quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Apesar da IA, propaganda nas ruas lidera denúncias eleitorais em 2026

Inteligência artificial, redes sociais, impulsionamento e desinformação digital estão no centro das preocupações sobre as eleições de 2026. Os primeiros dias oficiais de campanha, porém, mostram um problema bem mais tradicional liderando as denúncias feitas pelos próprios eleitores: a propaganda nas ruas.

Levantamento do ICL Notícias a partir dos dados mais recentes do Pardal, aplicativo do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) usado pelos eleitores, identificou 1.359 denúncias de possíveis irregularidades na propaganda eleitoral em todo o país. A categoria mais frequente é a de vias públicas, com 450 ocorrências — 33,1% do total e 55% a mais que os 290 registros relacionados à propaganda na internet.

Os dados revelam que, ao menos neste início da disputa, o avanço tecnológico das campanhas não substituiu os velhos problemas da propaganda física. Além das vias públicas, há 124 registros envolvendo carros de som, minitrios e trios elétricos; 108 relacionados a bens públicos; 60 a bens particulares; e 54 sobre outdoors.

As ocorrências não significam que as irregularidades tenham sido comprovadas. O Pardal recebe relatos de cidadãos sobre possíveis violações das regras de propaganda, que posteriormente são analisados pela Justiça Eleitoral.

A ferramenta começou a receber registros no domingo (16), quando teve início oficialmente a propaganda eleitoral. Em 2026, o acesso ao aplicativo exige autenticação pelo e-Título ou pela plataforma Gov.br, embora a identificação de quem apresenta a denúncia permaneça sob sigilo.

<><>  Um terço das denúncias está nas vias públicas

Nenhuma categoria aparece tantas vezes na base quanto a propaganda em vias públicas.

São 450 denúncias, contra 290 relacionadas à internet. A diferença é de 160 registros, o que significa que as vias públicas acumulam 55% mais ocorrências.

Depois aparecem carros de som, minitrios e trios elétricos, com 124 denúncias; bens públicos, com 108; bens particulares, com 60; e outdoors, inclusive eletrônicos, com 54. Há ainda registros envolvendo material gráfico, brindes, adesivos em veículos e outras modalidades de propaganda.

O predomínio das modalidades tradicionais chama atenção pelo contraste com o debate que passou a cercar as eleições nos últimos anos. Para 2026, a Justiça Eleitoral estabeleceu regras específicas para conteúdos sintéticos produzidos ou manipulados com inteligência artificial, além das normas para impulsionamento, propaganda paga e atuação nas plataformas digitais.

Nas ruas, entretanto, continuam valendo restrições bastante conhecidas. Outdoors são proibidos. Carros de som e minitrios têm utilização limitada a situações previstas nas regras eleitorais. A propaganda em espaços públicos também precisa respeitar condições para não prejudicar a circulação e o uso regular desses locais.

Os primeiros dados do Pardal indicam que é justamente essa dimensão mais tradicional da campanha que, até agora, mais tem provocado denúncias dos eleitores.

<><> Candidatos a deputado estão em quase 70% dos registros

A concentração também é grande quando as denúncias são separadas pelo cargo associado a cada ocorrência.

Candidatos a deputado estadual aparecem em 524 registros, enquanto os concorrentes a deputado federal estão relacionados a outros 410. Juntos, os dois grupos somam 934 das 1.359 denúncias — 68,7% do total.

Partidos, coligações e federações aparecem em 186 ocorrências. Candidatos a governador estão associados a 96; deputado distrital, a 61; senador, a 52; presidente da República, a 28; e vice-governador, a duas.

A concentração nas disputas proporcionais deve ser lida levando em consideração a quantidade de concorrentes. Há milhares de candidatos à Câmara dos Deputados e às assembleias legislativas, enquanto as eleições para presidente, governador e senador reúnem um universo muito menor de nomes.

Os números, portanto, não permitem concluir que candidatos a deputado sejam individualmente mais denunciados ou cometam mais irregularidades. Eles mostram, porém, que quase sete em cada dez ocorrências registradas neste começo de campanha estão associadas às disputas para a Câmara e as assembleias.

<><> Na disputa presidencial, internet supera as ruas

A corrida ao Palácio do Planalto foge do padrão encontrado no conjunto dos registros.

Entre as denúncias relacionadas a candidatos à Presidência da República, 46,4% envolvem propaganda na internet. As vias públicas respondem por aproximadamente 14%.

Nas eleições proporcionais, ocorre o inverso.

Entre candidatos a deputado federal, aproximadamente 38% das denúncias envolvem vias públicas, enquanto cerca de 21% estão relacionadas à internet. Para deputado estadual, as proporções ficam em aproximadamente 35% e 22%, respectivamente.

Entre os concorrentes ao Senado, a internet também ganha espaço e responde por cerca de 27% dos registros.

Os dados mostram, assim, dois padrões neste começo de campanha. Nas disputas para deputado, as denúncias estão fortemente ligadas à propaganda espalhada pelas cidades. Na corrida presidencial, quase metade das ocorrências envolve a internet.

A diferença também ajuda a explicar o peso das ruas no resultado nacional. As disputas para deputado federal e estadual, nas quais a propaganda física predomina, respondem por quase 70% de todas as denúncias da base.

<><> Cinco estados concentram mais da metade das denúncias

A distribuição geográfica também apresenta forte concentração. São Paulo lidera com 250 denúncias, equivalente a 18,4% de todas as ocorrências do país.

Pernambuco aparece na sequência, com 133; Paraná, com 127; Rio Grande do Sul, com 126; e Minas Gerais, com 105.

Somados, os cinco estados concentram 741 das 1.359 denúncias — 54,5% do total nacional.

O volume absoluto não significa, por si só, que esses estados tenham maior incidência de propaganda irregular. As unidades da Federação possuem populações e quantidades de candidaturas diferentes, e a utilização do Pardal pelos eleitores também interfere na quantidade de registros.

<><> Capitais respondem por 47% das ocorrências

No recorte municipal, Brasília aparece na liderança, com 86 denúncias. Porto Alegre tem 67, seguida por São Paulo, com 57; Fortaleza, com 55; Recife, com 47; Curitiba, com 45; e Belo Horizonte, com 42.

Somadas, as 27 capitais respondem por 642 das 1.359 denúncias, ou 47,2% do total. Os demais municípios acumulam 717 ocorrências, equivalentes a 52,8%.

Ao todo, a base registra denúncias em 326 municípios.

Algumas cidades também fogem da relação esperada entre população e quantidade de ocorrências. Paranaguá, no litoral do Paraná, tem cerca de 150 mil habitantes e aparece com 35 denúncias, acima das 32 registradas no Rio de Janeiro, cuja população supera 6,7 milhões.

O contraste não permite concluir que haja proporcionalmente mais irregularidades em Paranaguá. O Pardal mede denúncias apresentadas pelos cidadãos, e não infrações comprovadas. Diferenças na mobilização dos eleitores, no uso da ferramenta, na quantidade de candidaturas e na intensidade das disputas locais podem alterar significativamente os números.

<><> Registros passaram de 1,3 mil em quatro dias

A velocidade com que as denúncias chegam ao Pardal também chama atenção.

A base analisada contém 1.359 ocorrências registradas desde domingo (16), início oficial da propaganda eleitoral. Mais cedo nesta quarta-feira (19), o TSE havia divulgado um balanço com 1.103 denúncias.

São 256 novos registros em relação ao retrato divulgado pelo tribunal, uma diferença de 23,2%.

O salto reforça o caráter ainda provisório dos números. Com apenas quatro dias de campanha, a distribuição por estado, cidade, cargo e modalidade de propaganda pode mudar rapidamente.

O primeiro retrato, porém, já apresenta um contraste: enquanto inteligência artificial, redes sociais e desinformação digital ocupam o centro do debate sobre os riscos da eleição de 2026, são as velhas formas de campanha nas ruas que, até agora, lideram as denúncias dos eleitores.

•        Homens e brancos concentram mais de 72% da verba pública na largada eleitoral

Os primeiros repasses de dinheiro público para financiar as campanhas de 2026 começaram com uma concentração expressiva entre homens e pessoas brancas. Dos R$ 87,3 milhões transferidos diretamente pelos partidos e já declarados à Justiça Eleitoral até a madrugada desta segunda-feira (24), 72,8% foram destinados a homens e 72,3% a candidatos brancos.

O levantamento feito pelo ICL Notícias a partir dos dados de prestação de contas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostra que a desigualdade fica ainda mais evidente quando gênero e raça são analisados em conjunto. Homens brancos representam 34,6% das candidaturas dos 15 partidos que já fizeram repasses, mas ficaram com 52,9% de todo o dinheiro público transferido. Mulheres negras, por outro lado, são 17,8% dos candidatos e receberam apenas 7,8% dos recursos.

A análise considera R$ 87.332.095,48 transferidos diretamente pelas legendas por meio do Fundo Especial de Financiamento de Campanha, o Fundo Eleitoral, e do Fundo Partidário. Foram identificados 861 repasses para 722 candidaturas. A base foi extraída do TSE às 4h desta segunda.

Dos recursos já distribuídos, R$ 63,59 milhões chegaram a homens, enquanto mulheres receberam R$ 23,74 milhões. Entre candidatos brancos, foram R$ 63,11 milhões. Pretos e pardos, somados, ficaram com R$ 24,14 milhões.

A diferença chama atenção também quando se compara o dinheiro recebido ao tamanho de cada grupo na disputa. Homens representam 65,1% das candidaturas das legendas analisadas e ficaram com 72,8% dos recursos. Pessoas negras são 47,6% dos candidatos, mas receberam 27,6% do dinheiro.

<><> Homens brancos receberam mais da metade do dinheiro

O cruzamento entre gênero e raça revela uma concentração ainda maior.

Dos R$ 87,3 milhões analisados, R$ 46,18 milhões foram destinados a homens brancos. Sozinho, esse grupo recebeu mais da metade — 52,9% — de todo o dinheiro público distribuído diretamente pelas legendas até agora, apesar de representar pouco mais de um terço das candidaturas.

No outro extremo estão as mulheres negras. Embora representem 17,8% dos candidatos dos partidos que já fizeram transferências, elas receberam R$ 6,8 milhões, o equivalente a 7,8% do total.

Candidaturas indígenas aparecem praticamente fora da primeira rodada de distribuição. Elas receberam R$ 55 mil, ou 0,063% dos recursos analisados, embora representem 0,75% das candidaturas das legendas consideradas.

A situação fica ainda mais evidente quando se observa exclusivamente o Fundo Eleitoral. Dos R$ 55,76 milhões dessa fonte que já haviam sido transferidos diretamente, 77,3% foram destinados a homens. Mulheres ficaram com 22,7%.

Até a extração dos dados, nenhum repasse direto do Fundo Eleitoral havia sido registrado para candidatura indígena.

Os outros R$ 31,57 milhões analisados vieram do Fundo Partidário. Nesse caso, a participação das mulheres sobe para 35%, enquanto pessoas negras receberam 27,4%.

<><> Quatro partidos concentram 85% dos repasses

A fotografia nacional é fortemente influenciada por quatro partidos. Novo, PL, PP e PCdoB foram responsáveis por R$ 74,24 milhões, ou 85% de todos os recursos analisados.

O Novo aparece com o maior volume já transferido diretamente: R$ 24,31 milhões. Desse total, 26,1% foram destinados a mulheres, que representam 32,5% das candidaturas da legenda. Para pessoas negras, a diferença é maior: elas representam 43% dos candidatos do partido, mas receberam 15,6% dos recursos.

No PL, a disparidade de gênero é ainda mais acentuada. Dos R$ 21,02 milhões transferidos pela legenda, apenas R$ 1,2 milhão, ou 5,7%, chegou a mulheres. Elas representam 32,9% das candidaturas do partido.

Pessoas negras são 37,7% dos candidatos do PL e ficaram com 22,9% do dinheiro já distribuído.

O PP transferiu R$ 15,35 milhões. Mulheres receberam 35,4%, percentual próximo dos 34,8% que representam entre as candidaturas da legenda. Já candidatos negros, que são 39,5% do total, ficaram com 22,2% dos recursos.

No PCdoB, que já declarou R$ 13,56 milhões em transferências, a distribuição por gênero é praticamente proporcional: mulheres são 44,5% das candidaturas e receberam 44,5% dos recursos. Pessoas negras receberam 49,5% do dinheiro e representam 58,9% dos candidatos do partido.

<><> No Senado, dinheiro transferido foi todo para homens

A concentração ganha outra dimensão na disputa pelo Senado.

Até a madrugada desta segunda-feira, haviam sido declarados R$ 8,93 milhões em recursos públicos transferidos diretamente pelos partidos para 13 candidaturas ao Senado. Desse montante, 99,8% beneficiaram homens.

Quando são considerados exclusivamente os recursos financeiros — dinheiro efetivamente transferido, e não bens e serviços contabilizados como receita —, 100% dos R$ 8,9 milhões foram destinados a candidatos homens.

A única mulher com receita pública registrada nesse universo foi Samanda Alves (PT-RN), com R$ 17.499,99. O valor não corresponde a dinheiro depositado para a campanha, mas a duas cessões estimadas de veículo.

O maior repasse individual identificado foi para Domingos Sávio (PL-MG), que recebeu R$ 5 milhões. Na sequência aparecem Ricardo Salles (Novo-SP), com R$ 1,35 milhão; Deltan Dallagnol (Novo-PR), com R$ 800 mil; Ciro Nogueira (PP-PI), com R$ 512,5 mil; e Guilherme Derrite (PP-SP), com R$ 500 mil.

<><> Partidos ainda têm prazo para cumprir reservas

A concentração identificada nesta primeira fotografia da campanha não significa, por si só, descumprimento das regras eleitorais. Os partidos ainda têm prazo até 8 de setembro para distribuir os valores necessários ao cumprimento das reservas destinadas a mulheres, pessoas negras e indígenas.

Para candidaturas femininas, os recursos devem acompanhar a proporção de mulheres apresentadas pela legenda, respeitado o piso de 30%. Para candidatos pretos e pardos, a legislação estabelece que ao menos 30% dos recursos do Fundo Eleitoral e do Fundo Partidário destinados às campanhas sejam aplicados nessas candidaturas.

Os dados também carregam uma defasagem natural. Partidos e candidatos têm prazo para informar as receitas à Justiça Eleitoral, e o TSE precisa processar e disponibilizar essas informações. Por isso, o levantamento representa uma fotografia dos valores já declarados, e não necessariamente todo o dinheiro que deixou as contas partidárias até esta segunda.

Ainda assim, os primeiros R$ 87 milhões revelam quem saiu na frente na corrida pelo financiamento público: enquanto homens brancos representam pouco mais de um terço das candidaturas analisadas, mais de cada R$ 2 distribuídos até agora, R$ 1 foi parar nas campanhas desse grupo.

 

Fonte: ICL Notícias

 

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