Jovens
brasileiros se afastam das urnas, mas não da política
Os
jovens sabem como mobilizar a internet. Viralizam vídeos, criam tendências nas
redes sociais e colocam temas sociais, ambientais e políticos no centro das
discussões. Mas quando o assunto é participação eleitoral, a disposição parece
menor. Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) indicam que os brasileiros
mais jovens estão se afastando das eleições.
A
redução aparece em diferentes frentes: no número de eleitores da faixa etária
em que o voto é facultativo, na quantidade de filiados a partidos e também nas
candidaturas jovens.
Ysabella
Almeida estará com 17 anos nas eleições de 2026, idade em que o voto ainda não
é obrigatório. Ela decidiu adiar o primeiro compromisso eleitoral e justifica
seu afastamento por enxergar que falta representatividade da juventude e pelo
sentimento de que seu voto individual é irrelevante. "O meu voto não vai
ser uma coisa que mudaria [a realidade] e eu não me sinto representada. Eu não
sinto essa pressão [por votar]."
Na
visão dela, o distanciamento não decorre apenas de desinteresse pessoal. Os
partidos, afirma, falham ao dialogar com os adolescentes. "Hoje, os
partidos falam sobre coisas que não interessam à juventude. Eu acho que os
partidos tradicionais são muito distantes dos jovens e do que interessa para
eles. Eles falam de uma forma que não faz o jovem parar sua vida para ver um
vídeo sobre o que eles estão falando."
A
percepção de Ysabella Almeida encontra respaldo nos números. Segundo o TSE, o
contingente de eleitores com até 18 anos caiu 14,52% em relação às eleições de
2022. São 606,4 mil registros a menos. Hoje, esse grupo representa apenas 2,25%
do eleitorado brasileiro. Enquanto isso, o número de eleitores com mais de 60
anos segue crescendo.
Vale
lembrar que, nessa faixa etária, quando o voto não é obrigatório, os partidos,
além de precisarem convencer os eleitores de que seus candidatos são a melhor
opção para governar o país, precisam também convencê-los a votar.
Para
especialistas, o fenômeno vai além do voto facultativo. O desafio de atrair
jovens aparece em praticamente todas as etapas da política institucional, da
filiação partidária às disputas eleitorais.
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Filiação e candidaturas jovens
Um
levantamento do cientista político Murilo Medeiros, com base em dados do TSE,
mostra que o número de filiados entre 16 e 34 anos diminuiu 54% entre 2010 e
2026. Nesse período, os partidos perderam 1,47 milhão de jovens filiados.
Para
Medeiros, o dado evidencia uma mudança importante: os jovens continuam
engajados em debates e causas públicas, mas já não se sentem representados por
estruturas partidárias no atual modelo.
Entre
os jovens de 16 anos, houve um pequeno saldo positivo de 346 filiações no
período analisado. A partir dos 17 anos, porém, todas as faixas etárias até os
34 anos registraram retração.
O
retrato mais recente, entre 2022 e 2026, é um pouco mais favorável. Houve
crescimento nas filiações de jovens de 16 e 17 anos, com saldos de 447 e 832
novos registros, respectivamente.
Segundo
o cientista político, esse avanço foi impulsionado sobretudo por partidos
associados a lideranças jovens de grande visibilidade nas redes sociais, como
Erika Hilton (PSOL) e Nikolas Ferreira (PL). O fenômeno reflete o que ele chama
de "personalismo": quando o jovem se identifica mais com figuras
políticas específicas do que com o partido em si.
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O funil das candidaturas
As
barreiras estruturais nas candidaturas jovens também se somam ao cenário. Uma
pesquisa da Legisla Brasil, organização que atua pela qualificação e
representatividade do Legislativo, mostrou que candidatos jovens recebem
significativamente menos recursos de campanha do que concorrentes mais velhos.
Em
2024, uma candidatura jovem recebeu, em média, R$ 23.028, equivalente a 64% do
valor destinado às candidaturas de faixas etárias superiores, que era de R$ 36
mil.
Participantes
ouvidos pela pesquisa relataram sentir-se tratados como "massa de
manobra" dentro das siglas, mobilizados para atuar em campanhas, mas
raramente incentivados a ocupar posições de protagonismo político.
Para
Synthya Maia, pesquisadora da Legisla Brasil, a desigualdade na distribuição
dos recursos produz efeitos duradouros. "A candidatura para vereador é o
primeiro cargo que a juventude pode se candidatar, e travar essa entrada trava
a carreira inteira. Se o jovem não vencer a primeira eleição, esse caminho que
anos depois o levaria a uma candidatura do estadual, federal, por exemplo, já é
mais dificultado”.
O
estudo identificou dificuldades adicionais para quem tenta conquistar o
primeiro mandato. "A dificuldade do município não é só municipal. Ela
define, por exemplo, quem o Congresso vai ter daqui a 10 anos. Se essa base do
funil está obstruída, o topo também não vai se renovar”, ressalta Maia.
Segundo
ela, o problema afeta especialmente mulheres jovens e negras, reduzindo as
possibilidades de renovação do sistema político.
A
pesquisadora destaca ainda uma contradição recorrente: os jovens são
infantilizados quando buscam poder decisório, mas adultizados quando se exige
comportamentos tradicionais, como a forma de falar ou se vestir.
Dados
do TSE reforçam esse diagnóstico: de 1994 a 2014, a participação de candidatos
jovens (18 a 29 anos) no total de candidaturas aumentou, subindo de 4,0% para o
pico de 6,8%. Mas desde então, a proporção vem caindo a cada eleição geral: no
pleito de 2026, os jovens representam 4,6% dos candidatos, o menor patamar em
mais de três décadas.
Para
Synthya Maia, os números revelam um funil cada vez mais estreito. "Essa
travessia para o jovem é como um funil. Muitos jovens ainda estão dentro dos
partidos enquanto filiados, alguns poucos se candidatam, mas menos ainda
conseguem ser eleitos. Os partidos estão envelhecendo e uma parte desses jovens
está saindo porque, de fato, estão se desengajando com a política
partidária", diz a pesquisadora do Legisla.
Na
avaliação do cientista político Murilo Medeiros, esse esvaziamento pode gerar
consequências que vão desde o atraso na renovação das lideranças do país à
redução da qualidade da representação nas próximas legislaturas. "Sem a
presença de jovens, vamos ver os partidos tentando correr, recrutar figuras,
como youtubers ou representantes de corporações em cima da hora, somente para
cumprir a tabela e disputar a eleição, sem a presença de quadros de
qualidade", complementa o cientista político.
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Juventude não abandonou a política
Apesar
do afastamento das urnas e dos partidos, os especialistas rejeitam a ideia de
uma geração apática com a política. Para Medeiros, o que está em curso é uma
mudança na forma de participação política.
"O
jovem continua militando por suas causas nas redes sociais, nas escolas, nas
universidades, nos coletivos, mas não conseguem mais enxergar nos partidos
tradicionais e também no exercício do voto, caminhos reais de
transformação", descreve o cientista político.
Evillin
Barbosa, que completou 16 anos em 2026, é prova disso: ela também optou por não
tirar o título eleitoral neste momento, mas ressalta que, na verdade, o
objetivo é ter uma formação cidadã mais sólida antes de votar.
Ela
justifica sua escolha de não votar precocemente pela necessidade de maior
estudo e compreensão sobre o sistema eleitoral, e ressalta que a falta de
preparo contribui para essa insegurança.
"Eu
preciso estudar mais sobre a política, sobre os projetos dos políticos e eu vou
aproveitar esse tempo que eu não preciso obrigatoriamente votar para começar
isso. Entre os meus colegas, eles têm um tipo de conhecimento político, mas
eles também estão pretendendo estudar mais sobre como funciona a política do
nosso país porque nas escolas, por mais que os nossos professores tentem sempre
colocar a política na nossa educação, ainda falta ensino sobre o assunto, sobre
como funciona cada cargo, mas eles [os colegas] sempre estão expressando as
decisões políticas que pretendem ter no futuro", diz ela.
Mesmo
sem participar das eleições neste momento, ela afirma que debates sobre
racismo, misoginia e outros temas sociais estão presentes no cotidiano dos
estudantes.
"Tem
muita diversidade de opinião política na minha sala e na escola. Estamos sempre
conversando com sobre alguns assuntos que a gente vê na internet, alguma coisa
que algum político falou ou sobre projetos", diz Evilin Barbosa.
Para
Medeiros, há uma desconexão entre as estruturas partidárias e as novas formas
de engajamento político. "Esse descasamento e falta de conexão entre o
jovem e os partidos acaba colaborando para esse afastamento do processo
eleitora."
Ele
acrescenta que fatores socioeconômicos também ajudam a explicar o fenômeno.
Jovens
de menor renda e escolaridade tendem a demonstrar mais descrença na política
institucional, muitas vezes porque enfrentam prioridades imediatas ligadas à
sobrevivência econômica e não percebem no voto uma ferramenta capaz de
transformar sua realidade.
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Como reaproximar os jovens?
Para
Rafael Dias, professor da Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp, as novas
tecnologias estão transformando a relação entre juventude e política.
Segundo
ele, as mobilizações digitais, os abaixo-assinados online, os boicotes e a
produção e disseminação de conteúdo político nas redes sociais por jovens dessa
faixa etária criaram novas formas de a juventude se relacionar com a política a
partir das possibilidades das tecnologias.
Na
avaliação dos especialistas, partidos políticos precisarão oferecer espaços de
participação efetiva no processo para reconquistar a nova geração. Sem isso, o
afastamento tende a se aprofundar, comprometendo a renovação das lideranças e a
representatividade da democracia brasileira nas próximas décadas.
Dias
acrescenta que há mudanças nas referências de organização de coletivos que têm
impacto na política e nas eleições. Em eleições ao redor do mundo, tem sido
observada uma relação forte entre fanbases (grupos de fãs) e política (caso dos
Swifties nos EUA, por exemplo). O professor diz que movimentos semelhantes de
influência de grupos de fãs podem ocorrer também no Brasil, onde personalidades
da internet alcançam milhões de seguidores e portanto detêm potencial
significativo para influenciar o debate e decisões políticas.
É
justamente esse tipo de aproximação que a jovem Ysabella Almeida considera
necessário. Ela acredita que a política precisaria dialogar mais diretamente
com pautas cotidianas que atravessam a realidade da juventude, como tecnologia,
educação e redes sociais.
Ela e
Evilin Barbosatambém defendem o uso de linguagens mais acessíveis e de figuras
de influência capazes de estabelecer pontes entre a juventude e o debate sobre
política no país.
Já em
relação às filiações e candidaturas, os especialistas defendem que os partidos
devem oferecer aos jovens espaços de participação efetiva com impacto social
concreto, saindo do papel de figurante para protagonista do processo.
Fonte:
DW Brasil

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