África
Central: riqueza mineral e passado colonialista alimentam conflitos e crises
humanitárias
Especialistas ouvidas pelo Mundioka apontam
que a exploração de recursos estratégicos por atores externos, somada à
fragilidade dos Estados e às heranças do colonialismo, ajuda a explicar a
instabilidade e os deslocamentos forçados na região.
Abrangendo do Chade a Angola, a África
Central possui uma enorme riqueza em biodiversidade, cultura e recursos
naturais. A região abriga a bacia do Congo, que contém a segunda
maior floresta tropical do mundo e o segundo maior rio em volume de água do
planeta, além de ser o lar de mais de 400 espécies de mamíferos – como gorilas
e elefantes – mais de mil espécies de aves – como o pavão-do-congo – e mais de
700 espécies de peixes adaptados para rios – como o peixe-tigre-golias.
Embora inclua nove países
oficiais segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), esse número
pode chegar a 11 se considerados Ruanda e Burundi, que participam de
blocos regionais, como a Comunidade Econômica dos Estados da África Central
(CEEAC/ECCAS). Culturalmente falando, estima-se que existam entre 250 e
300 grupos étnicos na região, tanto por conta das características geográficas
existentes quanto pela presença destruidora e agregadora do colonialismo
europeu.
No aspecto geopolítico, o colonialismo
ainda está presente, especialmente na República Democrática do Congo (RDC),
Chade e Gabão, sobretudo no domínio de minerais estratégicos e disputa por
territórios. Corporações transnacionais e potências globais exercem forte
controle econômico sobre recursos como o cobalto, o petróleo e o coltan.
Essa dependência externa perpetua a
exportação de matérias-primas sem valor agregado, deixando os Estados
locais vulneráveis a pressões políticas e econômicas externas em
uma clara dinâmica de neocolonialismo.
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Instabilidade como forma de controle de recursos estratégicos
Camila Andrade, professora na Universidade
Federal da Bahia (UFBA) e research fellow no Institute for Pan-African Thought
and Conversation da Universidade de Joanesburgo, na África do Sul, pontua que a
instabilidade na região dos Grandes Lagos, envolvendo Ruanda e RDC, não pode
ser compreendida apenas a partir dos combates recentes, já que resulta de
processos que se desenvolvem há décadas e envolvem dinâmicas domésticas,
regionais e extracontinentais.
Como explica, a crise tem raízes nas décadas
de 1990 e 2000 e também está ligada às consequências da colonização. Conflitos
iniciados internamente acabaram transbordando para países vizinhos, fazendo com
que questões domésticas tivessem consequências transfronteiriças e afetassem
segurança, desenvolvimento e comércio regional.
Sobretudo a atuação de atores externos na
exploração dos recursos minerais também coloca em debate a soberania do Congo,
ressaltando que minerais extraídos no território congolês estão presentes em
produtos tecnológicos utilizados globalmente, enquanto empresas estrangeiras
participam da exploração.
"Quando a gente vê quais são os
celulares que a gente está utilizando, quais são os computadores que estamos
utilizando, ou seja, o que está relacionado com tecnologia, geralmente esses
recursos vêm da República Democrática do Congo."
Por isso, é preciso questionar quem
controla essas riquezas e para onde elas são direcionadas. Essa relação também
ajuda a explicar por que o conflito interessa a atores de fora do continente.
"A gente não pode achar que a questão na
República Democrática do Congo é algo isolado, é algo que é de política
doméstica."
Andrade também critica a falta de atenção
internacional para conflitos africanos, vendo que a redução do interesse das
grandes potências pelo continente após o fim da Guerra Fria coincidiu com a
eclosão ou o agravamento de diferentes conflitos, muitos dos quais recebem
pouca cobertura da mídia internacional. Assim, isso contribui para que as
conexões entre segurança, exploração econômica e heranças coloniais permaneçam
pouco discutidas.
Nesse sentido, ela rejeita interpretações que
tratam os problemas de Estados africanos a partir de categorias construídas
exclusivamente com base na experiência colonial, mas também na continuação
de uma
nova forma de dominação. Para ela, a
independência política não significou necessariamente o rompimento de todos os
vínculos econômicos, sociais e institucionais com as antigas metrópoles.
Em destaque, a dificuldade de o Estado
congolês exercer plenamente suas funções ajuda a explicar a permanência de
interesses externos no país. Andrade cita como exemplo o fato de a emissão do
passaporte do Congo envolver, até recentemente, o pagamento de uma taxa a uma
empresa belga. O contrato com a belga Semlex foi encerrado em 2020 e,
posteriormente, o país firmou parceria com uma companhia da Alemanha. Situações
desse tipo mostram como elementos básicos de um Estado soberano podem
permanecer vinculados a estruturas herdadas do período colonial.
"A gente não pode achar que a questão na
República Democrática do Congo é algo isolado." Andrade avalia ainda
que, caso houvesse interesse efetivo das potências ocidentais em solucionar a
crise, elas teriam capacidade para atuar de maneira mais decisiva.
"Se fosse do interesse deles, eles já
teriam dado suporte, intervindo de alguma forma."
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Crise humanitária fruto do neocolonialismo e dos conflitos armados
"Ainda há a permanência do
imperialismo", diz Lucineia Rosa dos Santos, advogada, professora e
doutora em direitos humanos pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
(PUC-SP). Segundo ela, essa dinâmica mudou de países para empresas
internacionais.
Com isso, embora a versão tradicional tenha
chegado ao fim, corporações estrangeiras — em especial, europeias — continuam a
explorar os recursos locais sem transferir tecnologia ou promover o
desenvolvimento socioeconômico regional. Essa exploração predatória
perpetua uma profunda vulnerabilidade econômica em nações historicamente ricas
em recursos naturais.
Essa fragilidade estrutural remonta
à Partilha da África, período em que potências europeias fragmentaram
etnias, histórias e comunidades ao imporem fronteiras artificiais. Sob o
domínio colonial, as disputas locais foram silenciadas pela força do colonizador,
que priorizou unicamente a extração de riquezas. Após os processos de
independência, os conflitos territoriais e étnicos antes reprimidos
ressurgiram, perpetuando-se por décadas.
A contradição entre a abundância de recursos
e a miséria social é nítida na RDC, país marcado pela dependência da exportação
de matérias-primas e de onde provém uma parcela significativa dos refugiados
acolhidos no Brasil.
De acordo com Santos, o subsolo congolês
atrai o interesse predatório global por possuir uma das maiores reservas de
minérios estratégicos do continente, como o lítio. Diante disso, iniciativas
locais que buscam o progresso democrático são sistematicamente esmagadas pelas
estruturas de poder vigentes. "À medida que esses grupos lutam, esses
grupos acabam sendo vencidos. E é onde muitas vezes se propõe, se tem o maior
número de refugiados."
Para ela, a desigualdade e a emigração em
massa só cessarão quando houver "uma consciência dessa riqueza e dessa
transformação para dentro desse país."
A violência é agravada pela atuação de
milícias armadas, cujo principal impacto sobre a população civil é o
deslocamento forçado pelo medo. O impacto humanitário atinge de maneira
desproporcional os grupos mais vulneráveis.
Ao desembarcarem em portos como o de Santos,
essas pessoas buscam o protocolo de refúgio com o amparo de instituições
humanitárias como a Caritas e a Missão Paz. Assim, a decisão de abandonar a
própria pátria decorre da total impossibilidade de resistência física e
política. Na avaliação da especialista em direitos humanos, as
organizações regionais não possuem a musculatura suficiente para lidar com os
problemas internos e repreender violações de direitos humanos cometidos.
"Isso tudo é o temor, é o
medo… Contra quem, contra o quê e de que forma você vai lutar? Então você
acaba sendo vencido e sai em refúgio dessas regiões."
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Produção de minerais
críticos cresce à medida que aumenta a procura global
Foram identificados mais de 30 minerais
críticos no Uzbequistão, com 76 projetos de investimento de cerca de 2,4 mil
milhões de euros em curso. Novas unidades de extração e transformação visam
materiais para veículos eléctricos, semicondutores e energias renováveis
A procura de minerais críticos utilizados em
veículos elétricos, semicondutores e sistemas de energias renováveis está a
aumentar a nível global, numa altura em que o Uzbequistão amplia projetos de
extração e processamento em várias regiões industriais.
Segundo dados oficiais, foram identificados
no país mais de 30 tipos de minerais críticos, com 76 projetos de investimento
em curso envolvendo 28 elementos raros, avaliados em cerca de 2,4 mil milhões
de euros.
Regiões ricas em recursos minerais, como
Almalyk, Navoi e Surkhandarya, albergam jazigos de cobre, molibdénio,
tungsténio, lítio, nióbio, tântalo, rénio e outros metais raros.
<><> Base industrial e histórico
de produção
Um dos principais intervenientes no setor é o
Complexo Mineiro e Metalúrgico de Almalyk, uma das maiores empresas industriais
da Ásia Central e importante produtor de cobre. O complexo integra, num único
sistema de produção, operações de extração, processamento e fundição.
«Os trabalhos de construção em Kalmakyr
começaram em 1954 e, em 1959, a mina entrou em funcionamento. Desde então, a
extração de minério não parou e mais de mil milhões de toneladas foram enviadas
para processamento», afirmou Feruz Tursunov, diretor do Departamento de
Produção e Técnica da Divisão Mineira de Kalmakyr. Segundo o responsável, a
produção mantém-se em níveis elevados.
«Hoje, a divisão mineira de Kalmakyr extrai
mais de 38 milhões de toneladas de minério por ano.»
O complexo emprega mais de 35 000
trabalhadores e produz cobre, zinco, ouro, prata e metais associados, como
molibdénio, tungsténio e rénio.
<><> Projeto Yoshlik-1
Yoshlik-1 é um dos maiores projetos mineiros
atualmente em desenvolvimento no setor. A jazida, cuja exploração intensiva
começou em 2017, integra o sistema mineiro de Almalyk e está a ser desenvolvida
por fases, devido à sua dimensão e complexidade geológica.
«Antes de 2017, o jazigo era conhecido por
outro nome e era considerado difícil de explorar devido ao grande volume de
estéreis a remover. Após trabalhos adicionais de prospeção e a cooperação com
empresas internacionais, as reservas foram substancialmente revistas», explicou
Vyacheslav Aminov, geólogo-chefe da Direção Yoshlik-1.
Sublinhou que a jazida é polimetálica.
«Extraímos cobre, ouro, prata, molibdénio e
também metais raros como rénio, selénio e telúrio», disse. «As reservas
aumentaram cerca de 2,5 vezes face às estimativas anteriores. Segundo as
projeções atuais, a jazida pode sustentar a produção durante mais de 50 anos.»
De acordo com os engenheiros no local, já
foram removidos mais de 248 milhões de metros cúbicos de estéreis e construídos
cerca de 45 quilómetros de infraestrutura ferroviária para o transporte de
minério. Estão atualmente em operação mais de 400 unidades de maquinaria pesada
de exploração mineira.
<><> Reformas institucionais e
política de minerais críticos
Em 2024, o Uzbequistão criou o Complexo de
Metais Tecnológicos do Uzbequistão, encarregado de coordenar o desenvolvimento
de minerais críticos desde a prospeção até ao processamento.
«O Complexo de Metais Tecnológicos foi criado
para gerir toda a cadeia, desde a exploração geológica até à produção de bens
com valor acrescentado», afirmou o vice-ministro Urol Yusupov. «O objetivo não
é apenas a extração, mas também desenvolver o processamento dentro do país.»
A instituição está a desenvolver clusters de
processamento de tungsténio e molibdénio, bem como projetos ligados ao lítio,
grafite, tântalo, nióbio e magnésio. Estuda igualmente formas de tratar
resíduos tecnogénicos de atividades mineiras anteriores.
Até 2030, o governo pretende alargar a gama
de minerais processados.
«O Uzbequistão está entre os cinco países com
maiores reservas de tungsténio no mundo», referiu Yusupov, citando estimativas
oficiais.
Adiantou ainda que a lista de minerais
críticos deverá ser alargada.
«Atualmente concentramo-nos essencialmente em
tungsténio, molibdénio, selénio, telúrio e rénio. Mas, até 2030, a lista de
minerais críticos deverá incluir cerca de mais 12 elementos.»
Estão igualmente em curso testes-piloto de
extração de lítio.
«A partir deste ano, iniciamos o
aproveitamento de jazidas de grafite», indicou.
Outros minerais, entre os quais tântalo,
nióbio e magnésio, estão previstos para fases posteriores de desenvolvimento.
«A nossa estratégia não passa pela exportação
de matérias-primas, mas sim pela criação de uma cadeia de valor acrescentado
dentro do país», acrescentou Yusupov.
Entre os clusters industriais previstos
contam-se a produção de tungsténio na região de Samarcanda e o processamento de
molibdénio na região de Tashkent.
<><> Cooperação internacional
O Uzbequistão está também a reforçar a
cooperação com parceiros estrangeiros em investigação e tecnologia.
«Assinámos acordos de cooperação com a União
Europeia, os Estados Unidos, o Canadá, a Coreia do Sul e a China no domínio dos
minerais críticos e das tecnologias avançadas», disse Yusupov.
Os projetos conjuntos incluem trabalhos com a
KU Leuven, na Bélgica, sobre extração de rénio, e com a canadiana SGS em
tecnologias de lítio.
«Desde 2025 conseguimos extrair rénio com uma
pureza de 99,99%. Como resultado, começámos a exportar rénio refinado»,
afirmou.
Prosseguem igualmente testes-piloto para a
extração de lítio.
<><> Produção de zinco e aspectos
ambientais
Na unidade de produção de zinco de Almalyk,
as operações incluem tratamento de gases residuais e recuperação de
subprodutos.
«Produzimos zinco, cádmio e ácido sulfúrico.
Além disso, fabricamos subprodutos como sulfato de zinco e pó de óxido de
zinco», explicou Saidullo Abdurakhmonov, engenheiro-chefe da Fábrica de Zinco.
Explicou que as emissões de dióxido de
enxofre resultantes da produção são captadas e transformadas em ácido
sulfúrico.
«A finalidade da fábrica de ácido sulfúrico é
captar esses gases e convertê-los em produtos úteis, em vez de os libertar na
atmosfera.»
A produção anual de ácido sulfúrico atinge
180 000 toneladas, fornecidas sobretudo às indústrias químicas e de
fertilizantes do país.
¨
UE está muito atrás de EUA e China na corrida por
minerais críticos, alerta jornal
A União Europeia (UE) está perdendo para os
EUA e a China em uma corrida por minerais essenciais, escreve jornal britânico,
citando autoridades europeias e fontes da indústria.
"A UE está ficando ainda mais atrás dos
EUA em sua busca por minerais
de importância crítica [...]. A indústria
alerta que ele [o bloco] está avançando muito lentamente", afirma a
publicação.
O jornal observa que esses minerais são
necessários no setor
de defesa e no campo das tecnologias verdes, e
Bruxelas está muito atrás de Washington na questão de seu fornecimento: se os
EUA anunciaram cerca de US$ 40 bilhões (aproximadamente R$ 207,5 bilhões) em
investimentos em projetos relacionados a esse campo desde 2022, em Bruxelas,
apenas 6 bilhões de dólares (cerca de R$ 31,1 bilhões) foram alocados para tais
projetos ao longo de 18 meses.
Como disse o diretor-executivo da EIT
RawMaterials, Bernd Schafer, à publicação, existe o risco de que, em
termos de dependência de metais de terras raras, os Estados Unidos possam se
tornar a "segunda China" para a Europa.
A China controla cerca de 70% do fornecimento
dos elementos de terras raras do mundo e até 90% do seu processamento,
essencial para a produção
de eletrônica e veículos elétricos. Em fevereiro, os
EUA reconheceram que dependem em mais de 90% de importações de cerca de 25
minerais essenciais.
Fonte:
Sputnik Brasil/Euronews

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