dos Estados Unidos no Iraque — para
levantar um primeiro posto avançado destinado a 150 soldados marroquinos,
localizado a apenas 1,5 quilômetro da fronteira israelense, explicitamente
concebido como a fase inicial desta base maior. O próprio Conselho confirmou
ao The Guardian que se encontra nas “etapas finais” de
adjudicação de vários contratos mais, nenhum deles de reconstrução civil. A
mensagem é eloquente: o primeiro tijolo que o Conselho da Paz coloca em Gaza
não é para alojar uma família deslocada, mas para alojar tropas.
Várias ONGs internacionais fizeram soar o
alarme a esse respeito. Para organizações como DAWN (Democracy for the Arab
World Now), este movimento é um claro mecanismo para facilitar um controle
territorial não convencional. Na prática, isto se traduz no despejo sistemático
de propriedades palestinas sem compensação alguma, acentuando a subjugação
advertida pela FPIF. A esse respeito, Omar Shakir, diretor da DAWN, denunciou
que o esquema blinda seus executores com total imunidade processual diante de
possíveis crimes de guerra.
<><> A dupla moral dos mediadores
árabes
A criação do Conselho não só revelou as
ambições pessoais de seu artífice, como serviu como um catalisador para expor a
flagrante hipocrisia da comunidade internacional. Pelo menos 27 países
formalizaram seu compromisso de unir-se a esta plataforma de especulação
imobiliária e controle geopolítico. Nesta lista, destaca-se o oportunismo e a
dupla moral de nações como Egito, Turquia e Arábia Saudita. Durante décadas,
estes Estados articularam um discurso público de fraternidade, defesa do Islã e
solidariedade inquebrantável com a causa palestina. Não obstante, na hora da
verdade, claudicaram diante da pressão, desembolsando somas multimilionárias
para sentar-se à mesma mesa diretora que Israel e governos de extrema-direita,
como o da Hungria. Esta participação é uma traição histórica que legitima o
despejo territorial de Gaza. Embora estes governos pudessem argumentar que sua
presença busca mitigar os aspectos mais lesivos do plano a partir de dentro,
seus membros ativos não conseguiram modificar a natureza colonial do projeto.
Pelo contrário, outorgaram a ele um verniz de legitimidade internacional que,
de outra forma, não teria, validando um modelo que exclui de cara a voz
palestina. A cumplicidade, ainda que se vista de pragmatismo, continua sendo
cumplicidade.
Em um percurso diplomático bastante
revelador, a rejeição mais contundente na esfera de influência de Washington
veio de seus próprios aliados históricos. Potências da Organização do Tratado
do Atlântico Norte (Otan), como França e Reino Unido, expressaram dúvidas e
reservas sobre esta estrutura, sem somar-se a ela. As críticas na Europa são
lapidares. O relatório da Conferência de Segurança de Munique de 2026 (Munich
Security Report: Under Destruction) situa Donald Trump no mesmo nível que
aqueles líderes autocráticos que redefinem o papel de seu país no mundo a
partir de uma visão estreita e marcadamente pessoal dos interesses nacionais.
Para The Guardian, que teve
acesso a filtrações internas, o “Conselho da Paz” é pouco mais do que o “feudo
de Trump”, uma “corte imperial” e um “projeto de vaidade” projetado para
satisfazer a obsessão do mandatário por obter o Prêmio Nobel da Paz, enquanto
vulnerabiliza ativamente o direito internacional e a arquitetura da ONU.
<><> O muro da multipolaridade e
a resistência do Sul Global
Diante do modelo de diplomacia transacional
de Trump, o mundo multipolar ergueu um muro de contenção. Em um contexto em que
a comunidade internacional exige maior democratização dos espaços de poder, o
enfoque de “um líder, um clube” é anacrônico e inaceitável.
O bloco dos Brics+ respondeu com um ceticismo quase unânime à
arquitetura atual do Conselho, ainda que com matizes táticos. A China se
absteve (não votou contra) na Resolução 2803 e insistiu em que qualquer
mecanismo de paz deve subordinar-se ao marco institucional e legal do Conselho
de Segurança da ONU, uma posição reafirmada durante os contatos bilaterais com
o Brasil projetados pela Agência Anadolu. A Federação da Rússia, por sua vez,
advertiu que o Board of Peace não é mais que uma manobra
grosseira projetada para marginalizar as resoluções multilaterais e submeter a
solução de conflitos aos desígnios individuais da presidência estadunidense.
Na América Latina, o governo do Brasil,
encabeçado por Luiz Inácio Lula da Silva, foi uma das vozes críticas mais
firmes. Brasília condicionou qualquer aproximação ao Conselho a que este limite
seu mandato a Gaza e outorgue um assento à Palestina — uma exigência que, na
prática, funciona como rejeição aos termos atuais do projeto. Lula foi mais
longe no terreno público: acusou Trump de querer “criar uma nova ONU” da qual
ele seja “o dono”, e reiterou que qualquer reforma do sistema multilateral deve
passar por uma ampliação real do Conselho de Segurança, não por um clube
paralelo sob controle pessoal de Washington.
<><> A barbárie
institucionalizada
O “Conselho da Paz” passará para a história
não como um instrumento de estabilização, mas como a expressão máxima da
decadência do sistema unipolar. Representa o clímax do neoliberalismo aplicado
à geopolítica: a privatização da paz, a monetarização da tragédia humana e a
transformação de um genocídio em uma carteira de bens de raiz em frente ao
Mediterrâneo. Ao subordinar a reconstrução de Gaza às ambições egocêntricas de
Donald Trump e ao afã de lucro de seu círculo íntimo, o Conselho garante a
perpetuação do sofrimento palestino. Na segunda-feira (17), enquanto os
primeiros contingentes desta força internacional de estabilização se deslocam
sobre as cinzas de Gaza para custodiar os alicerces de futuros condomínios em
lugar de proteger vidas humanas, a miragem se desvanece. Simultaneamente, ao
marginalizar a ONU e alienar tanto aliados europeus quanto o pujante bloco
multipolar dos Brics+, esta iniciativa acelera inexoravelmente a fragmentação e
a perda de confiança nas instituições internacionais. O mundo não assiste à
iluminação de uma nova ordem de paz, e sim à institucionalização da barbárie
com fins de lucro.
Fonte:
Por Juan Alberto Sánchez Marín, para Centro Latino-Americano de Análise
Estratégica - Tradução: Ana Corbisier, para Diálogos do Sul Global

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