Os
EUA e as eleições brasileiras
O
jornalão da oligarquia paulista, diário oficial do segmento mais atrasado da
classe dominante brasileira, levou nada menos de 151 anos para descobrir que o
imperialismo é uma realidade objetiva e ousou nomeá-lo como presente na América
Latina.
O
escorregão ideológico ajuda a explicar — se ainda é necessário —, a natureza
desse império que vem, de longa data, marcadamente a partir da proclamação da
Doutrina Monroe (1823), que reduzia nosso continente a mera extensão de sua
soberania.
Na
sequência sobreveio (1904) o Corolário Roosevelt à Doutrina Monroe (“fale
suavemente e carregue um grande porrete” ) e agora nos chega o Corolário Trump,
uma atualização imperial do big stick: “Os Estados Unidos reafirmarão e imporão
a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no Hemisfério
Ocidental”.
O ponto
de partida foi o México, que teve 53% de seu território surrupiado, e o ponto
de chegada ainda não é a Venezuela, cuja invasão (com o sequestro de seu
presidente) se seguiu a rapina de suas principais riquezas, ouro e petróleo.
Os EUA
sempre atuaram contra nossos países das mais variadas formas, desde ações
diplomáticas, pressões econômicas, sabotagens e operações militares visando a
mudar regimes, seja substituindo presidentes eleitos (mas supostamente não
“amigáveis”) como, por exemplo, João Goulart (1964) e Salvador Allende (1973),
a cujas deposições se seguiram duas longevas ditaduras militares, às quais
deram apoio o mais variado, inclusive treinando torturadores.
A
história registra 42 invasões desde 1898, mas elas não encerram a história
toda, pois os EUA também intervieram e solaparam as experiências
democrático-representativas de um considerável número de países, promovendo
golpes de Estado, desestabilização política e operações de sabotagem quase
sempre operadas pela CIA. Atuaram e atuam no financiamento da ação
oposicionista aos governos-alvo, promoveram sanções econômicas e políticas, e
influíram (e influem) na linha editorial dos principais meios de comunicação. O
caso brasileiro é exemplar.
Em 1975
os EUA coordenaram e financiaram a Operação Condor, uma aliança
institucionalizada entre Brasil, Argentina, Uruguai, e Chile para aniquilar
opositores, responsável por 400 mil presos e noventa mil mortos e
“desaparecidos”. A ação criminosa cessa em 1983, com a queda da ditadura
militar argentina.
Acossado
pela crise interna, um capitalismo ameaçado de colapso, cuja liderança vem
sendo corroída pela China, os EUA de hoje optam por um acelerado fechamento do
regime, com políticas abertamente racistas e persecutórias e culto à imagem do
autocrata (cenário em que o respeito ao processo eleitoral vai se tornando uma
hipótese distante); para fora, uma postura que contrasta com a “política de boa
vizinhança” que nos trouxe Walt Disney, Orson Welles, Aliança para o Progresso
etc. com vistas à contenção da influência soviética.
Sob
Trump, cientes do seu próprio declínio relativo (“Make America Great Again”),
os EUA não se mostram propensos a sutilezas – pelo contrário (símbolo disso é
que o Departamento de Defesa virou Departamento da Guerra). A este país – em
franca degeneração política, da qual Trump é um produto coerente, o inefável
Estadão (4 de julho), de novo ele, dedica editorial no qual saúda “O vigor da
democracia americana.” Qual o conceito de democracia que inspira os Mesquita?
O
projeto dos EUA de fazer da América Latina seu quintal é exposto sem rebuços.
Stephen
Miller, um dos principais assessores de Donald Trump na Casa Branca, justifica
a necessidade da invasão e a rapina da Venezuela: seria “um absurdo permitir
que uma nação em nosso quintal (our own backyard no original) se torne
fornecedora de recursos para nossos adversários, e não para nós”.
No
quintal dos EUA, o Brasil exporta minérios estratégicos para a China, contra
quem os EUA abrem uma nova Guerra Fria, filha daquela que no século passado,
após a segunda guerra mundial, entreteve com a URSS.
A mão
pesada do imperialismo está presente entre nós há mais de um século. Sob o
desvario trumpista, na sequência dos tarifaços, o país dá início a uma escalada
diplomática envolvendo a indicação de seu novo embaixador, um agente
provocador, e revogando o visto da embaixadora brasileira, Maria Luiza Viotti.
Em
dezembro de 2025, o governo Trump publicou a nova “Estratégia de Segurança
Nacional” onde se lê: “Os Estados Unidos reafirmarão e imporão a Doutrina
Monroe para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental”.
O
império afirma que se valerá de todos os meios ao seu alcance, e são muitos.
Conhecemos invasões como a da Venezuela (no último 3 de janeiro), os tarifaços
e o cerco político-econômico que Cuba padece desde 1959.
A mão
pesada do imperialismo segue presente entre nós. Vivemos hoje uma versão de
guerra híbrida. Ou a guerra clássica por outros meios. E um deles é a
intervenção no processo eleitoral.
Foi
intervindo desabridamente nas eleições de 1962 que o império começou a preparar
a deposição do presidente João Goulart. As eleições de 1962 são um marco
importante para estudar a ingerência de Washington na política brasileira,
porque a atuação norte-americana passou de uma influência diplomática/econômica
mais convencional para uma intervenção direta no processo eleitoral, combinando
financiamento clandestino de partidos e candidatos de oposição ao governo, com
articulação com setores militares, empresariais e políticos brasileiros.
Intervieram
com recursos diretos e por intermédio de multinacionais americanas — como
Texaco, Esso, Coca-Cola, Bayer e IBM —, aqui atuando tanto no processo
eleitoral propriamente dito quanto interferindo na linha editorial da grande
imprensa.
Naquela
altura, o maior e mais ouvido noticiário brasileiro era “O Seu Repórter Esso”,
transmitido pela Rádio Nacional (então líder de audiência) e retransmitido por
um sem-número de emissoras espalhadas pelo país. Na televisão, o maior e mais
ouvido noticiário era o “Repórter Esso”, levado ao ar pela TV Tupi, líder da
Cadeia Associada. Para viabilizar a ação corruptora do processo eleitoral, foi
fundado o IBAD — Instituto Brasileiro de Ação Democrática.
O
Brasil de então era insuportável para Washington. Ademais de sustentar uma
política externa independente, mantinha boas relações com Cuba.
Em
1962, o Brasil realizaria eleições quase gerais: tratava-se das eleições para
governadores, Senado, Câmara dos Deputados e assembleias legislativas.
A
estratégia do Departamento de Estado era fortalecer a oposição. Era a
oportunidade para modificar a correlação de forças dentro do próprio Estado
brasileiro: 1) eleger uma bancada conservadora capaz de bloquear as iniciativas
de Jango no Congresso (tática que a direita repete nas eleições de 2026); e 2)
evitar a eleição de governadores de esquerda, como Miguel Arraes em Pernambuco.
Os EUA
intervieram sob as mais diversas formas. Mas o principal instrumento foi o
financiamento de candidatos considerados anticomunistas, conservadores e
favoráveis aos interesses econômicos estadunidenses. Esse dinheiro chegou por
diversas fontes: diretamente, por intermédio da CIA, ou pelos canais
estabelecidos com multinacionais e mesmo diretamente entregues aos
beneficiários. Um mar de dólares, ainda hoje difícil de quantificar.
A CPI
(1963) que investigou a ação do IBAD apurou um derrame de US$ 5 milhões,
enquanto uma fonte da própria CIA (Philip Agee) estima em US$ 20 milhões os
gastos dos EUA nas eleições brasileiras de 1962 em apoio a candidatos de
oposição.
A
dinheirama, todavia, não foi aplicada apenas na sustentação das candidaturas.
De igual modo, milhões de dólares foram injetados na montagem de uma máquina de
propaganda anticomunista, de que era acusado o governo que falava em reforma
agrária. Ainda segundo o relatório da CPI algo como 600 candidatos a deputados
estaduais e 250 candidatos a deputados federais, além de candidatos a
governador e vice-governador, teriam recebido ajuda da CIA por intermédio do
IBAD.
O
objetivo era alterar a composição política do Congresso e, assim, inviabilizar
o governo Jango. Criar condições para uma solução de força caso a via eleitoral
não funcionasse. Não se tratava, ainda, naquela altura, de sua deposição, mas
da construção de uma correlação de forças que tornaria possível sua queda. Como
sabe a história, a conspiração militar contra João Goulart teve início mesmo
antes de sua posse, com a tentativa de golpe intentada pelos ministros
militares, na sequência da renúncia de Jânio Quadros.
Um dos
objetivos da política dos EUA para o Brasil, hoje, é impedir a reeleição de
Lula, medida fundamental para a consolidação do controle reacionário da América
do Sul. A preferência declarada é pelo herdeiro do capitão Bolsonaro. Mas
qualquer alternativa a Lula será bem recebida. A direita não carecerá de apoio
político ou de recursos. Dão-se as mãos a Faria Lima e o agronegócio: o
rentismo estéril e o atraso político. Não faltarão recursos, sejam forâneos,
sejam nacionais, para financiar a campanha eleitoral da direita. Desta feita, o
objetivo explícito é consolidar e fazer crescer a atual composição do
Congresso, majoritariamente reacionária, e, assim, inviabilizar o eventual
quarto mandato do presidente Lula. Se não conseguir derrotá-lo, ou impedir sua
posse, como o bolsonarismo tentou em janeiro de 2023.
Esta
eleição, portanto, se apresenta com características que a tornam exemplar. Ela
é certamente a mais importante desde a redemocratização de 1985. Mais do que
eleger o novo presidente da República, estaremos decidindo o destino da
democracia brasileira.
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Ação e reação
Um
efeito do avanço da direita (tendo como ponta de lança a extrema-direita
neofascista) é, quase como numa aplicação da terceira lei de Newton, o recuo da
esquerda. Vejamos: enquanto à direita há três candidaturas com discurso
fascista, sem papas na língua (para elas, o céu é o limite), ao lado de uma da
direita tradicional (e todas pontuando nas pesquisas), à esquerda temos que nos
agarrar à “utopia lulista” de preservar algo do capítulo social da CF-88 sem
arranhar o sacrossanto arcabouço fiscal (a propósito, que lições o atual
ministro da Fazenda foi pedir a Pedro Malan e Armínio Fraga?). Assim, a pressão
estrangeira sobre nosso processo eleitoral também se presta, para além de
tentar impedir a reeleição de Lula, a restringir a um quase nada o espaço de
ação da esquerda brasileira, cingindo os limites do nosso próprio imaginário à
perspectiva da sobrevivência. Neste quadro, como falar em socialismo?
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A ignorância leva a injustiças
A
diretora da Faculdade de Comunicação da UnB bloqueou o andamento do processo de
concessão do título de professor emérito da UnB ao Professor Marco Antonio
Rodrigues Dias, proposto pelos professores do setor de pós-graduação. O motivo
alegado é que ele teria sido vice-reitor da ditadura. A decisão é arbitrária e
lamentável, e Marco Antonio é intelectual respeitado e admirado como poucos
pela sua atuação na UnB, principalmente nos difíceis tempos da ditadura. A
diretora, nada obstante ter curso superior -requisito para ocupar o cargo –,
desconhece a diferença entre na ditadura e da ditadura. A história recente da
UnB, porém, é conhecida e ela nos diz que o Professor Marco Antonio, cuja
amizade me honra, se destacou justamente pela oposição à ditadura e por haver
defendido os estudantes punidos em 1977, ao preço de uma perseguição implacável
que incluiu, até, ameaças de morte. Recomendo à diretora da Faculdade a leitura
da ata da segunda reunião do Conselho Universitário da UnB-Consuni. Se o fizer,
conhecerá o que ignora apesar do cargo e a vivência na Universidade. As razões
por que estudantes de Medicina, Comunicação, Psicologia e outros cursos
escolheram naquela época o Professor Marco Antonio como paraninfo, patrono ou
homenageado especial.
Fonte:
Por Roberto Amaral, em Viomundo

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