A
proposta ‘nacionalista’ de Ciro Gomes, entregar o Ceará ao Serviço Secreto de
Israel
Ninguém
em sã consciência nega o tamanho da tragédia que se abate sobre a segurança
pública, não só no Ceará, mas em todo o Brasil. Há anos as facções criminosas
atuam de forma brutal, demarcando territórios, impondo toques de recolher,
executando jovens e transformando bairros inteiros em zonas de conflito
permanente.
São
mães que enterram filhos com cada vez com mais regularidade. Isso, por si só,
já deveria envergonhar toda a classe política. Mas esse debate merece algo
melhor do que a leviandade oportunista de Ciro Gomes, que decidiu inserir na
equação trágica das periferias a participação do Mossad, o famigerado serviço
secreto de Israel.
Em
entrevista ao programa Jangadeiro Eleições, da Band News FM, Ciro afirmou que
pretende preparar um grupo de mil profissionais com treinamento da inteligência
(agência de espionagem) israelense. Nega ser sionista e justifica que se trata
do “melhor experimento de inteligência e de tecnologia, dado que eles vivem ali
cercados”.
Astuto
como é, ele inverte a ordem. Israel é a ponta de lança do imperialismo e
empreende guerras de extermínio desde 1948, com apoio dos EUA e potências da
Europa. A quem pensa que engana?
Ciro
tem grande capacidade de analisar cenários e de propor estratégias para o
enfrentamento de vários problemas. Mas é frequente em sua retórica, recheada de
aspectos técnicos, números e percentuais na ponta da língua, a inserção de
armadilhas retóricas que escapam aos mais desavisados.
Na
segurança pública, ele oferece uma falsa solução, entregando as chaves de um
problema à espionagem sionista, acostumada a confinar em guetos, bombardear e
exterminar populações inteiras, sobretudo crianças e mulheres.
Primeiramente,
permita-me explicar o embuste mais utilizado como argumento: a violência em
nosso estado não se deve à incompetência desse governo, mas a processos
contínuos ao longo de décadas. O narcotráfico no Brasil e na América Latina é
uma tragédia social, ao negar oportunidades e dignidade às camadas mais
vulnerabilizadas, empurrando-as para um poder paralelo que hoje devora a
própria sociedade que o criou.
Culpar
o governo atual tornou-se o atalho preferido por qualquer um que deseje evitar
falar sobre algumas causas em questão, para não mencionar soluções. Ciro
compreende esta questão particular e todos os seus problemas inerentes. Por
isso, suas propostas nos deixam espantados diante de seu ágil raciocínio:
porque ele tem mais conhecimento do que a média, mas escolhe uma abordagem que
o faz parecer o mais espetacular e mais honesto.
Adotar
o Mossad como um parceiro para a segurança pública dificilmente pode ser
considerado um mero detalhe; representa nada menos do que o atestado completo
de seus objetivos. Portanto, caro leitor, antes de prosseguir com outros
argumentos, permita-me explicar exatamente o que essa agência realmente é.
Quanto
ao próprio Serviço Secreto de Israel: o Mossad nada mais é do que uma
organização de inteligência que trabalha com missões fora de suas fronteiras.
Serviços de inteligência dessa natureza geralmente se especializam em
assassinatos seletivos no exterior, casos de sabotagem contra outros países e
espionagem envolvendo operações secretas que frequentemente violam as
fronteiras territoriais de vários países.
Assim
faz Israel, viola frequentemente o direito internacional. Isso não é a mesma
coisa que combater grupos de criminosos de bairro. O Mossad não é um órgão
policial. Esta agência refere-se a uma organização estabelecida puramente para
fins de guerra, atuando em áreas consideradas fora do alcance dos direitos
humanos. Seu modus operandi, guerra de cerco acoplada à vigilância total,
seguida pela aniquilação física de massas de habitantes anteriormente
desumanizados, levou-os a diversos absurdos.
Nesse
sentido, Gaza e Cisjordânia atuam como campos de teste contínuos, nos quais
certos valores da humanidade são destroçados em cenários da vida real. E,
portanto, a ideia da “segurança total” deve ser vendida ou tornada útil aos
brasileiros que vivem perto das partes empobrecidas do nosso país.
Afinal,
quem mais teria tanta capacidade quanto quem consegue se defender de
terroristas e de Estados hostis? A partir disso, são oferecidos serviços
específicos para problemas daqui, permitindo que se livrem rapidamente desses
problemas e lucrando horrores!
A
aliança com o Mossad não permaneceria como um caso isolado, mas seria mais um
passo na estratégia de equiparar criminosos a terroristas. À primeira vista, a
equação poderia parecer apenas retórica, se analisada por sua própria
aparência.
De
forma pragmática, os resultados seriam desastrosos, pois, com facções
criminosas descritas como terroristas, forças estrangeiras ganhariam ainda mais
força para classificar áreas do território nacional como zonas de operações
antiterroristas, envolvendo a suspensão de garantias sobre algumas liberdades
civis.
Com
essa proposta, as periferias do Ceará se transformarão em campos de operação
com serviços de espionagem internacionais com interesses obscuros. O estado
seria transformado pelos próprios cidadãos em um território sob a influência de
um serviço secreto controlado por forças externas, mantendo toda a sua
população sob vigilância constante. Este serviço reporta-se unicamente a
objetivos alheios à soberania nacional.
E aqui
a pergunta incômoda se impõe. Qual o real intuito dessa colaboração? Em que uma
agência voltada para espionagem externa poderia contribuir para o combate à
criminalidade cearense? Atividade de inteligência não é caridade! A coleta, o
mapeamento, a espionagem, o treinamento de forças locais, nada disso é gratuito
ou sem compensação estratégica.
Entregar
a segurança pública a um Estado estrangeiro para espionar significa abrir
arquivos e redes brasileiras para outros interesses geopolíticos. Protegemos
nossa soberania não com discursos inflamados, mas com a guarda do sistema
nervoso da defesa nacional. Inserir uma agência de um país terrorista fere os
princípios da Constituição Federal, como o respeito à autodeterminação dos
povos, a não intervenção e à solidariedade internacional.
A
proposta de Ciro é um ato de autossabotagem. O pretenso nacionalista, que
construiu sua carreira denunciando que o Brasil cedia a interesses
estrangeiros, agora pretende a rendição mais íntima e perigosa que existe.
Em
diversas entrevistas e debates, Ciro Gomes expôs seu programa de governo na
área de segurança pública. Suas principais propostas focam no uso intensivo de
tecnologia e no isolamento rigoroso de lideranças criminosas em presídios de
segurança máxima para retomar o controle das ruas e na luta contra a cooptação
de jovens pelo crime.
É a
fórmula básica, mas é apenas retórica. A proposta concreta de enviar
contingentes inteiros para treinamento com a inteligência terrorista de Israel
coloca em xeque todo seu discurso. Qual é o intuito, de fato? É combater
facções por meio de uma guerra de estilo colonial e transformar as áreas
periféricas das cidades em territórios oficialmente ocupados? Os moradores
perderão todos os direitos civis e de cidadania e serão transformados em danos
colaterais de uma guerra não declarada?
Quando
Israel controla Gaza por meio do estrangulamento do espaço urbano, encontra
bairros para cercar e separar e estradas para segregar e conter. Executa uma
arquitetura de controle espacial. Adotar o modelo israelense para o Ceará é
aceitar que a vida tem menos valor dentro desses territórios. A necropolítica
descrita por Achille Mbembe encontra sua versão alencarina. O poder de
determinar quem deve viver ou morrer passará para as mãos de quem há muito
tempo provou ser mestre na gestão industrial da morte.
A
covardia sistêmica da proposta de Ciro não levou em conta como as armas e
drogas passam pelos portos privatizados, nem o sistema bilionário de lavagem de
dinheiro do tráfico de drogas por meio de bancos e da Faria Lima. Não dialoga
com o esforço do governo federal em combater a essência do crime, como mostrado
na Operação Carbono Oculto. Nenhum tipo de esquema em que o empresariado e
instituições insuspeitas possam se beneficiar da circulação de recursos
ilícitos é questionado.
Ao
propor treinamento do Mossad, Ciro foca no elo mais descartável, atacando a
partir daí: aquele jovem na periferia que empunha armas com estradas de terra
sob seus pés.
A
violência sistêmica do capital permanece intocável na medida em que a repressão
atinge o corpo mais fraco. A proposta de Ciro apenas seguiria a antiga lei,
aquela que deixa o burguês no tráfico de drogas e esmaga o pobre; essa é a
punição seletiva brasileira por excelência. Deixa os ricos intocados enquanto
esmaga os pobres.
Aqui a
desculpa clássica de que isso era apenas um comportamento “duro, prático” surge
facilmente. É, na verdade, apenas uma cópia patética da extrema direita – a
qual se agarra com sofreguidão –, um exemplo desse colapso vergonhoso de
reacionários que tentam lucrar com a impotência de uma população cheia de medo.
Este
episódio é singularmente perturbador devido à contradição insolúvel
experimentada por qualquer um (político) que se declare arauto da soberania
nacional. Como poderia um líder nacionalista declarado querer entregar dados e
informações secretas sobre as vidas de seus compatriotas diretamente nas mãos
de um serviço de inteligência não brasileiro?
A única
coisa que parece ser revelada aqui, é o desastre do projeto, que, desesperado
para retornar à agenda das pesquisas eleitorais, abandona todo e qualquer
princípio ético de autonomia para se ajoelhar diante da guerra imperialista e
de suas políticas.
Enfim,
restarão dois caminhos. De um lado, o direito à vida e à plena cidadania para
os jovens negros, indígenas e periféricos do Ceará, com investimento, presença
do Estado e confrontação séria das finanças do crime. Do outro, a
institucionalização de um gueto militarizado, conduzido por mercenários
mundiais sob as bênçãos de um pretenso estadista.
A
catástrofe, que para Walter Benjamin é o acúmulo perpétuo de ruínas sob a falsa
aparência de progresso, deixa de ser uma abstração histórica e se torna uma
realidade palpável, inscrita na carne e no território.
Ciro
não oferece futuro. Ele oferece a administração da barbárie com selo de
importação. O ponto não é discutir se esse” modelo funciona” o que realmente
importa é: até quando os cearenses aceitarão transformar a si mesmos e seus
próprios filhos em alvos de uma guerra que não é deles?”
Fonte:
Por Gustavo Guerreiro, em Viomundo

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