Apesar
da IA, propaganda nas ruas lidera denúncias eleitorais em 2026
Inteligência
artificial, redes sociais, impulsionamento e desinformação digital estão no
centro das preocupações sobre as eleições de 2026. Os primeiros dias oficiais
de campanha, porém, mostram um problema bem mais tradicional liderando as
denúncias feitas pelos próprios eleitores: a propaganda nas ruas.
Levantamento
do ICL Notícias a partir dos dados mais recentes do Pardal, aplicativo do
Tribunal Superior Eleitoral (TSE) usado pelos eleitores, identificou 1.359
denúncias de possíveis irregularidades na propaganda eleitoral em todo o país.
A categoria mais frequente é a de vias públicas, com 450 ocorrências — 33,1% do
total e 55% a mais que os 290 registros relacionados à propaganda na internet.
Os
dados revelam que, ao menos neste início da disputa, o avanço tecnológico das
campanhas não substituiu os velhos problemas da propaganda física. Além das
vias públicas, há 124 registros envolvendo carros de som, minitrios e trios
elétricos; 108 relacionados a bens públicos; 60 a bens particulares; e 54 sobre
outdoors.
As
ocorrências não significam que as irregularidades tenham sido comprovadas. O
Pardal recebe relatos de cidadãos sobre possíveis violações das regras de
propaganda, que posteriormente são analisados pela Justiça Eleitoral.
A
ferramenta começou a receber registros no domingo (16), quando teve início
oficialmente a propaganda eleitoral. Em 2026, o acesso ao aplicativo exige
autenticação pelo e-Título ou pela plataforma Gov.br, embora a identificação de
quem apresenta a denúncia permaneça sob sigilo.
<><> Um terço das denúncias está nas vias públicas
Nenhuma
categoria aparece tantas vezes na base quanto a propaganda em vias públicas.
São 450
denúncias, contra 290 relacionadas à internet. A diferença é de 160 registros,
o que significa que as vias públicas acumulam 55% mais ocorrências.
Depois
aparecem carros de som, minitrios e trios elétricos, com 124 denúncias; bens
públicos, com 108; bens particulares, com 60; e outdoors, inclusive
eletrônicos, com 54. Há ainda registros envolvendo material gráfico, brindes,
adesivos em veículos e outras modalidades de propaganda.
O
predomínio das modalidades tradicionais chama atenção pelo contraste com o
debate que passou a cercar as eleições nos últimos anos. Para 2026, a Justiça
Eleitoral estabeleceu regras específicas para conteúdos sintéticos produzidos
ou manipulados com inteligência artificial, além das normas para
impulsionamento, propaganda paga e atuação nas plataformas digitais.
Nas
ruas, entretanto, continuam valendo restrições bastante conhecidas. Outdoors
são proibidos. Carros de som e minitrios têm utilização limitada a situações
previstas nas regras eleitorais. A propaganda em espaços públicos também
precisa respeitar condições para não prejudicar a circulação e o uso regular
desses locais.
Os
primeiros dados do Pardal indicam que é justamente essa dimensão mais
tradicional da campanha que, até agora, mais tem provocado denúncias dos
eleitores.
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Candidatos a deputado estão em quase 70% dos registros
A
concentração também é grande quando as denúncias são separadas pelo cargo
associado a cada ocorrência.
Candidatos
a deputado estadual aparecem em 524 registros, enquanto os concorrentes a
deputado federal estão relacionados a outros 410. Juntos, os dois grupos somam
934 das 1.359 denúncias — 68,7% do total.
Partidos,
coligações e federações aparecem em 186 ocorrências. Candidatos a governador
estão associados a 96; deputado distrital, a 61; senador, a 52; presidente da
República, a 28; e vice-governador, a duas.
A
concentração nas disputas proporcionais deve ser lida levando em consideração a
quantidade de concorrentes. Há milhares de candidatos à Câmara dos Deputados e
às assembleias legislativas, enquanto as eleições para presidente, governador e
senador reúnem um universo muito menor de nomes.
Os
números, portanto, não permitem concluir que candidatos a deputado sejam
individualmente mais denunciados ou cometam mais irregularidades. Eles mostram,
porém, que quase sete em cada dez ocorrências registradas neste começo de
campanha estão associadas às disputas para a Câmara e as assembleias.
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Na disputa presidencial, internet supera as ruas
A
corrida ao Palácio do Planalto foge do padrão encontrado no conjunto dos
registros.
Entre
as denúncias relacionadas a candidatos à Presidência da República, 46,4%
envolvem propaganda na internet. As vias públicas respondem por aproximadamente
14%.
Nas
eleições proporcionais, ocorre o inverso.
Entre
candidatos a deputado federal, aproximadamente 38% das denúncias envolvem vias
públicas, enquanto cerca de 21% estão relacionadas à internet. Para deputado
estadual, as proporções ficam em aproximadamente 35% e 22%, respectivamente.
Entre
os concorrentes ao Senado, a internet também ganha espaço e responde por cerca
de 27% dos registros.
Os
dados mostram, assim, dois padrões neste começo de campanha. Nas disputas para
deputado, as denúncias estão fortemente ligadas à propaganda espalhada pelas
cidades. Na corrida presidencial, quase metade das ocorrências envolve a
internet.
A
diferença também ajuda a explicar o peso das ruas no resultado nacional. As
disputas para deputado federal e estadual, nas quais a propaganda física
predomina, respondem por quase 70% de todas as denúncias da base.
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Cinco estados concentram mais da metade das denúncias
A
distribuição geográfica também apresenta forte concentração. São Paulo lidera
com 250 denúncias, equivalente a 18,4% de todas as ocorrências do país.
Pernambuco
aparece na sequência, com 133; Paraná, com 127; Rio Grande do Sul, com 126; e
Minas Gerais, com 105.
Somados,
os cinco estados concentram 741 das 1.359 denúncias — 54,5% do total nacional.
O
volume absoluto não significa, por si só, que esses estados tenham maior
incidência de propaganda irregular. As unidades da Federação possuem populações
e quantidades de candidaturas diferentes, e a utilização do Pardal pelos
eleitores também interfere na quantidade de registros.
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Capitais respondem por 47% das ocorrências
No
recorte municipal, Brasília aparece na liderança, com 86 denúncias. Porto
Alegre tem 67, seguida por São Paulo, com 57; Fortaleza, com 55; Recife, com
47; Curitiba, com 45; e Belo Horizonte, com 42.
Somadas,
as 27 capitais respondem por 642 das 1.359 denúncias, ou 47,2% do total. Os
demais municípios acumulam 717 ocorrências, equivalentes a 52,8%.
Ao
todo, a base registra denúncias em 326 municípios.
Algumas
cidades também fogem da relação esperada entre população e quantidade de
ocorrências. Paranaguá, no litoral do Paraná, tem cerca de 150 mil habitantes e
aparece com 35 denúncias, acima das 32 registradas no Rio de Janeiro, cuja
população supera 6,7 milhões.
O
contraste não permite concluir que haja proporcionalmente mais irregularidades
em Paranaguá. O Pardal mede denúncias apresentadas pelos cidadãos, e não
infrações comprovadas. Diferenças na mobilização dos eleitores, no uso da
ferramenta, na quantidade de candidaturas e na intensidade das disputas locais
podem alterar significativamente os números.
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Registros passaram de 1,3 mil em quatro dias
A
velocidade com que as denúncias chegam ao Pardal também chama atenção.
A base
analisada contém 1.359 ocorrências registradas desde domingo (16), início
oficial da propaganda eleitoral. Mais cedo nesta quarta-feira (19), o TSE havia
divulgado um balanço com 1.103 denúncias.
São 256
novos registros em relação ao retrato divulgado pelo tribunal, uma diferença de
23,2%.
O salto
reforça o caráter ainda provisório dos números. Com apenas quatro dias de
campanha, a distribuição por estado, cidade, cargo e modalidade de propaganda
pode mudar rapidamente.
O
primeiro retrato, porém, já apresenta um contraste: enquanto inteligência
artificial, redes sociais e desinformação digital ocupam o centro do debate
sobre os riscos da eleição de 2026, são as velhas formas de campanha nas ruas
que, até agora, lideram as denúncias dos eleitores.
• Homens e brancos concentram mais de 72%
da verba pública na largada eleitoral
Os
primeiros repasses de dinheiro público para financiar as campanhas de 2026
começaram com uma concentração expressiva entre homens e pessoas brancas. Dos
R$ 87,3 milhões transferidos diretamente pelos partidos e já declarados à
Justiça Eleitoral até a madrugada desta segunda-feira (24), 72,8% foram
destinados a homens e 72,3% a candidatos brancos.
O
levantamento feito pelo ICL Notícias a partir dos dados de prestação de contas
do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostra que a desigualdade fica ainda mais
evidente quando gênero e raça são analisados em conjunto. Homens brancos
representam 34,6% das candidaturas dos 15 partidos que já fizeram repasses, mas
ficaram com 52,9% de todo o dinheiro público transferido. Mulheres negras, por
outro lado, são 17,8% dos candidatos e receberam apenas 7,8% dos recursos.
A
análise considera R$ 87.332.095,48 transferidos diretamente pelas legendas por
meio do Fundo Especial de Financiamento de Campanha, o Fundo Eleitoral, e do
Fundo Partidário. Foram identificados 861 repasses para 722 candidaturas. A
base foi extraída do TSE às 4h desta segunda.
Dos
recursos já distribuídos, R$ 63,59 milhões chegaram a homens, enquanto mulheres
receberam R$ 23,74 milhões. Entre candidatos brancos, foram R$ 63,11 milhões.
Pretos e pardos, somados, ficaram com R$ 24,14 milhões.
A
diferença chama atenção também quando se compara o dinheiro recebido ao tamanho
de cada grupo na disputa. Homens representam 65,1% das candidaturas das
legendas analisadas e ficaram com 72,8% dos recursos. Pessoas negras são 47,6%
dos candidatos, mas receberam 27,6% do dinheiro.
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Homens brancos receberam mais da metade do dinheiro
O
cruzamento entre gênero e raça revela uma concentração ainda maior.
Dos R$
87,3 milhões analisados, R$ 46,18 milhões foram destinados a homens brancos.
Sozinho, esse grupo recebeu mais da metade — 52,9% — de todo o dinheiro público
distribuído diretamente pelas legendas até agora, apesar de representar pouco
mais de um terço das candidaturas.
No
outro extremo estão as mulheres negras. Embora representem 17,8% dos candidatos
dos partidos que já fizeram transferências, elas receberam R$ 6,8 milhões, o
equivalente a 7,8% do total.
Candidaturas
indígenas aparecem praticamente fora da primeira rodada de distribuição. Elas
receberam R$ 55 mil, ou 0,063% dos recursos analisados, embora representem
0,75% das candidaturas das legendas consideradas.
A
situação fica ainda mais evidente quando se observa exclusivamente o Fundo
Eleitoral. Dos R$ 55,76 milhões dessa fonte que já haviam sido transferidos
diretamente, 77,3% foram destinados a homens. Mulheres ficaram com 22,7%.
Até a
extração dos dados, nenhum repasse direto do Fundo Eleitoral havia sido
registrado para candidatura indígena.
Os
outros R$ 31,57 milhões analisados vieram do Fundo Partidário. Nesse caso, a
participação das mulheres sobe para 35%, enquanto pessoas negras receberam
27,4%.
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Quatro partidos concentram 85% dos repasses
A
fotografia nacional é fortemente influenciada por quatro partidos. Novo, PL, PP
e PCdoB foram responsáveis por R$ 74,24 milhões, ou 85% de todos os recursos
analisados.
O Novo
aparece com o maior volume já transferido diretamente: R$ 24,31 milhões. Desse
total, 26,1% foram destinados a mulheres, que representam 32,5% das
candidaturas da legenda. Para pessoas negras, a diferença é maior: elas
representam 43% dos candidatos do partido, mas receberam 15,6% dos recursos.
No PL,
a disparidade de gênero é ainda mais acentuada. Dos R$ 21,02 milhões
transferidos pela legenda, apenas R$ 1,2 milhão, ou 5,7%, chegou a mulheres.
Elas representam 32,9% das candidaturas do partido.
Pessoas
negras são 37,7% dos candidatos do PL e ficaram com 22,9% do dinheiro já
distribuído.
O PP
transferiu R$ 15,35 milhões. Mulheres receberam 35,4%, percentual próximo dos
34,8% que representam entre as candidaturas da legenda. Já candidatos negros,
que são 39,5% do total, ficaram com 22,2% dos recursos.
No
PCdoB, que já declarou R$ 13,56 milhões em transferências, a distribuição por
gênero é praticamente proporcional: mulheres são 44,5% das candidaturas e
receberam 44,5% dos recursos. Pessoas negras receberam 49,5% do dinheiro e
representam 58,9% dos candidatos do partido.
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No Senado, dinheiro transferido foi todo para homens
A
concentração ganha outra dimensão na disputa pelo Senado.
Até a
madrugada desta segunda-feira, haviam sido declarados R$ 8,93 milhões em
recursos públicos transferidos diretamente pelos partidos para 13 candidaturas
ao Senado. Desse montante, 99,8% beneficiaram homens.
Quando
são considerados exclusivamente os recursos financeiros — dinheiro efetivamente
transferido, e não bens e serviços contabilizados como receita —, 100% dos R$
8,9 milhões foram destinados a candidatos homens.
A única
mulher com receita pública registrada nesse universo foi Samanda Alves (PT-RN),
com R$ 17.499,99. O valor não corresponde a dinheiro depositado para a
campanha, mas a duas cessões estimadas de veículo.
O maior
repasse individual identificado foi para Domingos Sávio (PL-MG), que recebeu R$
5 milhões. Na sequência aparecem Ricardo Salles (Novo-SP), com R$ 1,35 milhão;
Deltan Dallagnol (Novo-PR), com R$ 800 mil; Ciro Nogueira (PP-PI), com R$ 512,5
mil; e Guilherme Derrite (PP-SP), com R$ 500 mil.
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Partidos ainda têm prazo para cumprir reservas
A
concentração identificada nesta primeira fotografia da campanha não significa,
por si só, descumprimento das regras eleitorais. Os partidos ainda têm prazo
até 8 de setembro para distribuir os valores necessários ao cumprimento das
reservas destinadas a mulheres, pessoas negras e indígenas.
Para
candidaturas femininas, os recursos devem acompanhar a proporção de mulheres
apresentadas pela legenda, respeitado o piso de 30%. Para candidatos pretos e
pardos, a legislação estabelece que ao menos 30% dos recursos do Fundo
Eleitoral e do Fundo Partidário destinados às campanhas sejam aplicados nessas
candidaturas.
Os
dados também carregam uma defasagem natural. Partidos e candidatos têm prazo
para informar as receitas à Justiça Eleitoral, e o TSE precisa processar e
disponibilizar essas informações. Por isso, o levantamento representa uma
fotografia dos valores já declarados, e não necessariamente todo o dinheiro que
deixou as contas partidárias até esta segunda.
Ainda
assim, os primeiros R$ 87 milhões revelam quem saiu na frente na corrida pelo
financiamento público: enquanto homens brancos representam pouco mais de um
terço das candidaturas analisadas, mais de cada R$ 2 distribuídos até agora, R$
1 foi parar nas campanhas desse grupo.
Fonte:
ICL Notícias

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