Honduras:
povo que expulsa narcos é perseguido, enquanto símbolo do narcoestado é
perdoado por Trump
Se a
agenda norte-americana fosse verdadeira (freio ao narcotráfico, freio à migração e freio à
violência), o povo garífuna de Honduras deveria estar em festa. Eles são um
movimento social que recebe a população centro-americana que retorna ao seu
território, têm um projeto produtivo alternativo ao visto que é vendido em
todos os centros comerciais e enfrentam o crime organizado com tambores.
No
entanto, na guerra contra as drogas promovida pelos Estados Unidos, os
condenados são libertados e aqueles que libertam a terra das drogas são
condenados. Membros da comunidade garífuna, que recuperou as terras e a água
utilizadas pelo narcotráfico, estão sendo detidos, processados judicialmente e
despejados por uma política repressiva que tem sua bússola apontada para o
norte.
O
presidente de Honduras, Nasry Asfura, aprovou em 10 de
junho um decreto para o Fortalecimento e Proteção do Setor Agroindustrial,
Projetos de Energia, Turismo, Pecuária e Pequenos Produtores Agrícolas, que
abriu caminho para criminalizar os movimentos indígenas e camponeses.
Se na
Europa a chegada de migrantes é chamada de “invasão”, na América Latina a
ocupação dos povos originários de suas próprias terras recebe o mesmo nome. Os
ultrarricos são os únicos que têm direito a permanecaer ou chegar em um
neoimperialismo descarado, porém fascistizado.
Assim,
em 26 de julho, retornou ao país Juan Orlando Hernández, que havia sido
condenado a 45 anos de prisão, nos Estados Unidos, por narcotráfico e que foi
indultado por Trump em um perdão chamativo.
Hernández
foi governante de Honduras de 2014 a 2022 e precisa enfrentar um processo local
por suposta fraude e lavagem de dinheiro. Ele foi condenado por transformar o
país em um “narcoestado” e facilitar o comércio de 400 toneladas de cocaína.
<><>
O povo garífuna
Em 12
de abril de 2026, completou-se o 229º aniversário da
chegada dos garífunas ao atual território de Honduras. Em 1797, eles
chegaram em uma migração forçada pelo colonialismo inglês, depois de viverem
livres em São Vicente, no Caribe, durante mais de um século. Hoje, a ilha se
chama São Vicente e Granadinas. O colonialismo britânico exerceu o poder até
1979.
Os
garífunas se definem como um povo originário e chegaram quando Honduras ainda
não era um país; somente um quarto de século depois, foi consagrada a
independência dos espanhóis, em 15 de setembro de 1821, quando foi assinada a
Ata de Independência das Províncias Unidas da América Central e começou o
processo para consolidar um Estado-nação que tentou expulsá-los por não serem
criollos e, ao mesmo tempo, utilizou-os para a mineração e a servidão.
Os
ancestrais aruaques, caribes e africanos se misturaram em suas raízes, que se
reproduzem em centros circulares e sagrados de saberes ancestrais, onde as
receitas com coco e os tambores com os quais entram para recuperar territórios
em áreas tomadas pelo narcotráfico, a língua e a espiritualidade que praticam
em suas comunidades são ensinados informalmente. Eles têm um grande projeto em
construção em Vallecito, com uma estrutura semelhante às faculdades ocidentais,
em uma universidade de saberes ancestrais.
Nas
comunidades também há casas cerimoniais chamadas gayunari. A
cultura garífuna foi declarada Patrimônio Cultural pela UNESCO. Os
reconhecimentos são necessários quando a necessidade ronda. Mas o importante
não é o que dizem sobre os garífunas, e sim o que dizem em sua língua. Por
isso, os 35 meninos e meninas que vivem na comunidade de Vallecito são
transportados de madrugada para frequentar a escola, mas professoras também
chegam à comunidade para dar aulas, e outros meninos e meninas ensinam aos
menores palavras em espanhol e em garífuna, para que a língua não se perca e
renasça a esperança de saber que de onde se vem é o lugar para onde se chega.
Gabriela
Wiener diz que nós, escritoras latino-americanas, escrevemos em zigue-zague.
Ela tem razão. E há uma razão para isso. Percorrer um caminho central nunca é
seguir em linha reta, é sempre desviar, nunca deixar de desviar. E, depois do
buraco, vem a reação sem amortecedores, o solavanco permanente, ainda que se
esteja na terra ou porque se está na terra vibrante e sem orçamento para uma
infraestrutura que transforme as distâncias em um trajeto sem sobressaltos.
As
motos vão e vêm com a vantagem de serem mais acessíveis do que os carros e mais
ágeis para o esporte nacional de desviar dos buracos. Os condutores usam
coletes fluorescentes para evitar desastres, embora o capacete nem sempre seja
visível, inclusive em um país no qual a polícia para os veículos para pedir
documentação, com a justificativa de desmascarar o narco e com a leviandade de
fazer disso uma simulação de controle. Porque não foi a polícia que expulsou os
narcos, mas o povo garífuna, que recuperou seu território e reutilizou a terra
e o mar de onde a cocaína era transportada.
Os
caminhos lisos são um privilégio daqueles que levaram a riqueza da conquista e
acreditam que chegam mais rápido por serem velozes, e não porque têm tudo mais
fácil. Desviar faz parte de uma cultura que se torna imprescindível para a
sobrevivência. Ir de um lado para o outro tem seu lado A.
As
redes coloridas são trançadas nas barracas à beira da estrada, enrolam-se nas
árvores para dormir, ler, acarinhar ou deixar o tempo passar. O balanço faz
parte da sobrevivência de quem cai se ficar parado. Até nos caminhões as redes
são colocadas, contrariando todas as regras de segurança e estabilidade.
América Central, você não entenderia.
<><>
A neoconquista do ouro verde
Honduras
possui o valor natural do ouro verde. Na estrada de saída de San Pedro Tula,
uma pulpería (um armazém aberto em uma casa que vende um pouco
de tudo) chama-se La Bendición. O nome revela uma palavra-chave da América
Latina por culpa da conquista: o melhor do país se transforma na pior coisa que
pode acontecer ao país.
Não é
pelo valor, mas pelo saque. O solo hondurenho se transformou em um tapete de
palma africana, uma monocultura que destrói a terra e com a qual se produzem
gordura vegetal, sabão e estabilizantes. Por isso, uma das obsessões da
Coordenadora-Geral da Organização Fraternal Negra Hondurenha (OFRANEH), Miriam
Miranda, é retirar a palma e plantar coco. Retirar o que mata e voltar ao que
nutre. O importante.
No
difícil caminho de terra de chegada, vê-se como a palma africana arrasa ao
longo de Honduras. Os megacontêineres para processar a palma exalam um cheiro
pútrido que não precisa de análise ambiental para receber um sinal negativo. A
arara é a ave nacional e um símbolo tropical que o norte reproduz em vestidos,
brincos e papel de decoração.
Sempre
a matéria-prima está do lado do Atlântico que a produz e a cobrança pelo valor
agregado, do lado que o cobra. Adivinhe de que lado você está e eu lhe direi o
que perde e o que ganha, o que imita e o que deporta, quem é a prioridade em um
mundo de poucos privilégios e múltiplas periferias.
<><>
Os abutres não são um fundo
A
desigualdade é perceptível até nos pássaros. Apesar da beleza multicolorida das
plumagens, a ave mais encontrada é o urubu (ou abutre-preto), porque está perto
dos lixões que sobram às margens das estradas. Tudo o que fica desimpedido na
Europa, por outro lado, na América Latina deixa transparente a riqueza e
denuncia a pobreza com suas consequências à primeira vista. Não é apenas
maximalismo, é também máxima desigualdade estrutural.
“Bem-vindos
à França”, diz uma placa. O nome é uma homenagem. Na França, porém, não
homenageiam Honduras. A pobreza se desnuda na falta de trabalho, mas também na
falta de descanso. Um homem arrasta um colchão retirado de um lixão.
Mas o
colchão vence dez costas a zero, e ele resiste. A morte também está menos
escondida, mais ameaçadora e mais resolvida. Os cemitérios não têm muro nem
portão, fazem parte da paisagem, com suas flores e túmulos, com seus lutos sem
espartilho e suas orações abertas e sem muro.
As
frutas resistem ao monopólio em um quadro permanente de mercados que são poesia
breve e explosão colorida. A oferta muda de acordo com as barracas, mas se
multiplica: água de coco em saquinhos (é preciso dominar a arte de acertar o
gole e não se molhar na tentativa, sem perder a secura nem a compostura),
suquinhos naturais da fruta que cada um quiser, mangas azedas ou doces e
melancia, inteira ou em pedaços.
As
plantações de abacaxi dão uma lição: é possível crescer de baixo para cima, e
aquilo que parece áspero pode conter uma forma de defesa para conservar a
doçura.
O
guarda-chuva tem dupla utilidade na América Central, as chuvas temporárias e
aquelas que vêm de bonus track com as mudanças climáticas, mas
também protegem a cabeça do risco on fire de ficar vermelha
diante do sol escaldante, em caminhadas que substituem o transporte escasso de
ônibus amarelos e sempre lotados.
As
estradas são complicadas, em trajetos que têm desníveis permanentes e a
promessa de pavimentação, tão esperada quanto a de que o mundo seja um pouco
mais justo.
Os
anúncios em grandes cartazes são protagonizados pelo ex-jogador de futebol
argentino e streamer Sergio Kun Agüero, que
aparece em publicidades da Pepsi, e pela ex-presidenta Xiomara Castro (de 27 de
janeiro de 2022 a 27 de janeiro de 2026), que mantém sua imagem, até um mês
depois de deixar o governo, em cartazes que o novo presidente, Nasry Asfura,
não chegou a retirar.
Ela
parece uma exploradora, com camisa cáqui e óculos Ray-Ban que
não tira nem em sua própria campanha eleitoral, embora não buscasse a
reeleição, mas tenha protagonizado outra tentativa de um governo de esquerda
que se deparou com seu próprio fracasso. Na publicidade oficial, olhava para a
sociedade que governava com uma distância de safári.
A
realidade se torna mais uma prova de que a resposta política não está na
política. Os movimentos sociais constroem experiências que não terminam com uma
gestão e — se não se submetem aos encantos oportunistas de uma vitória
passageira — a sustentação é maior.
<><>
Cumprimento das sentenças
Na
comemoração de seu mais que bicentenário, exigiu-se o respeito às terras
ancestrais e o cumprimento das sentenças internacionais contra a discriminação
e o esquecimento estatal da comunidade garífuna. “Denunciamos a apatia
demonstrada ao não proceder ao cumprimento das sentenças da Corte
Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) que reconhecem o direito inalienável
das comunidades de Punta Piedra, em Iriona, departamento de Colón; Triunfo de
la Cruz e San Juan, em Tela (Atlántida); e Cayos Cochinos, departamento de
Islas de la Bahía”, destacaram, evidenciando o mapa da indiferença estatal,
apesar de contarem com quatro sentenças de respaldo.
O
Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos
(ACNUDH) os apoiou: “Instamos o Estado a tornar plenamente efetivos seus
direitos econômicos, sociais, culturais, ambientais e territoriais, e a avançar
no cumprimento das sentenças da Corte Interamericana de Direitos Humanos
(CIDH), adotando ações concretas que garantam sua implementação efetiva”.
A
OFRANEH nasceu nos anos 1970. Naquele momento, ocorreu um processo de
acumulação de terras por parte de latifundiários e, como resposta, em 1978, as
comunidades convergiram na Federação do Povo Garífuna de Honduras. Ela reúne 45
comunidades e conseguiu algo que nenhum país, nenhuma guerra contra as drogas,
nenhum presidente que bombardeia barcos no Pacífico, que encarcera, deporta,
impõe regimes especiais ou executa conseguiu.
Eles
venceram o narcotráfico. Assim como se escreve, assim como soa, assim como é
impossível para qualquer narrativa de erotização criminosa da Netflix, ou para
qualquer scanner de aeroporto. Aqueles que venceram o narco agora são detidos,
criminalizados e expulsos de sua própria terra. Em uma América Latina saqueada
por Trump e sem contrapontos, a OFRANEH é mais do que um povo vítima da
repressão da extrema direita: é um exemplo de organização que, além de se
defender, cultiva outra forma de vida que faz sentido.
¨
Em 2024, bilionário ligado a Trump definiu com Delcy
modelo que abriu petróleo venezuelano ao capital privado
O nome
de Alejandro Betancourt ganha força no
cenário midiático regional após vir à tona o papel deste empresário venezuelano
como figura-chave no novo relacionamento entre o governo de Donald Trump e
o governo interino de Delcy Rodríguez na Venezuela.
Uma
investigação publicada pelo jornal El País estabelece que
Betancourt, que já foi protagonista de grandes escândalos de corrupção e
acusado de financiar a oposição golpista, é hoje a principal ponte dos
interesses petrolíferos entre Washington e Caracas.
Betancourt
faz parte do grupo que na Venezuela é conhecido como “os bolichicos”, jovens empresários
corruptos cuja fortuna cresceu da noite para o dia a partir de contratos
bilionários com a Petróleos de Venezuela.
Sua
empresa, a Derwick Associates, recebeu contratos milionários entre 2009 e 2011
para a construção e aquisição de equipamentos para usinas de geração elétrica
em meio à crise do serviço no país, apesar de não contar com experiência
prévia. O governo de Nicolás Maduro acusou judicialmente Betancourt de lesar o
país em conluio com o ex-ministro do Petróleo Rafael Ramírez.
Continua
após o anúncio
Inclusive
Jorge Rodríguez, irmão da presidente interina, acusou, em 2020, Alejandro
Betancourt de financiar a oposição extremista e o pretenso governo paralelo de
Juan Guaidó com dinheiro roubado da nação. Mas a dinâmica mudou drasticamente
após a agressão militar estadunidense de 3 de janeiro.
Quem
foi assessor de Trump para a Venezuela, Mauricio Claver-Carone, declarou à
agência Reuters que funcionários dos Estados Unidos utilizaram Betancourt como
intermediário para se comunicar com o governo de Rodríguez. Por Betancourt
“entender o negócio petrolífero nos dois países”, ele foi considerado uma peça
útil para estabelecer pontes em torno de interesses comerciais.
Meios
de comunicação como El País e Bloomberg revelaram
que Betancourt retornou discretamente
este ano a Caracas em voos privados para assessorar o governo de Delcy
Rodríguez. Por meio da figura dos Contratos de Participação Produtiva,
Betancourt expandiu substancialmente seu negócio petrolífero. Sua empresa,
North American Blue Energy Partners (NABEP), assumiu os campos da Petrozamora,
no estado de Zulia, consolidando-se como o segundo maior produtor privado de
petróleo bruto, atrás apenas da Chevron.
Betancourt
já não é perseguido nem nos Estados Unidos nem na Venezuela, segundo informa
o El País. O paradoxo de sua figura, de corrupto e golpista a
aliado estratégico, ilustra a enorme guinada que o poder experimentou depois de
3 de janeiro.
<><>
Bilionário ligado a Trump
Alejandro Betancourt, o homem que hoje
figura como peça-chave da relação econômica entre Washington e Caracas, definiu
junto a Delcy Rodríguez, em 2024, o
modelo de negócios que a Venezuela promove como símbolo de sua abertura
petrolífera após o sequestro de Nicolás Maduro, em 3 de janeiro passado.
Continua
após o anúncio
A
empresa North American Blue Energy Partners (NABEP) assinou, em abril de 2024,
o primeiro Contrato de Participação Produtiva Petrolífera (CPP) no âmbito da
Lei Antibloqueio, um modelo que permitia à empresa privada ter uma participação
maior no negócio do que aquela permitida pelo marco jurídico vigente. A empresa
era propriedade de Betancourt e do empresário do setor petrolífero
estadunidense Harry Sergeant III, que, segundo investigações da Bloomberg,
atuava como elo entre o poder de Washington e o governo de Nicolás Maduro.
Mas os
vínculos de Betancourt com o entorno de Trump não são
recentes. Em 2019, em meio a investigações por lavagem de dinheiro nos Estados
Unidos, na Espanha e na Suíça, o ex-prefeito de Nova York e então advogado
pessoal de Donald Trump, Rudy Giuliani, representou Betancourt perante o
Departamento de Justiça dos Estados Unidos para interceder em seus processos
legais e estreitar laços com o entorno republicano.
Naquela
época, Giuliani ajudou Betancourt a se posicionar como um ator útil para
Washington, apresentando-o como aliado da oposição extremista representada
então por Juan Guaidó, a quem os Estados Unidos reconheciam como presidente
paralelo da Venezuela.
Isso
não impediu que Betancourt entrasse no negócio petrolífero por meio do modelo
CPP apresentado por Delcy Rodríguez e pelas mãos de Sergeant III. Mas este ano
tudo mudou. Sergeant III, considerado próximo a Maduro, foi afastado e
Betancourt ascendeu como facilitador dos negócios petrolíferos. Em fevereiro,
Donald Trump acusou o primeiro de tentar atuar como intermediário sem a
autorização de Washington ao viajar a Caracas para se reunir com Delcy
Rodríguez.
Segundo
a Bloomberg, a Casa Branca teria pressionado para que o magnata, conhecido
doador republicano próximo ao entorno de Trump, vendesse sua participação na
NABEP, o que ocorreu em 7 de agosto passado, transferindo o controle absoluto
da empresa para Betancourt por 300 milhões de dólares. Uma semana depois, o
Departamento do Tesouro sancionou a empresa offshore Bluwaves Properties, de
propriedade de Sergeant, restringindo ainda mais sua capacidade de atuação na
indústria.
Com
Sargeant fora da equação, Betancourt assumiu o controle hegemônico da NABEP e
ascendeu à primeira linha como assessor do governo Trump para destravar o
negócio petrolífero no país. Por meio da NABEP, Betancourt administra campos
importantes no Lago de Maracaibo e na Faixa Petrolífera do Orinoco, com uma
extração próxima a 200 mil barris por dia. Esse volume posiciona a NABEP como a
segunda maior produtora privada de petróleo bruto da Venezuela, ficando apenas
atrás da gigante Chevron. Além disso, encarregou-se de facilitar contratos nos
termos dos CPP para empresas pequenas como Pacific Coast Energy Co. e Lionheart
Capital.
Fonte:
Por Luciana Peker, no La Marea/La Jornada

Nenhum comentário:
Postar um comentário