terça-feira, 25 de agosto de 2026

Mudanças de roteiro no valor e na guerra

O tipo humano Abelardo de la Espriella é um fenômeno mundial que está presente nas democracias liberais, cuja crise de valores é turbinada pelo capitalismo financeiro global e clandestino, aderente à marginalidade burguesa e aos altos estratos das classes médias altas, em vários governos do continente americano. Esta “produção” criminosa de capital, que vem dos subterrâneos do sistema, vincula-se formal e informalmente ao sistema financeiro legal face às normas legais lenientes do sistema, em toda a legalidade do ocidente e mais além do ocidente.

Seus reflexos organizativos materiais e de natureza moral estão presentes no sistema Epstein de poder, em que está exposta a radicalização dos contra valores, tanto da desumanidade política como da perversão assistida. Ambas se alimentam das novas formas materiais de valor agregado (científico-tecnológicas) e imateriais (bens intangíveis que moldam uma nova subjetividade coletiva) para produzir e regrar uma nova vida comum. Nesta produzem consciências cada vez mais uniformes, alienadas, fragmentadas, vendáveis e compráveis no mundo irreal e também real, socializado na manipulação das redes.

Agnes Heller – discípula de György Lukács – já explicitara uma nova possibilidade da ultrapassagem de nível dos valores (materiais para imateriais) num livro originariamente publicado em 1970 (O cotidiano e a história) no qual ela examina as “esferas heterogêneas”, que podem colidir com a “produção de valores”. Uma possibilidade – esta não necessariamente colidente – é a que ocorre na esfera material da produção do capitalismo industrial clássico, na qual são produzidos os bens materiais com agregação coletiva do valor (material) nas fábricas modernas.

Nessa hipótese, a produção dos valores materiais reflete numa esfera imaterial da consciência social e política, vivida e negociada de maneira pública – nas ruas e nas praças – como operação decorrente do capitalismo industrial na democracia liberal “clássica”: a produção material cria o produto e também molda e cria os seus consumidores, logo, também, a consciência que gera novas necessidades.

Aqui, os valores materiais e morais em processo de produção permanente não colidem de maneira radical, mas podem se harmonizar em espaços sociais visíveis de negociação. Há uma permanente ultrapassagem virtual de nível, no sistema categorial, que produz valores materiais que, por seu turno, também criam novos impulsos subjetivos na mente do consumidor.

Esta ultrapassagem de nível, da materialidade para a subjetividade humana, define novos desejos e necessidades que impulsionam o mercado, tanto para novos padrões de acumulação material como para novos estoques de subjetividade disponíveis, para novos ciclos de produção material e estoques de subjetividade social. Mas aqui também reside a debilidade central da visão social democrata de criação uma “sociedade de classe média”, que pode se tornar – na verdade – um modo de repartição pervertida da carência, como ocorre hoje nos Estados Unidos.

Na Colômbia, quem está no poder é a marginalidade global do capital pirata, que responde ao grande irmão americano, controlador de ambos os fluxos do capital financeiro globalizado: os fluxos criminosos “fora” da lei e os fluxos legais por “dentro” da lei. Diz Agnes Heller: “a explicitação dos valores produz-se, portanto, em esferas heterogêneas. Como dissemos, essas se desenvolvem de modo desigual” (uma pode ir para um sentido e a outra pode ira para outro sentido) “mas a colisão entre esferas heterogêneas é apenas uma das contínuas colisões de valores que ocorrem na história”.

O exemplo mais completo desta barbárie “criativa” do sistema do capital é a agregação de “valores” na indústria bélica, cuja produção – com valores agregados para a destruição pela guerra – também gera “valores” imateriais na sociedade consumidora, induzindo a cultura moral da guerra na subjetividade dos povos, que tanto sofrem como usufruem dessa produção material feita para rápida destruição.

Nas colisões entre essas esferas (da criação do material e da criação na esfera imaterial) – quando o sistema multipolar erguido sob este modelo chega ao delírio da possível destruição da humanidade, aparecem os monstros-palhaços. E os palhaços-monstros – abjetos e sinistros já presentes em muitos países, no espaço que o presidente Donald Trump quer reinar como imperador no quintal latino dos Estados Unidos.

Inicia um ciclo de ruptura material profunda no Estado do capitalismo monopolista, desta feita através de iniciativas de um governo dominante em escala global, para um modelo que deixa de ser essencialmente impulsionado pela competição entre empresas monopolistas – ou mesmo entre grupos de empresas associadas por “holdings” ou outras formas de colaboração horizontal – para um modelo de intervenção autoritária no espaço de competição entre empresas situadas em territórios soberanos, com efeitos destrutivos rápidos sobre empresas e empreendimentos ali situados, cuja existência não mais interessa ao projeto do dominação imperial dos EUA.

Suas armas são as tarifas, as forças policiais de ocupação interna sob o argumento de ataque ao tráfico de drogas e o terrorismo, além dos drones, hoje em produção massiva nos países “guerreiros”.

Em Budapeste, junho de 1989, surgiu a forte liderança de Victor Orban, em meio às manifestações que exigiam a retirada das tropas soviéticas e os gritos pelas liberdades. Naquele momento, já forjava um discurso ultranacionalista e xenófobo, que fortalecia os discursos já em elaboração nas cloacas da política fascistas. Aos políticos europeus, ele já recomendava declarar a “imigração econômica” como “coisa ruim para a Europa(…)”, postura que bombardeava possibilidade da própria globalização financeira dissolver as fronteiras para o trânsito de capitais, o que já estava, formalmente, no âmago da União Europeia.

A ruptura simbólica de Victor Orban queria forjar um ambiente político novo, para um modelo de acumulação – mais além do modelo neoliberal globalista – agora sob encargo do Estado nacional intervencionista e neoprotecionista, que domina ou influencia a todos, através, da sua força militar, política e econômica.

Aqui entra Donald Trump, que vai utilizar o seu poder – “tarifas, investimento público, dívida, guerras e chantagem política – para direcionar e controlar os setores empresariais que formarão o núcleo da acumulação e do crescimento econômico nacional”. É uma mudança que se caracteriza pela coerção estatal programada “para forçar países e corporações transnacionais também a investir nos Estados Unidos em áreas que o governo considera prioritárias, em troca de não serem estranguladas por novas tarifas”.

A insegurança social e individual, a insegurança nacional e a insegurança militar, em todos os continentes, estão determinadas por fatores que atingem fortemente o direito soberano dos territórios. Estas inseguranças já haviam estimulado – de alto e de baixo – na subjetividade social dominante, uma perda de sentido da vida imediata e uma nova coesão pelo mercado que passa a atingir todos os valores materiais e imateriais sobre “coletividades” de indivíduos não associados, com um novo nível consumista, tanto de informações como de produtos materiais, formalizados globalmente.

Esta etapa, que se desmembra do sistema do capitalismo monopolista tradicional e daquele que já foi chamado de capitalismo da “sociedade informática” ou “infodigital”, já estava presente “em potência”, no imaginário das coletividades globalizadas pelo rentismo neoliberal. Esta condição facilitou o empoderamento por Donald Trump, de um novo estado total global: o estado de um intervencionismo dirigido, no qual “os direitos econômicos agora estão fora das mãos do Estado, os direitos políticos que ele pode oferecer são estritamente limitados e circunscritos àquilo que Pierre Bourdieu batizou de pensée unique do livre mercado neoliberal plenamente desregulado, enquanto os direitos sociais são substituídos um a um pelo dever individual do cuidado consigo mesmo e de garantir a si mesmo vantagem sobre os demais”.

Eric Hobsbawm advertiu que “é sempre perigoso empregar termos geográficos no discurso histórico. É preciso muita cautela, pois a cartografia confere uma falsa objetividade a conceitos que frequentemente, ou talvez habitualmente, pertencem à política – ao domínio dos programas, e não da realidade.

Historiadores e diplomatas sabem muito bem com que frequência a ideologia e a política se disfarçam de fatos. Os rios (todavia) ao traçarem linhas nítidas nos mapas, tornam-se não apenas fronteiras estatais, mas também “naturais” (…)”. Garantir a si mesmo uma escala de vantagens sobre os outros passa, neste panorama, a ser um contraponto ao pensamento único, que só pode escalar (ou superar) a si mesmo, com a irracionalidade de tipos humanos como Abelardo de la Espriella.

¨      Governo Espriella encerra noticiários das 'Emissoras da Paz' na Colômbia

O novo governo da Colômbia, do presidente Abelardo de la Espriella, pôs fim ao jornalismo da mídia pública do país encerrando o noticiário das 20 Emissoras da Paz – veículos previstos no Acordo de Paz firmado em 2016 com as Forças Armadas Revolucionária da Colômbia (Farcs).

No lugar dos noticiários, o governo incluiu uma programação exclusivamente musical e centralizada a partir de Bogotá. Organizações ligadas à liberdade de expressão e de imprensa rechaçaram a medida alegando que ela prejudica o acesso à informação local de diversas comunidades.

O Ponto 6.5 do Acordo de Paz da Colômbia prevê que essas emissoras divulguem o progresso da implementação dos termos do acordo, promovam a educação da convivência e ofereçam espaços de informação às comunidades impactadas por mais de 50 anos de conflitos armados internos na Colômbia.

De acordo com o Ministério da Tecnologia, Inovação e Comunicações da Colômbia, a medida busca a “transformação integral do Sistema de Mídias Públicas” para “recuperar” o caráter “público, plural e independente” do sistema.

O governo Espriella, que é crítico do Acordo de Paz de 2016, acusou o noticiário das emissoras de funcionarem como “aparato de propaganda” supostamente a serviço de “interesses particulares ou políticos”.

“A entidade será um Sistema de Mídia Pública, não um instrumento político”, comunicou, em nota, o ministério responsável pela empresa Inravisón, que administra o sistema público de comunicação colombiano.

<><> Entidades criticam

A Fundação para a Liberdade de Imprensa (FLIP), a Missão de Observação Eleitoral (MOE) e a Associação Mundial de Rádios Comunitárias (Amarc) rechaçaram, em nota, a decisão do governo colombiano alegando que ela restringe o acesso de comunidades inteiras à informação sobre seus próprios territórios.

“As rádios comunitárias são a principal — ou até mesmo a única — fonte de informações locais e notícias de interesse público. Essas emissoras beneficiam mais de 463 mil pessoas em áreas rurais e em comunidades indígenas, afrodescendentes e camponesas”, diz o comunicado das entidades.

As organizações acrescentaram que a decisão “desconsidera” a natureza das rádios da paz, criadas pelo Acordo de 2016 “para operar em áreas particularmente afetadas pelo conflito”.

A decisão do governo Espriella, ainda que anunciada como transitória, repete a política do governo de Javier Milei para a comunicação pública da Argentina, que levou ao fechamento, em 2024, da Agência Telám, o principal veículo da mídia pública argentina.

A medida tem ainda o potencial de limitar a pluralidade da mídia colombiana, dominado por três grandes conglomerados empresariais. Segundo a organização Repórteres Sem Fronteira (RSF), o ecossistema midiático colombiano deixa “60% do país sem cobertura midiática local”.

<><> Mídia Pública

Inspirada no modelo de comunicação pública da Europa, a mídia pública dos países da América Latina surge com a promessa de oferecer à população um conteúdo que, por não ter interesse comercial envolvido, não seria oferecido pela mídia privada empresarial.

No Brasil, a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), que controla a Agência Brasil, é a responsável por gerir os veículos públicos federais do país.

Criada em 2007, a EBC atende ao Artigo 223 da Constituição Federal que determina que o serviço de radiodifusão deve observar o princípio da complementaridade entre os sistemas privado, público e estatal de comunicação.

¨      Justiça boliviana decreta prisão preventiva de consultor argentino ligado a Milei e clã Bolsonaro

O juiz Wilson Espada, a pedido do Ministério Público boliviano, expediu nesta sexta-feira (21/08) um mandado de prisão preventiva de 180 dias contra o consultor argentino Fernando Cerimedo, acusado de tentativa de feminicídio e corrupção.

A medida foi confirmada após o atentado de 17 de agosto contra a ex-companheira de Cerimedo, Nadia Beller. O suspeito permanecerá na prisão de Palmasola, em Santa Cruz, sob regime de segurança máxima.

Cerimedo, que era assessor do presidente boliviano Rodrigo Paz, enfrenta cinco processos judiciais, incluindo “tentativa de feminicídio” e corrupção, entre outros supostos crimes.

A defesa, liderada por Ernesto Giraldes e Margarita Arce, denunciou irregularidades no processo, como o acesso não autorizado ao seu telefone celular, a prisão arbitrária e a demora em seu comparecimento perante o juiz. No entanto, o magistrado rejeitou os argumentos, afirmando que as provas — incluindo mensagens enviadas pelo acusado — justificavam a prisão preventiva.

Entre as provas, encontra-se uma mensagem ameaçadora atribuída a Cerimedo: “Nadia nos entregou. Ou a eliminamos ou estamos perdidos. Você conhece alguém que possa fazer esse trabalho?”. Outras comunicações dirigidas à vítima também foram encontradas, como “Você vai nos ferrar, não faça isso, espere alguns dias”.

Além disso, foram identificadas mensagens recebidas de um contato sob o pseudônimo ECG, identificado por Nadia Beller e pelo ex-presidente Evo Morales como Erick Correa González, chefe de inteligência do governo de Rodrigo Paz.

A prisão de Cerimedo ocorreu em 20 de agosto em Aranjuez, La Paz, onde mais de meio milhão de pesos bolivianos foram apreendidos, além de dólares e euros, de acordo com o procurador departamental Carlos Torres.

A operação também descobriu uma fazenda de bots, supostamente usada para manipular tendências nas redes sociais, gerando uma quantidade massiva de interações. As autoridades ainda estão investigando a dimensão e a finalidade dessa infraestrutura tecnológica.

O ataque contra Nadia Beller ocorreu depois que ela anunciou sua intenção de denunciar uma rede de corrupção na qual, segundo as investigações, Cerimedo colaborava com o presidente Rodrigo Paz e sua esposa, Maria Elena Urquidi, que supostamente atuava como intermediária em algumas transações.

A vítima, que estava grávida na época do ataque, permanece hospitalizada após ter sido baleada várias vezes. Seus depoimentos, juntamente com registros de chamadas e conversas online apagados, reforçam as suspeitas contra o consultor argentino, que também tem ligações com atividades políticas na região.

O caso gerou repercussões internacionais, após a tentativa de feminicídio atribuída a Fernando Cerimedo, ato que levou a presidente do México, Claudia Sheinbaum, a classificá-lo publicamente como “autor de feminicídio”.

Apesar da controvérsia, o presidente da Argentina, Javier Milei, um aliado próximo de Cerimedo, mantém seus planos de participar da segunda edição da “Gala Hispânica”, um evento organizado pela Latino Wall Street e pelo veículo de comunicação La Derecha Diario, fundado pelo próprio consultor argentino, atualmente preso na Bolívia.

 

Fonte: Por Tarso Genro, em A Terra é Redonda/Opera Mundi

 

Nenhum comentário: