Qual
é o pior momento do ateu?
“O pior
momento do ateu é aquele no qual sente a necessidade de agradecer e não sabe a
quem”. Esta frase não é minha mas de C. K. Chesterton (1874-1936), grande
escritor inglês, tido como o “príncipe do paradoxo”, admirado por Alceu Amoroso
Lima, Gilberto Freire e principalmente por Gustavo Corção. Como todo ser
humano, o ateu deve ser respeitado em sua opção. Mas acontecem situações na
vida, pouco importam as opções, nas quais o sentimento de gratidão se faz
imperativo.
Não
porque o queiramos ou não. Mas por uma força intrínseca ao fato. Para tais
casos há várias respostas. Insuficiente é o acaso que para Albert Einstein
expressava apenas a nossa ignorância. Outros atribuem à sorte. Mas essa é tão
pouco esclarecedora, pois, seria como dizer: “por sorte, meu time de estimação
não foi rebaixado”. Mas há momentos mais dramáticos, onde se impõe uma resposta
espontânea: o agradecimento imperioso a Alguém maior.
Dou um
exemplo de ordem pessoal. Estou dirigindo tranquilo pela Avenida Paulo de
Frontin, no Rio de Janeiro, debaixo do viaduto do mesmo nome. Alguém atrás de
mim buzina repetidas vezes forçando uma ultrapassagem. Dou-lhe passagem. Alguns
metros adiante cai grande parte do viaduto de pesado cimento e ferros e mata
dezenas de pessoas. Sobre aquele que me ultrapassou caiu enorme pedaço do
viaduto e esmagou o carro e o chofer. Desci do carro e verifiquei que já estava
morto. Fiquei arrasado.
Por que
não eu? Se não lhe tivesse dado passagem, seria eu mortalmente atingido. Por
que fui poupado? Surge um sentimento de imensa pena pelo falecido e ao mesmo
tempo um profundo sentimento de gratidão. Há fatos carregados de tal densidade
(como a vida ou a morte) que não se deixam interpretar como mero acaso ou pura
sorte. Nosso sentimento se volta a um Maior, Àquele que conhece nosso destino e
deverá ter algum desígnio para que minha vida fosse poupada. Quem o saberá? É
uma indagação existencial para a qual não há resposta.
Esse
sentimento de gratidão é irresistível e nos deixa até perplexos. Ele surge
espontaneamente. Agradecer é bem mais que dizer simplesmente: “muito obrigado”.
Havia um famoso profeta que preambulava pelas ruas do Rio de Janeiro, com sua
bata branca e um estandarte com muitos apliques religiosos alguns, críticos ao
capitalismo outros, denominado de “Profeta Gentileza”. Ele nunca aceitava que
se dissesse: “muito obrigado” pois, dizia, não somos forçosamente “obrigados” a
nada. Mas deveríamos dizer: “muito agradecido”. “Porque agradecido vem da
“graça”.
Reconhecer
que a vida e os gestos de gentileza de uns para com os outros (seu moto:
“gentileza gera gentileza”) são obras da graça, daquilo que não tem preço, pois
é grátis. Ela merece ser reconhecida com gratidão. Pelé tinha razão quando
dizia: “Deixem-me jogar o futebol que Deus de graça me deu”. Gruyff, astro do
futebol holandês também disse: “Ganhei de graça dotes de ser um bom jogador”.
Esse reconhecimento gera humildade e simplicidade. O sucesso não ensoberbece os
craques, nem os distanciam dos outros.
Passemos
àquela realidade que merece diuturno agradecimento: a nossa própria existência.
Ninguém pediu para existir. Alguém nos colocou neste mundo. É uma graça existir
e continuar vivendo. Mas há um outro tão presente que o esquecemos: o Sol.
Precisamos do Sol para poder ver. Caso contrário tudo ficaria escuro. 99% de
toda vida na Terra depende do Sol. Mantém a água em estado líquido e assim
permite a vida e a fotossíntese das plantas.
Entrega-nos
o oxigênio sem o qual não respiraríamos. O próprio petróleo, fundamental para
nosso tipo de civilização que tudo polui, foi produzido pela luz solar via
fotossíntese, há um passado distante de milhões de anos. Precisamos da luz
solar para produzir todas as vitaminas, especialmente a D da qual dependemos.
O Sol
existe há 4,57 bilhões de anos, a partir de uma nuvem de gás e pó que colapsou
e se densificou nessa estrela de quinta, o Sol. Alimenta-se de hidrogênio (74%)
e de hélio (24%). É 332 900 vezes maior que a Terra. E está apenas na metade de
sua vida. Quando terminar de consumir o hidrogênio começará a queimar o hélio,
cujo calor será tão intenso que incinerará a Terra. Calma! Isso demorará ainda
alguns milhões e milhões de anos.
Como é
belo de manhã ver a névoa baixa por sobre o solo que logo se dilui pelo calor
do sol e vira orvalho deixando o gramado todo molhado. Se a temperatura chegar
a zero ou perto de zero, como onde moro, tudo vira o branco da geada.Com o Sol
nascente, um pouco mais e mais um pouco ela já desaparece. E o Sol banha tudo
com sua luz benfazeja,alimentando as árvores, despertando os animais e fazendo
crescer todo tipo de vegetação e de alimentos. Agradeçamos especialmente as
abelhas que garantem a polinização. Quando bebermos a água, agradeçamos à
fonte; quando tomarmos o vinho, agradeçamos à cepa de videira.
Quando
estamos à mesa desfrutando das bondades da natureza, sustentada pelo Sol, não
deixemos de agradecer a essa luminosa estrela que tudo nos dá. Agradeçamos o
feijão e o arroz, a carne, os legumes que compõem nosso prato. Agradeçamos ao
agricultor que tudo isso cultivou, levou ao mercado e aqueles que na cozinha os
transformam em alimentos saudáveis.
Estamos
continuamente sob a ação das energias do universo, das estrelas, do Sol, da
Terra, das raízes das árvores, que produzem as folhas para a fotossíntese e as
flores para o nosso encanto. Agradeçamos as nuvens que nos trazem a chuva e a
Lua que nos leva a cantar: “Não há luar como esse do sertão…” Agradeçamos
também aquele povo imenso dos micro-organismos, escondidos debaixo do solo e
que garantem a fertilidade da terra.
Tudo é
tão óbvio e cotidiano que nos esquecemos de agradecer. Esse sentimento seria o
primeiro do dia e da noite. E sabemos a Quem agradecer, ao Criador de todas as
coisas. Sem Ele não existiríamos. Foi Ele que nos tirou do nada ou do “All
Nourishing Abyss” (o Abismo alimentador de tudo) na linguagem secular dos
cosmólogos. Nós dizemos simplesmente o Deus de mil nomes e de nenhum.
A
teologia ensina: se Ele não dissesse a cada momento “faça-se”, repito a cada
momento, voltaríamos ao nada. A criação não é algo do passado. É o permanente
momento em que o Criador pronuncia a palavra geradora: “faça-se”. E tudo começa
a existir e a subsistir. Se compreendermos esse milagre permanente, saberíamos
a Quem agradecer, cantar louvores e nos encantar.
Devemos
respeitar cada um dos ateus, pois cada qual tem direito de definir, a seu modo,
a leitura do mundo e de seu futuro. Mas vemos a boa razão de C. K. Chesterton,
ao se referir ao sentimento que pode tomar o ateu, que milagrosamente escapou
ileso de mortal acidente aéreo. Como humano, algo maior e interior o faz sentir
que deve agradecer. A quem? À sorte? É muito pouco. Deve ser algo mais
profundo, por exemplo à vida? Mas ela é sempre mortal. Esta vida remete Àquela
Vida que criou a vida mortal. Foi esta vida misteriosa que o salvou para
continuar a viver. A Ela cabe o agradecimento do fundo do coração, com comoção
e em lágrimas.
Ateu ou
religioso, o agradecimento é um sentimento radicalmente humano.
Fonte:
Por Leonardo Boff, em A Terra é Redonda

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