A
literatura da maioria global
O
eurocentrismo é a ideologia que veste de universalidade a guerra do capital; à
literatura cabe desmascará-lo, retomando a épica dos povos e recusando as modas
que servem às oligarquias...
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O que é eurocentrismo?
Há mais
de 500 anos, o eurocentrismo está em guerra contra os povos do mundo. Nunca
houve paz, mas guerra total, traduzida, na prática, como (i) guerra
mercantilista-colonial-expansionista ou guerra do período colonial de
acumulação primitiva do capital contra os povos, que durou do final do século
XV à primeira metade do século XVII; (ii) tornando-se, ato contínuo, no
processo de constituição da Primeira Revolução Industrial, guerra eurocêntrica
do capitalismo ocidental contra os povos.
(iii)
Na fase dos monopólios, iniciada no final do século XIX, guerra do sistema
imperialista ocidental contra a América Latina, a África, a Ásia, os aborígenas
da Oceania, da América do Norte; (iv) e guerra do ocidente estadunidense contra
99% da humanidade, após 1945.
O
adjetivo “mundial”, usado correntemente para definir as guerras de 1914 a 1918
e de 1939 (há controvérsicas quanto ao seu início) a 1945 é semanticamente
eurocêntrico, pois fundamentalmente foram guerras inter-imperialistas, entre as
principais potências ocidentais, com o objetivo de monopolizar o saqueio das
matérias-primas e de se apropriar da cadeia mundial do valor produzida pelo
trabalho vivo da maioria global, por meio da superexploração, de golpes de
Estado, de guerras e, por cnsequência, da banalização cotidiana da violência de
gênero, étnica, contra a infância, contra o conjunto da classe trabalhadora;
por meio, enfim, do sofrimento humano infernal dos povos do mundo.
A esse
respeito, o filósofo italiano, Domenico Losurdo, em Guerra e revolução (p. 205)
chamou a atenção para dois recalques decorrentes do sistema eurocêntrico
colonial, capitalista e imperialista ocidental. O primeiro, como já foi dito, é
a guerra total que arregimenta, sem cessar, contra os povos do mundo, sendo
parte fundamental da guerra a produção de ideologias, sempre renovadas, que a
camuflam, recalcando-a.
O
segundo recalque é uma deriva do primeiro e diz respeito à tendência dos povos
de não relacionarem, objetivamente, a tragédia historicamente acumulada de suas
vidas (incluindo a violência de gênero e o racismo estrutural) à consequência
fatal e mesmo inevitável do desenvolvimento desigual e combinado camuflado ao
mesmo tempo pela força (hard power) e por meio do poder brando (soft power).
E o que
é o eurocentrismo? De antemão, é a totalidade dinâmica das ideologias que o
Ocidente produz para recalcar suas guerras e os efeitos destas. No livro
Eurocentrismo: crítica de uma ideologia, o economista egípcio, Samir Amin, de
forma certeira, escreveu o seguinte a respeito: “O eurocentrismo é um
culturalismo; ele supõe a existência de invariantes culturais que conformam os
trajetos históricos dos diferentes povos, irredutíveis entre si. É, então,
anti-universalista, porque não se interessa em descobrir eventuais leis gerais
da evolução humana. Mas apresenta-se como universalismo, uma vez que propõe a
todos a imitaçado do modelo ocidental como a única solução aos desafios do
nosso tempo” (p. 11).
Para
Samir Amin, o eurocentrismo é “a nova cultura capitalista que se forja na
Europa a partir do Renascimento (p. 15), apresentando-se com um universal, sem
ser, a partir do mito de sua exclusividade genealógica e teleológica, nesses
termos: origem, Grécia antiga, passando por Roma, reconfigurando-se,
cristocentricamente, na Idade Média feudal, para desembocar na modernidade
capitalista mundializada.
O
primiero recalque do eurocentrismo, assim, é em relação ao próprio capitalismo,
porque procura sem cessar ocultar a ruptura histórica que a civilização
burguesa protagonizou, apresentando-a como uma teleológica sequência mítica dos
passados greco-romano e feudal.
Demarca-se,
assim, como excepcionalista e, ao separar Ocidente das outras civilizações, o
eurocentrismo impossibilita objetivar que as civilizações sempre foram
multipolares, herdeiras sem origem umas das outras; trabalho ininterrupo dos
povos, complexificando-se e se tornando mais igualitários, seculares e
tolerantes pelo intercâmbio a um tempo econômico, cultural, científico,
tecnológico, político-institucional, reprodutivo.
Como
uma ideologia, ainda com Samir Amin, o eurocentrismo se situa como uma
“construção ideológica do conjunto do capitalismo” (p. 13). Sua função é evitar
a todo custo que a modernidade capitalista ocidental seja visualizada como é:
guerra mundial contra da classe trabalhadora, contra os povos, ecossistemas. Em
sua fase imperialista, entretanto, o eurocentrismo se torna um mosaico de
culturalismos bélicos, com o objetivo de ocultar o epicentro da guerra mundial
contra os povos.
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O que é imperialismo?
O
imperialismo se define, também, como o retorno do colonialismo no interior do
capitalismo, impondo, sem cessar, trocas desiguais entre a metrópole e os povos
submetidos; trocas desiguais econômicas, mas também de ideias, de valores.
Reatualiza relações sociais de produção e práticas racistas tipicamente
coloniais, assentadas em hierarquias como superior e inferior; produtivo e
improdutivo, civilizado e bárbaro, inteligente e ignorante, desenvolvido e
subdesenvolvido, proprietário e não proprietário, puro e impuro, Ocidente e
Oriente, centro e periferias.
A
reatualização das relações sociais de produção e das práticas simbólicas
coloniais, na era do capital imperialista, exerce funções fundamentalmente
eurocêntricas, com o objetivo principal de justificar trocas desiguais
econômicas, condenando a maioria global, irredutivelmente, à mera exportadora
de matérias-primas e à condição de classe trabalhadora descartável,
superexplorada e dependente de bens e serviços manufaturados pela metrópole,
inclusive bens e serviços tecnológicos, culturais e epistemológicos.
Como
ideologia de recalque do próprio modo de produção capitalista e de sua
incessante guerra mundial contra os povos, o eurocentrismo é, antes de tudo, um
culturalismo de oligarcas, da oligarquia metropolitana com as oligarquias da
maioria global, sendo especialmente replicado pelas pequenas burguesias tanto
da metrópole quanto das periferias, enfeixando-se no tempo histórico assim:
(i)
teve o seu momento luso-colonial, com a onipresença de uma oligarquia interna,
dona de terras e escravizados, e de uma pequena burguesia que se referenciava
no Iluminismo sem lastro social, como comunidade de destino, com a população
escravizada, superexplorada; (ii) a partir de 1822, foi se tornando um
culturalismo financieirizado, a partir da interface entre a oligarquia
financeira britânica e a financeirizada nacional; (iii) tornou-se, após 1945, o
culturalismo oligáquico do sistema dólar estadunidense, tendo como eixo o
Federal Reserve e a indústria cultural de Hollywood como plataforma de produção
de culturalismos dos recalques da guerra total norte-americana contra os povos
do planeta.
Considerando
que a aliança entre as oligarquias metropolitanas do Ocidente com as da maioria
global tem se constituído, historicamente, por meio da exclusão das maiorias, a
produção literária não pode se dar ao luxo de ignorá-la, estando diante,
sempre, das seguintes questões ao mesmo tempo éticas, existenciais, coletivas,
estéticas, culturais, no conteúdo e na forma: (a) como a literatura,
independentemente do gênero, deve representar as elites metropolitanas e suas
aliadas periféricas? (b) como deve representar as pequenas burguesias
culturalistas, logo eurocêntricas?; (c) como deve representar os povos perante
as oligarquias que os excluem, superexploram, violentam?
Tendo
em vista a primeira pergunta, Machado de Assis tornou-se o indispensável
escritor brasileiro porque soube retratar, em sua fase madura, a decadência da
oligarquia luso-colonial sem deixar de perspectivar a emergência da oligarquia
nacional associada ao sistema financeiro britânico, tendo sido implacável com
ambas ao retratá-las como cínicas, hipócritas, egoístas e sobretudo totalmente
distantes e indiferentes à miséria e à exclusão acumuladas da imensa maioria da
população, no interior da qual as mulheres, os pardos, os negros e os indígenas
foram e continuam a ser os mais vulneráveis, os mais violentados, os mais
excluídos.
Também
foi inflexível, pela ironia, com a produção literária do romantismo de sua
época, vetor principal do eurocentrismo da segunda metade do século XIX,
replicado por poetas e escritores pequeno-burgueses, com destaque para romances
como Iracema, de José de Alencar, recusando igualmente o pseudorrealismo de
Cortiço, de um Aluísio Azevedo e, portanto, a moda pequeno burguesa e, assim,
eurocêntrica, do cientificismo e do determinismo de um teórico como Hippolyte
Taine, tornado referencia na classe letrada brasileira do período. A esse
respeito, o conto “O alienista” é exeplar.
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A questão povo na literatura brasileira
A
segunda questão formulada, a questão povo, como representá-lo, na ficção, no
drama, na lírica? Convidado, em 1944, a fazer, em Belo Horizonte, uma
conferência sobre o eurocêntrico e pequeno-burguês, para variar, Modernismo
brasileiro, do qual foi um dos expoentes, o poeta, escritor e ensaísta
paulista, Oswald de Andrade, soube, à época, ir além do Modernismo, ao
assinalar que: “No pórtico de nossa literatura, se agigantam os dos guias de
nosso destino intelectual – Euclides da Cunha e Machado de Assis. São as
coordenadas mestras de nossa existência. Fora de suas rotas, nada de legítimo
sairá de nossa capacidade criadora. E que nos ensinam os mestres inegáveis? O
pessimismo de Machado é um pessimismo de classe. Nele, ja existe fixado o germe
de toda uma sociedade condenada. Em Euclides, surge a esperança do povo, a
mística do povo, a anunciação do povo brasileiro”( Oswald, p. 116-117).
Para
Oswald de Andrade, Euclides da Cunha, sobretudo tendo em vista Os sertões, foi
o escritor paradigmático brasileiro da questão-povo, de como representá-lo, a
saber: rebelando contra a oligarquia e a exclusão social, a miséria, como foi o
exemplo da Guerra de Canudos (1896-1897), no Arraial de Canudos, sertão da
Bahia, protagonizada, na resistência, por Antônio Conselheiro, o líder popular
nem monarquista e nem republicano, uma vez que, antes das abstrações dos
sistema políticos sem lastro social, lutava pelo direito coletivo à terra, à
dignidade comum.
Publicada
em 2001, uma obra poemática singular ( extraordinária) sobre a questão povo na
literatura brasileira é Latinomérica, do poeta pernabumcano, Marcus Accioly. O
livro se estrutura como uma epopeia (dai a referência a Homero, no anagrama
contido no título: América + Homero) da épica lírica dos povos
latino-americanos na luta heróica pela liberação nacional, repassando um tempo
histórico que diz respeito ao período colonial de eurocentrismo luso-espanhol,
até chegar à atualidade do culturalismo eurocêntrico norte-americano,
destituindo o eurocentrismo pela retomada subjetiva da dimensão universal dos
povos e das civilizações.
O que é
possível ler a partir dos seguintes versos: “(es dentro do planeta outro
planeta)/Oriente encontrado no Ocidente/ que procurei ( por ser o teu poeta),
cantar e não cantei (disse somente/a dor do meu amor) cantar-te (América) seria
ser um deus que Deus consente/ ser e se Deus consente ( e um deus me faço)/ é
porque Deus é a voz e eu sou o pássaro”.
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Do eurocentrismo ianque
As
pequenas burguesias letradas têm representado a vanguarda da retarquarda do
eurocentrismo no país, a forma de fazê-lo, desde sempre, é por meio das modas
culturais, estéticas, comportamentais e teóricas culturalistas importadas das
metrrópoles, considerando duas versões: (i) a europeia, com, no século XIX, o
Romatismo, o Naturalismo e, no XX, por meio da imitação, ainda que criativa,
das diferentes correntes de vanguarda, como o futurismo, o dadaísmo, o cubismo,
o surrealismo, assim como através do apego ao formalismo como modo de valoração
eurocêntrica do conceito dominante de literatura.
(ii) A
norte-americana, marcada pelo culturalismo, num primeiro momento, da juventude
transviada, do Rock and roll, do anarquismo, do consumo de drogas, tendo como
exemplo a geração dos poetas marginais da década de setenta… ( Paulo Leminsk, o
culturalista-mor) e; no segundo, no contemporâneo, o eurocentrismo
identitarista, encarnado romanticamente no sopro metafísico de eu sou mulher,
negro, homoafetivo; sopro que retoma os modos de ser culturalistas do
globalismo eurocêntrico estadunidense dolarizado, absolutamente anti-universal
pró-oligárquico, antipovo, bélico, bélico, bélico, logo racista, machista e
homofóbico.
Se, por
outro lado, o eurocentrismo é um culturalismo que reduz tudo a culturalismo,
para camuflar a violência do capial contra os povos, como superá-lo? No livro
Literatura e vida nacional, à sua maneira, Antonio Gramsci respondeu a esse
desafio da seguinte forma; “É evidente que, para ser exato, deve-se falar de
luta por uma nova cultura e não para uma nova arte” (p. 8), pois “a poesia não
gera poesia; a partenogênese não existe” (GRAMSCI, p. 10) e, por extensão, “a
literatura não gera literatura” (p. 10).
E por
qual cultura se deve lutar? Ora, a cultura da épica dos povos lutando
heroicamente pela desconexão da dominação eurocêntrica e, assim, do
capitalismo, do imperialismo, tendo como referência, hoje, Irã, a verdadeira
vanguarda da cultura da maioria global e, portanto, da literatura da maioria
global, que, à maneira de Machado de Assis, deve ser implacável com os
culturalismos ocidentais; e, ao estilo de Euclides da Cunha, em interface com
Guimarães Rosa, deve assumir integralmente a universalidade multipolar,
multicultural e multiétnica do gênero humano porque “o Sertão está em toda
parte” (Rosa, 2001, p.24).
Somos
universais, povos do mundo e estamos em todas as p(artes)!
Fonte:
Por Luis Eustáquio Soares, em A Terra é Redonda

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