Braskem,
responsável por desastre em Maceió, avança para recuperação extrajudicial
A
petroquímica Braskem informou ao mercado nesta segunda-feira (24) que seu
conselho de administração deu sinal verde para que a empresa entre com um
pedido de recuperação extrajudicial para reestruturar cerca de US$ 10,9 bilhões
em dívidas (o equivalente a aproximadamente R$ 56,2 bilhões).
O
pedido deve ser feito ainda nesta segunda-feira à Justiça. Nos últimos dias, a
companhia fechou com seus credores um acordo para renegociar as dívidas,
abrindo caminho para o pedido formal de recuperação extrajudicial na Justiça.
A
posição de caixa da Braskem foi severamente afetada pelos preços baixos no
setor petroquímico e por um desastre relacionado às suas minas de sal no
Nordeste.
A
empresa estava em negociações avançadas para um potencial pedido de recuperação
extrajudicial no Brasil antes do final de agosto, quando expiraria uma proteção
emergencial de 60 dias, ao mesmo tempo em que explorava opções de
reestruturação para sua subsidiária mexicana.
Após o
anúncio, as ações da Braskem recuavam mais de 4%. Por volta das 12h, os papéis
caíam 4,14%, a R$ 4,86, após chegarem a recuar 4,54% na mínima. As ações também
ficaram cerca de 30 minutos em leilão no início do pregão.
De
acordo com a petroquímica, contudo, os documentos ainda não foram protocolados
na Justiça.
“A
Braskem esclarece que a recuperação extrajudicial possui escopo limitado,
estritamente financeiro, e não abrange quaisquer obrigações da Companhia com
seus fornecedores, clientes e demais stakeholders, as quais permanecem vigentes
e seguem sendo cumpridas normalmente, nos termos dos respectivos contratos”,
disse a empresa.
Fundada
em 2002, a empresa nasceu da consolidação de ativos petroquímicos da antiga
Odebrecht (atual Novonor). Hoje avaliada em cerca de R$ 6,2 bilhões, a
companhia está muito distante do auge registrado em outubro de 2017, quando seu
valor de mercado superou R$ 60 bilhões.
Na
última sexta-feira (21), a petroquímica havia afirmado ao mercado não ter se
decidido sobre a possibilidade de uma recuperação extrajudicial, mas que havia
intensificado a negociação com credores e avaliado medidas de proteção.
No
segundo trimestre de 2026, a companhia divulgou receita líquida de R$ 21,72
bilhões, crescimento de 22% sobre o segundo trimestre de 2025, um Ebitda
(lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) de R$ 1 bilhão e
um lucro líquido de R$ 3,33 bilhões no segundo trimestre de 2026, revertendo
prejuízo de R$ 267 milhões registrado no mesmo período do ano anterior.
A
alavancagem, um dos principais indicadores que apontam o tamanho do problema da
dívida, chegou a 14,7 vezes o Ebitda, muito acima dos limites considerados
saudáveis no mercado. Ao todo, a dívida da companhia é de R$ 54 bilhões.
Em
junho, a companhia finalizou o processo de entrada da gestora IG4 na operação.
A transação foi feita a partir da venda da maior parte do controle da Novonor
no negócio, que repassou 50,1% do capital votante e 34,3% do capital social da
petroquímica ao fundo Shine I.
O
restante das ações pertence à Petrobras e a Novonor ainda manteve 4% das ações.
A assinatura do contrato foi anunciada no dia 20 de abril.
Em
dezembro do ano passado, quando anunciou a intenção de compra da fatia da
Novonor, o IG4 comprou cerca de R$ 20 bilhões em dívidas da construtora com os
maiores bancos do Brasil. As ações da Braskem eram dadas como garantia nesses
contratos.
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Cronologia da crise
Em
2015, a Braskem realizou seu último grande investimento ao anunciar a
construção de uma planta fabril no México, onde hoje opera a subsidiária
Braskem Idesa. O objetivo era reforçar sua presença global na indústria
petroquímica através da joint venture com a mexicana Idesa.
Na
ocasião, a companhia desembolsou US$ 5,2 bilhões para montar uma fábrica focada
na produção de eteno base gás e três plantas de polietileno.
Acontece
que, meses após a inauguração da planta mexicana, em 2016, a operação Lava Jato
atingiu o coração da Odebrecht e jogou a construtora numa espiral de dívidas.
Na busca por dinheiro para quitar seus passivos, a Odebrecht iniciou tratativas
para vender sua participação na petroquímica.
Foram
dez anos tentando encontrar, sem sucesso, uma solução para a Braskem, que
sofreu com o colapso financeiro de sua controladora justamente quando precisava
de solidez financeira.
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Colapso em Maceió
Dois
anos depois, em março de 2018, a companhia viu o início de um dos maiores
desastres ambientais do país com o afundamento de solo em bairros de Maceió
(AL). A causa foi a extração inadequada de sal-gema em 35 minas subterrâneas,
que causou tremores de terra, rachados em imóveis, fendas nas ruas e a
evacuação de mais de 60 mil pessoas que moravam nos bairros do Pinheiro,
Mutange, Bebedouro, Bom Parto e Farol.
A
atividade de mineração só foi interrompida na região em maio de 2019. Naquele
ano, a Odebrecht entrou em recuperação judicial, o que, combinado com o passivo
ambiental de Maceió, ajudou a agravar a crise financeira da Braskem.
Apesar
da interrupção das atividades de mineração, em novembro de 2023 houve o aumento
abrupto na velocidade de afundamento do solo. No final daquele mês, a
prefeitura decretou emergência por 180 dias com o “iminente colapso” de uma
mina —o que acabou se concretizando em menos de duas semanas, quando o
rompimento da Mina 18 promoveu a abertura de uma cratera de 300 metros de
diâmetro.
Em
novembro de 2025, dois anos após o desastre, a Braskem assinou um acordo com o
governo de Alagoas para o pagamento de R$ 1,2 bilhão em indenização pelos danos
causados com o afundamento do solo — montante que se soma ao que já foi
desembolsado anteriormente.
O valor
foi dividido em parcelas anuais ao longo de dez anos, sendo que o governo ainda
complementou um pacote de investimentos de cerca de R$ 2,3 bilhões, voltado
para a recuperação de 13 municípios da região metropolitana de Maceió.
O valor
foi criticado por movimentos de vítimas do desastre, que se apoiavam em
estimativas do próprio governo estadual indicando mais de R$ 30 bilhões somente
em danos.
Nos
últimos dois anos, a Braskem diz que sofreu com o excesso de oferta global de
petroquímicos, o que ajudou a derrubar os preços dos produtos. Esse quadro foi
agravado pelo aumento de importações baratas vindas da Ásia, sobretudo de
polietileno, cuja participação da Braskem no mercado brasileiro chegou a 70%.
Fora do
país, a operação mexicana entrou em dificuldades e complicou a situação da
Braskem, uma vez que a companhia tinha um contrato de suporte financeiro em um
empréstimo tomado pela Idesa e que poderia ser acionado caso a subsidiária
entrasse em recuperação judicial nos EUA (o Chapter 11), o que aconteceu.
Na
última terça-feira (18), a joint venture entrou com o semelhante à recuperação
judicial nos EUA. A companhia chegou a acordos com credores e acionistas para
abater a dívida em mais de US$ 920 milhões (R$ 4,78 bilhões), e que espera sair
do Chapter 11 dentro de 60 a 90 dias, acrescentando que suas operações diárias
continuarão funcionando normalmente. A Braskem, acionista majoritária da
Braskem Idesa, informou que contribuirá com US$ 476 milhões (R$ 2,48 bilhões).
A saída
formal da Novonor e a chegada da IG4 gerou alívio momentâneo, já que a gestora
é especializada em recuperar a operação de empresas em crise.
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Vítimas de afundamento de solo criticam acordo entre Braskem e Alagoas
O
Movimento Unificado das Vítimas da Braskem (Muvb) criticou o acordo firmado
entre a petroquímica Braskem e o governo de Alagoas, que estabelece indenização
de R$ 1,2 bilhão relacionada ao desastre geológico que causou o afundamento de
cinco bairros na capital alagoana, Maceió.
“O Muvb
manifesta profunda indignação diante do acordo”, afirma comunicado publicado
nas redes sociais.
De
acordo com a associação que representa ex-moradores, donos de imóveis e
comerciantes dos bairros atingidos, o termo firmado entre a empresa e o governo
estadual foi negociado sem a participação das vítimas.
“O
resultado é um acordo construído sem as vítimas e contra elas, que transforma
um desastre humano e ambiental em simples transação financeira e política”,
completa o Muvb, que considerou baixo o montante da indenização.
A
tragédia foi causada pela exploração do mineral sal-gema, utilizado na produção
de soda cáustica e bicarbonato de sódio.
“Um
valor de R$ 30 bilhões estimados pelo próprio estado passa a ser de R$ 1,2
bilhão. Como um dano de tal magnitude se reduz, de repente, a essa cifra? Que
cálculos justificam tamanha renúncia?”, questiona o Muvb.
O dano
de R$ 30 bilhões citado se refere a uma estimativa apontada pela Secretaria de
Fazenda alagoana.
Para a
associação de vítimas, “o que se esperava como gesto de justiça converte-se em
renúncia de direitos coletivos, firmado sem debate público, sem transparência e
sem respeito àqueles que carregam as consequências do crime socioambiental
todos os dias”.
A
Agência Brasil pediu comentários aos ministérios públicos Federal e Estadual ─
instituições que acompanham os trâmites de reparação ─ sobre o acordo entre
Braskem e o governo de Alagoas, mas não recebeu respostas até a conclusão da
reportagem.
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Pagamento em 10 anos
O
acordo entre Braskem e o governo de Alagoas, determina que a indenização será
paga ao longo de dez anos, e R$ 139 milhões já foram desembolsados.
“O
saldo deverá ser quitado em dez parcelas anuais variáveis corrigidas,
principalmente após 2030, considerando a capacidade de pagamento da Companhia”,
detalhou a petroquímica em comunicado.
Ainda
segundo a Braskem, o acordo “representa um significativo e importante avanço
para a companhia em relação aos impactos decorrentes do evento geológico em
Alagoas”.
O
entendimento entre as partes precisa ainda de homologação judicial.
Procurado
pela Agência Brasil, o governo de Alagoas não comentou a insatisfação do Muvb
em relação à participação dos atingidos.
No dia
seguinte ao anúncio do acordo, o governo alagoano divulgou um pacote de R$ 5
bilhões de investimentos na região metropolitana de Maceió. Dentro desse
montante, constam R$ 2,8 bilhões que viriam da indenização.
“O Fato
Relevante [comunicado a investidores] divulgado pela própria empresa confirma o
pagamento de R$ 1,2 bilhão ao estado, que corrigidos chegarão a R$ 2,8 bilhões
além de valores já provisionados e novas compensações em curso”, escreveu o
governo para justificar o aumento da cifra.
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Desastre
O
acidente geológico em Maceió ganhou contornos dramáticos a partir de 2018. A
exploração do mineral sal-gema causou a instabilidade no solo, fazendo com que
houvesse afundamento nos bairros Pinheiro, Mutange, Bebedouro, Bom Parto e
Farol.
Milhares
de imóveis tiveram a estrutura comprometida, e a estimativa é de que mais de 60
mil pessoas tenham sido impedidas de morar nas regiões, por questões de
segurança.
As
consequências se arrastaram por anos, e, em novembro de 2023, a prefeitura da
capital alagoana precisou decretar estado de emergência por risco de colapso em
uma das minas de sal-gema.
A
Defesa Civil de Maceió acompanhava, diariamente, a magnitude do afundamento do
solo.
A
Polícia Federal (PF) abriu uma investigação sobre o caso e, em novembro do ano
passado, 20 pessoas foram indiciadas. O inquérito foi encaminhado para a 2ª
Vara Federal de Alagoas.
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Reparação às vítimas
Em
julho de 2025, a Defensoria Pública de Alagoas pediu indenização de R$ 4
bilhões para compensar desvalorização de imóveis de moradores de bairros
vizinhos ao evento geológico.
Dois
anos antes, em julho de 2023, a prefeitura de Maceió fechou um acordo com a
Braskem para realizar obras estruturantes e criar um fundo de amparo aos
moradores. O entendimento garantiu à administração municipal indenização de R$
1,7 bilhão. Os termos foram homologados pela Justiça Federal.
O termo
não invalidou negociações entre a empresa e os moradores.
À
Agência Brasil, a Braskem informou que apresentou 19,2 mil propostas aos
moradores das áreas de desocupação, o que representa 99,9% dos pleitos
recebidos até o fim de outubro. Do total, 19.122 (99,6%) foram aceitas e 19.105
(99,5%) indenizações já foram pagas.
“Somadas
compensações e auxílios financeiros, o programa já pagou R$ 4,23 bilhões desde
que foi criado, em 2019”, pontua.
A
empresa mantém um site com informações sobre ações de reparação, que incluem
medidas para mitigar, reparar ou compensar os efeitos do afundamento do solo.
A
Braskem é uma companhia controlada pela Novonor (antiga Odebrecht) e pela
Petrobras, com 47% das ações com poder de voto.
Fonte:
ICL Notícias/Agencia Brasil

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