segunda-feira, 24 de agosto de 2026

África Central: riqueza mineral e passado colonialista alimentam conflitos e crises humanitárias

Especialistas ouvidas pelo Mundioka apontam que a exploração de recursos estratégicos por atores externos, somada à fragilidade dos Estados e às heranças do colonialismo, ajuda a explicar a instabilidade e os deslocamentos forçados na região.

Abrangendo do Chade a Angola, a África Central possui uma enorme riqueza em biodiversidade, cultura e recursos naturais. A região abriga a bacia do Congo, que contém a segunda maior floresta tropical do mundo e o segundo maior rio em volume de água do planeta, além de ser o lar de mais de 400 espécies de mamíferos – como gorilas e elefantes – mais de mil espécies de aves – como o pavão-do-congo – e mais de 700 espécies de peixes adaptados para rios – como o peixe-tigre-golias.

Embora inclua nove países oficiais segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), esse número pode chegar a 11 se considerados Ruanda e Burundi, que participam de blocos regionais, como a Comunidade Econômica dos Estados da África Central (CEEAC/ECCAS). Culturalmente falando, estima-se que existam entre 250 e 300 grupos étnicos na região, tanto por conta das características geográficas existentes quanto pela presença destruidora e agregadora do colonialismo europeu.

No aspecto geopolítico, o colonialismo ainda está presente, especialmente na República Democrática do Congo (RDC), Chade e Gabão, sobretudo no domínio de minerais estratégicos e disputa por territórios. Corporações transnacionais e potências globais exercem forte controle econômico sobre recursos como o cobalto, o petróleo e o coltan.

Essa dependência externa perpetua a exportação de matérias-primas sem valor agregado, deixando os Estados locais vulneráveis a pressões políticas e econômicas externas em uma clara dinâmica de neocolonialismo.

<>< Instabilidade como forma de controle de recursos estratégicos

Camila Andrade, professora na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e research fellow no Institute for Pan-African Thought and Conversation da Universidade de Joanesburgo, na África do Sul, pontua que a instabilidade na região dos Grandes Lagos, envolvendo Ruanda e RDC, não pode ser compreendida apenas a partir dos combates recentes, já que resulta de processos que se desenvolvem há décadas e envolvem dinâmicas domésticas, regionais e extracontinentais.

Como explica, a crise tem raízes nas décadas de 1990 e 2000 e também está ligada às consequências da colonização. Conflitos iniciados internamente acabaram transbordando para países vizinhos, fazendo com que questões domésticas tivessem consequências transfronteiriças e afetassem segurança, desenvolvimento e comércio regional.

Sobretudo a atuação de atores externos na exploração dos recursos minerais também coloca em debate a soberania do Congo, ressaltando que minerais extraídos no território congolês estão presentes em produtos tecnológicos utilizados globalmente, enquanto empresas estrangeiras participam da exploração.

"Quando a gente vê quais são os celulares que a gente está utilizando, quais são os computadores que estamos utilizando, ou seja, o que está relacionado com tecnologia, geralmente esses recursos vêm da República Democrática do Congo."

Por isso, é preciso questionar quem controla essas riquezas e para onde elas são direcionadas. Essa relação também ajuda a explicar por que o conflito interessa a atores de fora do continente.

"A gente não pode achar que a questão na República Democrática do Congo é algo isolado, é algo que é de política doméstica."

Andrade também critica a falta de atenção internacional para conflitos africanos, vendo que a redução do interesse das grandes potências pelo continente após o fim da Guerra Fria coincidiu com a eclosão ou o agravamento de diferentes conflitos, muitos dos quais recebem pouca cobertura da mídia internacional. Assim, isso contribui para que as conexões entre segurança, exploração econômica e heranças coloniais permaneçam pouco discutidas.

Nesse sentido, ela rejeita interpretações que tratam os problemas de Estados africanos a partir de categorias construídas exclusivamente com base na experiência colonial, mas também na continuação de uma nova forma de dominação. Para ela, a independência política não significou necessariamente o rompimento de todos os vínculos econômicos, sociais e institucionais com as antigas metrópoles.

Em destaque, a dificuldade de o Estado congolês exercer plenamente suas funções ajuda a explicar a permanência de interesses externos no país. Andrade cita como exemplo o fato de a emissão do passaporte do Congo envolver, até recentemente, o pagamento de uma taxa a uma empresa belga. O contrato com a belga Semlex foi encerrado em 2020 e, posteriormente, o país firmou parceria com uma companhia da Alemanha. Situações desse tipo mostram como elementos básicos de um Estado soberano podem permanecer vinculados a estruturas herdadas do período colonial.

"A gente não pode achar que a questão na República Democrática do Congo é algo isolado." Andrade avalia ainda que, caso houvesse interesse efetivo das potências ocidentais em solucionar a crise, elas teriam capacidade para atuar de maneira mais decisiva.

"Se fosse do interesse deles, eles já teriam dado suporte, intervindo de alguma forma."

<><> Crise humanitária fruto do neocolonialismo e dos conflitos armados

"Ainda há a permanência do imperialismo", diz Lucineia Rosa dos Santos, advogada, professora e doutora em direitos humanos pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Segundo ela, essa dinâmica mudou de países para empresas internacionais.

Com isso, embora a versão tradicional tenha chegado ao fim, corporações estrangeiras — em especial, europeias — continuam a explorar os recursos locais sem transferir tecnologia ou promover o desenvolvimento socioeconômico regional. Essa exploração predatória perpetua uma profunda vulnerabilidade econômica em nações historicamente ricas em recursos naturais.

Essa fragilidade estrutural remonta à Partilha da África, período em que potências europeias fragmentaram etnias, histórias e comunidades ao imporem fronteiras artificiais. Sob o domínio colonial, as disputas locais foram silenciadas pela força do colonizador, que priorizou unicamente a extração de riquezas. Após os processos de independência, os conflitos territoriais e étnicos antes reprimidos ressurgiram, perpetuando-se por décadas.

A contradição entre a abundância de recursos e a miséria social é nítida na RDC, país marcado pela dependência da exportação de matérias-primas e de onde provém uma parcela significativa dos refugiados acolhidos no Brasil.

De acordo com Santos, o subsolo congolês atrai o interesse predatório global por possuir uma das maiores reservas de minérios estratégicos do continente, como o lítio. Diante disso, iniciativas locais que buscam o progresso democrático são sistematicamente esmagadas pelas estruturas de poder vigentes. "À medida que esses grupos lutam, esses grupos acabam sendo vencidos. E é onde muitas vezes se propõe, se tem o maior número de refugiados."

Para ela, a desigualdade e a emigração em massa só cessarão quando houver "uma consciência dessa riqueza e dessa transformação para dentro desse país."

A violência é agravada pela atuação de milícias armadas, cujo principal impacto sobre a população civil é o deslocamento forçado pelo medo. O impacto humanitário atinge de maneira desproporcional os grupos mais vulneráveis.

Ao desembarcarem em portos como o de Santos, essas pessoas buscam o protocolo de refúgio com o amparo de instituições humanitárias como a Caritas e a Missão Paz. Assim, a decisão de abandonar a própria pátria decorre da total impossibilidade de resistência física e política. Na avaliação da especialista em direitos humanos, as organizações regionais não possuem a musculatura suficiente para lidar com os problemas internos e repreender violações de direitos humanos cometidos.

"Isso tudo é o temor, é o medo… Contra quem, contra o quê e de que forma você vai lutar? Então você acaba sendo vencido e sai em refúgio dessas regiões."

¨      Produção de minerais críticos cresce à medida que aumenta a procura global

Foram identificados mais de 30 minerais críticos no Uzbequistão, com 76 projetos de investimento de cerca de 2,4 mil milhões de euros em curso. Novas unidades de extração e transformação visam materiais para veículos eléctricos, semicondutores e energias renováveis

A procura de minerais críticos utilizados em veículos elétricos, semicondutores e sistemas de energias renováveis está a aumentar a nível global, numa altura em que o Uzbequistão amplia projetos de extração e processamento em várias regiões industriais.

Segundo dados oficiais, foram identificados no país mais de 30 tipos de minerais críticos, com 76 projetos de investimento em curso envolvendo 28 elementos raros, avaliados em cerca de 2,4 mil milhões de euros.

Regiões ricas em recursos minerais, como Almalyk, Navoi e Surkhandarya, albergam jazigos de cobre, molibdénio, tungsténio, lítio, nióbio, tântalo, rénio e outros metais raros.

<><> Base industrial e histórico de produção

Um dos principais intervenientes no setor é o Complexo Mineiro e Metalúrgico de Almalyk, uma das maiores empresas industriais da Ásia Central e importante produtor de cobre. O complexo integra, num único sistema de produção, operações de extração, processamento e fundição.

«Os trabalhos de construção em Kalmakyr começaram em 1954 e, em 1959, a mina entrou em funcionamento. Desde então, a extração de minério não parou e mais de mil milhões de toneladas foram enviadas para processamento», afirmou Feruz Tursunov, diretor do Departamento de Produção e Técnica da Divisão Mineira de Kalmakyr. Segundo o responsável, a produção mantém-se em níveis elevados.

«Hoje, a divisão mineira de Kalmakyr extrai mais de 38 milhões de toneladas de minério por ano.»

O complexo emprega mais de 35 000 trabalhadores e produz cobre, zinco, ouro, prata e metais associados, como molibdénio, tungsténio e rénio.

<><> Projeto Yoshlik-1

Yoshlik-1 é um dos maiores projetos mineiros atualmente em desenvolvimento no setor. A jazida, cuja exploração intensiva começou em 2017, integra o sistema mineiro de Almalyk e está a ser desenvolvida por fases, devido à sua dimensão e complexidade geológica.

«Antes de 2017, o jazigo era conhecido por outro nome e era considerado difícil de explorar devido ao grande volume de estéreis a remover. Após trabalhos adicionais de prospeção e a cooperação com empresas internacionais, as reservas foram substancialmente revistas», explicou Vyacheslav Aminov, geólogo-chefe da Direção Yoshlik-1.

Sublinhou que a jazida é polimetálica.

«Extraímos cobre, ouro, prata, molibdénio e também metais raros como rénio, selénio e telúrio», disse. «As reservas aumentaram cerca de 2,5 vezes face às estimativas anteriores. Segundo as projeções atuais, a jazida pode sustentar a produção durante mais de 50 anos.»

De acordo com os engenheiros no local, já foram removidos mais de 248 milhões de metros cúbicos de estéreis e construídos cerca de 45 quilómetros de infraestrutura ferroviária para o transporte de minério. Estão atualmente em operação mais de 400 unidades de maquinaria pesada de exploração mineira.

<><> Reformas institucionais e política de minerais críticos

Em 2024, o Uzbequistão criou o Complexo de Metais Tecnológicos do Uzbequistão, encarregado de coordenar o desenvolvimento de minerais críticos desde a prospeção até ao processamento.

«O Complexo de Metais Tecnológicos foi criado para gerir toda a cadeia, desde a exploração geológica até à produção de bens com valor acrescentado», afirmou o vice-ministro Urol Yusupov. «O objetivo não é apenas a extração, mas também desenvolver o processamento dentro do país.»

A instituição está a desenvolver clusters de processamento de tungsténio e molibdénio, bem como projetos ligados ao lítio, grafite, tântalo, nióbio e magnésio. Estuda igualmente formas de tratar resíduos tecnogénicos de atividades mineiras anteriores.

Até 2030, o governo pretende alargar a gama de minerais processados.

«O Uzbequistão está entre os cinco países com maiores reservas de tungsténio no mundo», referiu Yusupov, citando estimativas oficiais.

Adiantou ainda que a lista de minerais críticos deverá ser alargada.

«Atualmente concentramo-nos essencialmente em tungsténio, molibdénio, selénio, telúrio e rénio. Mas, até 2030, a lista de minerais críticos deverá incluir cerca de mais 12 elementos.»

Estão igualmente em curso testes-piloto de extração de lítio.

«A partir deste ano, iniciamos o aproveitamento de jazidas de grafite», indicou.

Outros minerais, entre os quais tântalo, nióbio e magnésio, estão previstos para fases posteriores de desenvolvimento.

«A nossa estratégia não passa pela exportação de matérias-primas, mas sim pela criação de uma cadeia de valor acrescentado dentro do país», acrescentou Yusupov.

Entre os clusters industriais previstos contam-se a produção de tungsténio na região de Samarcanda e o processamento de molibdénio na região de Tashkent.

<><> Cooperação internacional

O Uzbequistão está também a reforçar a cooperação com parceiros estrangeiros em investigação e tecnologia.

«Assinámos acordos de cooperação com a União Europeia, os Estados Unidos, o Canadá, a Coreia do Sul e a China no domínio dos minerais críticos e das tecnologias avançadas», disse Yusupov.

Os projetos conjuntos incluem trabalhos com a KU Leuven, na Bélgica, sobre extração de rénio, e com a canadiana SGS em tecnologias de lítio.

«Desde 2025 conseguimos extrair rénio com uma pureza de 99,99%. Como resultado, começámos a exportar rénio refinado», afirmou.

Prosseguem igualmente testes-piloto para a extração de lítio.

<><> Produção de zinco e aspectos ambientais

Na unidade de produção de zinco de Almalyk, as operações incluem tratamento de gases residuais e recuperação de subprodutos.

«Produzimos zinco, cádmio e ácido sulfúrico. Além disso, fabricamos subprodutos como sulfato de zinco e pó de óxido de zinco», explicou Saidullo Abdurakhmonov, engenheiro-chefe da Fábrica de Zinco.

Explicou que as emissões de dióxido de enxofre resultantes da produção são captadas e transformadas em ácido sulfúrico.

«A finalidade da fábrica de ácido sulfúrico é captar esses gases e convertê-los em produtos úteis, em vez de os libertar na atmosfera.»

A produção anual de ácido sulfúrico atinge 180 000 toneladas, fornecidas sobretudo às indústrias químicas e de fertilizantes do país.

¨      UE está muito atrás de EUA e China na corrida por minerais críticos, alerta jornal

A União Europeia (UE) está perdendo para os EUA e a China em uma corrida por minerais essenciais, escreve jornal britânico, citando autoridades europeias e fontes da indústria.

"A UE está ficando ainda mais atrás dos EUA em sua busca por minerais de importância crítica [...]. A indústria alerta que ele [o bloco] está avançando muito lentamente", afirma a publicação.

O jornal observa que esses minerais são necessários no setor de defesa e no campo das tecnologias verdes, e Bruxelas está muito atrás de Washington na questão de seu fornecimento: se os EUA anunciaram cerca de US$ 40 bilhões (aproximadamente R$ 207,5 bilhões) em investimentos em projetos relacionados a esse campo desde 2022, em Bruxelas, apenas 6 bilhões de dólares (cerca de R$ 31,1 bilhões) foram alocados para tais projetos ao longo de 18 meses.

Como disse o diretor-executivo da EIT RawMaterials, Bernd Schafer, à publicação, existe o risco de que, em termos de dependência de metais de terras raras, os Estados Unidos possam se tornar a "segunda China" para a Europa.

A China controla cerca de 70% do fornecimento dos elementos de terras raras do mundo e até 90% do seu processamento, essencial para a produção de eletrônica e veículos elétricos. Em fevereiro, os EUA reconheceram que dependem em mais de 90% de importações de cerca de 25 minerais essenciais.

 

Fonte: Sputnik Brasil/Euronews

 

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