Mudanças
de roteiro no valor e na guerra
O tipo
humano Abelardo de la Espriella é um fenômeno mundial que está presente nas
democracias liberais, cuja crise de valores é turbinada pelo capitalismo
financeiro global e clandestino, aderente à marginalidade burguesa e aos altos
estratos das classes médias altas, em vários governos do continente americano.
Esta “produção” criminosa de capital, que vem dos subterrâneos do sistema,
vincula-se formal e informalmente ao sistema financeiro legal face às normas
legais lenientes do sistema, em toda a legalidade do ocidente e mais além do
ocidente.
Seus
reflexos organizativos materiais e de natureza moral estão presentes no sistema
Epstein de poder, em que está exposta a radicalização dos contra valores, tanto
da desumanidade política como da perversão assistida. Ambas se alimentam das
novas formas materiais de valor agregado (científico-tecnológicas) e imateriais
(bens intangíveis que moldam uma nova subjetividade coletiva) para produzir e
regrar uma nova vida comum. Nesta produzem consciências cada vez mais
uniformes, alienadas, fragmentadas, vendáveis e compráveis no mundo irreal e
também real, socializado na manipulação das redes.
Agnes
Heller – discípula de György Lukács – já explicitara uma nova possibilidade da
ultrapassagem de nível dos valores (materiais para imateriais) num livro
originariamente publicado em 1970 (O cotidiano e a história) no qual ela
examina as “esferas heterogêneas”, que podem colidir com a “produção de
valores”. Uma possibilidade – esta não necessariamente colidente – é a que
ocorre na esfera material da produção do capitalismo industrial clássico, na
qual são produzidos os bens materiais com agregação coletiva do valor
(material) nas fábricas modernas.
Nessa
hipótese, a produção dos valores materiais reflete numa esfera imaterial da
consciência social e política, vivida e negociada de maneira pública – nas ruas
e nas praças – como operação decorrente do capitalismo industrial na democracia
liberal “clássica”: a produção material cria o produto e também molda e cria os
seus consumidores, logo, também, a consciência que gera novas necessidades.
Aqui,
os valores materiais e morais em processo de produção permanente não colidem de
maneira radical, mas podem se harmonizar em espaços sociais visíveis de
negociação. Há uma permanente ultrapassagem virtual de nível, no sistema
categorial, que produz valores materiais que, por seu turno, também criam novos
impulsos subjetivos na mente do consumidor.
Esta
ultrapassagem de nível, da materialidade para a subjetividade humana, define
novos desejos e necessidades que impulsionam o mercado, tanto para novos
padrões de acumulação material como para novos estoques de subjetividade
disponíveis, para novos ciclos de produção material e estoques de subjetividade
social. Mas aqui também reside a debilidade central da visão social democrata
de criação uma “sociedade de classe média”, que pode se tornar – na verdade –
um modo de repartição pervertida da carência, como ocorre hoje nos Estados
Unidos.
Na
Colômbia, quem está no poder é a marginalidade global do capital pirata, que
responde ao grande irmão americano, controlador de ambos os fluxos do capital
financeiro globalizado: os fluxos criminosos “fora” da lei e os fluxos legais
por “dentro” da lei. Diz Agnes Heller: “a explicitação dos valores produz-se,
portanto, em esferas heterogêneas. Como dissemos, essas se desenvolvem de modo
desigual” (uma pode ir para um sentido e a outra pode ira para outro sentido)
“mas a colisão entre esferas heterogêneas é apenas uma das contínuas colisões
de valores que ocorrem na história”.
O
exemplo mais completo desta barbárie “criativa” do sistema do capital é a
agregação de “valores” na indústria bélica, cuja produção – com valores
agregados para a destruição pela guerra – também gera “valores” imateriais na
sociedade consumidora, induzindo a cultura moral da guerra na subjetividade dos
povos, que tanto sofrem como usufruem dessa produção material feita para rápida
destruição.
Nas
colisões entre essas esferas (da criação do material e da criação na esfera
imaterial) – quando o sistema multipolar erguido sob este modelo chega ao
delírio da possível destruição da humanidade, aparecem os monstros-palhaços. E
os palhaços-monstros – abjetos e sinistros já presentes em muitos países, no
espaço que o presidente Donald Trump quer reinar como imperador no quintal
latino dos Estados Unidos.
Inicia
um ciclo de ruptura material profunda no Estado do capitalismo monopolista,
desta feita através de iniciativas de um governo dominante em escala global,
para um modelo que deixa de ser essencialmente impulsionado pela competição
entre empresas monopolistas – ou mesmo entre grupos de empresas associadas por
“holdings” ou outras formas de colaboração horizontal – para um modelo de
intervenção autoritária no espaço de competição entre empresas situadas em
territórios soberanos, com efeitos destrutivos rápidos sobre empresas e
empreendimentos ali situados, cuja existência não mais interessa ao projeto do
dominação imperial dos EUA.
Suas
armas são as tarifas, as forças policiais de ocupação interna sob o argumento
de ataque ao tráfico de drogas e o terrorismo, além dos drones, hoje em
produção massiva nos países “guerreiros”.
Em
Budapeste, junho de 1989, surgiu a forte liderança de Victor Orban, em meio às
manifestações que exigiam a retirada das tropas soviéticas e os gritos pelas
liberdades. Naquele momento, já forjava um discurso ultranacionalista e
xenófobo, que fortalecia os discursos já em elaboração nas cloacas da política
fascistas. Aos políticos europeus, ele já recomendava declarar a “imigração
econômica” como “coisa ruim para a Europa(…)”, postura que bombardeava
possibilidade da própria globalização financeira dissolver as fronteiras para o
trânsito de capitais, o que já estava, formalmente, no âmago da União Europeia.
A
ruptura simbólica de Victor Orban queria forjar um ambiente político novo, para
um modelo de acumulação – mais além do modelo neoliberal globalista – agora sob
encargo do Estado nacional intervencionista e neoprotecionista, que domina ou
influencia a todos, através, da sua força militar, política e econômica.
Aqui
entra Donald Trump, que vai utilizar o seu poder – “tarifas, investimento
público, dívida, guerras e chantagem política – para direcionar e controlar os
setores empresariais que formarão o núcleo da acumulação e do crescimento
econômico nacional”. É uma mudança que se caracteriza pela coerção estatal
programada “para forçar países e corporações transnacionais também a investir
nos Estados Unidos em áreas que o governo considera prioritárias, em troca de
não serem estranguladas por novas tarifas”.
A
insegurança social e individual, a insegurança nacional e a insegurança
militar, em todos os continentes, estão determinadas por fatores que atingem
fortemente o direito soberano dos territórios. Estas inseguranças já haviam
estimulado – de alto e de baixo – na subjetividade social dominante, uma perda
de sentido da vida imediata e uma nova coesão pelo mercado que passa a atingir
todos os valores materiais e imateriais sobre “coletividades” de indivíduos não
associados, com um novo nível consumista, tanto de informações como de produtos
materiais, formalizados globalmente.
Esta
etapa, que se desmembra do sistema do capitalismo monopolista tradicional e
daquele que já foi chamado de capitalismo da “sociedade informática” ou
“infodigital”, já estava presente “em potência”, no imaginário das
coletividades globalizadas pelo rentismo neoliberal. Esta condição facilitou o
empoderamento por Donald Trump, de um novo estado total global: o estado de um
intervencionismo dirigido, no qual “os direitos econômicos agora estão fora das
mãos do Estado, os direitos políticos que ele pode oferecer são estritamente
limitados e circunscritos àquilo que Pierre Bourdieu batizou de pensée
unique do livre mercado neoliberal plenamente desregulado, enquanto os
direitos sociais são substituídos um a um pelo dever individual do cuidado
consigo mesmo e de garantir a si mesmo vantagem sobre os demais”.
Eric
Hobsbawm advertiu que “é sempre perigoso empregar termos geográficos no
discurso histórico. É preciso muita cautela, pois a cartografia confere uma
falsa objetividade a conceitos que frequentemente, ou talvez habitualmente,
pertencem à política – ao domínio dos programas, e não da realidade.
Historiadores
e diplomatas sabem muito bem com que frequência a ideologia e a política se
disfarçam de fatos. Os rios (todavia) ao traçarem linhas nítidas nos mapas,
tornam-se não apenas fronteiras estatais, mas também “naturais”
(…)”. Garantir a si mesmo uma escala de vantagens sobre os outros passa,
neste panorama, a ser um contraponto ao pensamento único, que só pode escalar
(ou superar) a si mesmo, com a irracionalidade de tipos humanos como Abelardo
de la Espriella.
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Governo Espriella encerra noticiários das 'Emissoras da
Paz' na Colômbia
O novo governo da Colômbia, do
presidente Abelardo de la Espriella, pôs fim ao jornalismo da mídia pública
do país encerrando o noticiário das 20 Emissoras da Paz – veículos previstos no
Acordo de Paz firmado em 2016 com as Forças Armadas Revolucionária da
Colômbia (Farcs).
No
lugar dos noticiários, o governo incluiu uma programação exclusivamente musical
e centralizada a partir de Bogotá. Organizações ligadas à liberdade de
expressão e de imprensa rechaçaram a medida alegando que ela prejudica o acesso
à informação local de diversas comunidades.
O Ponto 6.5 do Acordo de Paz da
Colômbia prevê
que essas emissoras divulguem o progresso da implementação dos termos do
acordo, promovam a educação da convivência e ofereçam espaços de informação às
comunidades impactadas por mais de 50 anos de conflitos armados internos na
Colômbia.
De
acordo com o Ministério da Tecnologia, Inovação e Comunicações da Colômbia, a
medida busca a “transformação integral do Sistema de Mídias Públicas” para
“recuperar” o caráter “público, plural e independente” do sistema.
O governo Espriella, que é crítico
do Acordo de Paz de 2016, acusou o noticiário das emissoras de funcionarem como
“aparato de propaganda” supostamente a serviço de “interesses particulares ou
políticos”.
“A
entidade será um Sistema de Mídia Pública, não um instrumento
político”, comunicou, em nota, o ministério responsável pela empresa
Inravisón, que administra o sistema público de comunicação colombiano.
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Entidades criticam
A
Fundação para a Liberdade de Imprensa (FLIP), a Missão de Observação Eleitoral
(MOE) e a Associação Mundial de Rádios Comunitárias (Amarc) rechaçaram, em
nota, a decisão do governo colombiano alegando que ela restringe o acesso
de comunidades inteiras à informação sobre seus próprios territórios.
“As
rádios comunitárias são a principal — ou até mesmo a única — fonte de
informações locais e notícias de interesse público. Essas emissoras beneficiam
mais de 463 mil pessoas em áreas rurais e em comunidades indígenas,
afrodescendentes e camponesas”, diz o comunicado das entidades.
As
organizações acrescentaram que a decisão “desconsidera” a natureza das rádios
da paz, criadas pelo Acordo de 2016 “para operar em áreas particularmente
afetadas pelo conflito”.
A
decisão do governo Espriella, ainda que anunciada como transitória, repete a
política do governo de Javier Milei para a comunicação pública da Argentina,
que levou ao fechamento, em 2024, da Agência Telám, o principal
veículo da mídia pública argentina.
A
medida tem ainda o potencial de limitar a pluralidade da mídia colombiana,
dominado por três grandes conglomerados empresariais. Segundo a organização
Repórteres Sem Fronteira (RSF), o ecossistema midiático colombiano deixa “60%
do país sem cobertura midiática local”.
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Mídia Pública
Inspirada
no modelo de comunicação pública da Europa, a mídia pública dos países da
América Latina surge com a promessa de oferecer à população um conteúdo que,
por não ter interesse comercial envolvido, não seria oferecido pela mídia
privada empresarial.
No
Brasil, a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), que controla
a Agência Brasil, é a responsável por gerir os veículos públicos federais
do país.
Criada
em 2007, a EBC atende ao Artigo 223 da Constituição Federal
que determina que o serviço de radiodifusão deve observar o princípio da
complementaridade entre os sistemas privado, público e estatal de comunicação.
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Justiça boliviana decreta prisão preventiva de consultor
argentino ligado a Milei e clã Bolsonaro
O juiz
Wilson Espada, a pedido do Ministério Público boliviano, expediu nesta
sexta-feira (21/08) um mandado de prisão preventiva de 180 dias contra o consultor argentino
Fernando Cerimedo,
acusado de tentativa de feminicídio e corrupção.
A
medida foi confirmada após o atentado de 17 de agosto contra a ex-companheira
de Cerimedo, Nadia Beller. O suspeito permanecerá na prisão de Palmasola, em
Santa Cruz, sob regime de segurança máxima.
Cerimedo,
que era assessor do presidente boliviano
Rodrigo Paz,
enfrenta cinco processos judiciais, incluindo “tentativa de feminicídio” e
corrupção, entre outros supostos crimes.
A
defesa, liderada por Ernesto Giraldes e Margarita Arce, denunciou
irregularidades no processo, como o acesso não autorizado ao seu telefone
celular, a prisão arbitrária e a demora em seu comparecimento perante o juiz.
No entanto, o magistrado rejeitou os argumentos, afirmando que as provas —
incluindo mensagens enviadas pelo acusado — justificavam a prisão preventiva.
Entre
as provas, encontra-se uma mensagem ameaçadora atribuída a Cerimedo: “Nadia nos
entregou. Ou a eliminamos ou estamos perdidos. Você conhece alguém que possa
fazer esse trabalho?”. Outras comunicações dirigidas à vítima também foram
encontradas, como “Você vai nos ferrar, não faça isso, espere alguns dias”.
Além
disso, foram identificadas mensagens recebidas de um contato sob o pseudônimo
ECG, identificado por Nadia Beller e pelo ex-presidente Evo
Morales como
Erick Correa González, chefe de inteligência do governo de Rodrigo Paz.
A
prisão de Cerimedo ocorreu em 20 de agosto em Aranjuez, La Paz, onde mais de
meio milhão de pesos bolivianos foram apreendidos, além de dólares e euros, de
acordo com o procurador departamental Carlos Torres.
A
operação também descobriu uma fazenda de bots, supostamente usada para
manipular tendências nas redes sociais, gerando uma quantidade massiva de
interações. As autoridades ainda estão investigando a dimensão e a finalidade
dessa infraestrutura tecnológica.
O
ataque contra Nadia Beller ocorreu depois que ela anunciou sua intenção de
denunciar uma rede de corrupção na qual, segundo as investigações, Cerimedo
colaborava com o presidente Rodrigo Paz e sua esposa, Maria Elena Urquidi, que
supostamente atuava como intermediária em algumas transações.
A
vítima, que estava grávida na época do ataque, permanece hospitalizada após ter
sido baleada várias vezes. Seus depoimentos, juntamente com registros de
chamadas e conversas online apagados, reforçam as suspeitas contra o consultor
argentino, que também tem ligações com atividades políticas na região.
O caso
gerou repercussões internacionais, após a tentativa de feminicídio atribuída a
Fernando Cerimedo, ato que levou a presidente do México, Claudia
Sheinbaum,
a classificá-lo publicamente como “autor de feminicídio”.
Apesar
da controvérsia, o presidente da
Argentina, Javier Milei, um aliado próximo de Cerimedo, mantém seus planos
de participar da segunda edição da “Gala Hispânica”, um evento organizado
pela Latino Wall Street e pelo veículo de comunicação La
Derecha Diario, fundado pelo próprio consultor argentino, atualmente preso
na Bolívia.
Fonte:
Por Tarso Genro, em A Terra é Redonda/Opera Mundi

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