Exercício
e trabalho físico têm efeitos distintos sobre a demência
O
sedentarismo é um dos principais fatores de risco modificáveis da doença de
Alzheimer, mas nem toda atividade física tem um papel protetor, diz um estudo
publicado na revista The Lancet Public Health. Baseados em dados de 4,2 milhões
de pessoas, os pesquisadores afirmam que, enquanto práticas planejadas, como
caminhada, ciclismo, musculação e natação estão estatisticamente associadas à
menor incidência de demência, trabalhos fisicamente exigentes, especialmente no
ambiente laboral, podem ter uma relação contrária
Os
pesquisadores fizeram uma revisão de 74 estudos realizados em diversos países e
concluíram que o efeito da atividade física sobre o risco de demência pode
depender de onde, como e em que contexto ela é realizada. No conjunto, níveis
elevados de exercícios estavam associados a uma redução de 20% no risco de
demência por qualquer causa, de 21% no de Alzheimer, e de 29% no caso da
demência vascular.
Ao
separar os diferentes tipos de práticas, os autores do artigo identificaram que
aquelas realizadas no tempo livre tinham relação com uma chance 29% menor de
demência. Por outro lado, o exercício ocupacional mostrou associação a um risco
20% mais elevado. Segundo os pesquisadores, trata-se do paradoxo da atividade
física, já bem documentado em estudos sobre doenças cardiovasculares: trabalhos
que exigem muito do corpo não rendem os mesmos benefícios da atividade
voluntária e podem até aumentar a probabilidade de se desenvolver doenças.
"As
descobertas desafiam a antiga suposição de que 'cada movimento conta' para a
saúde do cérebro", comenta Natan Feter, primeiro autor do estudo,
pós-doutorando no Laboratório de Biologia Evolutiva da Atividade Física na
Universidade do Sul da Califórnia (USC), nos Estados Unidos, e pesquisador do
programa de pós-graduação em epidemiologia da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul. A pesquisa foi liderada por David Raichlen, professor da unidade
da USC em Dornsife e envolveu dados de pessoas com idades entre 45 e 93 anos em
30 países. Os voluntários foram acompanhados, em média, por 10 anos, período
durante o qual os pesquisadores monitoraram diagnósticos de demência por todas
as causas, doença de Alzheimer e demência vascular.
De
forma geral, a atividade física, aliada a fatores como alimentação, padrões de
sono e não consumo de álcool, tem uma relação bem documentada com a proteção
cardiovascular, o que inclui o cérebro. Segundo o neurocirurgião Marcelo
Valadares, responsável pela área de Neurocirurgia Funcional da Universidade
Estadual de Campinas (Unicamp), os exercícios favorecem a circulação sanguínea
e auxiliam no controle da pressão arterial, da glicemia, do colesterol e do
peso. "A prática também estimula mecanismos ligados à plasticidade
cerebral: a capacidade do sistema nervoso de criar e reorganizar
conexões", diz.
Porém,
no estudo publicado na The Lancet Public Health, os autores ressaltam que o
termo atividade física pode englobar exercícios, trabalhos manuais, tarefas
domésticas e deslocamentos. Cada um dos contextos ocorre em circunstâncias
distintas, podendo ter efeitos diversos na saúde, a longo prazo.
Por um
lado, os exercícios voluntários, realizados no tempo livre, acompanham o ritmo
do praticante e, muitas vezes, incluem interação social e redução de estresse.
Já os trabalhos fisicamente pesados podem envolver tarefas repetitivas, longos
períodos em pé, levantamento de peso, tempo de recuperação limitado e exposição
a riscos laborais.
Para os
autores do artigo, os danos potencialmente associados à atividade laboral não
são causados pelo trabalho em si. Em vez disso, podem "refletir condições
sociais e ambientais mais amplas". Por exemplo, ocupações manuais
geralmente envolvem estresse, condições perigosas e maior exposição à poluição
do ar e sonora. Independentemente, esses são fatores associados ao risco menor
de demência. Outra hipótese levantada pelos pesquisadores é a de que empregados
nessas funções podem ter menos oportunidade de praticar exercícios recreativos,
seja por restrição de tempo, seja por fadiga ou acesso limitado a locais
seguros e adequados às atividades físicas.
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Consistência
Natan
Feter destaca uma limitação do artigo: quase todos os estudos incluídos se
basearam em relatos dos próprios participantes sobre a atividade física, o que
não pode ser medido objetivamente. "Mesmo assim, a consistência dos
resultados em diversas análises de sensibilidade dá confiança de que a
associação deve ser levada a sério", diz o pesquisador.
Em
nota, David Raichlen, professor da USC, em Dornsife, alerta que o estudo não
significa que as pessoas devem evitar trabalhos fisicamente ativos, até porque
os resultados são observacionais, ou seja, não estabelecem uma relação de causa
e efeito. Em vez disso, ele destaca a importância de se considerar o contexto
em que a atividade física ocorre, o que pode ter implicações para políticas
públicas de saúde.
"Em
outras palavras, quando se trata de proteger o cérebro, o contexto da atividade
física pode ser tão importante quanto o próprio movimento", disse
Raichlen. "Melhorar o acesso a parques seguros, trilhas para caminhadas e
instalações recreativas, garantir que as pessoas tenham tempo livre suficiente
para se exercitar e reduzir a exposição a substâncias nocivas no local de
trabalho pode, em última análise, ser tão importante quanto promover a própria
atividade física."
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(RJ), vice-presidente do Congresso Brasileiro de Neurocirurgia 2026
• Por que a atividade física praticada no
tempo livre parece proteger contra a demência, enquanto a ocupacional
mostrou-se associada, no estudo, a um risco maior?
É
importante entender que nem todo esforço físico produz os mesmos efeitos. As
atividades físicas realizadas no tempo livre são planejadas e têm duração
limitada, permitindo períodos adequados de recuperação. Além disso, podem ser
ajustadas à capacidade de cada pessoa. Caminhar, correr, nadar, pedalar, fazer
musculação, por exemplo, pode melhorar a circulação sanguínea, cerebral e o
condicionamento cardiovascular. Esse condicionamento controla pressão, glicose,
colesterol e fatores de riscos que são diretamente associados à saúde do
cérebro. Já a atividade física ocupacional e intensa pode ter características
muito diferente. Muitas vezes, envolve esforço repetitivo durante várias horas,
levantamento de peso, postura inadequada, pouco tempo de reparação, estresse. E
o pior de tudo, que pode ser a privação do sono.
• O exercício pode prevenir demência?
Redução
de 21% não significa que o exercício impeça a pessoa de ter Alzheimer. Estamos
falando, principalmente, de associação epidemiológica. Pessoas fisicamente
ativas podem apresentar realmente outros fatores protetores, como alimentação
e, principalmente, o não consumo de álcool. Em relação à base biológica, há
bastante consistência na crença de que a atividade física produz, efetivamente,
proteção cerebral. Mas é a associação da atividade física com alimentação
saudável e controle de outros fatores de risco cardiovasculares. Isso ajuda a
neuroplasticidade cerebral, além do efeito cognitivo: quando a pessoa tem uma
atividade física regular, ela conhece outras pessoas, frequenta novos
ambientes, e às vezes, faz isso ao ar livre, o que é melhor ainda.
• Para um sedentário na meia-idade, qual é
o melhor exercício para o cérebro?
A
principal recomendação para uma pessoa sedentária é iniciar qualquer tipo de
exercício físico. E não é necessário começar pesado, tem que começar leve e ir
graduando progressivamente. Na saúde cardiovascular-cerebral, a referência
prática é buscar pelo menos 150 minutos semanais de atividade aeróbica
moderada, distribuída ao longo da semana, além de exercício contra resistência,
que aumenta a massa muscular. Pode ser dividido assim: caminhada mais
acelerada, bicicleta, natação, que elevam a frequência cardíaca e, a partir
daí, vai aumentando gradativamente. Os exercícios de força têm que ser pelo
menos duas vezes na semana. É interessante frisar que os benefícios parecem não
depender exclusivamente da intensidade. A mensagem não é "quanto mais
pesado, melhor". A mensagem é "movimenta-se sempre e
continuamente".
Fonte:
Correio Braziliense

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