O
Brasil que aprendeu a chamar violência de segurança
A
bicicleta era da irmã. Cláudio Rafael Landeiro Moreira, de 37 anos, saiu de
Botafogo pedalando até Copacabana como fazia habitualmente. Foi confundido com
um ladrão, interrogado e espancado. Foram minutos de agressões, dezenas de
golpes de porrete, chutes e socos. Cláudio morreu por traumatismo craniano e
hemorragia interna. A bicicleta que teria despertado a suspeita e iniciado
aquela sequência de violência não havia sido roubada.
É
tentador olhar para um crime assim e procurar monstros. Identificá-los,
prendê-los, condená-los e seguir adiante com a sensação confortável de que o
problema estava naquelas pessoas. Quatro suspeitos já foram presos e a Polícia
Civil investiga inclusive a atuação clandestina de seguranças na região. Eles
devem responder individualmente pelo que fizeram. Mas, depois disso, sobra uma
pergunta muito mais incômoda: que tipo de sociedade transforma uma suspeita de
furto numa autorização informal para espancar alguém até a morte?
O
Brasil conhece essa cena. Em 2014, Fabiane Maria de Jesus foi espancada no
Guarujá depois de ser confundida com uma suposta sequestradora de crianças. O
crime atribuído a ela sequer existia: a história havia sido alimentada por um
boato espalhado nas redes sociais. Fabiane morreu. Naquele mesmo ano, no Rio,
um adolescente acusado de furtos foi agredido, despido e deixado preso pelo
pescoço a um poste, no Flamengo. Uma trava de bicicleta foi usada para
imobilizá-lo.
Doze
anos depois, outra bicicleta atravessa uma história de justiçamento no Rio.
Desta vez, estava nas mãos de um homem que tinha todo o direito de usá-la.
Seria
confortável concluir que nada mudou. Mudou, e talvez aí esteja parte do
problema. Linchamento, vingança privada e violência popular não nasceram com a
extrema direita brasileira. O medo do crime também não foi inventado por
político algum. Há assaltos, homicídios, facções, milícias, extorsões e
territórios nos quais o Estado disputa espaço com organizações criminosas. O
medo é real. O que se fez politicamente com esse medo é outra história.
A
extrema direita transformou a brutalidade numa linguagem política de segurança
pública. “Bandido bom é bandido morto”, “CPF cancelado”, o desprezo pelos
direitos humanos, a celebração da morte de suspeitos e a ideia de que garantias
legais são obstáculos colocados no caminho das pessoas de bem formaram um
vocabulário. A violência que já existia ganhou palanque, estética e
justificativa. Aos poucos, discutir segurança passou a significar também
discutir quantos limites poderiam ser removidos de quem exerce a força.
A
perversidade dessa lógica fica especialmente visível quando alguém aponta para
o bandido errado. Mas existe uma armadilha nessa constatação: se Cláudio
realmente tivesse roubado a bicicleta, ainda assim ninguém teria o direito de
espancá-lo até a morte. Ele deveria ser preso, investigado, acusado, defendido
e julgado. A inocência torna o caso ainda mais revoltante, mas não é ela que
transforma o linchamento em barbárie. Uma sociedade civilizada não se mede
apenas pelos direitos que garante aos inocentes, mas também pelos direitos que
se recusa a retirar dos culpados.
É nesse
ambiente que a segurança pública chegou ao centro da eleição presidencial de
2026. Não por acaso. Os candidatos perceberam que não há mais como disputar o
país ignorando uma população assustada com o crime organizado. Flávio Bolsonaro
colocou segurança no centro de seu comício no Rio, defendendo endurecimento de
penas e o enquadramento de facções como organizações terroristas. Renan Santos
transformou “prendeu, matou” em slogan de sua política de segurança. Ronaldo
Caiado faz da experiência de Goiás uma das vitrines de sua candidatura.
Lula,
por sua vez, tenta disputar esse terreno prometendo combater o crime com
firmeza, sem assumir o repertório político da direita. Segurança deixou de ser
um tema de campanha. Virou um dos campos em que diferentes projetos de país
tentam definir o significado da palavra ordem.
E é
correto que seja assim. Segurança pública não pode ser abandonada à direita nem
tratada pela esquerda como assunto menor. Quando facções ampliam seus negócios,
milícias controlam territórios e brasileiros alteram a própria rotina por medo
da violência, o Estado tem obrigação de responder. A pergunta que deveria
organizar esse debate, porém, não é quem promete ser mais duro. É que tipo de
segurança cada candidato está oferecendo.
Porque
segurança dá trabalho. Exige inteligência, investigação, integração entre
polícias, controle de fronteiras, combate ao dinheiro das organizações
criminosas, prevenção, sistema penitenciário funcional, presença do Estado nos
territórios e policiais treinados e valorizados. Violência é mais fácil. Cabe
numa frase, rende um vídeo, produz aplauso e oferece ao cidadão assustado a
sensação de que alguém finalmente fará alguma coisa.
Essa
confusão entre força e segurança também aparece no Congresso. A Comissão de
Segurança Pública da Câmara avançou recentemente com propostas que ampliam a
particulares tratamentos relacionados às forças policiais. Uma delas prevê
porte de arma para determinadas categorias de empresários, microempreendedores
e trabalhadores ligados ao transporte de valores ou mercadorias de alto valor.
Outra estabelece hipóteses de recolhimento especial para vigilantes e gestores
de segurança privada.
Esses
projetos não transformam empresários ou vigilantes em policiais e seria
desonesto relacioná-los diretamente ao que aconteceu em Copacabana. O ponto é
político: diante de um Estado que não consegue entregar segurança suficiente,
uma resposta recorrente tem sido ampliar o universo de pessoas armadas e
aproximar determinados grupos privados de tratamentos reservados aos agentes
encarregados da segurança pública.
É uma
terceirização da sensação de segurança. O cidadão sente medo, oferecemos uma
arma. O comerciante teme o assalto, ampliamos possibilidades de porte. A
população não confia na Justiça, aparece o justiceiro. A polícia encontra
limites, os limites são apresentados como proteção ao criminoso. Vamos
distribuindo instrumentos de reação enquanto o Estado continua devendo aquilo
que ninguém consegue comprar numa loja: segurança.
O caso
de Cláudio torna essa discussão ainda mais incômoda. A Polícia Civil investiga
se homens envolvidos no espancamento atuavam como seguranças clandestinos em
Copacabana. Há também suspeitas sobre grupos de vigilantes e justiceiros que há
anos agiriam na Zona Sul do Rio, inclusive com relatos de agressões contra
pessoas em situação de rua e suspeitos de crimes. A linha entre vigiar,
proteger, suspeitar, acusar e punir foi sendo apagada até que alguém apareceu
morto do outro lado dela.
O
segurança privado não é policial. O entregador não é policial. O empresário não
é policial. E nem o policial é juiz. Parece elementar. Tornou-se necessário
dizer.
O
Brasil não está com falta de violência. Temos violência de sobra: a do
criminoso, a da facção, a da milícia, a do Estado quando ultrapassa seus
limites e também a do cidadão que decide assumir para si o direito de punir. O
que falta é segurança — aquela que deveria impedir o crime, proteger o cidadão
e garantir que uma suspeita nunca se transforme numa sentença executada na rua.
Cláudio
saiu de casa com a bicicleta da irmã e não voltou. Entre uma coisa e outra,
alguém suspeitou, outros acreditaram e alguns decidiram bater. Não houve
investigação, processo, defesa ou julgamento. A rua assumiu todas essas funções
e resolveu cada uma delas com um pedaço de madeira.
A
responsabilidade criminal pertence a quem participou das agressões. Mas uma
sociedade também precisa olhar para aquilo que tornou possível que pessoas
comuns se sentissem autorizadas a decidir, numa calçada, quem era criminoso e
qual pena deveria receber. Quando chegamos a esse ponto, o problema já não cabe
apenas num inquérito policial.
Porque
toda vez que alguém pode ser espancado até a morte em nome de uma segurança que
não protege, de uma Justiça que não julga e de uma culpa que ninguém provou,
fracassaram os que bateram, fracassou o Estado que deveria impedir e fracassou
a ideia de convivência que deveria estabelecer um limite entre civilização e
barbárie.
Quando
algo assim acontece, é sinal de que fracassamos como sociedade.
• Segurança preso por espancamento chega à
delegacia com bicicleta da vítima
Um dos
quatro presos por envolvimento na morte de Cláudio Rafael Landeiro, de 37 anos,
chegou à 12ª DP (Copacabana) para depor usando a bicicleta que pertencia à irmã
da vítima. O segurança de rua Davi Santos Machado, 21 anos, havia prestado
depoimento como testemunha e negado participação nas agressões, mas retornou à
delegacia no dia seguinte e confessou o crime.
Segundo
uma testemunha, Cláudio chegou a uma loja em Copacabana na noite de 11 de
agosto para pedir um cigarro. Pouco depois, Davi apareceu e perguntou sobre uma
bicicleta. Cláudio afirmou que não era o dono do veículo, que pertencia à irmã
dele.
Ainda
de acordo com o depoimento, Davi pegou a bicicleta e pediu que ela fosse
guardada na loja. Depois, voltou ao local, retirou o cadeado e levou o veículo,
seguido por Cláudio. Minutos depois, um cliente avisou que dois homens estavam
agredindo alguém com pedaços de madeira.
A
testemunha afirmou ter visto Davi e outro segurança dando pauladas em Cláudio,
na rua e na calçada. O outro homem teria pegado a bicicleta e deixado o local,
enquanto Cláudio seguia em direção a ele.
<><>
Confissão
Davi
prestou o primeiro depoimento cinco dias após o crime e, segundo a polícia,
afirmou não ter visto nem participado das agressões. No dia seguinte, voltou à
delegacia e confessou ter atacado Cláudio.
Em seu
relato, Davi disse que ele e dois entregadores deram socos e pontapés na
vítima. Ele também afirmou ter usado um cacetete para atingir Cláudio e
desferido vários golpes na cabeça dele, classificando a ação como um “ato
insano”.
Davi
declarou ainda que não havia informação concreta de que a bicicleta tivesse
sido furtada. Segundo ele, Cláudio não ofereceu resistência e obedeceu às
ordens dos homens.
<><>
Relembre o caso
Cláudio
saiu de casa com a bicicleta na noite de 11 de agosto. Na Rua Barata Ribeiro,
foi abordado por Davi, que perguntou se o veículo era dele. A vítima respondeu
que não, já que a bicicleta pertencia à irmã.
Segundo
a investigação, Davi passou a suspeitar que Cláudio tivesse furtado o veículo e
chamou dois entregadores que passavam pelo local. Imagens mostram a retirada da
bicicleta à força e as agressões contra Cláudio, que tentou recuperar o objeto
e depois correu.
A
vítima voltou a ser cercada pelos homens na Rua Felipe Oliveira. As agressões
duraram quase nove minutos e foram registradas em vídeo. Cláudio não reagiu e
permaneceu agonizando na calçada por cerca de meia hora.
Bombeiros
foram acionados e levaram Cláudio ao hospital, mas ele não resistiu.
Fonte:
ICL Notícias

Nenhum comentário:
Postar um comentário