A
Unicamp e o golpe de 1964
Criada
sob o signo do golpe, a Unicamp oscilou entre a submissão ao arbítrio e a
resistência de sua comunidade – e as reparações tardias revelam que o passado
ainda não foi inteiramente digerido...
Os
primórdios da Universidade (1966-1978)
A
Universidade Estadual de Campinas – que, neste momento, completa 60 anos de
existência – nasceu e se consolidou durante a ditadura militar no Brasil
(1964-1985). O ato-fundador da instituição está revestido de elevado valor
simbólico na medida em que o criador e os apoiadores do projeto da Universidade
buscavam, em seu nascedouro, associar a Unicamp aos objetivos políticos e
econômicos do regime militar. A este respeito um fato é eloquente.
Em
outubro de 1966, por ocasião do lançamento da pedra fundamental da Unicamp, o
Reitor Zeferino Vaz se empenhou para evidenciar que a universidade estava sendo
criada sob o beneplácito dos “revolucionários de 1964”; as presenças do
general-ditador Humberto Castelo Branco, Ministros de Estado, governador de São
Paulo, prefeito de Campinas, cardeal-arcebispo de São Paulo, empresários e
outros, na cerimônia fundadora, não sugerem que estes atores buscavam comprovar
a afinidade de objetivos entre a nova universidade pública paulista e o
nascente regime militar?
Neste
mesmo sentido, caberia lembrar que, anos mais tarde, o Reitor – fim de mostrar
gratidão da Unicamp ao regime discricionário – impôs a um submisso Conselho
Diretor, em 1973, a concessão do título de Doutor Honoris Causa ao Coronel
Jarbas Passarinho, atuante conspirador do golpe, signatário do AI 5 e
“intelectual orgânico” da ditadura militar.
Registre-se
também que, em 2013, uma Reitoria da universidade mandou construir um imenso
Painel no campus. Sob a justificativa de homenagear o criador-benfeitor da
Unicamp, a insólita edificação igualmente celebra a presença, em anos
anteriores, do general Castelo Branco no campus, ali honrado com a designação
de “Senhor Presidente da República” … Sublinhe-se o fato: passados quase 50
anos do golpe de 1964, em pleno regime democrático, os dirigentes da
universidade não hesitaram lembrar que o general-ditador prestigiou a criação
da Unicamp.
Reconheça-se
que, durante o regime militar, a Unicamp não foi palco de violências
semelhantes àquelas experimentadas pela USP, UnB, UFRJ, PUC-SP e outras
instituições de ensino superior brasileiras; em certa medida, isso se deveu ao
fato de que, nos primeiros anos, as entidades representativas da comunidade
acadêmica da Unicamp – ainda organizadas de forma precária e incipiente – não
foram protagonistas de mobilizações massivas contra a ditadura militar.
No
entanto, docentes, estudantes e servidores técnico-administrativos da Unicamp
sofreram violências e foram presos por conta de seus envolvimentos políticos
com organizações partidárias e movimentos sociais de resistência ao regime
militar. Enquanto foi Reitor, em algumas dessas situações, reconheça-se que
Zeferino Vaz se mobilizou para suavizar, junto a amigos seus, comandantes
militares, a sorte de docentes e estudantes de sua Universidade. Alguns destes
membros da comunidade acadêmica, contudo, não deixaram de ser presos e
torturados durante o período em que Zeferino Vaz foi Reitor da Unicamp.
Observe-se
que, diferentemente da USP e de outras universidades brasileiras, o então
Reitor da Unicamp prescindiu das Assessorias de Segurança e Informações,
subordinadas ao SNI; especialmente criadas para o controle e a vigilância das
atividades dos distintos setores da comunidade acadêmica, as ASEI´s faziam o
monitoramento de reuniões, salas de aulas e diretórios estudantis; elaboravam
prontuários sobre “subversivos” que serviam para justificar – sob a égide do
famigerado Decreto 477 do MEC – as medidas disciplinares (suspensão e expulsão)
contra docentes, estudantes e funcionários.
Sem
aparatos oficiais de vigilância, o Reitor, no entanto, contava com uma equipe
de abnegados subordinados que serviam para municiá-lo com amplas e minuciosas
informações sobre o que ocorria no campus da Unicamp. Quase mil olhos tinha o
Reitor…
Associando
competência administrativa, sagacidade política e carisma pessoal, a reitoria
de Zeferino Vaz, a meu ver, longe esteve de estar comprometida com a
transparência e os valores democráticos. Reconheça-se que este estilo de
administração – centralizador e, frequentemente, autoritário –, não deixa de
ser ainda louvado em setores da universidade. Afinal, há um lugar comum no
campus: sem Zeferino Vaz, a Unicamp jamais teria chegado ao que foi e ainda é!
Na literatura política, autoridades com este perfil têm sido denominadas de
“déspotas esclarecidos” …
Embora
nunca tenha apelado para os agentes da ditadura para intervir em conflitos
internos da Universidade, o Reitor, contudo, sempre esteve sensível às pressões
exercidas pelos militares sobre membros da comunidade acadêmica. O Relatório da
Comissão da Verdade e Memória “Octavio Ianni” permite-nos conhecer algumas
dessas ações contra estudantes e docentes. Tendo em vista o caráter sintético
deste texto, fixemo-nos sobre aquele que foi o mais eloquente e indigno ato de
submissão da reitoria ao regime militar.
O
episódio é conhecido como o “expurgo na Medicina Preventiva”. Em 1975, por
ocasião da chamada Operação Jacarta – desencadeada em todo o país para reprimir
“comunistas” –, Zeferino Vaz sofreu intensa pressão de comandantes militares,
das Fundações estadunidenses Rockfeller e Kellog (financiadoras de projetos
acadêmicos da FCM) e da Direção dessa unidade da Universidade. Acusados de
serem simpatizantes do PCB, leitores de obras marxistas e – mais grave ainda! –
de desenvolverem atividades junto a comunidades populares da cidade de
Campinas, dezenove profissionais da saúde foram pressionados a se afastar da
Unicamp.
O
médico sanitarista Sérgio Arouca e sua equipe de pesquisadores – que tiveram um
papel crucial na implantação do Sistema Único de Saúde (SUS) – foram desligados
da Unicamp, em 1976, sem qualquer reação crítica dos membros do então Conselho
Diretor e das entidades representativas da comunidade acadêmica.
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Eppur si muove – a comunidade acadêmica se posiciona
De
forma breve e à guisa de conclusão, impõe-se reconhecer que, nos anos seguintes
à ditadura militar, direções universitárias e entidades representativas da
comunidade acadêmica refletiram sobre os “anos de chumbo” e – por vezes, como
forma de autocrítica – se posicionaram diante de iniciativas do regime
discricionário de 1964 sobre a universidade.
Neste
sentido, reparações foram feitas a intelectuais e acadêmicos que sofreram
punições e ameaças do regime militar. Entre outros, destaquem-se os nomes de
Antonio Candido, Celso Furtado, Paulo Freire, Dom Evaristo Arns, Oscar Niemeyer
e Boris Vargaftig – preso pela ditadura militar numa sala de aulas da antiga
Faculdade de Ciências Médicas (FCM) – que, após 1980, foram homenageados pelo
CONSU com a outorga do título de Doutor Honoris Causa da Unicamp.
Nesta
direção, talvez a mais significativa reparação tenha sido a revogação da
insultuosa homenagem prestada ao Coronel Jarbas Passarinho. De forma unânime,
depois de 48 anos, o CONSU, em 28/9/2021, anulou o título Doutor Honoris Causa
concedido pela Unicamp ao ideólogo da ditadura.
Outra
significativa reparação foi a concessão do título de Doutor Honoris Causa
post-mortem ao ex-docente da Faculdade de Medicina Sérgio Arouca, ocorrida em
7/11/2024. Demitido pelo primeiro Reitor da Unicamp, o CONSU reconheceu,
publicamente, a notável trajetória acadêmica do médico sanitarista brasileiro,
dentro e fora da Unicamp.
Por sua
vez, uma pequena Placa-Totem, erigida ao lado do mencionado Painel –
homenageando Zeferino Vaz e celebrando a presença no campus do primeiro ditador
no pós-1964 –, foi inaugurada, em 2016, pela Reitoria que, três anos atrás,
havia criado a Comissão da Verdade e Memória. O trecho inicial da Placa impõe
ser aqui reproduzido: “Por meio desta Placa, a Unicamp presta sua homenagem aos
homens e mulheres da comunidade acadêmica que, lutando pela redemocratização,
sofreram violências físicas e morais durante o longo período da ditadura
militar”.
Por
último, afirme-se que a criação da Comissão da Verdade e Memória “Octavio
Ianni” da Unicamp (2013-2015) – que permitiu algumas destas revogações públicas
– deve ser reconhecida como um marco decisivo na reflexão da comunidade
acadêmica sobre a vida universitária no pós-1964.
Por
meio dos trabalhos produzidos pela Comissão, comprova-se que a Unicamp – no
revoltoso mar do pós-1964 – não foi, definitivamente, uma “ilha tranquila”. Ao
fim e ao cabo, reconheça-se também que a ameaça presente nos primórdios da
instituição não se realizou, pois a comunidade acadêmica, notadamente nos anos
seguintes a 1978, resistiu ao arbítrio da ditadura militar e recusou ser por
ela tutelada.
Fonte:
Por Caio Navarro de Toledo, em A Terra é Redonda

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