terça-feira, 25 de agosto de 2026

Cacau: Como contornar os dissabores da crise climática

A recente regulamentação brasileira que estabelece critérios mais rígidos para diferenciar produtos classificados como “chocolate” daqueles rotulados apenas como “sabor chocolate” – por meio da instituição da Lei 15.404 em 08 maio de 2026 –, reacendeu discussões sobre qualidade, cadeia produtiva e valorização do cacau nacional.

No texto, a lei impõe regras rígidas de rotulagem. Produtos que não atingem os mínimos não podem usar imagens, cores ou expressões que induzam o consumidor a confundi-los com chocolate. Na prática, a lei cria uma barreira clara: abaixo de 25%–35% de cacau, não é chocolate, mas “sabor chocolate”. Isso pressiona a indústria a elevar o teor de cacau nos produtos – o que, além de melhorar a qualidade do chocolate que chega ao consumidor, tende a aquecer a demanda por matéria-prima e valorizar a produção nacional.

Essa demanda aquecida, porém, esbarra em uma equação mais complexa do que a simples lei de oferta e procura sugere. A mesma cacauicultura que a nova legislação indiretamente fortalece enfrenta, no campo, os efeitos cada vez mais concretos das mudanças climáticas – secas prolongadas, estresse térmico e maior incidência de doenças, pressionando uma cadeia produtiva já fragilizada pelas transformações ambientais.

Assim, longe das prateleiras e estratégias de mercado da indústria alimentícia, outra questão ganha urgência nas regiões produtoras: Como garantir o futuro da cacauicultura em meio ao avanço da crise climática?

No sul da Bahia, uma das regiões mais tradicionais da produção de cacau no país, agricultores estão convivendo com secas mais longas, alterações no regime de chuvas, ondas de calor e aumento da incidência de doenças nas lavouras. Estudos evidenciam que eventos de estresse térmico reduzem a capacidade da planta de manter resistência a doenças, resultando em maior suscetibilidade a patógenos.

As mudanças climáticas deixaram de ser projeções distantes para se tornarem parte do cotidiano de quem depende da terra, desencadeando desastres extensivos, que causam impactos na população no médio e longo prazo.

É nesse contexto que surge o projeto CacauClima, financiado por meio de uma chamada pública da Financiadora de Estudos e Projetos do governo federal (Finep), empresa vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações. O CacauClima foi contemplado em um edital temático que visava apoiar e financiar pesquisas aplicadas para fortalecer cadeias produtivas da agricultura familiar, promovendo o desenvolvimento econômico e social do Brasil em parcerias com empresas, universidades e institutos.

Entre os executores, com equipes responsáveis por desenvolver o projeto de pesquisa, estão a Fundação para Inovações Tecnológicas de Campinas (FITec), a Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac).

Para envolver os agricultores desde a concepção até o desenvolvimento do projeto, a FITec e a UNICAMP contam com a parceria do Instituto Cabruca, que tem sua sede no Assentamento Terra Vista, no município de Arataca, na Bahia.

O projeto como um todo integra o BI0S, Instituto Brasileiro de Ciência de Dados – centro de IA da UNICAMP financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, a FAPESP, e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações.

Esse arranjo institucional complexo por trás do CacauClima exemplifica o papel estratégico dos investimentos públicos em ciência, reforçando como esses aportes impulsionam inovações para a agricultura resiliente, a sustentabilidade ambiental e o desenvolvimento social e econômico do país.

A pesquisa desenvolvida no âmbito do CacauClima – apelido do projeto Solução de Monitoramento Inteligente Climático nas Esferas Produtiva e Ambiental da Cacauicultura – busca integrar sensoriamento remoto, modelagem climática, ciência cidadã e participação social para compreender como as mudanças climáticas afetam os cacaueiros e seus produtores. O objetivo central é construir estratégias de adaptação junto aos agricultores locais.

Mais do que desenvolver tecnologias de monitoramento climático, o projeto levanta uma questão política: Quem produz conhecimento sobre o território e quais saberes são reconhecidos na formulação de pesquisas que informam políticas públicas agrícolas e climáticas?

<><> A crise climática já chegou às lavouras

Os impactos recentes sobre a produção de cacau ajudam a dimensionar a urgência do problema. Durante o evento de El Niño entre 2015 e 2016, uma seca severa atingiu agroflorestas de cacau no sul da Bahia, provocando mortalidade de cacaueiros e queda expressiva da produção.

Foi justamente a partir de eventos extremos como esse que pesquisadores passaram a investigar com mais atenção quais sistemas de cultivo resistiam melhor aos extremos climáticos. Os estudos vêm indicando que sistemas agroflorestais tradicionais, como a cabruca, tendem a apresentar maior resiliência quando comparados aos cultivos intensivos a pleno sol.

O sistema cabruca é um método de plantio agroflorestal que consiste no cultivo do cacau introduzido diretamente sob a sombra de árvores nativas da floresta tropical, mantendo a biodiversidade e promovendo uma interação ecológica interespecífica – interações entre espécies diferentes. Já o sistema a pleno sol adota a lógica de monocultivo, onde a vegetação original é removida para deixar as plantas totalmente expostas à radiação solar direta – a sol pleno –, buscando acelerar a fotossíntese e maximizar o ganho produtivo por área.

Enquanto o sistema de monocultura depende de irrigação intensiva, fertilizantes químicos e maior uso de agrotóxicos, a cabruca preserva cobertura florestal, favorece a biodiversidade e contribui para manter a umidade e a fertilidade do solo – prescindindo, inclusive, de agrotóxicos.

Para a pesquisadora Priscila Coltri, do CEPAGRI, compreender as diferenças entre o método cabruca e o cultivo a pleno sol é uma das questões centrais do projeto. “A monocultura, em geral, é um sistema que sofre muito em relação ao clima. Então a gente tem que ter muitos aditivos para que ela funcione. As culturas sombreadas acabam tendo uma relação muito boa em termos de mitigação e adaptação às mudanças do clima”, afirma.

Segundo Priscila, a pesquisa busca identificar como o clima já vem mudando nas áreas produtoras nas últimas décadas e quais os impactos concretos sobre os dois sistemas de cultivo. “A gente escuta muito sobre mudança do clima como algo que vai acontecer lá em 2070. Mas diversos estudos mostram que o clima já está mudando em muitas regiões. Então, um primeiro passo é entender se nessas regiões a temperatura já subiu, se as secas estão mais longas, se as chuvas mudaram”, explica a pesquisadora.

<><> Satélites, sensores e decisões no campo

Uma das frentes do CacauClima envolve o uso de satélites meteorológicos e sensores instalados nas propriedades rurais para monitorar variáveis como temperatura, umidade, radiação solar e regime de chuvas. O objetivo é transformar essas informações em recomendações práticas de manejo para agricultores e técnicos locais.

Segundo o pesquisador Jurandir Zullo Junior, do CEPAGRI, os dados produzidos pelos satélites ajudam a acompanhar as condições climáticas que influenciam diretamente o desenvolvimento das lavouras e a propagação de doenças. “O manejo da cultura é uma das formas de enfrentar as doenças. Então, dados de umidade e temperatura ajudam muito na tomada de decisões sobre poda, plantio e colheita”, afirma.

Na prática, essas informações podem orientar desde o melhor momento para realizar podas até períodos de maior atenção para doenças causadas por fungos, que tendem a se espalhar em condições específicas de calor e umidade. O monitoramento climático também ajuda agricultores a compreender alterações graduais no território, como secas mais prolongadas, mudanças no comportamento das chuvas ou aumento das temperaturas.

Além dos satélites meteorológicos, o projeto utiliza dados dos satélites de observação da Terra, que funcionam como uma espécie de leitura remota da paisagem agrícola. A partir das imagens captadas do alto, os pesquisadores analisam padrões da vegetação para tentar identificar diferenças entre lavouras saudáveis e áreas afetadas por deficiência hídrica, problemas nutricionais ou doenças – como a vassoura-de-bruxa, responsável por uma profunda crise econômica e social na cacauicultura baiana a partir dos anos 1990.

A vassoura-de-bruxa, doença endêmica da Amazônia, alastrou-se pela Bahia em 1989 e provocou uma crise produtiva e socioambiental. O desastre gerou desemprego em massa, endividamento de agricultores e rearranjou a geografia do setor, transferindo a liderança da cacauicultura nacional para o Pará

É justamente para detectar ameaças como essa que o sensoriamento remoto entra em cena. O princípio é relativamente simples: plantas saudáveis refletem luz de maneira diferente de plantas estressadas por seca, calor ou doenças. Com o tempo, os pesquisadores constroem um repertório de imagens capaz de associar determinados padrões visuais ao estado da plantação. “O objetivo é identificar a cultura e o estado da cultura via remota”, explica Jurandir.

O desafio, porém, é maior justamente nos sistemas agroflorestais. “O sistema agroflorestal dificulta a leitura das imagens porque o cacau está sob a floresta. Às vezes a imagem não registra uma doença ou uma deficiência hídrica”, explica o pesquisador. Diferentemente das monoculturas homogêneas, em que as plantas aparecem de forma mais clara nas imagens de satélite, o sistema cabruca mistura cacaueiros e árvores nativas da Mata Atlântica em diferentes alturas e densidades.

A mesma complexidade ecológica que torna a cabruca mais resiliente às mudanças climáticas também representa um desafio aos modelos tradicionais de monitoramento remoto – e é neste desafio que o grupo de pesquisadores coordenado por Jurandir busca incidir. Para isso, as imagens produzidas pelos satélites precisam ser constantemente comparadas com observações feitas diretamente no território. É nesse ponto que entra a participação dos agricultores no projeto. “Como vai ter sempre alguém no campo, isso ajuda nesse desafio. O agricultor consegue dizer: ‘olha, está acontecendo algum problema aqui’. E aí a gente estuda se isso aparece na imagem”, comenta Jurandir.

A proposta é que o cruzamento entre monitoramento remoto e conhecimento local permita desenvolver ferramentas mais precisas para lidar com os efeitos das mudanças climáticas sobre a produção de cacau. Além de apoiar agricultores individualmente, os dados também subsidiam cooperativas, órgãos públicos e políticas agrícolas voltadas à adaptação climática.

<><> Ciência pública e construção coletiva

Embora frequentemente apresentada como resultado de descobertas, quase sempre individuais, ou soluções tecnológicas prontas, a pesquisa científica costuma depender de longos processos de financiamento público, articulação institucional e, muitas vezes, de construção interdisciplinar. O CacauClima é resultado desse tipo de articulação.

“A ideia surgiu como resposta a um edital da FINEP voltado ao aumento da produtividade e da sustentabilidade dos sistemas agroalimentares e da agricultura familiar”, explica Giovanni Moura de Holanda, coordenador do projeto pela FITec. Segundo ele, o grupo já vinha tentando estruturar pesquisas semelhantes em outros editais antes da aprovação do financiamento.

“Em todo objeto de estudo, a gente vai colocando camadas em cima de camadas e ele vai ficando mais maduro”, afirma. Para Giovanni, um dos diferenciais dessa versão do projeto foi incorporar a ciência cidadã como eixo estruturante da pesquisa. “A gente agregou um pilar que não estava tão nítido nas iniciativas anteriores, que era o da ciência cidadã, para envolver ainda mais a participação e a colaboração dos agricultores na condução das tarefas”, afirma.

Nesse modelo, agricultores deixam de ocupar apenas o lugar de receptores de tecnologia e conhecimento científico produzido e passam a colaborar diretamente na produção dos dados e das análises. No assentamento Terra Vista, em Arataca (BA), agricultores parceiros do projeto atuam como “guardiões” de miniestações meteorológicas instaladas nas propriedades. “Eles vão ajudar no funcionamento dessas estações e alimentar o sistema com informações riquíssimas do cotidiano. Eventos que só eles percebem. Eles têm a memória daquela região”. “Então, eles [os agricultores] podem dizer: ‘No tempo do meu pai, no tempo da minha mãe, não era assim. No tempo dos meus ancestrais era muito diferente’. É o que a gente ouve: ‘Agora está tudo mudado’. E esse tipo de informação é muito valiosa para o projeto.”, explica Giovanni.

Essa memória acumulada entre gerações também é compreendida pelos pesquisadores como uma tecnologia social. Mais do que lembranças individuais, trata-se de um repertório coletivo de observação do território, construído historicamente a partir da convivência cotidiana com o clima, os ciclos das chuvas, os períodos de seca, o comportamento das plantas, dos animais e das doenças agrícolas.

Essa memória acumulada entre as gerações no campo funciona como uma verdadeira tecnologia social – conceito que define o conhecimento construído não em laboratórios isolados ou pacotes técnicos prontos, mas na interação direta entre atores sociais e seus territórios.

Sob essa perspectiva, a adaptação climática deixa de ser uma simples transferência vertical de tecnologia. Cada território possui especificidades ecológicas e culturais que exigem respostas próprias, construídas de forma participativa. No caso do CacauClima, isso significa reconhecer que imagens de satélite, dados meteorológicos e inteligência artificial não substituem o saber local, mas ganham precisão justamente quando dialogam com ele.

O conhecimento acumulado sobre o comportamento das chuvas, os períodos de estiagem, o surgimento de doenças e as transformações na cacauicultura funciona como uma espécie de leitura histórica do território, construída ao longo de gerações. Mais do que um saber tradicional dissociado da ciência, trata-se de uma forma de produção tecnológica territorializada, baseada na experiência prática e na observação contínua do ambiente.

Ao analisarem experiências de tecnologia social ligadas à autogestão e aos movimentos populares, os autores Henrique e Rafael mostram que processos participativos de produção tecnológica também possuem dimensão pedagógica e emancipatória, justamente porque deslocam o monopólio do conhecimento técnico especializado e ampliam a participação dos sujeitos diretamente envolvidos nos problemas enfrentados. No caso do CacauClima, isso significa reconhecer que sensores meteorológicos, imagens de satélite e modelagens climáticas não substituem os saberes produzidos no território, mas passam a dialogar com eles.

<><> O território como produtor de conhecimento

Além da modelagem climática e do sensoriamento remoto, o CacauClima irá desenvolver grupos focais com agricultores e técnicos agrícolas para compreender como esses atores percebem as mudanças climáticas e as transformações no território. A frente é coordenada pelas pesquisadoras Claudia Pfeiffer e Simone Pallone, do Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade (NUDECRI) da UNICAMP.

Os grupos focais buscam compreender como as mudanças climáticas são percebidas e vividas no cotidiano dos atores locais: alterações no tempo das colheitas, mudanças no comportamento das doenças agrícolas, transformações na paisagem e na relação dos agricultores com a floresta e o cacaueiro. A proposta é incorporar à pesquisa dimensões da experiência territorial que dificilmente aparecem apenas nos dados meteorológicos ou nas imagens de satélite, como mencionado anteriormente por Priscila, Jurandir e Giovanni.

Para Giovanni, a participação social e a escuta comunitária a partir dos grupos focais, além de mostrar um “retrato mais preciso do impacto das mudanças climáticas na agricultura específica, no caso o cacau, com todo o desdobramento que isso traz para as pessoas que dependem daquela cultura, vai ter também uma contribuição no sentido de aumentar a percepção social sobre a necessidade de proteção da natureza, e sobretudo na questão da sustentabilidade.”

A aproximação entre universidade e território também tensiona a forma como as políticas públicas agrícolas e climáticas são tradicionalmente formuladas no Brasil. Para Claudia Pfeiffer, pesquisadora do NUDECRI/UNICAMP, um dos principais problemas dessas ações é a busca por consensos técnicos que apagam as especificidades locais: “O grande dilema das políticas públicas é que elas são produzidas a partir da construção da evidência de um consenso. E todo consenso apaga o diverso, o polêmico, a diferença. O território mostra a direção que essa política deveria acontecer, tensionando com os lugares que foram, historicamente, autorizados enquanto únicos produtores de conhecimento”, afirma a pesquisadora.

Para Claudia, “a universidade ocupa esse espaço de dar visibilidade para os saberes e para as diferenças produzidas nos territórios”. Ao dar rigor e legitimidade científica à experiência dos agricultores, iniciativas participativas como o CacauClima apontam para a coprodução de políticas públicas. Em vez de aplicar pacotes técnicos padronizados, o modelo reconhece que os sujeitos que habitam o território são os primeiros afetados pelos impactos do clima – e os primeiros a construir respostas para enfrentá-los.

<><> O futuro do cacau passa pela floresta

O debate sobre adaptação climática na agricultura tende a ganhar ainda mais relevância nos próximos anos. O aumento das temperaturas globais, a intensificação de eventos extremos e as mudanças no regime hídrico já alteram dinâmicas produtivas em diversas culturas agrícolas. No caso do cacau do sul da Bahia, a questão se torna ainda mais estratégica porque envolve simultaneamente conservação da Mata Atlântica – o bioma mais devastado do território brasileiro –, agricultura familiar, produção de alimentos e economia regional.

Nesse cenário, pesquisas como o CacauClima apontam que enfrentar a crise climática não depende da substituição dos saberes tradicionais por tecnologias externas, preconizadas por relatórios estrangeiros, mas da construção de formas colaborativas de conhecimento. Essa colaboração, por sua vez, pode se refletir em políticas públicas mais aderentes às necessidades levantadas nos territórios onde essas políticas buscam incidir.

A despeito da relevante definição de critérios para definir o que pode ou não ser chamado de chocolate – de modo que o consumidor brasileiro tenha acesso a um produto de boa qualidade, como aquele que é extraído diretamente das lavouras –, o território onde a agricultura de cacau é praticada expõe uma questão ainda mais profunda: sem floresta, sem água e sem agricultores fortalecidos, talvez não exista futuro possível para a própria cacauicultura brasileira.

 

Fonte: Por Talita Gantus de Oliveira, em Outras Palavras

 

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