segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Aos 16 anos, ela ainda não sabia ler nem escrever. Conheça a trajetória de Marina Silva

os 16 anos, Marina Silva ainda não sabia ler nem escrever. Anos depois, ela se tornaria uma das principais vozes do mundo na defesa do meio ambiente, em uma trajetória marcada pela educação, pela luta social e pela defesa da Amazônia.

<><> Uma Infância na Floresta

Nascida em 8 de fevereiro de 1958 na colocação Breu Velho, no Seringal Bagaço, no Acre, Maria Osmarina Marina Silva de Souza era filha de Pedro Augusto e Maria Augusta, retirantes nordestinos que haviam migrado para a Amazônia em busca de sobrevivência. Em meio à dura realidade dos seringueiros, Marina cresceu em um ambiente de extrema simplicidade e privações. “Eu acordava sempre às 4h da manhã, cortava uns gravetos, pegava uns pedaços de seringueiras, acendia o fogo, fazia o café e uma salada de banana perriá com ovo. Esse era o nosso café da manhã”, recordaria mais tarde.

A família era numerosa: dos onze filhos do casal, três morreram ainda pequenos. Marina, a segunda mais velha entre os oito sobreviventes, precisou ajudar desde cedo no corte da seringa e no plantio de roçados para o sustento da família. O acesso à educação era um privilégio distante. Aos 14 anos, aprendeu as quatro operações básicas de matemática com outro seringueiro.

Aos 15 anos, Marina perdeu a mãe e passou a assumir responsabilidades pela casa e pelos irmãos. Aos 16, contraiu hepatite e precisou buscar tratamento médico em Rio Branco. Seu histórico de saúde incluía ainda episódios de malária e uma leishmaniose, doenças associadas às condições precárias de vida na floresta.

<><> O Encontro com a Educação

Foi nessa migração para a cidade que sua vida se transformaria radicalmente. Marina tinha um sonho antigo: tornar-se freira. Mas, como a avó lhe dizia, “freira não pode ser analfabeta”. Aproveitando a oportunidade de estar em Rio Branco para tratamento de saúde, ela se dedicou à vida religiosa e, ao mesmo tempo, começou a estudar.

Com a permissão do pai, deixou a floresta e, para se sustentar na capital, trabalhou como empregada doméstica, estudando durante as madrugadas. Foi por meio do Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral) que Marina começou a aprender a ler e escrever.

Depois do Mobral, cursou o ensino supletivo e ingressou no curso de História da Universidade Federal do Acre. Em 1984, formou-se em História, após ter sido aprovada em 18º lugar no vestibular.

Sua formação foi complementada com pós-graduação em Psicopedagogia e Teoria Psicanalítica, além de títulos de Doutora Honoris Causa concedidos pela Universidade Federal da Bahia e pela Academia Chinesa de Silvicultura.

<><> O Despertar do Ativismo

Foi nesse período que sua vida se entrelaçou com a causa ambiental e a luta social. Sua iniciação política esteve ligada às Comunidades Eclesiais de Base e aos movimentos sociais da Igreja Católica. Em 1979, Marina conheceu o líder seringueiro Chico Mendes durante uma atividade de formação de lideranças promovida pela Comissão Pastoral da Terra.

Em 1984, Marina ajudou a fundar a Central Única dos Trabalhadores (CUT) no Acre, ao lado de Chico Mendes, que foi o primeiro coordenador da entidade, enquanto ela atuava como vice-coordenadora. Enquanto Chico liderava os seringueiros em Xapuri, Marina assumia boa parte da liderança do movimento sindical no estado.

A morte de Chico Mendes, assassinado em dezembro de 1988, marcou profundamente sua trajetória. O líder seringueiro, que lutava pela preservação da floresta e pelos direitos dos trabalhadores extrativistas, tornou-se um símbolo internacional da defesa da Amazônia.

<><> A Carreira Política

A carreira política de Marina Silva deslanchou rapidamente. Em 1988, foi eleita vereadora de Rio Branco e tornou-se a mais votada daquela eleição. Em 1990, chegou à Assembleia Legislativa do Acre com 3.331 votos, também como a candidata mais votada.

Em 1994, aos 36 anos, tornou-se a senadora mais jovem da história do Brasil, eleita com mais de 64 mil votos no Acre. Reeleita para o Senado em 2002, aceitou o convite do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e assumiu o Ministério do Meio Ambiente, cargo que ocupou de 2003 a 2008.

<><> Legado Ambiental

À frente do Ministério do Meio Ambiente, Marina Silva participou da implementação de políticas públicas de combate ao desmatamento que se tornaram referência internacional. Entre 2004 e 2012, o desmatamento na Amazônia caiu 84%, em uma trajetória de redução que começou durante sua gestão e continuou após sua saída do ministério.

Seu trabalho lhe rendeu diversos prêmios, incluindo o Goldman Environmental Prize, uma das principais premiações ambientais do mundo, e o Champions of the Earth, concedido pela Organização das Nações Unidas.

Em 2023, Marina Silva retornou ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, em um contexto de intensos debates sobre políticas climáticas e reconstrução institucional. Em novembro de 2025, participou ativamente da atuação brasileira na COP30, realizada em Belém, no coração da Amazônia.

Marina também tem defendido que o enfrentamento da crise climática seja articulado ao combate à desigualdade. Essa perspectiva esteve presente em sua atuação internacional e nas discussões sobre justiça climática durante a COP30.

Seu compromisso com essa agenda lhe rendeu, em 2025, o Prêmio de Liderança em Desenvolvimento Sustentável do TERI, concedido em reconhecimento à sua atuação em favor do desenvolvimento sustentável e da ação climática.

Marina Silva foi candidata à Presidência da República em três oportunidades — 2010, 2014 e 2018 — apresentando propostas voltadas ao desenvolvimento sustentável, ao combate às desigualdades e à modernização institucional do país. Em 2015, a Rede Sustentabilidade obteve seu registro partidário na Justiça Eleitoral.

Sua história, que começou com uma alfabetização tardia, tornou-se um exemplo da capacidade de transformação proporcionada pela educação. Dos seringais do Acre aos principais fóruns internacionais sobre clima, Marina construiu uma trajetória política marcada pela defesa da Amazônia, dos povos tradicionais e de políticas de desenvolvimento sustentável.

 

Fonte: Por Yuri Ferreira, para Fórum

 

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