Getúlio
Vargas: uma doutrina para o futuro do Brasil
Em 24
de agosto de 1954, morria Getúlio Vargas. Sua morte não pode
ser compreendida fora da profunda crise política que cercava seu governo e do
confronto entre dois projetos de país. A crise se agravou depois do atentado da
Rua Tonelero, em 5 de agosto, que matou o major da Aeronáutica Rubens Vaz e
feriu Carlos Lacerda, o mais feroz opositor de Vargas, que fazia da Tribuna
da Imprensa uma trincheira permanente contra o governo.
Cercado
por seus adversários e pressionado por setores militares a abandonar a
Presidência, Getúlio tomou uma decisão extrema e consciente. Seu suicídio foi
também um ato político. Tanto assim que deixou a Carta-Testamento, um dos
documentos mais importantes da história política brasileira, na qual sintetizou
o sentido de sua luta e anunciou: “Saio da vida para entrar na História”.
Sua
obra, seus discursos e sua Carta-Testamento constituem uma verdadeira doutrina
do trabalhismo brasileiro. Um trabalhismo que não se limita às relações entre
capital e trabalho, mas propõe a construção de um Estado nacional capaz de
conduzir um projeto soberano de desenvolvimento, industrialização e inclusão
social.
Essa
doutrina não morreu com Getúlio. Outros grandes nomes do trabalhismo deram
continuidade à sua obra e aprofundaram seu conteúdo.
João
Goulart, Leonel Brizola e Darcy Ribeiro estão entre seus principais
continuadores. Em diferentes momentos de nossa história, conceberam o
trabalhismo como instrumento de transformação da sociedade e como uma via
brasileira para a construção do socialismo, fundada na soberania nacional, na
democracia, na educação, na organização dos trabalhadores e na justiça social.
Foi sob
Vargas que o Brasil criou as bases necessárias para deixar de ser apenas uma
economia primário-exportadora e avançar na industrialização. A construção da
indústria de base, a Companhia Siderúrgica Nacional, a Vale e a Petrobras
faziam parte de uma concepção estratégica: o Brasil precisava controlar seus
recursos fundamentais e criar a infraestrutura necessária ao desenvolvimento
industrial.
Ao
mesmo tempo, Vargas compreendeu que não poderia haver desenvolvimento nacional
sem a incorporação da classe trabalhadora à vida política e econômica.
Incentivou sua organização sindical e consolidou uma legislação trabalhista que
atravessou décadas. Muitos desses direitos foram posteriormente dilapidados por
sucessivos governos e pelas chamadas reformas trabalhistas, mas permanece o
princípio fundamental: o desenvolvimento deve servir ao povo, e não apenas à
acumulação do capital.
Getúlio
também percebeu que um projeto dessa natureza inevitavelmente enfrentaria
poderosos interesses internos e externos. Sua Carta-Testamento é explícita ao
denunciar a ação dos grupos econômicos e financeiros internacionais e de seus
aliados dentro do país. A questão da soberania, portanto, não era acessória.
Estava no centro de sua concepção de Brasil.
Sua
morte provocou uma extraordinária comoção popular. Multidões tomaram as ruas. A
reação do povo modificou a correlação de forças e impediu, naquele momento, a
ruptura institucional pretendida pelos setores que pressionavam pela saída de
Vargas. A democracia brasileira sobreviveu à crise de 1954.
O golpe
seria consumado dez anos depois, em 1964, com a derrubada de João Goulart, outro presidente
trabalhista, numa conspiração que contou com o apoio dos Estados Unidos.
Interrompia-se, pela força, mais uma tentativa de levar adiante um projeto
nacional de desenvolvimento e transformação social.
Setenta
e dois anos depois, a questão colocada por Getúlio continua atual: que Brasil
queremos construir? Um país subordinado aos interesses financeiros e às grandes
potências ou uma nação soberana, industrializada, socialmente justa e capaz de
decidir seu próprio destino?
Por
isso, recordar Getúlio Vargas não deve ser apenas um exercício de memória. Sua
doutrina do trabalhismo permanece viva na defesa da soberania nacional, dos
direitos dos trabalhadores, da industrialização e do papel do Estado como
indutor do desenvolvimento.
O
Brasil continua precisando de um projeto nacional de desenvolvimento
sustentado, sustentável e inclusivo. Nesse sentido, a obra de Getúlio —
continuada e aprofundada por João Goulart, Leonel Brizola e Darcy Ribeiro e sintetizada
dramaticamente em sua Carta-Testamento — não pertence apenas ao passado.
Continua
apontando para o futuro.
¨ Getúlio Vargas deixou
na carta-testamento sua denúncia contra as forças que o derrubaram
Na
madrugada de 24 de agosto de 1954, Getúlio Vargas morreu no Palácio do Catete,
no Rio de Janeiro, depois de uma das mais graves crises políticas da história
brasileira. Horas antes, deixou um documento que se tornaria um dos textos
políticos mais conhecidos do país: a carta-testamento.
Escrita
em meio à ofensiva de setores da oposição e à pressão de grupos econômicos
nacionais e internacionais, a carta apresenta a interpretação de
Vargas sobre os conflitos que marcaram seu último governo. Nela, o então
presidente relaciona sua trajetória política à defesa do trabalho, das riquezas
nacionais e da soberania brasileira e transforma o próprio sacrifício em uma
mensagem de resistência.
<><>
Carta-testamento
Mais
uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se
desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e
não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha
ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e
principalmente os humildes.
Sigo
o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos
grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e
venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade
social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo.
A
campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais
revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros
extraordinários foi detida no Congresso.
Contra
a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar
liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás
e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi
obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre.
Não
querem que o povo seja independente. Assumi o Governo dentro da espiral
inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas
estrangeiras alcançavam até 500% ao ano.
Nas
declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais
de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso
principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta
pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.
Tenho
lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante,
incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim
mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos
posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de
alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a
minha vida.
Escolho
este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma
sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso
peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem,
sentireis no pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá
unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será
uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a
resistência. Ao ódio respondo com o perdão.
E
aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do
povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo
não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma
e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil.
Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as
infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos
ofereço a minha morte.
Nada
receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da
vida para entrar na História.
(Rio
de Janeiro, 23/08/54 — Getúlio Vargas)
Fonte:
Por Paulo Cannabrava Filho, em Diálogos do Sul Global

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